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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

FARADAY INN - ONDE MORA A MAGIA, de SARAH BETH DURST | SINGULAR

Faraway Inn — Onde mora a magia, de Sarah Beth Durst, é um romance de fantasia juvenil, de inspiração cozy fantasy, publicado em Portugal pela chancela Singular, Grupo Porto Editora. A edição portuguesa chegou às livrarias em maio deste ano.

Depois de um desgosto amoroso, Calisa procura distância suficiente para reconstruir a própria vida e aceita passar o verão na estalagem da tia-avó. O cenário que encontra, porém, está muito longe do refúgio acolhedor que imaginava: a propriedade encontra-se decadente, a tia-avó Zee é uma figura excêntrica e pouco receptiva e até os hóspedes parecem esconder alguma coisa. É precisamente nesse contraste entre a expectativa e a realidade que Sarah Beth Durst constrói o encanto de Faraway Inn.

A premissa pode parecer simples, mas a autora sabe trabalhar com competência os ingredientes fundamentais da chamada cozy fantasy: um espaço simultaneamente doméstico e mágico, uma protagonista em processo de reconstrução emocional, personagens peculiares, um animal de estimação incomum e com personalidade própria, um romance a despontar e, sobretudo, a sensação de que por detrás da aparente normalidade existe um mundo muito maior à espera de ser descoberto.

Calisa chega à estalagem fragilizada por uma desilusão amorosa e em busca de um novo sentido. A reconstrução do edifício transforma-se, gradualmente, numa reconstrução pessoal.

Ao tentar devolver vida à velha hospedaria, a protagonista começa também a recuperar sonhos e possibilidades que pareciam perdidos. A magia funciona, assim, não apenas como elemento fantástico, mas como metáfora para a possibilidade de recomeçar.

O verdadeiro encanto do livro está, contudo, na própria estalagem. Corredores que parecem não obedecer às regras do espaço convencional, hóspedes misteriosos e acontecimentos que ultrapassam a lógica quotidiana transformam o edifício numa personagem por direito próprio.

A casa deixa de ser simplesmente o cenário da história para se tornar o centro de um pequeno universo mágico que Calisa terá de aprender a compreender e onde virá a ter um papel de relevo.

Também aqui a fantasia não se limita ao maravilhoso pelo maravilhoso. A história trabalha temas como pertença, família, perda, afecto e a descoberta de que os laços mais importantes nem sempre são aqueles que nos são impostos pelo sangue. A ideia de família escolhida atravessa o romance e confere-lhe uma dimensão emocional que impede que a narrativa seja apenas uma sucessão de situações mágicas.

O romance amoroso, por sua vez, surge integrado nessa atmosfera de conforto, sem dominar completamente a narrativa. A aproximação ao filho do caseiro acrescenta uma tensão romântica agradável, mas é a relação de Calisa com a própria estalagem e com as pessoas — e criaturas — que nela habitam que constitui o verdadeiro coração da história.

É uma leitura particularmente indicada para quem procura uma pausa da realidade e prefere uma fantasia que privilegia o aconchego, o humor e a emoção em detrimento do conflito épico. A autora não pretende criar uma fantasia sombria ou de grande escala; procura antes construir um pequeno mundo onde a magia se encontra nos detalhes, nos espaços inesperados e nas relações que se estabelecem entre as personagens.

Há, naturalmente, quem possa desejar maior intensidade narrativa ou uma exploração mais profunda do universo mágico. A simplicidade da fórmula pode parecer previsível a leitores habituados a fantasias mais complexas. Mas é justamente essa simplicidade que constitui parte da sua proposta: Faraway Inn não quer inquietar o leitor, quer acolhê-lo.

Sarah Beth Durst consegue transformar uma estalagem decadente num lugar de descoberta, pertença e possibilidade. O resultado é uma cozy fantasy delicada e envolvente, com magia, mistério, romance e uma boa dose de escapismo — uma leitura para saborear devagar, idealmente num lugar confortável, com uma chávena de chá e uma fatia de bolo por perto.

Por: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

domingo, 23 de agosto de 2026

CAESAR: THE CONQUEST OF ETERNITY, by ALBERTO ANGELA | CRÍTICA


There are men who belong to history. And then there are men who seem to have escaped it. Julius Caesar belongs to the second category.

Two thousand years after his death, his name is still spoken, studied and debated. His wars remain in the history books, his decisions continue to fuel interpretations, and his image survives somewhere between the man he was and the character he helped create himself.

It is precisely this boundary that Alberto Angela explores in Caesar – The Conquest of Eternity, a book that begins with the conquest of Gaul but tells far more than the story of a military campaign. Angela takes the reader into first-century BC Rome, a society dominated by ambition, wealth, alliances and a relentless struggle for power.

The result is a biography that reads almost like a journalistic account of a man at the centre of an era in turmoil.

Angela does not present Caesar as a figure carved in marble. Quite the opposite. He shows us an ambitious, calculating, courageous and, at times, brutal man — but also a writer, intellectual, husband, father and lover. A politician and military commander who understood something fundamental: conquering territories mattered, but controlling the narrative surrounding those conquests could be even more powerful.

It is in the account of the Gallic campaign that this approach becomes particularly effective.

A legion is no longer simply a number. It becomes a group of men marching for hours, facing cold, hunger and fear, obeying orders, killing and knowing that they themselves may die. A battle ceases to be a date in a school textbook and becomes mud, blood, fire, strategy and decisions made within seconds.

Angela's writing has an almost cinematic quality here. The reader does not simply observe events from a distance; the reader is placed inside them.

But in Caesar's world, war can never be separated from politics.

Military victories meant wealth, prestige and power. They also meant the loyalty of his soldiers. Caesar needed to win, but he also needed to explain his victories. The way events were told was itself part of his political strategy.

Perhaps this is one of the book's most contemporary questions: whoever controls the narrative controls, to some extent, the memory of history.

Around Caesar, characters, family alliances, marriages, rivalries and economic interests help reveal how the Roman Republic functioned during its final years. Rome emerges as a society in which politics was rarely just about politics. Power, money, military prestige, personal relationships and individual ambition were deeply intertwined.

It is here, too, that the book acquires its human dimension.

Caesar is not presented merely as the great conqueror. He is shown as a man who needed people around him, who forged alliances, calculated risks and understood the importance of image. The historical figure begins to merge with the public persona that Caesar himself constructed.

Another particularly striking element is the use of visual reconstructions supported by artificial intelligence and developed with the participation of specialists. Technology becomes a tool for bringing a vanished world closer to the reader, giving greater substance to its places, faces and events.

But the book inevitably leaves us with another question:

Who was left out of Caesar's history?

We know what Caesar wanted to tell us. We know how he described his campaigns and how he presented his decisions. But we know far less about those who stood on the other side.

What happened to the conquered populations? To the unnamed dead? To the men and women who watched their lands being destroyed? To those who had no Caesar, no chronicler and no historian to tell their version of events?

It is at this point that Caesar – The Conquest of Eternity moves beyond the biography of a conqueror.

The book becomes, instead, a reflection on the very construction of history.

The title is therefore particularly fitting. Caesar conquered Gaul. He conquered power, wealth and glory. But his greatest conquest may have been something else entirely: he succeeded in making himself impossible to forget.

And he achieved this partly through writing.

By writing about his own campaigns, Caesar did not simply record events. He participated in the creation of the historical character who has reached us. Between the man who existed and the myth that survived, there is a narrative that continues to be read two thousand years later.

That is Alberto Angela's great strength: turning historical knowledge into experience.

The author does not require the reader to have a previous knowledge of Rome. Instead, he builds an accessible, visual and engaging narrative, capable of appealing both to those already familiar with Roman history and to those discovering it for the first time.

In the end, the most interesting question is no longer simply, “Who was Julius Caesar?”

It becomes something else: How can a man transform his own life into a story capable of surviving his death?

Perhaps that is, after all, the true conquest of eternity.

Not remaining untouched in the past, like a marble statue, but continuing, centuries later, to provoke questions.

Why I recommend this book

Because Alberto Angela achieves something that is not always easy in historical writing: he turns information into experience. History ceases to be a succession of dates and names and acquires movement, conflict, fear, ambition and humanity.

The book's greatest strength

Its ability to humanise Caesar without diminishing the political and military scale of his achievements — and, above all, to show how Caesar himself participated in creating the myth that has survived him.

The question that remains

Where does the man Caesar was end, and where does the character Caesar chose to leave to history begin?

It is precisely on this frontier between reality, propaganda and memory that Caesar – The Conquest of Eternity finds its most compelling dimension.

And it is also there that Alberto Angela succeeds in bringing Julius Caesar into the present.


By: Madalena Condado

 

CÉSAR – A CONQUISTA DA ETERNIDADE, de ALBERTO ANGELA | CRÍTICA

Há homens que pertencem à História. E há homens que parecem ter conseguido escapar-lhe. Júlio César pertence à segunda categoria.

Dois mil anos depois da sua morte, o seu nome continua a ser pronunciado, estudado e discutido. As suas guerras permanecem nos livros, as suas decisões continuam a alimentar interpretações e a sua figura sobrevive entre o homem que foi e o personagem que ele próprio ajudou a construir.

É precisamente essa fronteira que Alberto Angela explora em César – A Conquista da Eternidade, uma obra que parte da conquista da Gália para contar muito mais do que a história de uma campanha militar. O autor leva o leitor para dentro da Roma do século I a.C., uma sociedade dominada pela ambição, pela riqueza, pelas alianças e por uma luta permanente pelo poder.

O resultado é uma biografia que se lê quase como uma reportagem sobre um homem no centro de uma época em convulsão.

Angela não apresenta um César transformado em estátua. Pelo contrário. Mostra um homem ambicioso, calculista, corajoso e, por vezes, brutal, mas também escritor, intelectual, marido, pai e amante. Um político e militar que percebeu uma coisa fundamental: conquistar territórios era importante, mas conquistar a narrativa sobre essas conquistas podia ser ainda mais poderoso.

É na campanha da Gália que essa abordagem se torna particularmente eficaz.

Uma legião deixa de ser apenas um número. Passa a ser constituída por homens que marcham durante horas, enfrentam o frio, a fome e o medo, obedecem, matam e podem morrer. Uma batalha deixa de ser uma data num manual escolar e transforma-se em lama, sangue, fogo, estratégia e decisões tomadas em poucos segundos.

A escrita de Alberto Angela tem aqui uma qualidade quase cinematográfica. O leitor não observa simplesmente os acontecimentos à distância: é colocado dentro deles.

Mas a guerra, em César, nunca está separada da política.

As vitórias militares significavam riqueza, prestígio e poder. Significavam também a fidelidade dos soldados. César precisava de vencer, mas precisava igualmente de explicar as suas vitórias. A forma como os acontecimentos eram contados fazia parte da própria estratégia política.

É talvez uma das questões mais contemporâneas do livro: quem controla a narrativa controla, em parte, a memória da História.

Ao lado de César surgem personagens, alianças familiares, casamentos, rivalidades e interesses económicos que ajudam a perceber como funcionava a República Romana nos seus últimos anos. Roma aparece como uma sociedade onde a política raramente era apenas política. Poder, dinheiro, prestígio militar, relações pessoais e ambição individual estavam profundamente ligados.

É também aqui que o livro ganha dimensão humana.

César não é apresentado apenas como o grande conquistador. É apresentado como alguém que precisava de pessoas à sua volta, que estabelecia alianças, que calculava riscos e que compreendia a importância da imagem. A figura histórica começa, assim, a confundir-se com a figura pública que o próprio César construiu.

Outro elemento particularmente interessante são as reconstruções visuais apoiadas por inteligência artificial, desenvolvidas com a participação de especialistas. A tecnologia surge como uma ferramenta para aproximar o leitor de um mundo desaparecido, dando maior concretização a lugares, rostos e acontecimentos.

Mas existe uma pergunta que o livro inevitavelmente deixa no ar.

Quem ficou de fora da História de César?

Sabemos aquilo que César quis contar. Sabemos como descreveu as suas campanhas e como apresentou as suas decisões. Mas sabemos muito menos sobre aqueles que estavam do outro lado.

O que aconteceu às populações conquistadas? Aos mortos sem nome? Aos homens e mulheres que viram as suas terras destruídas? Àqueles que não tiveram um César, um cronista ou um historiador para contar a sua versão?

É neste ponto que César – A Conquista da Eternidade ultrapassa a biografia de um conquistador. O livro passa a ser também uma reflexão sobre a própria construção da História. O título é, por isso, particularmente feliz. César conquistou a Gália. Conquistou poder, riqueza e glória. Mas a sua maior conquista poderá ter sido outra: conseguiu tornar-se impossível de esquecer. E fê-lo também através da escrita.

Ao escrever sobre as suas próprias campanhas, César não se limitou a registar acontecimentos. Participou na criação da personagem histórica que chegou até nós. Entre o homem que existiu e o mito que sobreviveu, há uma narrativa que continua a ser lida dois mil anos depois.

É essa a grande força de Alberto Angela: transformar conhecimento histórico em experiência. O autor não exige ao leitor conhecimentos prévios sobre Roma. Em vez disso, constrói uma narrativa acessível, visual e envolvente, capaz de interessar tanto quem já conhece a História romana como quem se aproxima dela pela primeira vez.

No final, a pergunta mais interessante deixa de ser apenas “quem foi Júlio César?”

Passa a ser outra: como consegue um homem transformar a própria vida numa história capaz de sobreviver à sua morte?

Talvez seja essa, afinal, a verdadeira conquista da eternidade. Não permanecer intocável no passado, como uma estátua de mármore, mas continuar, séculos depois, a provocar perguntas.

Recomendo a leitura porque Alberto Angela consegue fazer aquilo que nem sempre é fácil na divulgação histórica: transformar informação em experiência. A História deixa de ser uma sucessão de datas e nomes e passa a ter movimento, conflito, medo, ambição e humanidade.

O ponto mais forte é a capacidade de humanizar César sem apagar a dimensão política e militar da sua figura — e, sobretudo, de mostrar como o próprio César participou na construção do mito que chegou até nós.

A questão que permanece: onde termina o homem que César foi e começa o personagem que César decidiu deixar para a História?

É nessa fronteira entre realidade, propaganda e memória que César – A Conquista da Eternidade encontra a sua dimensão mais interessante.

E é também aí que Alberto Angela consegue trazer Júlio César para o presente.


Por: Madalena Condado

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

CRÍTICA | CÊNTIMOS, de PEPPER WINTERS | ALMA DOS LIVROS


 Cêntimos, de Pepper Winters, é um dark romance elevado ao máximo expoente deste género literário, publicado em Portugal com chancela Alma dos Livros. A obra acompanha Pim, uma jovem estudante de Psicologia raptada e mantida durante dois anos num duro cativeiro onde é exposta a violência extrema e isolamento social, até ao momento em que no seu estranho mundo chega um misterioso desconhecido de seu nome Elder Prest. 

Há livros que utilizam a violência como elemento narrativo , ao passo que outros forçam o leitor a presenciar a violência como elemento chave da existência, digamos que Cêntimos pertence indubitavelmente à segunda categoria. Pepper Winters escreve dentro dos códigos do dark romance, mas fá-lo sem procurar suavizar a brutalidade do universo em que coloca a protagonista. O resultado é uma leitura viciante e profundamente desconfortável, que exige do leitor disponibilidade para enfrentar violência física e psicológica, trauma, isolamento e relações marcadas por uma enorme assimetria de poder.

Pim é uma personagem particularmente inolvidável. Raptada e transformada em prisioneira de um mundo que lhe roubou a liberdade, a voz e a própria perceção de identidade, aprende a sobreviver através de mecanismos de defesa que lhe permitem preservar aquilo que ainda pode considerar seu. A sua resistência não é apresentada como uma força ostensiva ou heroica no sentido convencional. Estamos perante uma resistência silenciosa, construída através da capacidade de suportar, observar, esconder e conservar dentro de si um espaço que o agressor não consegue dominar completamente.

Sob o ponto de vista do perfil psicológico da protagonista feminina, destaca-se a sua invulgar resiliência e o recurso à dissociação como mecanismo de defesa protetor em relação à extrema violência a que se vê sujeita. Pim deixa a sua mente vagar para um plano mental alternativo, afastando-se internamente da experiência imediata quando a realidade se torna insuportável. É esta dissociação que, efetivamente, a ajuda a suportar a dor que lhe é infligida. A mente transforma-se, paradoxalmente, no último reduto de liberdade de uma personagem a quem praticamente todas as formas externas de autonomia foram extirpadas.

Esta dimensão psicológica é uma das mais interessantes do romance, porque permite compreender a sobrevivência de Pim não apenas como uma sucessão de atos de resistência física, mas como um processo interno de preservação do self. A personagem não deixa de sentir a violência; encontra, antes, uma forma de se distanciar dela para conseguir continuar a existir. A dissociação assume, destarte, uma função narrativa que ultrapassa o mero recurso estilístico: torna visível a fragmentação psicológica provocada pelo trauma e a extraordinária capacidade adaptativa de uma mente colocada perante circunstâncias extremas.

É também através deste mecanismo que o romance proporciona ao leitor uma experiência particularmente claustrofóbica. O leitor sabe que Pim está presa, mas percebe progressivamente que a sua prisão não é apenas física. O espaço exterior é controlado por outros; o espaço interior é aquele que ela tenta desesperadamente preservar a todo o custo. A pergunta fundamental deixa então de ser apenas «como conseguirá fugir?» para passar a ser «quanto de si conseguirá preservar?».

O mundo criado por Pepper Winters é hostil, isolado e intencionalmente perturbador. A violência, gráfica ou apenas sugerida, constitui uma presença permanente e não é adequada a todos os leitores. O livro deve, por isso, ser lido tendo em devida conta as advertências de conteúdo e a sensibilidade individual perante temas relacionados com abuso, violência e trauma.

Quando neste contexto isolado surge Elder Prest, esta personagem, o nosso anti-herói confere uma nova e inesperada dinâmica na narrativa. Misterioso, frio e moralmente ambíguo, Elder não corresponde à figura convencional do herói romântico, assumidamente um anti-herói cuja presença acrescenta uma nova aura de mistério e de incerteza à história. Prest assume uma posição ambígua e transporta as suas próprias sombras, denotando-se que terá experienciado também situações extremas, e irá firmar com Pim uma relação que apresenta alguma ambivalência, deixando o leitor curioso perante os futuros desenvolvimentos que esta relação venha a assumir. 

A ligação entre ambos é deveras complexa. Não se trata de um romance convencional entre duas pessoas livres para escolher. A relação nasce dentro de um contexto de violência, vulnerabilidade e desequilíbrio de poder, o que obriga o leitor a questionar continuamente a natureza dos sentimentos que se desenvolvem entre as personagens. É precisamente essa ambiguidade que impede Elder de se tornar uma figura romântica previsível.

A autora constrói-o como uma personagem densa, misteriosa e fascinante, e a sua ligação inesperada com Pim constitui um dos elementos que mais alimentam a curiosidade narrativa. Há nele qualquer coisa de deliberadamente indecifrável, suficientemente forte para sustentar a expectativa relativamente aos títulos seguintes da série.

Se há uma fragilidade estrutural em Cêntimos, ela encontra-se no ritmo. O desenvolvimento inicial é algo desigual e existem momentos em que determinadas pontas da ação e aspetos do percurso de Pim parecem receber menos atenção do que seria desejável. Em contrapartida, o último terço ganha uma intensidade muito superior: a narrativa acelera, as perguntas acumulam-se e a curiosidade do leitor torna-se progressivamente mais difícil de controlar.

Essa opção acaba por produzir um efeito paradoxal. Alguns elementos permanecem deliberadamente sem resposta, mas o vazio não é forçosamente um defeito. A ausência de explicações sobre a família de Pim, os amigos e os esforços eventualmente realizados para a encontrar é, em si mesma, perturbadora. O leitor é levado a perguntar repetidamente: onde está a família? Onde estão os amigos? O que fizeram para a localizar? A inexistência imediata de respostas reforça a sensação de abandono e isolamento da protagonista.

E é precisamente nesse vazio que o romance encontra uma das suas maiores forças. Pim não está apenas fisicamente afastada do mundo: parece ter sido apagada dele. A sua sobrevivência torna-se, por isso, ainda mais impressionante, porque acontece num contexto em que praticamente nenhuma rede exterior de proteção parece funcionar.

Cêntimos é, em última análise, um livro de violência, mas também um livro sobre sobrevivência. A sua maior força não reside apenas na capacidade de chocar ou perturbar: assenta na construção psicológica de uma protagonista que encontra dentro de si mecanismos para continuar a existir quando tudo à sua volta parece concebido para a destruir.

Não é uma leitura para qualquer leitor, nem pretende sê-lo. É emocionalmente pesada, contém violência física e psicológica e aborda situações potencialmente perturbadoras, pelo que leitores particularmente sensíveis deverão considerar as advertências de conteúdo antes de iniciar a obra.

Mas para quem procura dark romance numa das suas expressões mais intensas, Cêntimos oferece uma experiência narrativa difícil de abandonar. Pepper Winters não apresenta uma história de amor confortável nem personagens facilmente classificáveis entre bons e maus. A obra arrasta o leitor para um território assumidamente desconfortável em termos morais e humanos. 

Pim é, claramente, a personagem que permanece. Não porque seja invulnerável, mas precisamente pelo contrário: porque a sua extraordinária resiliência resulta da vulnerabilidade e da capacidade de encontrar, mesmo no seio da violência extrema, um lugar mental onde ainda consegue ser ela própria.

Elder Prest deixa muitas perguntas sem resposta. Pim deixa uma certeza: uma pessoa pode ser privada de quase tudo e, ainda assim, encontrar dentro da própria mente o último espaço que ninguém conseguiu conquistar, a preservação da sua identidade, da sua essência frágil mas, ainda assim, humana.


Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista

Foto: Nova Gazeta - D.R.


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

CÉSAR: A CONQUISTA DA ETERNIDADE, de ALBERTO ANGELA | CRÍTICA

Estamos em 58 a. C. a Gália é uma terra distante, habitada por povos belicosos, nunca dominados, que já infligiram dolorosas derrotas aos romanos. Mas é também uma terra rica e próspera. Júlio César quer conquistá-la, para si e para Roma, e para isso está disposto a enfrentar qualquer adversidade: marchas extenuantes na neve e batalhas sangrentas, intrigas palacianas e traições, pontes para construir e frotas para criar do zero, florestas que dizem ser assombradas e santuários com esqueletos decapitados.

Será uma viagem marcada por aventuras e descobertas, conduzida por César com a coragem e a curiosidade de Ulisses. Mas será também uma viagem interior, ao lado de um homem implacável e genial, carismático e incansável, embora não isento de dúvidas e medos profundos. Um comandante com os seus lados sombrios e violentos, mas também um pensador refinado e um grande escritor, que ama apaixonadamente, trai e é traído; que é noivo, marido, pai, amante, viúvo, heterossexual, bissexual…

Como pano de fundo da narrativa, completando o vasto fresco desta época crucial para o destino de Roma e da Europa, surgem Cícero e Catulo, Cleópatra e Marco António, Marco Licínio Crasso e Pompeu, Calpúrnia, a doce esposa de César, e Júlia, a sua amada filha.

Alberto Angela conduz-nos numa aventura sem igual, nesta obra única e grandiosa que ganha vida através das reconstruções dos rostos, das cenas de batalha e da vida quotidiana, realizadas com o apoio da inteligência artificial.
 

terça-feira, 7 de julho de 2026

REVIEW – MASTERS OF STRATEGY, by OLIVIER WIEVIORKA and GENERAL BENOÎT DURIEUX | CRÍTICA


Masters of Strategy by Olivier Wieviorka and General Benoît Durieux is a fascinating exploration of the evolution of strategic thought throughout history, bringing together the ideas of some of the world's most influential military and political strategists. Far more than a book about warfare, it is a thoughtful examination of leadership, decision-making, power, and adaptability, demonstrating how the principles of strategy remain relevant across many aspects of modern life.

The authors present the ideas of renowned thinkers such as Sun Tzu, Thucydides, Niccolò Machiavelli, Carl von Clausewitz, and many others in a clear and accessible way. Rather than simply summarizing their works, they place each strategist within their historical context and examine how their ideas continue to shape politics, diplomacy, international conflict, and even the business world.

One of the book's greatest strengths is its balance between academic rigor and readability. Despite the depth of the topics discussed, the writing remains approachable, making it an engaging read for both specialists and general readers interested in history, international relations, leadership, or strategic thinking.

The organization of the book by individual thinkers makes it easy to follow the development of strategic theory over the centuries, illustrating how concepts of warfare and power have evolved alongside technological advances and changing political landscapes. At the same time, the authors draw meaningful connections between different schools of thought, highlighting both their differences and their enduring relevance.

More than a study of military campaigns, Masters of Strategy encourages readers to reflect on the importance of preparation, anticipation, flexibility, and understanding one's opponent. It convincingly argues that strategy extends far beyond the battlefield, serving as an essential framework for addressing complex challenges in virtually any field.

Overall, Masters of Strategy is an essential read for anyone interested in military history, geopolitics, leadership, or the art of strategic thinking. Combining historical insight with timeless lessons on decision-making and leadership, Olivier Wieviorka and General Benoît Durieux have produced an intellectually stimulating and highly rewarding work.

 Madalena Condado

RESENHA – MESTRES DA ESTRATÉGIA, de OLIVIER WIEVIORKA e GENERAL BENOÎT DURIEUX | CRÍTICA

 

Mestres da Estratégia, de Olivier Wieviorka e do General Benoît Durieux, é uma obra fascinante que percorre a evolução do pensamento estratégico ao longo da História, reunindo as ideias de alguns dos mais influentes estrategas militares e políticos. Muito mais do que um livro sobre guerra, trata-se de uma reflexão sobre liderança, tomada de decisão, poder e adaptação, mostrando como os princípios da estratégia continuam relevantes em diferentes áreas da vida contemporânea.

Os autores apresentam, de forma clara e acessível, o pensamento de figuras incontornáveis como Sun Tzu, Tucídides, Maquiavel, Carl von Clausewitz e outros grandes teóricos da estratégia. Em vez de se limitarem a resumir as suas obras, contextualizam as suas ideias no momento histórico em que surgiram e analisam a forma como continuam a influenciar a política, a diplomacia, os conflitos internacionais e até o mundo empresarial.

Um dos maiores méritos do livro é o equilíbrio entre rigor académico e linguagem acessível. Apesar da profundidade dos temas abordados, a leitura nunca se torna excessivamente técnica, permitindo que tanto especialistas como leitores interessados em História, Relações Internacionais ou liderança possam acompanhar facilmente a exposição dos conceitos.

A organização por pensadores facilita a consulta e permite compreender como o conceito de estratégia foi evoluindo ao longo dos séculos, acompanhando as transformações da guerra, da tecnologia e das estruturas de poder. Ao mesmo tempo, os autores estabelecem pontes entre diferentes correntes de pensamento, evidenciando semelhanças, divergências e a permanente atualidade de muitas dessas ideias.

Mais do que um estudo sobre campanhas militares, Mestres da Estratégia convida o leitor a refletir sobre a importância da preparação, da antecipação, da flexibilidade e da capacidade de compreender o adversário. O livro demonstra que a estratégia não se resume ao campo de batalha, mas constitui uma ferramenta essencial para enfrentar desafios complexos em qualquer contexto.

No conjunto, Mestres da Estratégia é uma leitura indispensável para quem se interessa por História militar, geopolítica, liderança e pensamento estratégico. Com uma abordagem rigorosa, bem estruturada e intelectualmente estimulante, Olivier Wieviorka e o General Benoît Durieux oferecem uma obra que alia conhecimento histórico a reflexões intemporais sobre a arte de decidir e agir.

Madalena Condado


sábado, 6 de dezembro de 2025

LIÇÕES DA HISTÓRIA, de EDGAR MORIN | CRÍTICA

A História nunca deixou de ser, para Edgar Morin, um dos maiores filósofos e sociólogos franceses, um tema de reflexão - incluindo a História na qual ele próprio participou. Testemunha das atrocidades da guerra, das transformações económicas e ecológicas do último século, o autor extrai lições fundamentais que iluminam o passado e nos ajudam a construir o futuro.

Neste breve ensaio, Edgar Morin ensina-nos que o improvável pode acontecer; que os mitos exercem uma enorme influência sobre o real; que os destruidores podem também ser grandes civilizadores; que um único indivíduo pode, por vezes, mudar o rumo da História. Com uma rara capacidade de síntese e uma experiência humana e intelectual incomparável, o autor conduz-nos pela grande jornada da Humanidade - da Antiguidade aos dias de hoje -, oferecendo uma reflexão profunda e pessoal sobre o destino das civilizações.
 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

AS ROTAS DA SEDA, de PETER FRANKOPAN | CRÍTICA

Aclamado mundialmente, As Rotas da Seda revolucionou conceções antigas sobre a História e os impérios. Radical, épico na sua abrangência e considerado um texto fundamental para a compreensão do renascimento económico e político do Oriente, este livro é uma obra-prima de investigação histórica e teoria política.

Nesta edição comemorativa, Peter Frankopan demonstra quão crucial As Rotas da Seda é para a nossa apreciação da História e para a compreensão do futuro de um mundo cada vez mais internacional. Durante séculos, a fama e a fortuna encontravam-se no Ocidente - no Novo Mundo das Américas. Hoje, é o Oriente que atrai aqueles em busca de riqueza e aventura. Abrangendo toda a Ásia Central e penetrando profundamente na China e na Índia, uma região que outrora ocupou o centro do palco volta a emergir, dominando a política, o comércio e a cultura globais.
 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

OS ROMANOV, de SIMON SEBAG MONTEFIORE | CRÍTICA

Os Romanov governaram a Rússia como czares e imperadores durante trezentos anos. Através da força implacável das suas personalidades, esta família de autocratas peculiares, mas brilhantes, transformou um reino fraco e arruinado pela guerra civil num império que dominou a Europa.

Pedro, o Grande, tirano bêbedo e assassino, e Catarina, a Grande, a apaixonada princesa alemã que destronou o próprio marido para se tornar a estadista mais notável de uma época de ouro, foram os dois maiores governantes da Rússia. Isabel, que tinha tanto de promíscua como de glamorosa, continuou a ascensão da Rússia como potência europeia; mais tarde, Pedro III e Paulo I, impotentes e desequilibrados, foram assassinados. Nicolau I censurou Pushkin e travou a Guerra da Crimeia com a Grã-Bretanha.

Finalmente, Nicolau II e Alexandra, apesar do seu casamento feliz e da tragédia do seu filho hemofílico, revelaram-se demasiado ineptos para salvar a Rússia da Grande Guerra e da Revolução.

Esta é a história de como a Rússia se tornou o país que conhecemos atualmente.

Simon Sebag Montefiore, autor best-seller de Jerusalém e O Mundo, mostra que o império dos autocratas e os seus pequenos grupos sempre dominaram a história da Rússia, desde o primeiro czar Romanov em 1613, passando pela magnificência de Pedro e Catarina e o declínio de Nicolau II, até aos czares vermelhos - Lenine e Estaline no século XX - e à presidência autoritária de Putin no século XXI.



 

quinta-feira, 10 de abril de 2025

SPQR - UMA HISTÓRIA DA ROMA ANTIGA, de MARY BEARD | CRÍTICA


 SPQR («o Senado e o Povo de Roma») é um novo olhar sobre a história da Roma Antiga, de uma das mais aclamadas classicistas do mundo.


Neste livro, Mary Beard, professora da Universidade de Cambridge, explora não só a forma como Roma passou de uma aldeia insignificante no centro de Itália a uma potência que controlava territórios da Península Ibérica à Síria, como também a forma como os romanos se consideravam a si próprios e às suas conquistas, e por que razão continuam a ser importantes para nós e a influenciar o mundo no século XXI.

Cobrindo mil anos de história, SPQR lança uma nova luz sobre os fundamentos da cultura romana, desde a escravatura à água potável, explorando temas como a democracia, a migração, a controvérsia religiosa, a mobilidade social e a complexa teia de relações sociais no contexto mais vasto do império.

Oferece-nos, também, uma nova visão das vidas de grupos inteiros de pessoas omitidos na narrativa histórica durante séculos.

Esta é uma história surpreendente, incontornável e definitiva da Roma Antiga.

Críticas de imprensa
«Uma história arrebatadora e “magistral” do Império Romano, escrita por uma das nossas mais importantes classicistas, que demonstra porque é que Roma continua a ser “relevante para as pessoas muitos séculos depois”.»
The Atlantic

«Em SPQR, uma maravilhosa história concisa de Roma, Mary Beard desvenda os segredos do sucesso da cidade com uma clareza nítida e impiedosa que jamais vi igualada em parte alguma.»
The New York Times

«Mary Beard explica o que foi o Império Romano de forma clara e precisa, com paixão e sem jargões técnicos. SPQR é uma história cruel, mas contada de uma forma maravilhosamente intrigante.»
The Wall Street Journal

«SPQR é constantemente enriquecido pela atenção de Beard aos pormenores e pelo seu excelente sentido de humor.»
The Times

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

HISTÓRIA TOTAL DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, de OLIVIER WIEVIORKA | CRÍTICA

Fruto de anos de investigação este livro é um relato rigoroso. Uma narrativa viva, poderosa e empolgante que mostra até que ponto este terrível conflito foi realmente mundial e total. Uma obra que se empenha em relatar, compreender e explicar, fazendo sua a exigência avançada por Albert Camus em O Homem Revoltado: «Poderíamos supor que uma época que, em cinquenta anos, desenraíza, escraviza e mata setenta milhões de seres humanos deve somente, e antes de mais nada, ser julgada. Mas é preciso primeiro compreender a sua culpabilidade». 
 

domingo, 16 de junho de 2024

O DIA D DE CHURCHILL, de ALLEN PACKWOOD e RICHARD DANNATT | CRÍTICA

Ao romper da aurora de 6 de junho de 1944, inicia-se o desembarque da maior armada alguma vez reunida. Durante a noite, os paraquedistas da 6.ª Divisão Aerotransportada britânica asseguram o flanco oriental da zona de desembarque, enquanto as 82.ª e 101.ª Divisões Aerotransportadas dos Estados Unidos da América asseguram o flanco ocidental, para evitar os contra-ataques alemães. A batalha, com o nome de código Operação Overlord, começava assim a tomar forma.

Quando a Grã-Bretanha acorda com a notícia do desembarque, é sobre os ombros do primeiro-ministro, Winston Churchill, que recai a expetativa de uma declaração formal à Câmara dos Comuns. Churchill tem consciência da sua responsabilidade para com os soldados britânicos e os civis franceses, sabe que os opositores políticos irão questionar a sua liderança…, mas também, mais do que ninguém, está ciente dos seus pensamentos mais íntimos, das deliberações e das decisões que tem tomado e continuará a tomar neste dia.

Tudo está em jogo. Allen Packwood, um dos maiores especialistas mundiais em Churchill, e Richard Dannatt, antigo general do exército britânico, narram e analisam a épica tomada de decisões de Winston Churchill antes, durante e depois do Dia D. Reproduzindo documentos e cartas fundamentais do Arquivo de Churchill e de outras coleções, este livro faz-nos recuar no tempo e permite-nos testemunhar o desenrolar dos acontecimentos, narrando por dentro a história da conceção, do planeamento e da execução dos desembarques do Dia D, de uma forma única e oficial.

 

sexta-feira, 10 de maio de 2024

A HISTÓRIA DO MUNDO, de PETER FRANKOPAN | CRÍTICA

Do autor best-seller chega uma história original que revela como as mudanças climáticas moldaram dramaticamente o desenvolvimento e o desaparecimento das civilizações ao longo dos tempos.

O aquecimento global é uma das grandes ameaças que a humanidade enfrenta atualmente. Mas a crise climática e os seus efeitos não são algo novo. Numa narrativa ousada, que percorre continentes e séculos, o prestigiado historiador Peter Frankopan argumenta que a natureza e as suas manifestações sempre tiveram um papel crucial - senão mesmo definidor - na nossa história.

Frankopan traz para a discussão, o desenvolvimento da religião e da linguagem e as suas relações com o ambiente; traça a forma como as crescentes exigências de colheitas resultaram no aumento do embarque de povos escravizados; analisa a forma como o desejo de centralizar os excedentes agrícolas formou as origens do Estado burocrático, abordando a forma como os esforços para compreender e manipular o clima têm uma longa e profunda história.

Numa escrita brilhante e baseado numa investigação rigorosa, Frankopan traz-nos um livro essencial para compreender a forma como as mudanças do passado nos padrões naturais moldaram a história e como a nossa própria espécie moldou as condições terrestres, oceânicas e atmosféricas. Levando-nos do Big Bang até aos dias de hoje, este livro reformula radicalmente a nossa forma de vermos o mundo e o nosso futuro.
 

sábado, 23 de março de 2024

DIVULGAÇÃO | CATARINA DE MÉDICI, de LEONIE FRIEDA | CRÍTICA


Órfã desde a infância, herdeira de um nome antigo e de uma vasta fortuna, Catarina de Médici foi educada na corte florentina. com apenas 14 anos, o seu tio, o Papa, casa-a com o futuro rei Henrique II de França, mas este só tem olhos para a sua bela amante, Diane de Poitiers, que humilhava a jovem continuamente.

Em 1559, após a morte do seu marido, num duelo em Paris, Catarina vê-se empurrada para o centro do turbilhão da política francesa. Com o país dilacerado por conflitos, a viúva de quarenta anos e rainha-mãe tornou-se a figura mais importante de França durante os trinta anos seguintes. Depois de tentar promover a tolerância religiosa, viu-se forçada a adotar métodos extremos enquanto lutava pela sobrevivência do legado do seu marido e pelo direito real dos seus filhos. Isto levou ao infame Massacre de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, quando milhares de protestantes franceses foram chacinados.

Contemporânea e, por vezes, aliada de Isabel I de Inglaterra, Catarina foi uma excelente estratega política e uma conspiradora implacável. Apesar de ser considerada por muitos como uma intrusa, e de não ter uma base de poder natural própria, governou França com toda a determinação pelos seus filhos, três dos quais se tornaram reis de França, incluindo um que casou com Maria, rainha da Escócia. O amor obsessivo pelos seus filhos foi o seu ponto fraco e acabou por se tornar uma ameaça às suas grandes ambições para a França.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

DIVULGAÇÃO | AS CRUZADAS: A GUERRA PELA TERRA SANTA, de THOMAS ASBRIDGE | CRÍTICA

 

Há novecentos anos, um vasto exército cristão, convocado para a Guerra Santa pelo Papa Urbano II, invadiu o mundo muçulmano do Mediterrâneo oriental, tomando posse de Jerusalém, uma cidade venerada por ambas as religiões. Milhares de homens responderam a esta chamada, movidos pela ambição e pelo serviço a Deus. Ao longo dos duzentos anos que se seguiram a esta Primeira Cruzada, o Islão e o Cristianismo lutaram pelo domínio da Terra Santa, defrontando-se numa sucessão de guerras brutais.

Neste livro, o prestigiado historiador medieval Thomas Asbridge conta a história dessa luta épica, desde os dois lados do conflito, trazendo a estas páginas, a perspetiva de cristãos e muçulmanos. Abordando figuras históricas como Ricardo Coração de Leão, ou o seu contemporâneo Saladino, o sultão islâmico, entre outras personagens fundamentais da história das Cruzadas.

Numa narrativa vívida e de ritmo acelerado, o autor expõe todo o horror, paixão e grandeza bárbara da era das Cruzadas, revelando como estas guerras santas remodelaram o mundo medieval e continuam a ecoar na nossa memória até hoje.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

DIVULGAÇÃO | O MUNDO, de SIMON SEBAG MONTEFIORE | CRÍTICA

 

Do mestre contador de histórias e autor best-seller Simon Sebag Montefiore, a história da humanidade, desde a pré-história até aos dias de hoje, explicada através da única coisa que todos os humanos têm em comum: a família.

Uma viagem épica e emocionante através das famílias que moldaram o nosso mundo: os Césares, os Médicis e os Zulus, os Otomanos e os Mughals, os Bonapartes, os Habsburgos e os Incas, os Rothschilds, os Rockefellers e os Krupps, os Churchills, os Kennedys, os Castros, entre outras.

Esta é a história mundial à escala mais vasta e íntima - abrangendo séculos, continentes e culturas, e ligando temas de guerra, migração, epidemias, religião, medicina e tecnologia às pessoas no centro do drama humano. Tão fascinante como a ficção, O Mundo capta a história da humanidade em toda a sua alegria, mágoa, romantismo, engenho e crueldade, numa narrativa única e inovadora, que irá alterar para sempre os limites do que a história pode alcançar.

Ao longo do livro, Montefiore apresenta diferentes e poderosas dinastias, como os Médici, Bonaparte, Habsburgo, Rockefeller, Churchill, Kennedy, Castro, Kim y Assad. Destaca também líderes emblemáticos, como Alexandre Magno, Átila, Ivan o Terrível, Gengis Khan, Hitler, Tatcher, Obama e Putin, passando ainda por génios criativos como Sócrates, Miguel Ângelo, Newton, Mozart, Balzac, Bowie e Freud.