domingo, 16 de fevereiro de 2020

LUA DE MEL NA CASA DAS TABUINHAS, de Maria Cecília Garcia















Casamos pelo registo no último dia de março. Tivemos que esperar até ao fim do mês para teres dinheiro para os gastos, o pouco que eu tinha levado como "dote" já estava gasto. Foi uma cerimónia simples e animada. Era o primeiro casamento da conservadora e ela enganava-se continuamente. Estava mais nervosa do que nós, que tudo fazíamos para animá-la! Acompanhavam-nos apenas os padrinhos e a tua mãe, mais tarde jantamos todos no restaurante de um amigo teu a quem tinhas encomendado um arroz de marisco. Estava delicioso, foi o melhor que comi até hoje.

À noite, com o mesmo grupo, fomos celebrar para uma discoteca no Estoril, já não recordo o nome… A tua mãe não foi.

Passamos a Lua-de-mel na terra da tua mãe e é claro que ela foi também! Era uma casa horrível, de um familiar, mesmo à frente do cemitério. O marido da nossa anfitriã era o coveiro. Durante os dias que lá ficamos cansei-me de ouvir os gonzos da porta de ferro abrir e fechar, e o som do molho de chaves enormes que ele fazia chocalhar, ao chegar a casa.

A casa era antiga, na verdade era uma daquelas casas que tinham servido para abrigar as cabras, cães ou vacas, o que houvesse, e os quartos ficavam por cima. As habitações eram dividas por finos tabiques de madeira e o chão eram tábuas de madeira também. Uma casa muito frágil e arejada que transmitia todos os sons, todos os ruídos. Nós ocupamos o cubículo do meio, de um lado estava o quarto da tua mãe, o outro era ocupado por um rapazito de dessasse-te anos, algo passado da cabeça. Quando descíamos para tomar o pequeno almoço naquela cozinha escurecida pelo fumo da lareira, ficava envergonhada com os olhares trocistas deles. O rapazinho mais novo lançava-me olhares embaciados.

Mas não havia café melhor, servido em caneca de esmalte lascado, nem queijo mais saboroso feito pela dona da casa. Passávamos o dia pelo no campo, perseguindo, ou fugindo, das cabras, molhando os pés no riacho, ou fazendo uma caminhada até o centro da povoação. Eu era tão feliz e tão simples, quiçá tonta seja o termo, que nada do que acontecia ao me redor me incomodava, tudo me surpreendia.

Mas aqui para nós: diz-me, quem é que leva a mãe para a lua-de-mel? Meu amor, a nossa união foi tudo, menos normal.

De um futuro livro…

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