domingo, 30 de agosto de 2026

ONZE MINUTOS, de INÊS VALADAS | EUFORIA

Onze Minutos, de Inês Valadas, é um romance dark romance, publicado em Portugal pela chancela Euforia, da Guerra e Paz. A obra, publicada em junho de 2026, constitui a estreia literária da autora e apresenta-se como uma narrativa de elevada intensidade emocional, abordando temas cruciais que chamam à atenção para a importância da saúde mental.

Não é um livro fácil — e talvez seja precisamente essa uma das suas maiores virtudes. Onze Minutos assume sem hesitação os códigos do dark romance, mas procura ir além da mera exploração da relação amorosa intensa, perigosa e tóxica. O resultado é uma narrativa sombria, por vezes desconfortável, construída sobre personagens emocionalmente marcadas e sobre uma relação que, embora tóxica e perturbadora, possui uma força narrativa capaz de prender o leitor até à última página.

Laurell e Adrian são os protagonistas de uma história na qual amor e sofrimento surgem quase indissociáveis. Sete anos depois de o destino os ter unido, as suas vidas voltam a cruzar-se num contexto em que nada parece verdadeiramente resolvido. O passado não desapareceu; regressa sob a forma de segredos, feridas abertas, promessas quebradas e de uma ligação afetiva que permanece demasiado forte para ser ignorada.

É nessa permanência do passado que Inês Valadas encontra uma das linhas de força do romance. Laurell e Adrian não são simplesmente um casal em conflito: são duas personagens condicionadas por experiências pessoais que continuam a determinar as suas escolhas. A relação entre ambos adquire, por isso, uma dimensão quase claustrofóbica, em que desejo, dependência, medo, lealdade e necessidade de reparação se confundem.

A escrita distingue-se pela intensidade e por uma evidente preocupação estilística. Há momentos em que a linguagem se aproxima de uma escrita mais literária e sensorial, afastando-se de uma construção puramente funcional ou comercial da narrativa romântica. A autora procura que as emoções sejam sentidas fisicamente pelo leitor, e não apenas compreendidas. O resultado são páginas que, em determinados momentos, provocam genuíno desconforto e funcionam quase como um impacto físico.

Mas Onze Minutos não se esgota na história de amor. A saúde mental constitui uma dimensão particularmente relevante do romance, mediante alusões a ansiedade, ataques de pânico e depressão profunda. A própria autora adverte, no início da obra, para a presença destes conteúdos e esclarece que as referências a Psicologia, Psiquiatria e determinadas intervenções terapêuticas obedecem às necessidades ficcionais da narrativa, tendo-se permitido alguma liberdade narrativa ao invés de obedecer ao rigor científico.

Esta ressalva é importante porque o livro convoca uma terminologia e situações relacionadas com áreas clínicas particularmente sensíveis. A narrativa beneficia quando o leitor mantém presente que está perante uma construção ficcional e não perante uma representação técnica ou científica dos processos psicológicos e psiquiátricos. A distinção é especialmente relevante: a Psicologia é uma ciência que estuda o comportamento e os processos mentais, enquanto a Psiquiatria é uma especialidade médica, embora ambas as áreas se cruzem e complementem em múltiplos contextos.

Ainda assim, a utilização desses elementos cumpre uma função narrativa eficaz. O sofrimento psicológico das personagens não aparece simplesmente como adereço para intensificar o drama romântico; contribui para compreender a forma como experiências pessoais e familiares podem repercutir-se na construção da identidade e na maneira como cada indivíduo estabelece relações consigo próprio e com os outros.

É também neste ponto que o romance adquire uma dimensão mais interessante. Por detrás do dark romance, existe uma reflexão sobre aquilo que fazemos com as feridas que transportamos e sobre a forma como o passado pode continuar a determinar o presente. O amor não surge necessariamente como solução ou cura, aliás, pode ser simultaneamente refúgio, dependência, instrumento de poder e fonte de destruição.

A intensidade da relação entre Laurell e Adrian constitui, por isso, tanto a principal força como a característica que mais exigirá do leitor, a narrativa é pautada por muitos episódios imensamente duros em termos emocionais, e aborda temas sensíveis que causam ostensivamente desconforto no leitor. As advertências da autora são mesmo para levar a sério, pois é importante aferir da capacidade do leitor para suportar o peso emocional e psicológico desta obra.

Esta não é, portanto, uma leitura recomendável sem reservas a todos os públicos. Mas para quem procura dark romance e aceita confrontar-se com uma narrativa intensa, sombria e emocionalmente exigente, Onze Minutos oferece uma proposta particularmente ambiciosa para uma estreia e denota-se na escrita a entrega da autora ao realizar um trabalho cuidado em termos literários e de abordagem dos conteúdos, revelando-se uma perspetiva algo catártica na escrita de Inês Valadas, sendo a autora conhecida entre as leitoras portuguesas do género dark romance, não isento de polémica, mas que é inequivocamente uma tendência literária atual.

Inês Valadas consegue, sobretudo, criar duas personagens que permanecem na memória dos leitores muito tempo depois de encerrado o livro. Laurell e Adrian são personagens marcantes porque a sua história não assenta apenas na atração ou no conflito romântico: assenta nas marcas que as experiências familiares e pessoais deixam nas pessoas e na dificuldade de separar amor, dor, identidade e sobrevivência.

Onze Minutos é, assim, um romance intenso, duro, apaixonante e perturbador, mas também uma obra que convida à reflexão sobre saúde mental, bem-estar e sobre a forma como as narrativas pessoais e familiares podem repercutir-se profundamente na construção de quem somos. A estreia de Inês Valadas revela uma autora consciente do género que escolheu, mas igualmente interessada em explorar as suas possibilidades para além do puro entretenimento.

Um dark romance português que não pretende simplesmente reproduzir uma fórmula internacional: procura encontrar, dentro dela, uma voz própria. E, sobretudo, deixa uma pergunta desconfortável depois de terminada a leitura: até onde pode ir o amor antes de deixar de ser salvação e passar a ser destruição?

A ler conscientemente e apenas se validar as advertências da autora!


Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

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