sexta-feira, 25 de outubro de 2019

OUTUBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE

Lançamento mundial.
Nas livrarias a 29 de Outubro

Agente em Campo
de
John le Carré

Tradução de Francisco Agarez






















Nat, 47 anos, veterano dos Serviços Secretos Britânicos, pensa que o seu tempo como controlador de agentes chegou ao fim. Está de regresso a Londres com a mulher, a paciente e dedicada Prue. Mas, face à crescente ameaça do Centro de Moscovo, a repartição tem mais uma missão para ele. Nat é nomeado chefe do Porto de Abrigo, um inoperante subposto da Geral de Londres com um bando de espiões incompetentes. A única estrela da equipa é a jovem Florence, que tem aspirações ao departamento da Rússia e está de olho num oligarca ucraniano com fortes ligações ao regime russo.

Nat não é apenas um espião, é um apaixonado jogador de badmínton. O seu adversário habitual das segundas-feiras tem metade da sua idade: o introspetivo e solitário Ed. Ed odeia o Brexit, odeia Trump e odeia o emprego que tem numa impiedosa agência de comunicação.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

UM DIA MUITO DESEJADO, de Anita Dos Santos
















Todo o tempo da gravidez foi muito difícil.

Havia historial de problemas anteriores, assim houve que tomar cuidados redobrados.

Aquela criança era esperada há uma meia dúzia de anos e, agora que chegava a altura de o trazer à luz do dia, não se sentia com força suficiente para o fazer.

Estava terrivelmente magra. O bebé tinha demandado tudo o que o seu organismo podia dispensar, e aquilo que não podia, ele ia buscar assim mesmo. Parecia um caniço, um junco com uma enorme barriga que todos se admiravam como conseguia sustê-la.

Durante a madrugada começara a sentir as primeiras contracções (porque será que os bebés se lembram sempre de acordar as mães para nascer?), acordou o marido e, com toda a calma foram para o hospital em que estava destinado o bebé nascer, levando a pequena mala com a roupinha tão pequena.

Era ainda muito cedo, “Vá andar pelo jardim, dar um passeio. Uma caminhada calma. Depois volte e logo vemos”. Lá foram os dois, sempre juntos, eram já três só que o terceiro estava ainda bem acomodado dentro da mãe.

Passaram as horas. Ficou finalmente numa cama com as contracções mais juntas e mais violentas.

E o bebé não dava mostras de querer nascer…

Por fim foi levada para a sala de partos.

Sentia-se aterrorizada. Além das dores que sentia, o desconhecido, o não saber o que a esperava e o que devia fazer para ajudar a sua criança, deixava-a ainda mais aflita.

No exterior, a calma nunca a abandonou, a sua voz não se ouviu, mas lá dentro, a sua alma gritava, aos berros.

Subiu para a marquesa e, as parteiras, rebentaram-lhe a bolsa das águas.

A partir desse momento não teve mais contracções.  As parteiras de volta dela perguntavam, “Então, essas contracções?”, com ar preocupado, mas as horas passavam e nada.

O médico assistente dela tinha-lhe dito que naquele dia estaria de serviço, mas ainda não o vira, e ao questionar uma das parteiras sobre o assunto, esta respondeu-lhe que o doutor só entrava de serviço às dezasseis horas. Até lá, estava só, com as parteiras.

E o bebé sem querer nascer…

Colocaram-lhe soro para ajudar, mas a ajuda não chegava. Tentava por todos os meios não entrar em desespero, mas já não sabia como.

Já era de tarde, quando o médico entrou porta dentro e, foi direito a ela para a observar.

- Olha, o teu filho está a sofrer. Eu sei que não tens contracções, mas tens de fazer um esforço, o melhor que poderes, para ajudar o teu filho a nascer. Consegues?

- Consigo, sim Doutor.

- Então vamos lá fazer este bebé nascer.

O segundo turno de parteiras já tinha entrado, mas o primeiro não saiu. Ficaram todas com ela.

Sem saber onde foi buscar a força, à sua vontade certamente, fez da fraqueza força dos fracos músculos, fortes fontes de poder. A sua vontade sobrepunha-se a tudo.

Foram minutos, foram horas, foram instantes.

Sentiu rasgar, assim mesmo continuou. Já não sentia dor, estava para lá de tudo isso. Só o seu bebé importava.

Por fim, ouviu o tão esperado “Nasceu! Por Deus, que grande rapaz!”, podia por fim, descansar.

Mas o filho, queria ver o filho… E tinha tanto frio… Estavam todos a afastar-se, a ficar longe… Onde estava o menino? Ouviu falar em quatro quilos, em cinquenta centímetros…

Lá ao longe, ouviu uma das parteiras, “Então, diga lá, tem roupa para o menino?”, porque estava ela tão longe?

Ora ela pensava que iria ter uma menina, esperava por isso, só levara roupinha para servir a uma menina… Sempre tinham pensado numa menina, talvez por causa da primeira que tinham perdido, esta seria uma Ana Filipa. Um rapaz, só há poucos dias tinham escolhido nome.

E a parteira não parava de falar com ela, a fazê-la falar. Não lhe apetecia falar, queria fechar os olhos e descansar.

O médico tinha-se sentado em frente dela, e dava ordens bruscas, umas a seguir às outras.

Ela virou a cara para o lado, alheando-se do que se passava lá para baixo, fixando os olhos no filho.

Era lindo, moreno com uma cabeleira escura farta, sobrolhos bem desenhados e boca de botão de rosa. Não havia criança mais linda no mundo!

Não deu conta de o tempo passar.

Quando por fim foi levada para a enfermaria, percebeu pela expressão do marido que algo se passava, mas não deu atenção.

Mais tarde soube que durante o parto rasgou a artéria do útero e, a hemorragia foi massiva.

O seu filho nasceu. Se por isso quase tinha dado a sua vida, tinha tudo valido a pena!

DE ONDE NUNCA SAÍ - LIÇÕES À CHUVA, de Helder Menor
















Foi numa daquelas alturas da minha vida que tinha tempo, mas não tinha dinheiro. Acontece-me com frequência. Também com frequência, mas mais raro, também me acontece o contrário, se tenho dinheiro, não tenho tempo...

Bem, não querendo fazer das pessoas que têm paciência para me ler, nem meus confessores, nem meus gestores de conta e, muito menos, meus inquisidores, vou direto ao assunto e contar-vos daquela vez em que não me deixaram dormir em Santiago. Falo do Galego. O de Compostela.

Eu tinha 19 anos e acreditava num universo infinito de possibilidades. Meti um saco-cama e umas latas de sardinha numa mochila e, num grupo que éramos dois, apanhei o comboio para o norte. Queria ir ver e viver uns dias numa terra liberta. Uma terra sem regras nem leis, nem donos, nem chefes. Por isso entrei num comboio daqueles noturnos que saía de Santa Apolónia pelas onze e chegava quando chegasse.

No outro dia de manhã estávamos no Porto. Lembro-me que tinha chovido a noite toda e à saída de Campanhã entre as nuvens o sol brilhou e foi nesse dia que percebi porque é que o Porto é uma das cidades mais belas que conheço. Ou foi porque o sol brilhou entre as nuvens ou foi porque tinha dezanove anos e ia de viagem atrás de um sonho. Mas aquela manhã foi inesquecivelmente bonita.

Vadeámos ao sol pelas ruas antigas e molhadas do Porto. Comprámos comida e voltámos a entrar noutro comboio já manhã avançada. Atravessámos a ponte férrea sobre o rio Minho ao entardecer.

Chegámos a Santiago já noite cerrada.

Ano compostense no início dos noventa e a cidade cheia, cheiinha a abarrotar de turistas religiosos. Padres, freiras e outros viajantes do mesmo género. Jantámos sardinhas, broa de Avintes e vinho verde debaixo de um candeeiro de um jardim.

A ideia era apanhar um comboio regional até Lugo e subirmos às montanhas prometidas. Através de cartas, porque ainda não havia e-mails nem sms, tinha combinado com uns amigos chegar à aldeia remota e perdida em que viviam escondidos do mundo na tal comunidade livre.

Na estação informaram-nos que para Lugo só havia comboio às oito da manhã. Eram umas dez da noite. E agora?

E camionetes? Há?

Para animar, começou a chover.

Ficámos na estação até à meia-noite.

Então vieram fechar a estação. Só abriam às seis e meia da manhã...

Mas deixem-nos ficar... não estragamos nada. Ainda tentámos desesperados.

Nada a fazer.

A chuva carregou na força.

Procurámos um sítio para ficar.

Fomos procurar a estação da rodoviária. Era do outro lado da cidade, estava fechada, não se podia entrar nem pernoitar.

E a chuva a cair-nos em cima.

À chuva batemos à porta de vários albergues para peregrinos.

Completo, completo. Padres, freiras e beatos a dizerem-nos sempre que não. A chuva cada vez mais forte e fria. Um padre de áculos de aros dourados e ar zangado, inclusivamente ameaçou com a polícia perante a nossa insistência.

Tentámos algumas pensões que, ao nos verem chegar com ar e situação de facto de sem-abrigos, diziam que estavam cheios ou simplesmente não abriam a porta. Talvez estivessem mesmo cheios.

Passámos à porta de uma agência bancária.

Ingenuamente pensando que os bancos estão lá para um momento em que precisemos, entrámos no átrio de uma agência da Caja com o cartão multibanco.

Ali dentro não estava a chover. Eu nem quis ver o saldo. Tirámos as mochilas encharcadas e estendemos os sacos cama que estavam razoavelmente secos.

Dispusemos-nos para dormir umas horas.

Não era confortável, mas estava seco.

Não passou nem meia hora. As câmaras de videovigilância da altura eram rupestres, mas já trabalhavam. Alguém, sentado no seu cubículo a fazer o turno da noite, viu no ecrã da sua televisão obrigatória, entrar o jovem casal a dispor-se para dormir. Ficou atento e esperou a continuação do filme. Como não tinha mais ação, entediado, chamou a polícia e esperou para ver o que aconteceu a seguir.

Nem uma hora depois de termos entrado, um carro parou do lado de fora e saíram três policiais para nos tirarem dali.

Explicações em português e portenhol.

É que não forçámos a entrada, veja, com o meu cartão entro aqui. Pois, e não encontrámos pensão, nem albergue e como podem ver está a chover comó caraças...

Tivemos de sair à mesma.

Pedimos estadia na esquadra até abrirem a estação dos comboios. Na polícia também há gente boa.

Deixaram-nos pôr as mochilas num canto, usar as casas-de-banho e as toalhas secas. Estender os sacos camas não que já era abuso.

Dormitámos umas horas nos bancos de madeira.

A meio da noite chegou um carro patrulha. Era o chefe e vinha zangado. Tratou logo de nos pôr na rua e dar uma piçada nos agentes que nos desenrascaram.

Outra vez molhados e com frio.

Caminhámos à chuva mais de uma hora até à estação dos comboios. Ainda esperámos um bocado até nos abrirem a porta do chão seco.

O dia nasceu chuvoso e comemos ovos cozidos que sobraram do farnel.

Nessa noite de chuva, aprendi uma lição para a vida, quando chegam as tempestades, nunca devemos contar com ajuda de padres, bancos ou chefes de polícia.

OUTUBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 29 de Outubro

Poemas de Amor
de
Pablo Neruda

Tradução de Nuno Júdice






















Com tradução do poeta Nuno Júdice, eis um livro que reúne os grandes Poemas de Amor de Pablo Neruda, autor cuja escrita influenciou fortemente muitos poetas sul-americanos.

À semelhança das suas outras obras, este é um volume por onde perpassa todo um universo de magia e paixão, que sempre caracterizaram a escrita do autor de Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

CAVE ASSOMBRADA, de MBarreto Condado















- Bem-vindos a minha casa.

João recebia os seus amigos à porta.

- Parabéns meu. Bem, tens cá uma casa. – Alexandre estava excitadíssimo com o que via. – Também tens piscina?

- Tenho!

- Fantástico. Se soubesse tinha trazido os calções.

- Sabes que hoje é dia 31 de Outubro? Estamos no outono se calhar era melhor deixares esses mergulhos para o verão.

- Mas estamos quase no verão, o de S. Martinho. – Alexandre piscou o olho ao amigo passando por ele permitindo que os restantes colegas também entrassem.
Todos lhe foram entregando presentes que ia deixando na mesa da entrada. Abria-os mais tarde o mais importante agora era estar com os amigos.

- Muito obrigada a todos. Então o que querem fazer?

- Hoje é o teu dia e estamos em tua casa. Diz lá o que foi que preparaste. – Joana deu-lhe um beijo.

- Os meus pais deixaram-nos uma mesa com comida e sumos na sala. Mas se quiserem podemos brincar no jardim ou no meu quarto. Na realidade onde quiserem.

- E onde estão os teus pais? – André olhava em volta

- Tiveram que sair, mas voltam ao final da tarde.

- Quer dizer que estamos sozinhos? – Pedro sorriu esfregando as mãos.

- Sim.

- Fantástico.

- Nem penses que vais fazer asneiras Pedro. Lembra-te que não estás em tua casa. – Ana não gostava nada quando o amigo se portava como um selvagem.

- Podes ficar descansada que não faço nada que tu não fizesses.

- Se quiserem posso mostrar-vos a casa.

Já não foi necessário responder. Nunca ninguém lá tinha estado e se por fora a casa parecia um castelo ali dentro deveria ser muito melhor.

João seguia à frente.

Começaram pelo andar superior onde se encontravam os quartos.

O seu quarto era muito espaçoso, com grossas cortinas que não permitiam a entrada de luz. Uma cama com uma forma muito esquisita, mas que parecia muito confortável. Com uma estante repleta de livros, tudo muito limpo e arrumado.

- Uau, és tu que limpas o teu quarto? – Alexandre estava realmente espantado se a sua mãe visse o quarto do amigo estava feito. Da última vez que limpara o seu tinha descoberto uma sandes de queijo meio comida, ou pelo menos ele achava que era queijo.

- Não. É a minha mãe.

- Meu! Não tens computador no teu quarto? Nem jogos? Só livros?

- Eu gosto de ler. Mas é claro que tenho computador só que normalmente uso-o lá em baixo na sala.

- Ah bom! Estava a ficar preocupado. – Alexandre revirou os olhos.

Já no andar de baixo quando se preparavam para entrar na sala Pedro parou em frente a uma porta fechada. Encostando o ouvido.

- Não disseste que estávamos sozinhos?

- E estamos.

- Podia jurar que ouvi algo a arrastar por detrás desta porta.

- A porta da cave? Devem ser ratos

- Tens uma cave? Fantástico? – Alexandre preparava-se para abrir a porta.

- Podemos ver?

João apertou as mãos uma na outra, não parecia muito à vontade com aquele desejo repentino dos amigos.

- Então e os ratos? – Joana não parecia muito convencida.

- Deixa lá os ratos. Vamos? – Pedro já se afastava para que João abrisse a porta.

- Sim.

Tiveram que descer uma escada de ferro. Repararam que as paredes eram forradas a madeira, a luz era muito fraca pelo que se agarraram no corrimão para não caírem. Quando chegaram ao fundo tinham mais uma porta. Empurrando-a para trás entraram numa sala forrada a veludo vermelho. Ao fundo existia uma mesa de carvalho com cadeiras a toda a sua volta e uma cortina escura com o brasão de família.

- Não sabia que eras de origens nobres. – Ana olhava para o amigo com atenção. – Isto aqui é uma sala fantástica.

- Mas não devíamos estar aqui em baixo. Os meus pais não vão gostar.

- Olha lá, mas afinal como é que te chamas mesmo? – Pedro olhava para o amigo

- João!

- Sim, mas João quê?

- João Pires.

- Mas aqui por cima do brasão tem qualquer coisa escrita como Van ou Vam.

- O meu nome é João Vam Pires!

- Vam Pires? Quase que soa a Vampiros. – Alexandre sorria

Sem que João respondesse nesse momento saindo por uma porta que não tinham visto escondida por detrás da cortina com o brasão apareciam os pais de João.

- Boa tarde meninos. Não deviam estar aqui. – o pai olhava para eles com os olhos brilhantes levando um copo aos lábios sorrindo.


terça-feira, 22 de outubro de 2019

O AMIGO, de Anita Dos Santos














Era um dia normal.

Fim da tarde, depois de sair do trabalho. Estava-se no final do Inverno, quando os dias começam a ficar um pouco maiores e, em que aproveitava o resto da luz do dia para ver umas montras e esticar as pernas após um longo dia depois de estar sentado à secretária.

Gostava particularmente daqueles instantes em cada dia, que me permitiam deixar para trás os problemas laborais, tão enfadonhos, e por momentos, não pensar em nada, apreciar simplesmente o ar da rua, o frio no rosto, as luzes nas montras, esta ou aquela novidade.

O caminho levava-me, em muitos dias, até junto da montra de uma livraria, onde ficava a admirar os últimos livros dos autores mais ou menos conhecidos.

Tinha até, a dada altura, começado um manuscrito, ao qual voltava de vez em quando, se sentia inspiração ou necessidade, para acrescentar umas quantas páginas.

Aquele não foi um dia diferente nesse sentido.

Parei em frente da livraria, ensimesmado com as capas que estavam expostas.

Senti um toque nas costas e, virei-me com um sobressalto.

Dei com o Manuel a sorrir para mim, de sorriso rasgado!

- Então António, como tens passado? – Perguntou, com aquele tom gaiato que me recordava sempre de lhe ter ouvido.

Fiquei de costas para a montra, voltado para o meu amigo que não via há anos, e ao no qual não encontrava diferenças, tanto quanto me lembrava.

- Manuel! Mas que bom encontrar-te! – Não me contive, e apertei-o num abraço de urso. – Que é feito de ti? Tens tempo para conversarmos?

- É verdade, não nos víamos há muito tempo… senti saudades daqueles nossos tempos de crianças. 

Não tenho muito tempo, mas vamos andando até uma parte do teu caminho. Eu acompanho-te.

- Diz lá, por onde tens andado, o que tens feito!

- Nada de importante, o mesmo de sempre. Quero é saber de ti, como vai a tua vida. Chegaste a terminar aquele livro que estavas a escrever?

Parei o passo, quase tropeçando. Nem de prepósito, eu ter acabado de pensar no meu livro…

- Não, não o terminei ainda. Acho que ainda falta alguma coisa.

- Não digas isso. Eu penso que deve estar estupendo. Vai ser um bestseller, vais ver.

- Como é que sabes isso? Se calhar não vale nada e ninguém o vai ler…

- Vai por mim, nunca desistas dos teus sonhos. Luta por eles até ao fim!

- Tens razão, é isso que vou fazer. Aliás vinha a pensar mesmo nele! Vou terminá-lo mesmo!

- Muito bem! É assim mesmo!

Olhou para trás, e sorrindo de novo acrescentou:

- Já me demorei demais. Tenho de ir. Gostei muito de voltar a ver-te, António. Nunca desistas dos teus sonhos!

Palavras ditas, vi o Manuel voltar para trás, e desaparecer na esquina seguinte.

As semanas transformaram-se em meses e, eu concluí o meu livro.

E o Manuel estava certo. Depressa se tornou um bestseller, parecia que as edições não saíam com velocidade necessária para corresponder às vendas… Eu nem queria acreditar!

Mais tarde, numa apresentação do livro, encontrei um outro amigo que fazia parte do mesmo grupo de infância a que pertencia o Manuel. Fiquei radiante. Só faltava mesmo o Manuel!

No final, juntamo-nos em volta de uma mesa, com umas chávenas de café e as nossas recordações.

Claro que os amigos ausentes vieram à conversa. Lá lhe contei o estranho encontro que tive com o Manuel, e que ele tinha previsto que o meu livro iria ser um sucesso.

- Oh! António, nem sei como te dizer isto, depois do que te ouvi contar…

- Mas dizer o quê? – Perguntei sem entender.

- António, o Manuel faleceu há cinco anos, num acidente de viação.

- Mas eu estive com ele, abracei-o…

Mais tarde, acabei por entender que o meu amigo se quis despedir, e quis também assegurar-se que eu seguia o caminho que era o melhor para mim.

Naquele dia, além de meu amigo, foi também meu anjo da guarda!


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A VOZ DA VIDA, de Vanessa Lourenço















Perdi-o naquela noite. O meu amigo, o meu companheiro, o meu gato. O único que sempre soube preencher os meus silêncios e a minha incapacidade de lidar com o mundo lá fora, sem me julgar. O único que compreendeu que eu me afastei dos ruídos do mundo, apenas para encontrar os meus silêncios, porque ele sabia que eram os únicos que me podiam salvar.

Perdi-o, e os meus silêncios transbordaram para o mundo lá fora. Uma corrente que não consegui conter, e que me arrastou. Submersa na torrente de emoções descontroladas, fechei os olhos durante muito tempo, e não vi o mundo passar. Ignorei todos os sinais de esperança, todos os gritos de alerta, todas as portas abertas e palavras fáceis, ocas.

Perdi-o. E porque o perdi, recusei encontrar-me. No olho da minha mente, eu via apenas a ausência escura e definitiva da morte. Mal sabia eu... e que ridículo me parece agora, recordar.

Um dia, senti uma brisa leve no rosto, e olhei em volta. Era Outono, e o chão estava coberto por um extenso tapete de folhas secas. As folhas estavam mortas, e, no entanto, as árvores a que pertenciam, estavam vivas. Pensei então na mudança de pêlo dos animais: eles perdem o pêlo morto, e, no entanto, permanecem vivos. A vida insistia em se renovar a todo o instante à minha volta, e isso fez-me pensar.

Porque cremos que a vida se renova apenas até onde conseguimos ver? Porque cremos que tudo o que existe, cabe dentro dos nossos olhos? Porque cremos que algo que faz parte de nós, pode alguma vez ser perdido?

Foi então que ouvi a voz:

- Entendes agora? Nós não somos as folhas secas que caem da árvore, somos a árvore; não somos o pêlo morto que se liberta dos animais, somos o próprio animal. Não somos a lagarta, somos a essência que se liberta da gravidade, e decide voar. Evoluindo sempre, mudando sempre. Mas sobretudo, libertando-nos a cada passo do caminho do que já não nos ajuda a crescer.

Recordando por um momento o imenso gato amarelo que tanto amava, arrisquei:

- Quer dizer que não te perdi?

Uma brisa fresca percorreu o meu cabelo comprido, e senti como se algo se encostasse à minha perna. Ouvi então a voz dizer:

- Quer dizer que neste mundo, nos habituamos a usar corpos que nos definem. Apegamo-nos a eles para criar laços. Mas se olhares para lá do que um corpo te pode oferecer, tudo o que resta é para sempre.