quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ERA UMA VEZ UM ROUXINOL, de Vanessa Lourenço
















Era uma vez um rouxinol que defeitos teria, mas cuja alegria animava as suas asas de tal forma que apenas os olhos brilhantes traíam os seus medos e as suas inquietações.

Era uma vez um rouxinol que estendia as suas asas ao sabor do vento e da terra que tão bem conhecia e estimava, e que com elas cobria de sorrisos quem com ele se cruzava e parava para reparar na vida que lhe cobria os passos e os sonhos.

Era uma vez um rouxinol que fazia parar e sorrir todos aqueles que o ouviam cantar.

Dizem mesmo que contava histórias, histórias das suas aventuras e das peripécias que a vida lhe entregava. Mas o que ele gostava mesmo era de cantar, cantar para aqueles que lhe queriam bem, o que lhe dava realmente prazer era partilhar os dons que a vida lhe entregara com a família que escolheu. E como a verdadeira família o apreciava, mesmo aqueles que apenas de vez em quando conseguiam vê-lo. Afinal de contas, não existe distância dentro do coração. E não existem passos que suprimam os laços.

Como é que eu sei tudo isto?

Porque não eram penas que lhe cobriam o corpo, e as suas canções mais bonitas agraciavam o mundo não pelo bico de passarinho, mas pela gaita de beiços que não era mais, afinal, do que uma extensão de si mesmo. E como gostávamos de nos deixar levar pelas suas canções. Como nos faziam genuinamente sorrir.

Um dia, o rouxinol da nossa história decidiu que estava na hora de se despedir de nós. Passara os últimos tempos dentro de uma gaiola pequena demais, e perdeu as suas canções. A juntar a isso, do outro lado do véu que separa os mundos havia alguém que o esperava. E também do outro lado do véu aguardava a sua liberdade.

A jaula abriu-se, e o nosso rouxinol respirou fundo. Respirou fundo e piscou os olhos porque de repente, uma luz intensa surgiu à frente do pequeno bico ansioso, ofuscando-o durante uns momentos. Mas depois, a luz mostrou-lhe o que o esperava do outro lado do medo, e ele deixou-se finalmente ir. Bateu as asas pela primeira vez em muito tempo e lançou-se no ar. Livre e renascido.

Dá um beijinho à tia, por favor. Até que nos encontremos de novo.
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*Ao meu tio avô Manuel Osório. As canções do espírito nunca se esgotam, nem aquelas que são tocadas com mestria na gaita de beiços.


Vanessa Lourenço

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