segunda-feira, 4 de maio de 2020

A MULHER QUE ERA CARTEIRO, de Maria Cecilia Garcia















A Mulher que era carteiro. Maria Cecília
Em todas as localidades existe um ou dois personagens fora comum. Geralmente não são apreciados localmente, quase sempre só lhes é dado valor ou sã, apreciados, depois deles desaparecerem.
 Foi o caso desta mulher excepcional, que marcou a sua vida e a terra onde morava, pela diferença. É esta diferença que faz com que faça parte da história e seja lembrada por todos.  Creio que foi a única mulher a exercer essa profissão, não só na sua freguesia, mas em da a ilha.
 Enquanto somos lembrados, somos imortais.

"Existia na aldeia uma mulher que era uma personagem muito peculiar: a mulher carteiro.
 O marido tinha emigrado para o Brasil, deixando-a com três filhos para criar, quando ela era ainda muito jovem.
 Não sendo de família endinheirada, trabalhava na agricultura, mas era também, o carteiro da aldeia. Durante uma vida inteira, esta mulher calcorreou, descalça, quase sempre, as íngremes e perigosas veredas, saltitou como uma cabra montanheira as escarpadas rochas e deslizou à beira de precipícios, todos os dias, fosse Inverno ou fosse Verão, fizesse chuva ou fizesse sol.
Era ela que levava as saudades dos que ficaram na aldeia, dos filhos e maridos que tinham embarcado e, era ela ,quem trazia de volta as notícias que os acalmavam.
Toda a aldeia ficava à espera pois ela chegava, pontualmente, um pouco antes da hora do almoço.
Nos dias de vendaval e chuva, quando as pedras escorregavam das escarpas e vinham cair nos caminhos, a freguesia agitava-se e muita gente se concentrava no largo, ansiosa, só respirando de alívio ao avistar na última curva da estrada, a ágil figura da Maria Dora.
Ela não trazia apenas o correio, trazia também o jornal diário, a encomenda do padre e do regedor, o pano e as linhas de bordar ou de croché e os produtos de farmácia, entre muitas outras coisas, que as pessoas da aldeia lhe pediam. Não sabia ler nem escrever, mas realizava com eficácia todas as encomendas. Tinha esperteza e boa memória, além de experiência de vida.
Creio que nunca se negou a fazer qualquer favor, sempre de graça, embora aceitasse de bom grado uma gratificação, aliás, toda a gente sabia que era melhor agradecer…
 É que ela tinha uma língua viperina, todos temiam os seus comentários ácidos.
Ela jurava que nunca inventava nada mas, o que sabia, tinha que dizer conforme ouvia, justificava-se, sem verificar a veracidade da notícia.
 Por vezes queixava-se, pois sempre que havia alguma novidade, uma bisbilhotice nova, diziam que tinha sido ela a espalhá-la e, tal como os terroristas dos dias de hoje, ela não gostava de ser acusada por algo não tinha feito.
 Tinha uma certa “ética”, quando espalhava uma novidade, fazia questão de informar, sempre, a sua fonte de informação. Abusava da ironia e dos comentários ácidos. Quase todos a temiam, mas também a usavam,quando queriam espalhar algum boato. Costumava dizer :Eu é que sou a bilhardeira, mas há muitas sonsas por aí que são muito piores do que eu! Vão para a igreja bater no peito, mas têm pecados de rabo !
Era a mulher melhor informada daquelas bandas. Ao entregar o correio, publicava as notícias que trazia de fora, os diz-que-disse, as intrigas e maroscas, até os falecimentos e casamentos daquele lado da ilha. A bem dizer, de toda a ilha, pois os seus encontros com os colegas forneciam-lhe matéria de primeira página, literalmente. Mesmo não sabendo ler, ouvia, atentamente, as leituras e as conversas   dos outros, isso dava lhe muita informação que ela não podia confirmar. Dizia:-assim ouvi e assim conto, se é mentira, não é minha!.- 
Dizia-se que em jovem era bonita, que tinha sido atacada pela febre tifóide e essa doença a tinha deixado sem cabelo e  fez-lhe cair, um a um, todos os dentes. Mas o povo comentava que tinha sido devido ao desgosto que sofreu, quando foi abandonada pelo marido.
Nunca se vestiu de viúva nem arranjou outro homem, e continuou vivendo na casa da mãe, até à morte.Apesar de ser uma mulher mais liberdade do que as outras, e ser muito alegre e comunicativa, que falava e brincava da mesma forma com todos, fosse homem ou mulher, fosse um doutor ou um mendigo, tudo isto, num tempo em que as pessoas estavam cheias de preconceitos e desconfianças, apesar disso, nunca, ninguém, pôs em causa a honestidade e seriedade desta mulher.
Era muito alegre, gostava de uma boa conversa, onde não faltasse o bom humor e o sarcasmo.
Quando a conheci ainda distribuía o correio, mas já andava calçada, e a aldeia já tinha uma estrada e um furado. Ela aproveitava a boleia do padeiro para ir à Vila e quase sempre encontrava alguém que a levasse de volta. Mas não lhe custava nada percorrer a via, ainda em terra batida, que a levava até à aldeia, com passo firme, apesar da idade já avançada.
Continuava sem dentes, embora tivesse tentado, por várias vezes, utilizar uma prótese, nunca conseguiu adaptar-se a esse artefacto, mas o seu cabelo, era forte e brilhante, muito preto, quase sem brancas, com o qual tecia uma trança que enrolava no alto da cabeça. Dizia que o segredo da sua forte cabeleira, perdida durante a sua doença, era uma loção,feita por ela, à base de azeite, álcool e cânfora, à qual juntava algumas ervas, e que aplicava diariamente no cabelo.
Mas ela não era apenas a mulher do correio. Era uma excelente massagista, durante gerações, endireitou pernas e braços, e mesmo colunas, e curou o “buxo virado” das crianças.
Posso assegurar que quase toda a aldeia passou pelas suas mãos.
Conhecia bem o poder das ervas, conhecimento que partilhava com todos aqueles que pedissem a sua ajuda. Orgulhava-se de ter curado muitos casos de asma com as suas mezinhas.
Reformou-se com uma pequena pensão depois de mais de quarenta anos de trabalho duro.
Os filhos, que emigraram muito novos, como era usual na época, por lá fora se mantinham, mas ela continuou endireitando ossos e curando o buxo das crianças até já não poder, quando os dedos das suas mãos ficaram deformados de tanto massajar e endireitar ossos.
Morreu inesperadamente, só, na casa onde sempre viveu. Só deram pela sua falta muitas horas depois."
Extracto de: História em Pedacinhos -As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar.

Grafia anterior ao AO 1990

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