terça-feira, 5 de junho de 2018

CRÓNICA | Noturno Arco-íris | HÉLDER MENOR


O joelho esquerdo

Acontecia que era idolatrado por onde quer que fosse. Novos e velhos, os benfiquistas e os outros, todos, o reverenciavam e acorriam a cumprimentar. Quase todos o vinham saudar e mesmo ainda sem a invasão das máquinas fotográficas nos telefones eram muitos que acorriam a tirar fotografias abraçando o vivo panteão da glória de um povo sem glórias.

O Eusébio era Deus para os convertidos. Para os ateus, era apenas O Seu Profeta. O futebolista geria com a humildade possível o religioso cortejo permanente à sua volta. Ofereciam-lhe garrafas de wiskie, relógios e camisolas. Ramos de flores, porta-chaves e terços. Ele sorria agradecido sem saber o que dizer a tanta generosidade.

Em termos de equipamento desportivo as ofertas eram massivas.  Porque nos anos oitenta e noventa, antes da invenção das grandes superfícies, não havia loja de artigos de desporto que não lutasse por ter o Eusébio a visitar o estabelecimento. Tiravam fotografias à vedeta sorridente em várias poses: a cumprimentar o dono, sentado a experimentar um modelo de sapatilhas, a dar toques numa bola, a segurar numa taça... enfim a imaginação nunca foi limite. Depois as fotografias eram reveladas e escolhia-se a melhor para fazer o poster. Ampliava-se e emoldurava-se o Eusébio que ficava enorme e sorridente, em ponto estratégico, a abençoar o espaço.

O jogador não cobrava pelas visitas. Os donos das lojas retribuíam com ténis e roupa desportiva. As vezes por graça, saía da loja vestido e calçado com os presentes oferecidos e a roupa usada à entrada vinha dentro de um saco de desporto obtido da mesma forma. Assim se acumulavam em casa caixas e caixas de roupa, sacos de desporto e botas e sapatos de ténis que o futebolista por princípio não vendia. Dizia: não vendo o que me foi oferecido. E ia distribuindo o material pela numerosa família, amigos e conhecidos. 

Foi assim que uma prima remota do Eusébio, que era cabeleireira em Massamá ficou com um fato de treino da nike que usava orgulhosa aos domingos de manha e uma caixa com uns ténis adidas número quarenta e três. Acontece que a senhora calçava trinta e sete...

Vivia a dama mais ou menos sozinha ansiando pelas visitas  esporádicas de um cavalheiro retornado que tinha uma empresa de maquinaria para a construção civil em São João da Madeira e uma família com filhos numerosos na Maia. O retornado montou-lhe o salão e prometeu-lhe que se divorciava da mulher e se casava com ela. Os anos passavam e a promessa do divórcio não vinha.

A prima do Eusébio tinha tanto de exuberante na sua cor de café com leite, carapinha solta e ancas largas como tinha de tristeza nos olhos de quem espera. Com o coração desfeito compensava as mágoas em caixas de bombons de chocolates da Arcádia que o retornado trazia, cumpridor das pequenas promessas. O tempo passava e os bombons iam ficando armazenados no rabo imenso da doce cabeleireira triste.

Uma alma assim precisa de consolo quase permanente e paciência infinita, tanto como chocolates. Por isso consumia regularmente apoio espiritual e conversas com espíritos ancestrais. Precisamente o ofício exercido e ministrado pelo mestre ocultista Carlinhos da Matola. Velho feiticeiro moçambicano, radicado desde os anos setenta num apartamento de duas assoalhadas algures no concelho de Sintra em morada secreta. O Carlinhos apoiava a cabeleireira e  aturava-lhe as crises. Servia de bengala espiritual nas crises da mulata senhora e de mais uma restrita e mestiça clientela selecionada. Cobrava pelas consultas, cobrava pelos trabalhos de feitiçaria e cobrava pelas curas com ervas. Não cobrava pelos sábios conselhos nem pela paciência. Ia levando a vida sustentando-se a ele e aos seus sem excesso mas também sem grandes apertos. 

Num dia em que foi fazer uma defumação ao salão da parente do futebolista, estando a senhora especialmente agradecida pelos serviços, perguntou-lhe:

- quanto é que calça mestre Carlinhos?"

Cioso do sigilo de tudo quanto dizia respeito à sua vida e guardando sempre um supersticioso respeito pela sua privacidade, o curandeiro respondeu evasivo.

- Então menina, mas a menina pergunta porquê?

- É que tenho aqui uns ténis Adidas lindos, novinhos dentro da caixa que ofereceram ao meu primo...e se lhe servirem, são seus...

- Calço quarenta e três, mas não posso usar sapatos calcados por outro homem, porque a minha alma de feiticeiro vai buscar tudo quanto é doença daquele que andou com os sapatos antes de mim.

- Ó Mestre, eu não lhe ia dar uns sapatos usados...nada disso! São novos. Novinhos em folha. Ainda estão dentro da caixa. 

Esvoaçante e pesada, gingou coquete as ancas até dispensa onde guardava os artigos de limpeza e as tintas do cabelo. Voltou com a caixa branca de cartão com os sapatos dentro e letras a preto escritas em cima. Envoltos em papel estavam os ténis. Eram lindos. De cabedal e cozidos com pontos certinhos, brancos e azuis. Cheiravam a novos e na loja custavam uma fortuna.

O feiticeiro apesar de ter ultrapassado há muito as suas setentas voltas ao sol conservava o bom gosto de se achar bonito. Quando pegou nos sapatos desportivos ouviu as vozes dos espíritos sussurrarem: não aceites. Imediatamente percebeu que o Eusébio já tinha calçado aqueles sapatos. Mas os ténis eram bonitos, bons e ainda por cima deviam ser extremamente confortáveis. O velho senhor não resistiu e aceitou a oferta. Por pudor não os calçou logo. 

Na manha seguinte, depois do seu banho e matinais obrigações de curandeiro, calçou as Adidas.  Vaidoso e sorridente saiu de casa. Não tinha andado nem cinquenta metros. Simultaneamente sentiu e ouviu estalar no joelho esquerdo a engrenagem de carne que se partia. Qualquer coisa entre ossos e tendões. Logo a seguir ao som, chegou a dor, penetrante como uma broca. Contrariando por vaidade, mas claramente a coxear, seguiu o seu caminho até à pastelaria  de todos os dias na esquina de todas as manhas onde lia o jornal e comia o queque com a meia de leite. Entrou e sentou-se na mesa do costume e esperou que o servissem mesmo sem ter feito o pedido.

Amigo do velho, pintas, agnóstico e “confiançudo”, o empregado desviou-se da perna esquerda esticada inoportunamente na estreiteza do estabelecimento. Não reparou nos ténis novos do feiticeiro, apontou o joelho e brincou:

- Então Sô Carlos, andou a jogar à porrada com algum espirito?

- Nada disso menino, foi da pancada que levei no jogo contra a Inglaterra.

Riram os dois.

O empregado ficou a pensar no reumático quem nem os bruxos poupa e o feiticeiro sorriu satisfeito de poder dizer a verdade.


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