quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

DE ONDE NUNCA SAÍ - NOITES MORNAS DE SANTIAGO, de Helder Menor















Calhou-nos atravessar Cuba durante a noite. Ao contrário do caminho que o sol faz. Fomos de poente para nascente. Do ocidente para o oriente. Direção Santiago.
Saímos ao cair do dia de uma Havana quente e húmida. Choveu no caminho para a estação de camionetas e, na tarde que tinha sido quente, aquela chuva soube-nos bem. Molhou-nos mas soube-nos.
Comemos uma sandes no bar da estação e sentámo-nos na camioneta que arrancou à hora marcada. Seriam oito da noite. Demorámos a sair do centro da cidade. A rádio sintonizada numa estação de notícias apitava a cada três minutos e ia repetindo os boletins noticiosos. O ar condicionado no máximo do frio.
As luzes dos subúrbios foram escasseando à medida que avançámos na estrada. Tentámos dormir, mas o gelo do ar condicionado gelado e a nossa roupa, leve, escassa e húmida, davam-nos a sensação de estarmos no ártico. Os casacos dentro das mochilas no porão. Cá em cima apenas um saco de praia com cigarros, água e uma toalhita que nem sequer era turca...Tapámo-nos com o pano da praia e encostámo-nos um ao outro. Não era confortável mas foi romântico. Romântico e gelado. Na primeira paragem, umas três horas depois de arrancarmos, já sabíamos de cor as notícias, saímos para a noite húmida e quente da beira da estrada.
Os cavalheiros deviam atravessar a estrada para irem à casa de banho que era  a mata do lado de lá da camioneta. Mesmo que não precisassem de ir... todos tivemos de atravessar a estrada, para darmos privacidade às senhoras que ficaram com a mata junto ao autocarro como casa de banho. Fumámos na estrada vazia sentados no alcatrão morno.
Depois voltámos a entrar no frigorífico que era o autocarro e seguimos gelados mais umas horas. O rádio insistia nas notícias. Seriam umas quatro da manhã, parámos em Camaguey. Parámos na estação das camionetas. Havia bar aberto, pessoas a descer e pessoas a entrar. Voltámos a comer sandes e a beber chá quente e confesso que bebi um trago de rum para neutralizar o frio de dentro do autocarro. Pontuais, quinze minutos depois de chegarmos, seguimos viagem.
Chegámos a Santiago eram seis e meia da manhã. A cidade a despertar.
Demasiado cedo para irmos bater à porta da amiga do amigo que nos ia alojar... Todo o comércio ainda fechado. Felizmente já não tínhamos frio. Na rua o calor e a humidade tropical abraçavam-nos com carinho.
Fomos caminhando para o sítio que eu recordava melhor e que me pareceu confortável para esperar: um jardinzinho em frente do quartel-museu- escola Moncada. Era perto dali.
A minha companheira precisava de tomar café.
Quem me conhece sabe que não bebo café... por isso tenho dificuldade em entender aquelas urgências que dão às vezes às pessoas que bebem café... as urgências do “preciso de um café”.
Pois foi uma urgência dessas que deu à minha parceira de viagem.
Tinha sido uma noite longa, fria e desconfortável... agora queria beber café.
Percebi que era preciso e urgente encontrar um sítio que vendesse café.
Estávamos relativamente afastados do centro e não havia nada aberto.
Entretanto, de uma casa próxima, abriu-se uma porta e saíu um senhor vestido de fato de macaco a seguir para o trabalho. Educado, disse-nos bom dia. Respondemos e aproveitei para lhe perguntar onde é que podíamos tomar um café ali à volta uma vez que a minha companheira queria tomar um café.
– Pois, aqui mesmo! Ainda tenho cinco minutos e acabei agora de fazer café para mim. Não vos digo para entrarem que a casa é pequena e estão todos a dormir... mas já vos trago o cafecito!
E assim foi.
Minutos depois, trouxe duas chavenas de café. Eu expliquei que não bebia café... quis oferecer-me um trago de rum... que educadamente recusei.
Não aceitou dinheiro.
Oferecemos-lhe cigarros dos nossos que guardou para fumar depois.
Aguentámos por ali, nos bancos de jardim mais uma hora, depois, já próximo das oito e meia da manhã, seguimos para aquela que seria a nossa casa nos próximos dias.
Chegámos e instalámo-nos num quarto disponível. Comemos o pequeno-almoço que merecíamos e tomámos o duche necessário. Depois saímos para a rua.
Voltámos ao Moncada para ver as crianças na escola onde antes tinha sido um quartel. Comovemo-nos com a memória dos assassinados e torturados. Deambulámos pelas ruas mornas de Santiago.
No dia seguinte, saímos da cidade e subimos ao Cobre. La Virgen del Caridad del Cobre, padroeira de Cuba, nada mais nada menos que a própria Deusa Oxum, Ela mesma! A Oxum atravessou o Atlântico à boleia dos navios negreiros e veio da Nigéria até Cuba, adoçar com beleza e mel este chão quente e molhado. 
Num caminho de cabras perto do santuário, continuámos a subir a montanha. Andámos horas pelos bosques cerrados e fomos aos locais secretos das práticas da Santeria. Vimos as oferendas aos espíritos dos escravos supliciados e aos deuses africanos. Descansámos nas pedras grandes junto a antigas minas de ouro escondidas na mata virgem. Banhámo-nos nas lagoas sagradas.
Comemos churrasco de leitão e de cabra em quintas remotas perdidas na serra.
Depois, voltámos a Santiago. Andámos pelos ginásios das artes marciais e pelas livrarias.
Numa daquelas noites quentes, enquanto folheava livros velhos e falava de política num alfarrabista, a minha parceira descobriu um antepassado gigante das vulgares baratas. O bicho tinha o tamanho de um pardal e asas que, não fossem o peso do papo cheio, a fariam levantar voo. O grito soou na rua em frente ao alfarrabista para espanto do livreiro, susto meu e surpresa da vizinhança.
Juntámo-nos uns quantos e aniquilámos o animal.
Para celebrar a morte do monstro, dançámos e bebemos nos clubes do bairro. Salsa e rum.
Na rua, com a vizinhança, acendemos uma fogueira onde, em coletivo, cozinhámos uma refeição para comemorar uma data qualquer, religiosa ou política. Não recordo nem interessa. Recordo que a festa foi regada a rum e durou até de manhã.
Voltámos a sair da cidade para as matas envolventes. No porto arranjámos um barco que nos levou para uma ilhota com cocos, rum, iguanas, jacarés e a água do mar quente. Voltámos ao final da tarde com um pescador que fez o favor de nos recolher. Na aldeia comemos uma galinha de churrasco assada nas brasas de uma fogueira acesa para nos fazer o jantar. 
Depois voltámos para Santiago.
Quando chegou o dia de apanharmos o autocarro de regresso, lá estávamos, ao cair da noite perto da
estação. Como habitual, estava calor e húmido. Comemos umas sandes e, prevenidos, levámos um termo com chá. Desta vez íamos agasalhados para uma noite polar: casacos, camisolas e as mantas possíveis. Seriam umas oito da noite. O autocarro só saíria às nove e meia.
Santiago completamente anoitecido.
À minha companheira, apeteceu-lhe café.
--- queres ir bater à porta do gajo que nos deu o café quando chegámos? O homem foi tão simpatico da outra vez? É aqui perto...
--- Não, tenho vergonha de ir à casa das pessoas, mas o café era mesmo bom!!!
Pragmática, decidiu-se pelo bar da estação que felizmente ainda estava aberto.
Pedimos um café e um traguito de rum.
Bebemos os dois em copos separados.
Saímos de Santiago embalados pelos buracos da estrada e pelos boleros do rádio da camioneta, que em vez de dar notícias, passava música dos anos cinquenta. O motorista avisou que lamentavelmente o ar condicionado estava avariado e, por isso, se os passageiros quisessem fresco teriam de viajar com as janelas abertas. 
Despimos a roupa até ao limite do pudor. A brisa quente e húmida ajudou-nos a adormecer. Nem demos por parar em Camaguey.
Sabemos ambos que Santiago de Cuba não sairá de dentro de nós.

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