domingo, 3 de maio de 2020

A CASA, de MBarreto Condado















“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”


No momento, em que a quarentena nos começa a afectar mais do que esperávamos e as palavras se tornam no nosso último refúgio.

Quando Vinicius de Moraes escreveu a letra de “A Casa”, não sabia o quanto me ia ajudar neste dia da mãe, finalmente percebo que a quarentena não só me tornou uma pessoa mais atenta ao que me rodeia como me faz pensar na actualidade das suas palavras.

A verdade é que vivo rodeada por duas casas. Sim, leram bem, duas casas.
E azar dos azares, a única que fica paredes meias comigo é segundo as próprias palavras de Vinicius: “Era uma casa, muito engraçada, não tinha tecto, não tinha nada,…”, porém,  verdade seja dita, tecto tem.

“Ninguém podia entrar nela, não. Porque na casa não tinha chão,…” o tipo de chão que tem não sei, mas asseguro que tem alcatifa de merda e mijo de cão, esporadicamente lavada à mangueirada para a minha porta, qual requintado tapete de tear. Se lá podem entrar ou não..., a família vejo entrar, ainda que de galochas de cano alto. Quanto ao sentido olfactivo, digamos que há quem goste de Rive Gauche e quem eleja Alheira digerida.

“Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede,…” essas posso quase garantir que tem, porque, verdade seja dita, os manos Neandertal podem não saber utilizar os talheres, mas aprenderam habilmente a usar martelos.

“Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali,…” nesta estrofe é que a porca torce o rabo. E utilizo o pobre suíno numa fraca comparação com os verdadeiros porcos. A verdade é que não têm penico, felizmente para mim, caso contrário em vez de me correrem rios de merda à porta, com investidas pelas duas frentes, era certo que a mesma voaria. 

“Mas era feita com muito esmero,…” disso ninguém duvide, porque lá martelar eles martelam e em falta de ferramentas vai mesmo com os cornos.

“Na Rua dos Bobos, número zero.”, não lhes chamaria bobos. Inclino-me mais para ignóbeis, grosseiros, asnos, fúteis, num bom dia talvez sejam somente mal-informados, frutos da educação que evidentemente lhes falta. Neste ponto gostaria de mostrar o meu apreço à instituição do ensino obrigatório para lá da quarta classe. 

Mas é evidente que os manos também têm as suas “qualidades”. O mais velho por exemplo, consegue a proeza de beber mais cerveja do que um camelo no deserto, mantendo-se permanentemente em estado semicomatoso. A forma que encontrou para contornar o asilo forçado na casa matriarcal, engolindo sapos de pernas abertas, que a querida mãe lhe cozinha numa base diária. Dieta que ouviu num programa matutino e que faz questão de lhe aplicar de duas em duas horas. Verdade seja dita, o imberbe mantém-se hirsuto como um caniço. Quanto ao mais novo, a mãe queria uma filha daí o trauma de viver com o nome de miúda, é, porém, um ás na declamação do alfabeto gasoso e de um só travo. Se nos seus vinte e tal anos de vida tem continuado os estudos, sem a ajuda monetária do seu progenitor, a declamação com ar de regozijo da tabuada gasosa seria a sua segunda proeza conquistadora.




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