sexta-feira, 22 de novembro de 2019

LAR DOCE LAR, de MBarreto Condado















Lembro-me da casa dos meus avós em Lisboa, numa rua com frondosas árvores que nos protegiam da chuva no inverno e do calor no verão. Acordar com o chilrear dos pássaros a receberem cada novo dia. Mas lembro-me principalmente dos vizinhos, eram uma extensão da nossa própria família. Pedir um balde de gelo, meia dúzia de ovos ou uma xícara de açúcar era mais do que um esquecimento nas mercearias, era uma oportunidade para conversarmos sobre tudo e sobre nada.

Depois mudei para um prédio impessoal também em Lisboa, onde cedo me habituei que os simples gestos de boa cidadania eram quase como jogar “roleta russa”.  

E quando julgamos que já nos habituámos a esta indiferença os vizinhos que se tinham inicialmente resignado à nossa presença acabando por nos aceitar. Envelhecem, partem. A verdade é que os tempos mudam e nem sempre essas mudanças são para melhor.

Por isso quando leio que a sonda Schiaparell embateu no solo de Marte lembro-me das vezes em que a meio da noite ouço estranhos ruídos o que me deixa a pensar se alguns dos meus vizinhos serão abduzidos e substituídos por marcianos. Da maneira como agem no dia seguinte posso garantir que não são humanos.

Quando vejo imagens da frota russa a passar na nossa costa fico satisfeita por já não ter a garagem inundada pois ainda me arriscava a ir para o meu carro e acabar por entrar no Dmitry Donskoy.

As contas desta administração parecem um apêndice do Orçamento de Estado do próximo ano, pelo que ficarei à espera que o senhor Moscovici se manifeste.

Temo ainda que alguns vizinhos não tenham aceite o protocolo de Quioto pela maneira como deixam após a sua passagem os elevadores transformados em verdadeiras câmaras de gases tóxicos e corrosivos. Outros tantos continuam a transportar os seus sacos de lixo desde a sua casa até ao contentor geral deixando atrás de si líquidos dignos de tratamento numa ETAR.

Uma pequena informação reciclar não significa baralhar e deitar fora.

Por tudo isto sinto que talvez tenha chegado a altura de mudar de casa.

Mas principalmente por saber que a minha casa é algo do outro mundo gostava de informar que a coloquei à venda nas seguintes agências: NASA, ESA, SETI e Steven Spielberg. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ERA UMA VEZ UM ROUXINOL, de Vanessa Lourenço
















Era uma vez um rouxinol que defeitos teria, mas cuja alegria animava as suas asas de tal forma que apenas os olhos brilhantes traíam os seus medos e as suas inquietações.

Era uma vez um rouxinol que estendia as suas asas ao sabor do vento e da terra que tão bem conhecia e estimava, e que com elas cobria de sorrisos quem com ele se cruzava e parava para reparar na vida que lhe cobria os passos e os sonhos.

Era uma vez um rouxinol que fazia parar e sorrir todos aqueles que o ouviam cantar.

Dizem mesmo que contava histórias, histórias das suas aventuras e das peripécias que a vida lhe entregava. Mas o que ele gostava mesmo era de cantar, cantar para aqueles que lhe queriam bem, o que lhe dava realmente prazer era partilhar os dons que a vida lhe entregara com a família que escolheu. E como a verdadeira família o apreciava, mesmo aqueles que apenas de vez em quando conseguiam vê-lo. Afinal de contas, não existe distância dentro do coração. E não existem passos que suprimam os laços.

Como é que eu sei tudo isto?

Porque não eram penas que lhe cobriam o corpo, e as suas canções mais bonitas agraciavam o mundo não pelo bico de passarinho, mas pela gaita de beiços que não era mais, afinal, do que uma extensão de si mesmo. E como gostávamos de nos deixar levar pelas suas canções. Como nos faziam genuinamente sorrir.

Um dia, o rouxinol da nossa história decidiu que estava na hora de se despedir de nós. Passara os últimos tempos dentro de uma gaiola pequena demais, e perdeu as suas canções. A juntar a isso, do outro lado do véu que separa os mundos havia alguém que o esperava. E também do outro lado do véu aguardava a sua liberdade.

A jaula abriu-se, e o nosso rouxinol respirou fundo. Respirou fundo e piscou os olhos porque de repente, uma luz intensa surgiu à frente do pequeno bico ansioso, ofuscando-o durante uns momentos. Mas depois, a luz mostrou-lhe o que o esperava do outro lado do medo, e ele deixou-se finalmente ir. Bateu as asas pela primeira vez em muito tempo e lançou-se no ar. Livre e renascido.

Dá um beijinho à tia, por favor. Até que nos encontremos de novo.
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*Ao meu tio avô Manuel Osório. As canções do espírito nunca se esgotam, nem aquelas que são tocadas com mestria na gaita de beiços.


Vanessa Lourenço

DE ONDE NUNCA SAÍ - GANAS DE TI, de Helder Menor















Quando te vi pela primeira vez, estava com frio e febre. A desejar chão firme para pisar, um banho quente, roupa confortável e uma manta. Foi no inverno e chovia. Olhei-te de relance através do vidro embaciado da janela fechada do táxi onde seguia. Confesso que mal reparei em ti. Vi-te escura e mal iluminada debaixo dos candeeiros escassos e gostei. Mas só isso. Nessa noite estava demasiado focado no meu mal-estar para te olhar. Tinha vintes e tais e achava que estava definitivamente imunizado às crises de paixões súbitas e ainda mais ao amor crónico. Estava enganado, claro.

No dia seguinte fiquei de cama. Febre alta em clima tropical que me fez delirar. De ti senti apenas o perfume que entrava pela porta do quarto e vislumbrei-te na luz coada pela janela. Comi o que tinha na mochila e bebi chá. Voltou a chover à noite.

Não esperei pelo terceiro dia para me levantar e caminhar. Na manhã seguinte, tomei o duche possível com uma caneca e água aquecida num fogão cheio de fugas. Mudei de roupa, saí e encontrámo-nos definitivamente. Nunca mais nos separámos.

Nunca mais saíste de mim. E eu ficarei em ti enquanto viver.

Naquela manhã, combalido, fui aos meus compromissos, ainda febril. Alguém me disse que tinha de me tratar e ser visto por um médico. Fui ao teu hospital e fizeram-me uma bateria de exames. Diagnosticaram-me escarlatina. Tinha trazido a doença do meu filho que entre abraços e beijos de despedida me contagiou, o rapaz teria uns dois anos.

O médico, espantado perguntou:
– Mas a escarlatina não está erradicada na Europa?
– Pelos vistos não! Respondi insolente.

Para se vingar deu-me ele mesmo uma injeção que doeu horrores, mas que me curou. Fui à farmácia e, com a receita manuscrita, deram-me precisamente seis comprimidos, contados com uma pinça para dentro de um frasco de vidro. Aqueles que precisava para me tratar, nem mais um. Estamos em período especial, desperdício zero, disse-me o farmacêutico. Depois pediu-me para voltar a devolver o frasco, coisa que não fiz e por isso ainda hoje o devo ter para aí metido nalguma caixa com recordações avulsas, entre recordações de ti.

Viste-me a coxear agarrado ao rabo dorido e riste-te de mim, para mim. Disfarcei a dor e mantive a dignidade num caminhar mais lento. Depois seguimos juntos pelas tuas ruas. Lentamente e gingando, ao meu ritmo convalescente, que é o teu ritmo de sempre, sem pressa.

O amor aconteceu-me inevitável. Claro que me apaixonei por ti. A cor morena, o riso fácil e todas essas tuas curvas. O efeito luminoso que fazes deitada recostada no mar. O teu riso de portas escancaradas, a música com que falas e todas as cores que usas. A tua descontraída disponibilidade e esse eterno convite nos olhares. A sensualidade intensa que noutras seria decadente e vulgar, mas que em ti são absolutamente perfeitas. Apaixonei-me pela tua cultura sem pedantismos e pela tua dimensão imensa e concentrada. Pelo o teu canto, pelo teu encanto e, naturalmente, por todos os teus secretos recantos.

Ficámos desde esse remoto inverno do século passado, irremediavelmente juntos.

Eu estava alojado numa casa afastada do centro, já depois da Mariana De Hemingway, porque amigos de amigos conheciam a dona e facilitaram o aluguer. Em frente à porta de entrada, uma estrada de terra batida. Do outro lado da estrada uma casa mortuária onde os familiares e amigos se despediam e velavam os falecidos. Como os mortos em Cuba não são velados nas igrejas, chegavam os corpos dos hospitais ou das casas onde foram vivos diretamente para a casa mortuária. Nos fios elétricos por cima, às vezes multidões de pássaros pretos com a cabeça e o pescoço vermelho, outras vezes os fios vazios de pássaros. Eram abutres. Auras, esclareceste na tua voz cantada e rindo para mim. Percebi que vinham em bando sempre que havia corpos para velar.

Demasiado tétrico para mim. E para ti também, tu sempre tão alegre, a morte e os abutres não condiziam com o teu sorriso de luz e com as cores com que te vestes e despes.

Mudei-me para mais perto. Um apartamento no centro, perto da Plaza de La Revolución. Debruçado da varanda via-se o icónico mural do Ché. Era um apartamento pequeno: um quarto, uma sala, uma varanda imensa, uma cozinha minúscula e uma casa de banho igualmente pequena. Dava e sobrava para nós. Também era de um amigo de um amigo. Médico e celibatário prestes a partir naqueles dias em missão para o Congo. Subalugou-me a casa na condição de não usar o quarto nem a cama que eram dele e só dele. Devia dormir no sofá da sala, não estragar nada, dar de comida ao papagaio que se chamava Lukumi, cumprimentar as vizinhas, não fazer festas ruidosas, nem tocar na coleção de máscaras africanas nem nas garrafas de rum.

Cumpri quase na totalidade o acordado.

Ao fim da tarde voltava, tomava banho e ia para a minha casa que era aquela sala forrada de livros e máscaras africanas. Em vez de me sentar na cadeira de baloiço a desfrutar da biblioteca aberta só para mim, era para ti que eu corria. Tomava banho no chuveiro elétrico, ouvia a tua voz pela varanda aberta, dava de comer ao Lukumi e voava ao teu encontro.

Não cumpri o que me propus quando entrei no apartamento do médico: não desfrutei dos livros nem consegui ensinar o papagaio a dizer "Barreirense". Li transversalmente uma coletânea de poesia latino-americana. O Lukumi, quando me vim embora, de vez em quando dizia "foda-se", expressão que não me lembro de lhe ter ensinado.

Tu ficavas à minha espera na porta da rua, depois vinhas e mostravas-me a natureza de todas as tuas coisas. Prosseguimos nas tuas noites mornas e longas, contigo a contares-me segredos e a plantares em mim todos os afetos. O teu cheiro, a tua música, o teu hálito doce perfumado de rum ficarão sempre comigo. A tua temperatura e toda essa disponibilidade para ser feliz nas coisas simples que me habituaram mal. Aprendi a nomear o universo, no teu sotaque nasalado e melado.

Comi e dormi em ti por semanas consecutivas sem me fartar nem um bocadinho.

Quando tinha de me afastar, apanhava os transportes possíveis naquele período especial e regressava depressa. Voltava sempre todas as noites para o doce de ti nas tuas ruas.

Nesse período de intensa paixão, pela primeira vez, senti vontade de largar tudo e de me juntar a ti. De vir a Portugal buscar meia dúzia de coisas e ficar contigo. Ou nem sequer vir. Por magia teletransportar os meus e ficarmos todos juntos.

Os grandes amores são assim, insensatos e loucos.

O tempo voou enquanto estivemos juntos, depois tive de voltar e estranhei-te.

Passaram muitas luas sobre o Atlântico que nos separa até eu poder regressar a ti.

E quando voltei, lá estavas à minha espera à porta do avião, a sorrir disponível no teu doce perfume de fruta, rum e tabaco.

Depois foi sempre assim de todas as vezes que voltei.

E cada vez que tenho de sair de ti, sempre que tenho de vir embora, dói-me. Dói sempre sair de ti.

Não posso nunca dizer que sou teu, porque não sou. Nasci e cresci noutras latitudes Não posso por isso dizer que sou teu. Mas a verdade é que não minto se disser sobre ti ao mundo que tu és minha. 
Que continuarás a ser minha sempre.

Porque um caso destes de amor, não acontece duas vezes numa mesma vida.

Se pudesse voltava agora mesmo, porque de ti nunca saí.

Parabéns meu amor. Parabéns Havana, estás a fazer quinhentos anos e nas fotografias que me vão chegando, a cada maré que te sobe pelo Malecon, estás cada vez mais e mais bonita. Mais linda que nunca. Ganas de ti mi amol!

TQMLH.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE, de MBarreto Condado















Eram oito horas da manhã quando cheguei a Alcobaça a convite da Câmara Municipal para participar no festival Books & Movies. Dirigi-me à Biblioteca Municipal atravessando a pequena ponte sobre o rio Alcoa.

Almocei no restaurante Frei Bernardo em excelente companhia onde entre diversas iguarias pude degustar alguns dos tentadores doces conventuais. E onde fui simpaticamente convidada para um final de noite que se veio a comprovar deveras reconfortante à lareira a ouvir falar bom português.
Mas foi naquele final de tarde sentada na esplanada da pastelaria Alcoa defronte para o Mosteiro enquanto bebericava um sumo de laranja natural e comia uma torrada que dividi com uma pomba, duas…três não paravam de chegar. Passado pouco tempo perdi-lhes a conta, mas a minha mesa parecia a escadaria da catedral de S. Paul, só lá faltava a Mary Poppins a cantar “feed the birds” e da minha torrada tão estoicamente dividida não sobraram migalhas para me reconfortar o queixoso estômago.

Pude reparar que os últimos turistas abandonavam o Mosteiro quando pouco passava das dezoito horas, descendo a escadaria principal caminhando na direcção de um falso rei que se passeia por ali tentando cativar a atenção e possivelmente algumas moedas em troca da sua imagem.
Levantara-se uma leve brisa outonal que me parecia querer beijar como se de um velho amigo se tratasse e nesse momento como que enxotadas por uma mão invisível as pombas levantaram voo na direcção do campanário desaparecendo. O falso rei prostrou-se de frente para a velha escadaria do Mosteiro, levantou a sua espada e fez uma vénia em sinal de reverência também ele se despedindo com o respeito que aquele local inspira. Mas foi quando o véu da noite começou a descer lentamente sobre as suas frias paredes de pedra que reparei que lá de dentro alguém observava. Abri e fechei os olhos só podia ser aquela parca luz a pregar-me partidas. Quando voltei a olhar lá estavam pequenos vultos por detrás das janelas do andar superior olhavam sem ser vistos ou assim julgavam. Pareciam querer garantir a calma daquela noite.

Olhei em volta todos pareciam ignorar o que ali se passava, aparentemente só eu os via.

Levantei-me da minha cadeira e caminhei na direcção do solar da cerca do Mosteiro, nesse momento vi-os colocarem os fortes capuzes e desaparecerem tão misteriosamente como tinham aparecido. Sei que não imaginei, que não era a minha fervilhante imaginação a inspirar-me para outra história com seres imortais, tenho a certeza que os vira e apesar de saber que quem me observava estava vivo sem viver sabia que podiam já não se ouvir o bater dos seus corações, mas continuava-se a sentir o calor das suas almas.

No final da noite voltei a fazer o caminho de volta atravessando aquele longo terreno de terra batida àquela hora quase deserta. Parei perto da escadaria olhando para as janelas onde antes vira os misteriosos vultos e nada. Voltei-me para partir quando pelo canto do olho me pareceu ver algo mover. Desta vez e bem nítido pude vislumbrar uma linda mulher loira que me saudava sorridente, aproximou-se por detrás dela um homem que a abraçou protector enquanto também ele me olhava. Soube quem eram mesmo sem se terem apresentado. Baixei a cabeça discreta, mas respeitosamente e recomecei a andar.

Senti passos seguirem-me a uma distância segura, mas nunca me voltei, sabia que quem o fazia não estava realmente ali e que vinha a mando do seu Senhor para garantir que chegava em segurança ao meu destino.

Só quando me sentei dentro do carro e liguei a ignição soube que me encontrava só. E ao sair de Alcobaça voltei a atravessar um espesso nevoeiro sabendo que deixava para trás algo que era só meu, aquele momento.

Lembrei-me de uma frase do escritor alemão Heinz Konsalik: “O Amor é mais forte do que a Morte” e Pedro e Inês eram prova disso afinal continuavam a viver e na sua morte tinham encontrado o seu “viveram felizes para sempre”.





terça-feira, 19 de novembro de 2019

PERDA, de Vanessa Lourenço















Mesmo entre seres humanos as palavras frequentemente faltavam em situações destas, e ele não era um ser humano. Era um animal, e sabia que tudo o que precisava era de ser. Porque quando o destino é duro, o silêncio fala mais alto do que o discurso. Ele era um gato, não sabia falar. Mas sabia ouvir no silêncio, tudo o que não encontrava nas palavras caminho para se expressar. Mais do que ouvir, ele sentia tudo o que não era dito. E por tudo isso, mesmo antes de o ser humano que era a sua familia entrar em casa, ele soube. Soube o que tinha acontecido, soube o que ele tinha perdido. Ouviu como a perda lhe retardava os passos, tocou-lhe no longo pêlo sedoso a amargura que se libertava da alma cansada daquele que lhe tinha salvo a vida, e estava agora de regresso a casa com um pedaço a menos no coração. Alguém que significava muito para o seu dono tinha perdido a vida, e levado com ele para o outro mundo um pedaço da história partilhada, deixando no seu lugar apenas as memórias. E o vazio da ausência.

Pensou em como gostaria de explicar que a morte não significava mais do que a curva da estrada, em como apenas o corpo se liberta do peso dos sentidos, em como para lá deles, nada mudou. Mas ele não sabia falar, e sabia que nenhuma dessas palavras aliviaria o sofrimento. Apenas aumentariam a frustração daquele que perdeu, porque o vazio foi tudo o que restou. Por isso ficou ali, sentado em frente da porta, até que ela se abrisse. E quando se abriu e o seu humano entrou, ele não se mexeu, e apenas a cauda comprida a cortar o espaço traiu a sua serenidade encenada. O dono entrou, olhou-o com os olhos marejados de lágrimas por um momento, e disse:

- Já sabes. Claro que já sabes.

Passou por ele sem se deter, hesitando apenas por um momento para lhe acariciar a cabeça felpuda, e dirigiu-se à sala. Uma vez chegado, atirou o casaco pelo ar e deixou-se cair no sofá como quem acaba de descobrir que a gravidade existe.

Acompanhou-o, em silêncio. Por uma vez, não miou. Por uma vez, ignorou a tigela vazia que aguardava a chegada de quem sempre a enchia com um sorriso, chamando-lhe comilão. Por uma vez, não correu a saltar para o sofá antes que o dono lá chegasse, e se queixasse de como deixava pêlo por todo o lado. Por uma vez, saltou para cima do sofá, e apenas esperou.
Quando procurou os olhos do humano que amava, encontrou-os perdidos; quando lhe fitou o rosto amargurado, notou os lábios entreabertos num grito que nunca chegou a acontecer, e que, no entanto, ecoou silencioso por todos os cantos da casa.

Num impulso, avançou. E silenciosamente (digno de um gato), aproximou-se e aninhou-se-lhe no colo. E ronronou. Alguns segundos depois, ouviu o dono soluçar, mas não se mexeu. Esticou-se apenas para encontrar com as patas o peito que estremecia, e ronronou de novo. Por fim, o seu humano disse:

- É um buraco tão fundo, tão feito de nada. Parece que vou cair nele e desaparecer para sempre, parece que é tudo o que existe. E, no entanto... esse ronronar embala o meu coração. Eu ainda não quero ser salvo deste luto, e, no entanto... contigo aqui, posso sofrer sem ser julgado. Sem sentir a pena dos outros. Mas sobretudo, sem estar sozinho.

O grande gato malhado aconchegou-se mais no seu colo e virou a barriga felpuda para cima, retraindo e soltando as unhas afiadas como se pressionando uma matéria sólida e invisivel qualquer. De repente, fixou os olhos no ser humano que tanto amava, e com eles lhe disse:

- A morte é uma curva no caminho. Um caminho que se estende para os que vão, e para os que ficam. E como caminho que é, leva tempo a percorrer. Deves sentir a perda, permitir que se entranhe no teu peito, deixá-la consumir-te sem reservas até que a sua força se esgote. Até que tudo o que reste, seja seguir em frente. E eu estou aqui, tu sabes que estou aqui.


segunda-feira, 18 de novembro de 2019

BEIJA-ME EM SILÊNCIO, de Ana Ribeiro















Beija-me em silêncio
Como da primeira vez
Naquele nosso encontro fugaz
Beija-me em silêncio
Outra vez
Agora
Não digas nada
Faz…

No sítio de sempre
Retratado na pintura
Do nosso quarto
Onde havia terra
E mar à mistura

Onde fomos muito mais
Do que apenas dois seres pintados
Á mão
Fomos vida
Fomos chão

Onde foste aquele amanhecer
Quase perfeito
E onde o meu coração
Ficou sem jeito

Onde vi o brilho do Sol no teu sorriso
Onde senti a terra húmida e fresca
Dos teus braços
Em mim
E o balançar das árvores
No teu corpo contra o meu
Precisava de ti!
E nada se perdeu…

Onde ouvi o som do vento
 Na tua voz
O agitar das ondas do mar
Nos teus olhos
Na tua felicidade
No ar
Vivi cada momento!

Procurei-te
Nos contornos da natureza
Na sombra do que há em nós
Encontrei-te
Ficamos sós
E descobri a pureza
Da paixão
E do que sentimos
Vivo a partir de ti!

Contigo
Ao meu lado
É amar
Noite e dia
Mesmo ao luar…

Naquele lugar
Paraíso do nosso ser
Que tudo acalma
Onde me quero voltar
A perder
Contigo
Onde deixamos a nossa alma

Beija-me em silêncio
Como da primeira vez
Mas agora…

… para sempre!

domingo, 17 de novembro de 2019

ESSA COISA CHAMADA FELICIDADE, de Cristina Das Neves Aleixo















Neste dia da mãe dei por mim a pensar na felicidade que experimentamos ao longo das nossas vidas. Poderão perguntar-se o que é que uma coisa tem a ver com a outra. Tudo. A verdadeira felicidade reside nos diversos momentos de partilha, amor, cumplicidade e interacção desinteressada com o outro; no que desta forma recebemos e, em igual medida, sem dúvida, no que damos e tudo isto faz parte de se ser mãe, ao mesmo tempo que sem essa figura não existiríamos para viver as maravilhas que a vida encerra.

A felicidade está presente no primeiro momento em que tomamos consciência daquele ser que nos protege, alimenta e acarinha: a nossa mãe, precisamente – sem desprestígio para os pais, obviamente, mas o primeiro contacto é, logicamente, maternal –, e em todas as fases do nosso crescimento e construção enquanto seres humanos.

Mora em todas as vezes que nos perdemos nos olhos de alguém, amamos e nos deixamos amar sem reservas; em todas as horas em que temos gosto em aprender uns com os outros e crescer como pessoas; de cada vez que uma mudança construtiva tem lugar, seja de casa, emprego, hábitos ou estilo de vida; nos momentos em que rimos com os amigos e os familiares; no abraço apertado e fraterno aos nossos pares; quando apreciamos e respeitamos o que nos rodeia; em todas as situações em que escolhemos – sim, é uma escolha nossa – ver para além dos obstáculos e decidimos superá-los e sempre – sempre! - que ajudamos gratuitamente outrem.

Esta última é uma das maiores sensações de felicidade que existem e produz verdadeiros milagres: o altruísmo puro. Aquela certeza de que se fez alguém feliz, às vezes com pouco e de forma simples, mas que pode mudar completa e positivamente o dia de outra pessoa. É uma sensação incrível de utilidade, de pertença a este mundo, de tão pura felicidade que se torna contagiante. As pessoas mais queridas, carismáticas e realmente influentes são sempre, sempre as mais felizes. Isto não significa que não tenham problemas e adversidades a ultrapassar. Não. Longe disso. Apenas compreenderam que tudo isso é inerente ao processo de se estar vivo e, portanto, é impossível viver sem percalços, sem dissabores, uns maiores outros menores mas, ao entender e aceitar essa inevitabilidade, escolheram passar pela vida de forma positiva e construtiva - podem chamar-lhe “ver o copo meio cheio”, se quiserem – e são elas que, habitualmente, marcam pelas diferenças que operam e são precursoras da felicidade.

Depois de décadas a absorver tudo como uma esponja, quando já estamos maduras, somos nós que chegamos ao momento em que fazemos o esforço hercúleo de trazer à vida um novo ser, ao segundo em que o põem escaldante sobre a nossa barriga e dos nossos olhos escorre o embevecimento em forma de lágrimas oriundas da alma, ao primeiro vislumbre daquela extensão de nós. E o ciclo está completo. É mais um momento inesquecível que habitará o álbum feliz da nossa existência.

Essa coisa chamada felicidade é um conjunto de fragmentos mais ou menos vividos que, dependendo da forma como escolhemos olhar para eles e do grau de importância de decidimos conferir-lhes, poderão levar-nos a sermos tremendamente felizes ou verdadeiros miseráveis. Aprende-se, ensina-se, é reveladora e transformadora.

Essa coisa chamada felicidade é um modo de estar e de sentir. Todos os dias.