Depois de um desgosto amoroso, Calisa procura distância suficiente para reconstruir a própria vida e aceita passar o verão na estalagem da tia-avó. O cenário que encontra, porém, está muito longe do refúgio acolhedor que imaginava: a propriedade encontra-se decadente, a tia-avó Zee é uma figura excêntrica e pouco receptiva e até os hóspedes parecem esconder alguma coisa. É precisamente nesse contraste entre a expectativa e a realidade que Sarah Beth Durst constrói o encanto de Faraway Inn.
A premissa pode parecer simples, mas a autora sabe trabalhar com competência os ingredientes fundamentais da chamada cozy fantasy: um espaço simultaneamente doméstico e mágico, uma protagonista em processo de reconstrução emocional, personagens peculiares, um animal de estimação incomum e com personalidade própria, um romance a despontar e, sobretudo, a sensação de que por detrás da aparente normalidade existe um mundo muito maior à espera de ser descoberto.
Calisa chega à estalagem fragilizada por uma desilusão amorosa e em busca de um novo sentido. A reconstrução do edifício transforma-se, gradualmente, numa reconstrução pessoal.
Ao tentar devolver vida à velha hospedaria, a protagonista começa também a recuperar sonhos e possibilidades que pareciam perdidos. A magia funciona, assim, não apenas como elemento fantástico, mas como metáfora para a possibilidade de recomeçar.
O verdadeiro encanto do livro está, contudo, na própria estalagem. Corredores que parecem não obedecer às regras do espaço convencional, hóspedes misteriosos e acontecimentos que ultrapassam a lógica quotidiana transformam o edifício numa personagem por direito próprio.
A casa deixa de ser simplesmente o cenário da história para se tornar o centro de um pequeno universo mágico que Calisa terá de aprender a compreender e onde virá a ter um papel de relevo.
Também aqui a fantasia não se limita ao maravilhoso pelo maravilhoso. A história trabalha temas como pertença, família, perda, afecto e a descoberta de que os laços mais importantes nem sempre são aqueles que nos são impostos pelo sangue. A ideia de família escolhida atravessa o romance e confere-lhe uma dimensão emocional que impede que a narrativa seja apenas uma sucessão de situações mágicas.
O romance amoroso, por sua vez, surge integrado nessa atmosfera de conforto, sem dominar completamente a narrativa. A aproximação ao filho do caseiro acrescenta uma tensão romântica agradável, mas é a relação de Calisa com a própria estalagem e com as pessoas — e criaturas — que nela habitam que constitui o verdadeiro coração da história.
É uma leitura particularmente indicada para quem procura uma pausa da realidade e prefere uma fantasia que privilegia o aconchego, o humor e a emoção em detrimento do conflito épico. A autora não pretende criar uma fantasia sombria ou de grande escala; procura antes construir um pequeno mundo onde a magia se encontra nos detalhes, nos espaços inesperados e nas relações que se estabelecem entre as personagens.
Há, naturalmente, quem possa desejar maior intensidade narrativa ou uma exploração mais profunda do universo mágico. A simplicidade da fórmula pode parecer previsível a leitores habituados a fantasias mais complexas. Mas é justamente essa simplicidade que constitui parte da sua proposta: Faraway Inn não quer inquietar o leitor, quer acolhê-lo.
Sarah Beth Durst consegue transformar uma estalagem decadente num lugar de descoberta, pertença e possibilidade. O resultado é uma cozy fantasy delicada e envolvente, com magia, mistério, romance e uma boa dose de escapismo — uma leitura para saborear devagar, idealmente num lugar confortável, com uma chávena de chá e uma fatia de bolo por perto.
Por: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

Sem comentários:
Enviar um comentário