sábado, 22 de fevereiro de 2020

PLÁSTICO, de Fernando Teixeira














Os alertas e os apelos a uma alteração de comportamentos têm sido constantes. O plástico, esse produto maldito, está a invadir e a poluir os nossos oceanos de forma dramática. Estima-se que circulem 150 milhões de toneladas de plástico no mar e sabe-se que uma enorme ilha de 80 mil toneladas de resíduos plásticos se encontra a flutuar no Oceano Pacífico, entre a Califórnia e o Hawai. E não só no mar, igualmente em terra, muitas toneladas de plástico podem ser encontradas em aterros sanitários.

Os polímeros sintéticos orgânicos, aquilo a que genericamente chamamos de “plástico”,
apresentam-se de variadas formas, com diferentes propriedades físicas, químicas e mecânicas, o que lhes confere diferentes características de resistência e de flexibilidade. Dos materiais criados pelo homem, o plástico é o mais utilizado, podendo dizer-se de forma exaustiva. Com diversas siglas comerciais, substituindo designações técnicas complicadas, o plástico é utilizado no fabrico de produtos com os mais variados fins: garrafas de água e de refrigerantes, frascos de detergentes, embalagens de produtos comestíveis, sacos de lixo, caixas de armazenamento, filamentos e cordas, baldes, tubos e canalizações, peças de automóvel e de electrodomésticos, telemóveis, computadores… enfim, em quase tudo em que mexemos e utilizamos no dia-a-dia.

O sucesso do plástico deriva das suas propriedades: moldável, leve, impermeável, inerte, barato, durável. É precisamente esta última característica que apresenta consequências mais nefastas para o ambiente: não sendo biodegradável, a eliminação natural de uma peça de plástico pode demorar séculos.

É quase impossível eliminar o plástico na sociedade actual, pelo que se sucedem os apelos a que se reduza a sua utilização e que a mesma se faça de forma sustentável. Incidem esses apelos, quase sempre, apenas numa alteração de comportamento do cidadão consumidor. Decretaram-se leis para reduzir a utilização de sacos de plástico nos supermercados, aplicando taxas sobre o que antes era gratuito, e apela-se à reciclagem.

Sendo tudo isso válido, é no entanto insuficiente. O consumidor está a jusante do processo e é na fonte que se tem de combater o problema: na produção e utilização do plástico pela indústria transformadora. Sempre foi mais fácil actuar sobre o elo mais fraco, o cidadão comum. Porém, não se vêem leis que obriguem a indústria e as grandes marcas a substituir as embalagens de plástico por vidro, por exemplo, mais facilmente reciclável. Enquanto se pede que os cidadãos sobrecarreguem as costas, transportando as suas compras em sacos pesadíssimos, as prateleiras dos nossos supermercados continuam inundadas de embalagens de plástico.

Por outro lado, o mundo empresarial e industrial, sempre ávido de incrementar os seus negócios e correspondente lucro, continua a produzir produtos com forte utilização de plástico, os quais duram cada vez menos tempo, obrigando à sua substituição e levando consequentemente à produção de enorme quantidade de lixo plástico per capita.

A sustentabilidade que se impõe implica uma alteração do modus vivendi de todos os
operadores da sociedade e não apenas dos consumidores. Só se avançará neste propósito se a indústria largar a ideia do “descartável”, apostando numa verdadeira política de durabilidade dos seus produtos e na opção por materiais mais amigos do ambiente. Há que investir no estudo e na criação de bioplásticos, fabricados a partir de resinas biodegradáveis obtidas através de matérias-primas renováveis, como a cana-de-açúcar, o milho ou a batata. 
Simultaneamente, há que reforçar eficazmente toda uma cadeia de reciclagem de resíduos plásticos, transformando-os em outros produtos.

E, principalmente, é preciso consciencializar, incentivar e pressionar que estas medidas sejam aplicadas noutras partes do mundo, pouco sensibilizadas ainda para esta problemática. Ou, a cada dia que passe, ver-nos-emos ainda mais atulhados num mar de lixo que ninguém saberá de como se livrar!


O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

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