sábado, 25 de abril de 2020

AQUELE DIA DE ABRIL, de Fernando Teixeira















O dia da Revolução dos Cravos, com o dramatismo da evolução dos acontecimentos e das operações militares, acentuado pela esperança de um tempo novo e pela ânsia de liberdade gritada a plenos pulmões no fim daquela tarde de Abril de 1974, permanecerá sempre na memória daqueles que o viveram e sentiram, então exultantes, a vitória que iria conduzir finalmente ao termo do regime político vigente.
Nos dias seguintes, a alegria do povo foi contagiante, enchendo as ruas e as praças de um país inteiro em festa, inebriado pela esfuziante novidade da liberdade conquistada. Cravos lançados ao ar ou transportados na lapela, ao som de canções antes proibidas e de gritos de que o povo unido jamais seria vencido, abraços entre amigos e desconhecidos ou entre militares e populares agradecidos… Era tempo de sonhar, de concretizar promessas adiadas, de projectar o futuro, de dar cumprimento aos objectivos traçados pelo Movimento das Forças Armadas: descolonizar, democratizar e desenvolver.
Passada a euforia, o nascimento da democracia trouxe meses conturbados, em que a súbita libertação de pulsões, aprisionadas por décadas de censura e repressão do Estado Novo, conduziu ao extremar de posições políticas e ideológicas, gerou conflitos e provocou instabilidade social. Passos titubeantes de um regime novo que, ainda criança, aprendia então a caminhar. No Parlamento, sucessivos e voláteis governos provisórios percorreram um tortuoso caminho que desembocaria nas primeiras eleições livres. Com todas as crises de crescimento, a democracia teve a sua juventude, sempre procurando um rumo próprio, até se tornar adulta, com todas as virtudes e defeitos de qualquer ser adulto.
Após a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, Portugal consolidou o seu regime democrático numa Europa aberta. Nos anais da História, para trás tinham ficado décadas de um país fechado sobre si mesmo, analfabeto e atrasado, estrangulado no seu desenvolvimento e na abertura ao exterior por um regime fascista que se regulava e sustentava a si próprio. O natural progresso e o desenvolvimento tecnológico dos anos posteriores iriam ajudar a consolidar o novo regime e dar novas perspectivas a um modus vivendi da sociedade portuguesa.
Passaram-se 46 anos desde o 25 de Abril de 1974. Portugal muito mudou desde então, para melhor. Alguns poderão dizer que essa mudança seria inevitável com a evolução política e económica da Europa Ocidental, na aproximação e entrada no séc. XXI. Mas o regime democrático teve também um papel muito importante nessa evolução, ao permitir que o nosso país abrisse os seus horizontes e abraçasse o futuro.
Como qualquer moeda que tem duas faces, o caminho que trilhámos após a Revolução dos Cravos não foi, e continua a não ser, imaculado. Nem só de aspectos positivos se reveste o Portugal de Abril. Em muitas componentes da nossa vida política, social e económica, ainda há um longo caminho a percorrer, nunca terminado. À modernização do nosso país, há que conseguir ganhar pontos, muitos pontos, no combate à fraude e à evasão fiscal, no combate à corrupção e ao tráfico de influências, há que garantir uma Justiça célere e eficaz, implementar uma mais justa distribuição da riqueza, valorizando o mérito e o trabalho, garantir condições de vida digna aos mais desfavorecidos, eliminando bolsas de pobreza, dignificar o Ensino e os nossos professores, fortalecer o Sistema Nacional de Saúde e honrar os seus profissionais, dar a oportunidade de realização e saída profissional aos nossos jovens, combater assimetrias… são tantas, tantas as arestas que ainda temos por limar!
Uma última palavra para um homem que não podemos esquecer, antes honrar: o Capitão Salgueiro Maia, cuja determinação e valentia tiveram um papel fundamental no dia 25 de Abril de 1974, para que o nosso país transitasse para um regime democrático, da forma como aconteceu. Um homem que fica na memória de quem viveu a Revolução dos Cravos e que, infelizmente, nos deixou cedo demais!

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)


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