domingo, 19 de julho de 2020

CHAMAVA-SE CHRISTOS, de Maria Cecília















Chamava-se Christos Paabola.
Na siderúrgica onde o meu pai trabalhava, havia alguns engenheiros estrangeiros, a maioria era dos países nórdicos, entre eles, um finlandês, com o qual fez amizade. Morava na mesma cidade que nós e quase sempre dava boleia ao meu pai, quando vinha para casa ao fim-de-semana.
Christos Paabola, engenheiro metalúrgico, homem de estatura muito elevada e muitos quilos de peso, era a pessoa mais bonacheirona que conheci. Com aquele aspecto de gigante, de rosto muito rosado, pele grosseira e cabelos frisados, quase vermelhos, e um nariz grosso e esponjoso, tinha uma gargalhada estrondosa e contagiante. Com olhos muito claros, vivos e bondosos, e umas mãos enormes, aquele homem era a mais pura manifestação da alegria e da generosidade.
Todos gostámos dele desde o primeiro dia. Até a minha mãe. Tinha mulher, também finlandesa, chamada Ekaterina. Ao contrário dele, Ekaterina era pequenina, al, quase transparente, com os cabelos lisos e curtos, tão loiros que pareciam um campo de trigo no Outono, e meigos olhos azuis e serenos como um lago. O seu temperamento era muito suave e sorria sempre, diante das explosões destemperadas do marido.
 Tinham sete filhas, todas de idades muito aproximadas. A sensação que ficou em mim, ao lembrar-me delas, era estar diante de um coro de anjinhos loiros e felizes! A filha mais velha chamava-se Jristha e era alguns anos mais velha do que eu. Também era muito amável, e demonstrava uma grande segurança, o que me cativou. Tornou-se a minha heroína.
Recordo que ela estudava um curso de línguas e secretariado e eu insisti muito para que me deixassem ir para a mesma escola. Mas tal não foi possível. Aquela família feliz proporcionou-nos momentos muito agradáveis.
Christos, o finlandês, tinha uma grande carrinha Chevrolet, na qual demos alguns passeios que, de outra forma, nunca teríamos realizado. Com ele chegámos a ir até muito perto da fronteira com o Brasil amazónico, por estradas que rasgavam densas florestas e outras que rasavam a fronteira com a Guiana Francesa. Curiosamente, não recordo nenhum lugar em especial, apenas me lembro do verde da floresta, a estrada, e de um nevoeiro baixo e quente. Habituado a fazer longas viagens, ele conhecia tão bem as estradas que chegava a adormecer durante a condução. Nas viagens que fizemos juntos ele, às vezes, adormecia, porém, a mulher mantinha-se impávida e serena, enquanto a minha, nervosa, procurava mantê-lo acordado falando-lhe continuamente ou dando-lhe pequenos beliscões e safanões. Por sua vez, o meu pai tentava que a minha mãe deixasse o homem em paz, enquanto a mulher, sorria angelicamente.
 Quanto às crianças, que contando connosco eram onze, umas dormiam tranquilamente, outras ainda brincavam, e outras, como eu, tentavam manter-se atentas a tudo o que acontecia no interior daquele veículo. O finlandês contava que, nas ocasiões em que viajava sozinho, durante a noite, sofria ataques de sono. Nessas ocasiões, parava o carro na berma da estrada e estendia-se ao comprido, deixando os pés fora da janela do carro.
contava que, mais do que uma vez, ao acordar, descobria que lhe tinham roubado os sapatos. Ao contar isto dava gargalhadas sonoras e contagiantes, imaginando o desapontamento dos ladrões, ao ver o tamanho dos mesmos!

In História em Pedacinhos -As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar

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