sábado, 1 de setembro de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Aqueles fogos que ardem...sem culpa... ISABEL DE ALMEIDA


Há trinta anos, em concreto no dia 25 de Agosto, o meu mundo ficou mais pobre, recordo o meu horror partilhado com a minha avó materna - Mariana - enquanto víamos incrédulas pela televisão que o meu/ nosso Chiado estava em chamas!

Ao visionar reportagens da época no Canal RTP memória, apercebi-me de que, também há trinta anos atrás, o incêndio do Chiado teve a pairar sobre si suspeitas de origem criminosa...pelo que devo concluir que, neste país, infelizmente, há episódios tristes aos quais se aplica a expressão "como era no início, agora e sempre."

Era um dos meus prazeres percorrer os armazéns do Chiado e Grandella acompanhando a minha mãe na escolha de tecidos para costurar. Eu própria ainda exerci o hobby da costura e ao mesmo voltaria se tivesse tempo, certa de que o mesmo bastante poderia ajudar a controlar a ansiedade do dia a dia agitado em que me movimento.

Meu querido Chiado, serei sempre uma das tuas meninas, ainda te amo, mas tudo mudou naquele fatídico 25 de Agosto há 30 anos, e há uma certa magia que já só habita nas memórias de quem o conheceu antes da tragédia.

No dia 17 de Junho de 2017, um dos dias mais quentes de sempre, apenas à noite me dei conta do gravíssimo incêndio que afectava a região de Pedrogão Grande (já que me encontrava na Feira do Livro de Lisboa a coordenar encontro Literário promovido pela Nova Gazeta) , e que viria a revelar-se um dos mais aterradores pela elevada perda de vidas humanas, e pelo contexto em que se deu tal tragédia, além de terem sido postas a nu muitas das fragilidades do Sistema Nacional de Protecção Civil, cabendo assinalar a indescritível e inaceitável falha de comunicações do tristemente célebre SIRESP. 

Mas como diz o povo, na sua imensa sabedoria "O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita!", e neste ano da Graça do Senhor de 2018, além de termos sido brindados com novos incêndios, nomeadamente na zona de Monchique no Algarve, ainda nos faltava saber que houve quem tivesse coragem para lucrar ilicitamente à custa da tragédia de Pedrogão Grande, pois que recentemente surgiram estranhos "fumos" que indiciam "fogueiras de corrupção", pese embora o princípio da presunção de inocência que norteia o Sistema Penal Português, estou em crer que "onde há fumo há fogo", e desejo firmemente que tudo seja investigado pelas autoridades competentes, tendo por base indícios e provas já recolhidos por uma equipa de jornalismo de investigação!

Se vier a confirmar-se em sede própria a prática de ilícitos criminais, mormente que tenham passado pelo facto de terem sido disponibilizados abusivamente fundos para reconstrução de alegadas primeiras residências na zona afectada pelo incêndio, primeiras residências essas que, afinal, estavam abandonadas há anos, em estado de degradação, ou que eram residências secundárias, que seja feita Justiça e que esta seja absolutamente exemplar na punição, pois que só assim poderá ter um efeito dissuasor para o futuro.

Politicamente é importante que, de uma vez por todas, haja coragem para pôr cobro aos abusos e negócios pouco claros que sempre rodeiam  a questão do combate a incêndios no território nacional, é tempo de prevenir e agir com medidas concretas, duras e não meramente estéticas ou de meros cuidados paliativos! Bem sei que não é algo fácil de resolver a curto prazo, mas quanto mais cedo se começar, mais cedo teremos resultados positivos à vista.

Urge que a Força Aérea Portuguesa possa ter, finalmente, um papel activo de mobilização de recursos materiais e humanos para intervenção na prevenção e combate a incêndios.

Urge satisfazer cabalmente e apoiar condignamente todas as corporações de Bombeiros do País para que continuem a desempenhar o seu valioso e tantas vezes desvalorizado trabalho, quantas vezes arriscando a vida (o equipamento, nomeadamente, utensílios e peças de vestuário apropriado a cenários de incêndio é extremamente dispendioso e contém objectos com elevado desgaste e/ou está sujeito a validade limitada).

Urge implementar uma política racional de Ordenamento do Território que respeite os limites legais do espaço entre a área arborizada e as estradas; é importante limitar e controlar a arborização com recurso ao Eucalipto.

Urge tomar medidas legislativas musculadas que possam dissuadir as várias práticas e redes criminosas ligadas ao sector da madeira - nomeadamente, uma sugestão, sempre que existirem fundadas razões de suspeita de prática criminosa a rodear um incêndio, deveria ser apreendida a madeira queimada e proibida a sua comercialização pelo sector privado, seja ele particular ou empresarial!

Urge rever, naturalmente, toda a organização actual do Sistema Nacional e Protecção Civil, não sou, pessoalmente, favorável à sua extinção, mas defendo sim uma profunda reestruturação e melhoria, pois acredito na qualidade técnica de muitos dos seus profissionais, e no empenho dos mesmos.

Mais uma vez, e para que não restem dúvidas, o presente texto constitui uma reflexão crítica pessoal, sem pretensão de ser académica, mas resulta da minha opinião formada enquanto cidadã, jurista e  jornalista (sendo certo que neste último contexto já fiz cobertura noticiosa in loco de incêndios e tive a oportunidade de frequentar um excelente curso de formação profissional leccionado pelo Dr. Hernâni Carvalho onde esta temática foi abordada em termos de jornalismo especializado, curso este que concluiu com uma visita ao Quartel dos Bombeiros Voluntários da Pontinha, uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida profissional na área dos media).

"(...)por dinheiro, de um não se faz um sim."

Dante Alighieri

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