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quinta-feira, 25 de junho de 2020
segunda-feira, 22 de junho de 2020
terça-feira, 16 de junho de 2020
sábado, 13 de junho de 2020
CRÓNICA | NÃO CONSEGUIMOS RESPIRAR…, de Fernando Teixeira
Texto: Fernando Teixeira
Foto do Autor: D.R.
Na
primeira crónica deste ano, desejei que 2020, mais do que um ano mais, fosse
realmente um novo ano, diferente. Para melhor, desejava eu. Muito pelo
contrário, este fatídico ano parece apostado em só nos apresentar dramas e motivos
de apreensão, incerteza, confusão. Definitivamente, um ano para esquecer…
Digo
“parece” e “só”, porque sei bem que uma moeda tem sempre duas faces. Se, por um
lado, muitos acontecimentos negativos nos têm acompanhado desde Janeiro, também
é verdade que toda essa negatividade revelou, em muitos de nós, o melhor do ser
humano, quais heróis combatendo o mal com o bem, oferecendo entreajuda e amor ao
próximo, incansavelmente.
Porém,
são as imagens de dor e tragédia que demoram mais tempo a desvanecer-se da
nossa mente, talvez porque as repudiamos e vão contra o nosso ideal de paz,
saúde, tranquilidade e bem-estar.
O
mundo ainda vivia submergido pela calamidade da Covid-19, a qual já provocou
centenas de milhares de mortes, quando se viu confrontado com o angustiante vídeo
do assassínio de um cidadão afro-americano, de nome George Floyd, deixado a
asfixiar durante quase nove minutos, numa detenção policial de força bruta
despropositada e inclemente, no estado norte-americano de Minneapolis. Através
de imagens que correram o mundo inteiro, aquele homem de 46 anos, algemado e
subjugado de bruços, suplicou diversas vezes que não conseguia respirar, e
gritou pela mãe, enquanto um agente da polícia comprimia o seu pescoço contra o
asfalto com o joelho e outros dois exerciam pressão nas costas do detido,
alegadamente porque ele teria tentado pagar algo com uma nota de vinte dólares,
supostamente falsa. É o que dizem. A ser verdade, uma vida por 20 dólares.
Triste, muito triste, condenável. Sem palavras!
Tudo
isto num mundo que recentemente tem visto partir muitos dos seus cidadãos,
muitos deles também de bruços numa cama de hospital, também eles numa asfixia
lenta e sem poderem implorar por clemência. Apesar de esmerados cuidados
clínicos, dos seus peitos, invadidos por tubos de ventiladores mecânicos, saem brados
silenciosos que, desesperadamente, repetem as mesmas palavras de George Floyd: I can’t breathe! Não consigo respirar!
O
drama da pandemia que se tem vivido nos últimos meses, precisamente com os
Estados Unidos no topo da tragédia, em número de casos e de vítimas, parece não
ter produzido qualquer efeito, no sentido de sensibilizar mais, alguns, para o
valor da vida humana que se pode perder quando menos se espera. Enquanto muitos
a perdem prematuramente por contágio de um vírus maldito, ainda que o pessoal
médico tente os impossíveis para reverter a sua situação crítica, George Floyd
perdeu a vida às mãos de um elemento das forças de segurança de Minneapolis, e de
seus cúmplices, que nada fizeram para o evitar, surdos aos apelos angustiantes
da vítima e de testemunhas, devolvendo apenas aquele ar sobranceiro e gozão do
poder da farda, ao mesmo tempo que uma vida se esvaía atrozmente.
Aquela
morte evitável, no dia 25 de Maio, mergulhou dezenas de cidades dos Estados
Unidos num caos de protesto e violência que sempre emerge quando se verificam
estes atropelos à dignidade da vida humana, infelizmente frequentes na
sociedade americana onde o estigma do racismo e das desigualdades de
oportunidades, segundo a cor da pele, é sistémico e continua bem vivo.
O
primeiro semestre de 2020 tem sido de tirar o fôlego. O flagelo pandémico que
nos atingiu, ceifando centenas de milhares de vidas nos cinco continentes, e o
pior da natureza humana, reflectido nas convulsões sociais a que temos
assistido e sempre latentes um pouco por todo o lado, tiram-nos o fôlego. Não
conseguimos respirar pelo George Floyd nem pelas inúmeras vítimas de violência
e opressão, não conseguimos respirar pelas centenas de milhares de mortos da
Covid-19, não conseguimos respirar por quem não consegue obter condições
mínimas para sobreviver…
Se,
nos tempos que correm, o uso devido de máscara nos incomoda, pois dificulta a
livre respiração, regozijemo-nos por ainda o podermos fazer. Respiramos e
vivemos. Lembremo-nos de quem já não tem esse privilégio. Que descansem em paz!
(O autor escreve
segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)
quarta-feira, 10 de junho de 2020
segunda-feira, 8 de junho de 2020
sexta-feira, 29 de maio de 2020
terça-feira, 26 de maio de 2020
sábado, 23 de maio de 2020
CRÓNICA | O REGRESSO, de Fernando Teixeira
Texto: Fernando Teixeira
Foto do Autor: D.R.
Voltava lá, muitos anos depois. Por sua mea-culpa, décadas mesmo, talvez três, já não sabia precisar. Só sabia que esse muito tempo lhe fizera renascer a vontade de lá voltar. Nesse regresso, pretendia redescobrir cenários que pertenciam ao seu passado, rever lugares que haviam feito parte de uma parte da sua vida e dar-se à oportunidade de reavivar sensações arquivadas no recôndito da memória e do coração. Por muito tempo que tivesse passado, essas imagens e sensações permaneciam indeléveis e, estando ele então a poucas dezenas de quilómetros de distância, de férias, aquela vontade tornou-se urgência.
Enquanto conduz o que falta para o destino, aquele homem de meia-idade regressa à sua infância e adolescência. Os olhos fixam o asfalto da estrada, mas pela tela da sua mente passam imagens de uma casa de pedra e dos espaços envolventes, adicionam-se sons e cheiros, memórias de momentos de brincadeira e de alegria, de inocente descoberta do campo, longe da cidade. Contudo, afloram-lhe também resquícios de introspecção, recordações de temores vários, de sons assustadores, da noite e de sítios cuja escuridão o fazia correr para o conforto e a segurança da casa, onde havia luz de velas, ou de candeeiros a petróleo, e gente.
Em tempos idos, uma viagem tremenda: de autocarro desde Lisboa até ao Porto, durante a noite, seguida de outra em comboio a vapor, partindo de Campanhã ao início da alvorada, depois um trajecto em automotora movida a diesel até à sede do concelho, para terminar num troço final em novo autocarro, por estradas de curva e contracurva que conduziam invariavelmente a um incómodo enjoo. Sorriu ao pensar como essa morosidade e consequentes dificuldades podiam, nos dias de hoje, ser facilmente substituídas por uma cómoda viagem de cinco horas em viatura própria, quase toda por auto-estrada até poucos quilómetros dessa aldeia do Minho profundo, que nem aldeia será, apenas um lugar.
Aquelas férias não podiam excluir esse encontro com o passado.
De repente, as imagens da memória tornam-se vivas. Primeiro, a ponte. Sim, lembra-se dela, lembra-se de a ponte ser assim, com aqueles arcos de pedra branca e gradeamento de ferro, lembra-se agora mais nitidamente. E sabe que, dentro de um par de quilómetros, encontrará um desvio à direita, após a placa com o nome da terra dos avós. As recordações agitam-se-lhe nos olhos, que ameaçam humedecer. Quase em simultâneo, materializam-se a paragem onde apanhava o autocarro para ir à vila mais próxima, que outrora fazia a carreira apenas duas vezes por dia, a placa toponímica branca da saudade e o ansiado desvio, a curva apertada que guarda na mente. O coração sobressalta-se-lhe de expectativa e emoção.
Duzentos metros em ligeira subida e novos fotogramas de infância e adolescência: o enorme tanque rectangular de pedra, onde as mulheres lavavam a roupa, lembra-se bem dele, e dali um caminho que costumava calcorrear quando por ali passava umas temporadas. Subindo a estreita estrada mais algumas dezenas de metros, eis finalmente a antiga casa dos avós paternos, agora fechada. Chegou ao destino da sua viagem e, demoradamente, percorre a envolvente da habitação, recuperando memórias, identificando locais que não havia esquecido: a entrada da casa, o lagar na cave, o lugar da capoeira, o espaço da pocilga que se transpunha por um conjunto de tábuas a fim de passar para um carreiro do outro lado, os muros de pedra com musgo, os caminhos de terra de um castanho intenso, os degraus que transpõem os socalcos de terreno, as árvores em volta. Aquele homem, embevecido, procura um espaço estreito entre edificações ao longo do qual costumava correr uma linha de água cristalina e por onde, criança, ousava descer um desnível de três metros por umas pedras incrustadas no muro da casa, sem qualquer corrimão onde se agarrar. Agora, na meia-idade, já não o fará, sente que é perigoso e sabe que lhe falta a intrepidez dessa criança que foi.
Enche o peito daquele ar que só se respira ali, inundando-se de odores que lhe são queridos, uma mistura de cheiros a campos de milho, vinhas, feno e mosto de vinho verde impregnado no granito ancestral. Falta-lhe o som da água borbulhando na pequena levada, seca pelo estio, mas parece-lhe ainda ouvir o chiar agonizante dos eixos dos carros das juntas de bois que o atemorizava em miúdo.
O desejo está cumprido e a vontade saciada. A noite aproxima-se.
(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)
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