Pergunta pela Andrea, de Noelle W. Ihli, é um thriller psicológico com elementos sobrenaturais, publicado em Portugal pela chancela Cultura. A edição portuguesa, traduzida por Alexandra Cardoso, chegou às livrarias em maio de 2025 sendo que a obra foioriginalmente publicada em inglês, com o título Ask for Andrea, pela Dynamite Books, em 2022.
Há géneros literários particularmente vulneráveis à repetição de fórmulas narrativas. O thriller é, sem dúvida, um deles: assassinos metódicos, vítimas perseguidas, investigadores determinados e reviravoltas sucessivas fazem parte de um repertório que o leitor conhece demasiado bem. Todavia, Noelle W. Ihli encontra uma forma engenhosa de inverter uma dessas premissas mais cliché. Aqui, sabemos relativamente cedo quem é o assassino. A verdadeira incógnita não está na identidade do criminoso, mas naquilo que as suas vítimas, depois da morte, poderão fazer para o deter e para revelar a sua identidade.
Meghan, Brecia e Skye foram assassinadas pelo mesmo homem, que usa a internet para se apresentar como o solteiro perfeito e transformar encontros amorosos em armadilhas mortais. O ponto de partida é particularmente perturbador porquanto explora um perigo contemporâneo e reconhecível: a construção deliberada de uma identidade sedutora como instrumento de manipulação e violência. Mas é depois da morte que a narrativa encontra a sua verdadeira originalidade. As três mulheres não desaparecem da história; pelo contrário, passam a constituir uma espécie de força colectiva determinada a impedir que o assassino faça novas vítimas.
É neste movimento que Pergunta pela Andrea se afasta do thriller convencional. Em vez de acompanhar exclusivamente a perseguição ao criminoso, o leitor é colocado próximo das próprias vítimas, conhecendo as suas histórias, os seus medos, os vínculos que deixaram para trás e, sobretudo, as razões que as impedem de simplesmente partir. Uma quer que o seu corpo seja encontrado; outra deseja que a família conheça finalmente a verdade; outra está determinada a evitar que outras mulheres tenham o mesmo destino. A morte, assim, não encerra as personagens: transforma-se no ponto de partida de uma segunda luta.
A dimensão sobrenatural poderia facilmente conduzir a narrativa para os lugares comuns do terror. Ihli, porém, opta por uma utilização mais contida dos fantasmas. Seria interessante, talvez, encontrar espíritos mais activos e uma presença sobrenatural mais intensa no processo de assombração. Mas essa relativa contenção acaba por funcionar a favor do livro: as aparições não substituem as personagens nem transformam a história num simples exercício de horror. Os fantasmas continuam a ser, antes de tudo, mulheres com personalidade, memórias, relações e assuntos por resolver. É precisamente na construção das personagens femininas que o romance encontra uma das suas maiores forças. Meghan, Brecia e Skye possuem densidade psicológica e não são reduzidas à condição de vítimas de um serial killer. O leitor é conduzido para uma empatia pouco habitual: acompanha mulheres que já morreram, mas cuja individualidade permanece viva na narrativa. A estratégia permite também criar uma relação particularmente inquietante com as pessoas próximas do assassino, obrigando o leitor a olhar para a violência não apenas através das vítimas, mas também através daqueles que permanecem vivos e que, muitas vezes, desconhecem quem realmente têm diante de si.
O resultado é um thriller de ritmo acelerado, de leitura fluida e com uma premissa suficientemente original para escapar aos clichés do género. A autora consegue equilibrar suspense, dimensão psicológica e sobrenatural sem deixar que nenhum destes elementos anule os restantes. Mais do que descobrir quem matou — porque essa resposta é deliberadamente oferecida ao leitor —, interessa perceber se as vítimas conseguirão finalmente encontrar uma forma de justiça.
Pergunta pela Andrea é, por isso, uma inversão inteligente do thriller de perseguição: desta vez, não são apenas os vivos que caçam o assassino. São as próprias vítimas que regressam para o perseguir. E é nessa inversão, simultaneamente perturbadora e emotiva, que Noelle W.Ihli encontra a identidade própria do romance.
Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

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