sábado, 16 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | A (quase sempre) insustentável sede de poder| ISABEL DE ALMEIDA

O poder poderá ser equacionado em diversos contextos, apenas para exemplificar, pode advir de informação ou de conhecimento mais alargado em determinada área do saber, mas hoje pretendo tecer algumas considerações acerca do poder político ou politizado, entendendo-se por tal o desempenho de funções superiores à frente de um Estado, órgão político, instituição pública ou privada, mormente, considerando-se uma organização hierárquica na gestão de tais entidades.

Num exercício de mera abstracção muitas motivações podem determinar o exercício do poder político ou politizado, idealmente, a mais genuína, desejável e ingénua ( decorrendo este último adjectivo do meu desencanto pessoal com a política, os políticos e o algumas instituições politizadas)...será a vontade de promover o cabal funcionamento de um aparelho de Estado ou de uma instituição, de modo a garantir o bem colectivo (correspondendo o colectivo ao universo de indivíduos que são afectados directamente pelo funcionamento de tais entidades públicas ou privadas) satisfazendo as necessidades mais prementes dos destinatários das decisões e acções de efectivo exercício de poder!

O que nos faz ter especiais cautelas, duvidar metodicamente, analisar criticamente, observar à distância e ir retendo na memória detalhes que, tantas vezes, por mais aparentemente simples que sejam, muito revelam da personalidade, intenções e futuras acções de quem almeja o poder? 

       Pois bem,

 Primeiro, a experiência pessoal. O nosso percurso de vida, ensina-nos que muitas vezes erramos nos julgamentos ou apreciações que fazemos de quem se nos apresenta como candidato a cargo político ou institucional. Isto não constitui novidade, nem deve ser motivo para recriminações pessoais, já que perante terceiros nunca estaremos na posse de todos os dados para avaliar alguém, há sempre uma natural e humana margem de risco!

Em segundo lugar, quantas vezes optamos por escolher entre o menor de dois ou mais males. Sim, há momentos temporais em que as alternativas para quem exerça o poder nos suscitam expectativas tão baixas que, em desespero de causa, e apenas para evitar uma abstenção, escolhemos por impulso quem julgamos ser o menos mau dos vários maus candidatos ao exercício do poder!

Por fim, e em terceiro lugar, quantas vezes a desilusão é de tal monta que, comodamente, como se tal nos eximisse de responsabilidades em termos de exercício pessoal de deveres cívicos evitamos escolher quem quer que seja, votamos em branco, nulo, ou contribuímos para os números da abstenção! Pode ser criticável, em especial  abstenção, mas as percentagens de votos nulos, brancos ou da votantes em abstenção são um excelente indicador da perspectiva do público (do colectivo) sobre o poder político e a forma interesseira, ligeira ou oportunista como este vem sendo exercitado.

O sentimento de desilusão, o desencanto com a política, os políticos e, em última análise, o exercício do poder não surge do nada, surge de um acumular de circunstâncias.

E visto que está, sumariamente, o enquadramento genérico, bem como a minha perspectiva pessoal na qualidade de membro da comunidade dotada de Direito de Voto, façamos agora uma incursão reflexiva sobre os insondáveis desígnios do exercício do poder, ou das meras pretensões ao seu exercício.

O que vou confessar pode chocar alguns leitores, mas quem já conhece a minha frontalidade não ficará alarmado. Numa clara ambiguidade que nem eu própria sei explicar, ou que talvez decorra de factores como a formação em Direito na vertente de Ciências Juridico-políticas e da minha paixão por história, do ponto de vista puramente intelectual, reconheço ser divertido observar os jogos de poder, as alianças que se fazem e desfazem, as pequenas e grandes manipulações, a ausência ou o exercício de estratégias políticas, as abordagens mais ou menos atrevidas em busca alianças, a maior ou menor honestidade intelectual dos candidatos a cargos de poder. Todos estes detalhes passam pelo meu crivo analítico e quantas vezes assisto a situações que são verdadeiramente surreais, e chegam a suplantar a ficção de melhor qualidade, "Kafka está vivo!", como dizia um saudoso amigo e Colega meu!

Tantas vezes o poder tenta, cega, embriaga e tolda o raciocínio dos homens, tantas vezes é ilusória a sua grandiosidade, o dark side que me assusta deveras é que pelo meio desta embriaguez é a perda de rumo das instituições politicas ou politizadas devido à persistência e insistência em cuidar mais dos interesses pessoais do que dos colectivos, e é especialmente confrangedor sequer equacionar, quanto mais assistir, aos danos colaterais a atingir inocentes no âmbito de todo este processo, e tudo em nome do poder!

Muitas consciências se perdem nestas andanças de alguma "politicazinha", para muitos o exercício do poder é, nada mais, do que o caminho fútil da escalada social, da ascensão forçada (e aterroriza pensar a que custo) a um patamar onde, por inerência, ou por mérito pessoal nunca chegariam. Obviamente, quando o cenário se completa da forma menos natural e menos transparente ou honesta, chegam questões gravíssimas como benefícios económicos indevidos para si ou para terceiros, troca de favores, "lobbies" e, daqui facilmente se pode caminhar em direcção à prática de ilícitos criminais, em última análise!

Importa pois, estarmos atentos, alerta, termos sentido crítico, sabermos separar o trigo do joio, não generalizar (ainda se encontram pessoas conscientes no seio de tanta inconsciência, é importante frisar esta ideia) e resistirmos com toda a força a integrar a natureza de danos colaterais! Infelizmente, nem sempre podemos escolher bem, infelizmente não somos perfeitos, e infelizmente sofremos desilusões, mas até com os erros devemos aprender, e nunca é tarde para corrigir erros de julgamento! Errar é humano! E que todos estejamos cientes que o poder é tentador e pode corromper mesmo as almas mais puras!

Num mundo ideal todos os políticos seriam honestos, todo o poder teria como objectivo servir o bem público, e todos nós seriamos Deuses e não humanos!

"É uma experiência eterna que todos os homens com poder são tentados a abusar."

Montesquieu

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