segunda-feira, 9 de abril de 2018

CRÓNICA | Os gatos não sabem falar | VANESSA LOURENÇO



Sou uma mulher, e vivo no mundo dos homens. Isto porque no nosso planeta podem bem existir um sem número de mundos diferentes, dos quais nem nos damos conta ou preferimos ignorar. Coisa de humanos, zonas de conforto e outros que tais. Não tem que existir um motivo lógico, é assim que funciona. E foi por isso que naquele dia, quando o imenso gato amarelo se sentou ao meu lado e começou a palrear, não me contive. Disse-lhe:

- O que pensas que estás a fazer? Os animais não falam!

Ele olhou-me de lado, mas continuou a falar, ignorando-me deliberadamene. Sei que é verdade porque apesar de permanecer calmamente sentado ao meu lado, a cauda se agitava energicamente atrás dele. Insisti:

- Pára com isso. Esqueceste-te de como ser um gato? Os gatos sobem para cima das mobílias, largam pêlo e agem como se fossem donos do mundo. Mas não perdem tempo a falar com os seres humanos.

Ele continuou a agitar a cauda comprida e pude sentir que estava a ficar tenso. Finalmente, interrompeu-se e suspirou. Depois fechou os olhos e ficou apenas ali, em silêncio. Claro que ao fim de uns minutos o silêncio se tornou quase insuportável, e por isso foi a minha vez de falar:

- O que se passa, ficaste ofendido por te mostrar como um gato se deve comportar no mundo dos homens?

Esperava irritá-lo o suficiente para prolongar a troca de argumentos, mas tudo o que consegui foi que se virasse ligeiramente de costas para mim e começasse a lamber a pata com a lingua áspera, esfregando-a no focinho logo de seguida. Conhecem aquele dizer popular sobre o feitiço se virar contra o feiticeiro? Pois foi exactamente o que aconteceu: quis irritá-lo, e quem estava a ficar irritada era eu. Bufei:

- Estás a ignorar-me? Que mal fiz eu para me ignorares? Ficaste ofendido com a verdade?
Olhou-me de soslaio e por um segundo apenas, julguei ter visto um trejeito nos bigodes que se assemelhava bastante a um sorriso presunçoso. Ora não querem lá ver que a criatura peluda estava a divertir-se às minhas custas? Não, não ia aturar isso vindo de um ser que tomava banho de saliva e vomitava bolas de pêlo. Ele tinha ido longe de mais. Resmunguei:

- Quem pensas tu que és para me tratares desta maneira? Achas que sou alguém que podes simplesmente desprezar?

Passaram o que calculo terem sido meia dúzia de segundos antes que se erguesse nas quatro patas, sacudindo o corpo peludo e espalhando uma nuvem de pêlo à sua volta. Ocorreu-me instantaneamente que felizmente não sofria de alergias, ou podia estar em maus lençóis. Depois caminhou alguns passos até ficar de frente para mim, e sentou-se. Olhou em volta, e subitamente fixou os olhos nos meus. Até hoje penso, que se tivesse tentado desviar o olhar, não teria conseguido. Mas por qualquer motivo alheio à minha compreensão, nem sequer tentei.

De olhos perdidos na imensidão dos seus olhos verdes, o tempo pareceu parar. Em minha defesa tentei refilar de novo, mas não consegui. Estava perante um daqueles momentos solenes em que caem por terra todas as máscaras e ideais de grandeza, e completamente desprovida de acidez ou refilice. Por isso deixei-me ficar quieta e calada, de olhos presos nos dele. Nem sequer me lembro de pestanejar. E foi então que ele falou:

- Estás mais calma?

Gaguejei, e o melhor que consegui foi abanar a cabeça em assentimento. Pareceu satisfeito, e continuou:

- Bem-vinda de volta.

Franzi o sobrolho e inclinei ligeiramente a cabeça, e nesse instante ocorreu-me que estava a ficar com as pernas dormentes. Mas não me mexi. Estava demasiado curiosa. Perguntei:

- O que queres dizer? Como assim, de volta?

E foi então que aconteceu: o gato amarelo cresceu. Não, não que tenha ficado maior ou mais alto. Não era um leão ou uma criatura mítica, era um gato. Mas cresceu... como se, de repente, o seu espírito tivesse transbordado do seu corpo e se expandisse para lá dos limites do pêlo amarelo. Arregalei os olhos, mas em vez de assombro, tudo o que consegui sentir foi uma paz imensa. Algo aproximado? A sensação de conforto quando nos deitamos entre cobertores lavados numa noite de inverno, com a chuva a cair lá fora. Não é igual, mas aproxima-se bastante. Ele refraseou:

- Bem-vinda de volta a casa.

Eu devo ter feito uma careta tão estranha que ele lançou o focinho para trás, numa gargalhada. Os gatos conseguem rir? Continuou:

- Tu vives no mundo dos homens, e no mundo dos homens precisas de usar máscaras para sobreviver. Máscaras que de tão enraizadas já, são como a tua segunda pele. Mas com elas postas, perdes de vista todos os outros mundos. Perdes de vista a verdade pura de todas as coisas. Quando comecei a falar contigo há pouco, conseguiste ouvir-me. Mas depois activaste as tuas máscaras, e tudo o que viste foi o meu corpo. O corpo de um ser inferior. Porque eu sou um ser inferior no mundo dos homens. Mas quando me olhaste nos olhos, viste algo neles que fez as tuas máscaras cairem. E quando caíram, tu viste outros mundos. Viste a verdade. E voltaste a conseguir ouvir as minhas palavras.

Enquanto o ouvia, senti como se um véu de seda atravessasse o meu corpo e o enchesse de energia, como se também eu estivesse a ultrapassar agora os limites físicos do meu corpo. Como se na verdade algo se tivesse quebrado dentro de mim e eu fosse agora capaz de ver muito além do mundo dos homens, mundo a que na maior parte do tempo ainda pertencia. Quando tomei novamente consciência dos olhos dele pregados nos meus, não vi apenas um gato: vi um espírito igual ao meu. Mais do que isso, vi nele um mestre. Disse-lhe:

- Obrigado. Não consigo deixar de pensar que se mais seres humanos soubessem disto, o mundo dos homens se aproximaria da verdade de todas as coisas. Tudo faria mais sentido. Seríamos pessoas melhores.

Não se mexeu, mas senti que esfregava o focinho cor de rosa na minha mão. Respondeu:

- Não entendeste ainda? É esse o teu propósito. Conta-lhes as histórias. Até porque como bem sabes, quem lê neste momento estas palavras não chegou aqui por acaso. Leitor desta crónica... sentimos a sua falta. Bem-vindo de volta a casa.



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