quarta-feira, 18 de abril de 2018

CRÓNICA | Noturno arco-íris, O trovão na Serra de Sintra | HELDER MENOR





















Estávamos no começo de abril e tínhamos à volta de vinte anos. Eramos quatro e apanhamos o comboio no Rossio para Sintra. Levávamos nas mochilas o essencial para três ou quatro dias de liberdade. Uma tenda grande e velhinha, chouriços para assar, latas com atum e salsinhas, um fogão a gaz, esparguete, sonhos, fantasias, vinho, aguardente e chocolates. 

Saídos da estação, subimos e embrenhámo-nos nos matos. O mais longe possível da civilização, assim quis. Do estradão de terra, viramos à direita por um caminho estreito que subia íngreme. No cume da colina, longe do mundo montamos a tenda. Instalamo-nos para desfrutar da serra, da privacidade que o mato dá e da companhia uns dos outros. As duas meninas organizaram a tenda e a comida e os rapazes, decidimos ir apanhar lenha e cavar uma "casa-de-banho”.

Quando ficou de noite acendemos uma fogueira dentro da cova que nos aquecia e dava para assar chouriços, mas suficientemente discreta para ser invisível a quem estivesse afastado. Estávamos os quatro animados, comemos e bebemos vinho. Foi então que começou a levantar-se vento e a pingar. 

Recolhemos dentro da tenda para jogar às cartas e fumar através do fecho da porta. A chuva e o vento não davam tréguas. Sobretudo o vento cada vez mais forte.  Desistimos dos cigarros.

O que é que fazemos o que é que não fazemos… O vento respondeu rasgando o sobre-teto da tenda. Ai Ai e agora? Agora aguentamos enquanto o pano do teto der....

Não deu muito. Minutos depois também o pano fino de algodão apodrecido se rasgou e estávamos expostos aos elementos, encharcados e encolhidos.

Decidimos desmontar e descer até à vila. Assim como assim, já estávamos molhados e na estação dos comboios, sempre tínhamos um teto. A estação estava a uma hora de caminho... Mas é quase sempre a descer, alguém animou.

Encharcados, carregados e de lanternas acesas iniciamos a descida pelo caminho ainda mais estreito pela escuridão da noite. Estávamos vagamente desorientados. Do lado direto do caminho que não reconhecíamos, uma casa que não tínhamos visto na subida. As janelas iluminadas. À nossa frente e fazendo-nos parar à chuva, um são bernardo enorme, felpudo e amistoso ladrava de contente e dava saltos a nossa volta. No pescoço uma placa que dizia Trovão. Ladrava para nós, corria para o portão da casa e voltava a correr para nós a ladrar. 

Foi então que se acendeu uma luz amarela por cima da porta e através dela surgiu uma senhora. Eram precisamente meia-noite e três minutos.

A senhora, sem idade, tinha os olhos azuis muito claros e o cabelo tão louro que parecia branco. Estava vestida com um daqueles quimonos japoneses que algumas pessoas usam como roupão, por baixo, provavelmente o pijama porque trazia calçadas pantufas e meias grossas de lã.

- Não tenham medo do Trovão que não faz mal!!! Mas o que é que estes jovens, andam aqui a fazer numa noite destas?
Contamos a nossa história. A senhora ouviu educadamente e concluiu.

- Não vos digo para ficarem cá dentro da casa, porque não seria apropriado, afinal somos de épocas diferentes... Mas podem abrigar-se na garagem que esta vazia.
Foram estas as palavras. Agradecemos e aproveitamos. 

A garagem estava de facto vazia. Lá fora a chuva e o vento continuaram. Minutos depois a mesma senhora loura voltou com toalhas secas e com um tabuleiro onde fumegavam quatro canecas de chá.

Batizamos o chá com macieira de uma garrafa sobrevivente do diluvio, despimos a roupa molhada e secámo-nos com as toalhas. Pusemos os sacos camas em cima de duas mantas que e deitámo-nos procurando aquecer. Dormimos tão profundamente como se pode dormir, quando se tem vinte anos, se está cansado, vagamente bêbado, saciado e feliz. 

Acordei com o som da água a pingar no chão ao lado da minha cabeça. Estranhei porque na noite anterior o telhado da garagem não me tinha parecido tão decrepito. Pensei em levantar-me para fazer xixi, mas estava nu debaixo dos sacos camas e levantar-me pareceu-me um sacrifico maior do que aguentar mais um bocadinho. Fechei os olhos.

Então ouvi o grito de uma das nossas parceiras e o estilhaçar das canecas de louça da noite anterior mais o som estridente do tabuleiro de lata a cair no chão. 

Levantámo-nos todos. Abrindo a porta da garagem que caiu no chão. E vimos.

A casa era uma ruína. O jardim completamente coberto por mato. Onde foram as janelas havia apenas o buraco na parede. Nem portas nem vidros. O mato tinha crescido alto e tapava todos os caminhos. O portão da frente, por onde tínhamos entrado estava ferrugento e fechado com uma igualmente ferrugenta corrente grossa. No chão em frente ao que foi a porta da cozinha, uma lápide com um baixo-relevo de um cão: Trovão, nascido em janeiro de 1946 falecido em março 1959.

Não fugimos a correr, mas também não ficamos a falar sobre o sucedido. Arrumamos o que havia para arrumar e saímos. Depressa descemos à vila com sol que tinha aberto e depressa apanhamos o comboio para Lisboa. Não voltamos a falar na casa, nem na senhora nem no Trovão. Nunca mais.


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