quinta-feira, 13 de agosto de 2020
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
sábado, 8 de agosto de 2020
O REFÚGIO, de Fernando Teixeira

Achou
a distância demasiadamente longa para chegar ao terreno que o vendedor lhe ia
mostrar. Seis quilómetros desde que se saía da estrada nacional, percorridos
por uma outra municipal sinuosa e estreita mas asfaltada, do mal, o menos,
pareceu-lhe ser motivo mais do que suficiente para se decidir por uma recusa em
comprar aquela porção de terra. E só ainda ia a meio do caminho…
Porém,
quando lá chegou, essa impressão negativa desvaneceu-se e nem as palavras do
vendedor, a tentar convencê-lo, seriam necessárias para tomar uma decisão. O
local era perfeito, aprazível, sem construções à vista, rodeado de alguma
floresta variada e de vegetação mais rasteira, alguns afloramentos rochosos
dispersos e ligeiro declive para um pequeno riacho, por onde corria água, mesmo
em Verões mais secos, disse-lhe o vendedor a quem resolveu dar o benefício da
dúvida.
Dúvidas,
não tinha ele. Sim, aquele era o local perfeito, tal como imaginara que seria o
lugar onde um dia construiria uma casa que seria o Refúgio, assim chamaria ao
seu paraíso, longe do bulício da cidade e dos seus habitantes, onde poderia
estar em contacto com a natureza, procurando a paz e a simplicidade que idealizava
depois de uma vida em permanente correria e convulsão. Com a mesma
tranquilidade, fechou o negócio.
Durante
dois anos, tratou de conseguir um projecto aprovado pela autarquia e foi
construindo, ele próprio, a casa de pedra com que sonhara, tão simples e
rústica como acolhedora. Vezes sem conta, fizera então aquela estrada até se
tornar familiar como as suas mãos, conhecendo-lhe cada curva, as árvores nas
bermas, cada marco ou singularidade que lhe permitia distinguir onde se
encontrava e quanto faltava para o destino.
Mês
após mês, com a ajuda de antigos companheiros das obras, foi colocando pedra
sobre pedra, amassando argamassas para colocar novas pedras, marcando os vãos,
vendo as paredes erguerem-se e tornarem-se numa habitação, como fizera tantas
vezes para outros proprietários para quem trabalhara. Mas agora, era a sua casa
que ele erguia, de sol a sol, metodicamente, vencendo a ansiedade de a ver
concluída e pronta, para nela entrar e residir.
Cada
pedra de granito assente carregava em si o peso de tantos sacrifícios que
fizera no passado, o suor de cada dia de trabalho significava sucessos e
fracassos de outrora, cada viagem ao longo dos seis quilómetros da “sua”
estrada transportava dentro de si alegrias e tristezas, sendo a viuvez
prematura o maior dos infortúnios, cuja lembrança o deixava a cismar por saber
que nunca teria, naquela casa, no refúgio ambicionado e concretizado, a
companhia de quem tinha partilhado consigo sonhos e dificuldades da vida.
Ao
fim da tarde, cansado pelo esforço físico despendido, gostava de bebericar uma
cerveja com os homens, ou sozinho se eles já tivessem dispersado, admirando o
céu alaranjado logo após o astro-rei se ter ocultado por detrás das serras
circundantes, aguardando o anoitecer pejado dos ruídos da natureza envolvente.
Só então regressava à cidade.
Depois
da casa construída e de finalmente se ter mudado para lá, manteve o mesmo
hábito. Quando o ocaso se aproximava nas tardes estivais, descansava o corpo
numa espreguiçadeira, com uma cerveja na mão, observando os diversos matizes
que metamorfoseavam o céu, desde o azul-celeste a um alaranjado crescente, cada
vez mais vivo, até que o firmamento se revestia de tons violeta para depois
escurecer, tornando-se breu, iluminado por milhões de estrelas que pareciam
subjugá-lo. Chegava a sonhar com tais ocasos quando, adormecendo na
espreguiçadeira, o sonho parecia querer substituir-se à realidade.
Um
dia, regressava a casa, percorrendo uma vez mais aqueles seis quilómetros de
estrada estreita e sinuosa que o separavam do Refúgio. Já era de noite e apenas
os faróis da viatura iluminavam o asfalto e as árvores mais próximas, transformadas
em fantasmas monocromáticos. Não se vislumbravam estrelas e o breu era total.
Só pensava em chegar e deitar-se no conforto da cama, esperando o dia seguinte.
Após contornar uma colina, foi surpreendido pela visão de uma espécie de ocaso
onde o sol já se pusera há muito. À distância, o contorno negro da serra
distinguia-se num clarão alaranjado, cada vez mais vivo à medida que se
aproximava. Um clarão maldito e imenso, ameaçando envolver toda a área do seu Refúgio.
Foi
então que sentiu o cheiro a madeira queimada.
(O autor escreve
segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
UM DIA DE CÃO, de Anita dos Santos
Olá! Já uma vez vos contei umas “aventuras” que tive com una livros da minha dona.
Nessa altura eu era muito pequeno, era ainda um cachorro.
Entretanto já passaram alguns anos, cresci, já sou um cão
adulto e com juízo. Já sei que não devo brincar com os livros da minha dona!
Muitas coisas se passaram, entretanto, mas a mais importante
foi que um dia os meus donos chegaram a casa e traziam com eles uma “coisinha”
toda preta. Ela só chiava, mas tinha um cheiro muito agradável, umas orelhas
penduradas (as minhas são espetadas!), e acho que ela também gostou de mim.
Sim, era uma ela!
Ficámos a ser os melhores companheiros.
De manhã, quando os donos acordam, eles abrem-nos a porta do
quarto. Nós vamos à vez, e saltamos para a cama deles. Só depois vimos para
baixo, para onde está o resto da casa e o jardim.
É muito bom sair porta fora e ir cheirar tudo, para ver se o
malandro do gato do lado veio passar à porta enquanto lá não estávamos para
correr com ele. Ou então qualquer outro cheiro de outro bicho que por lá tenha
andado. O sapo já não aparece há um tempo…
Entretanto podemos sempre contar com as lagartixas!
A minha dona não gosta que eu ande à procura delas, mas elas
são tão divertidas que não consigo resistir. É que nem ouço quando ela ralha
comigo de tão entretido que estou na caçada à lagartixa…
É sempre divertido andar a correr atrás da minha amiga, ela
não fica nada preocupada. Pelo contrário, muitas vezes é ela que me desafia
para brincar, me mostra os dentes ou me rói a orelha. Também gosta de chegar ao
pé de mim e bater os pés no chão – isso aprendeu comigo! – para me desafiar.
Depois desata a fugir para eu ir atrás dela.
Quando estou com preguiça, fico deitado ao sol com os olhos
um pouco fechados, até ficar quentinho, depois vou deitar-me onde a minha dona
estiver.
É bom quando vamos passear, mas fico muito esganado com o
peitoril e a trela… a minha dona diz que eu puxo muito… não sei o que é que ela
quer dizer com isso. Mas gostava mais de ir passear quando íamos ver as cabras
– a minha dona dizia que se chamavam assim – mas agora já lá não estão.
Ao serão gostamos de ficar no sofá com a nossa dona.
Quando chega à noite tenho de ter em atenção em ser o
primeiro a subir as escadas para escolher a cama para dormir, senão ela escolhe
aquela que eu quero…
E pronto, assim se passa um dia divertido, mesmo que pelo
meio tenhamos tido ainda tempo para roer uns paus, que tenham vindo da pilha da
lenha!
segunda-feira, 3 de agosto de 2020
domingo, 2 de agosto de 2020
NÓ NA GARGANTA, de MC Garcia
Já do avesso virou cada certeza
E o país que procurava não existe
Ainda não existe
Manuel Alegre, in “Um Barco Para Ítaca”
Como o bar ainda estava nas suas mãos, ele decidiu saldar as pequenas dívidas com peças de mobiliário. O padeiro, um português grande, daqueles que o sol não bronzeia, mas avermelha, que fazia a distribuição do pão porta a porta numa mota com sidecar, levou a máquina registadora; o fornecedor de bebidas levou a "minha" Rockola…, mas não levou a maior parte dos discos de 45 rotações, esses guardei. O senhorio ficou com tudo o que restava.
Meu pai só vendeu a licença de licores porque esta tinha algum valor comercial e era transmissível. Com essa pequena quantia devia iniciar uma nova vida e sustentar a família, sabia lá, por quanto tempo.
E numa manhã, como outras tantas, o Bar Copacabana fechou as portas para sempre, deixando-nos do lado de fora, ao sabor de um destino incerto.
Muitos anos depois, passei por aquela rua. O edifício ainda existia, mas as portas do antigo bar continuavam fechadas. As pessoas que moravam na rua não sabiam que naquele local tinha existido um bar que se chamava Copacabana. Mais recentemente soube que, durante as grandes inundações, muitos dos lugares onde passei a minha infância foram sepultadas pela pedras e a terra, ou arrastados pelas águas enfurecidas e lançados ao mar. Ficam só as memórias.
Perder o negócio foi, para os meus pais, uma vergonha. Custava-lhes enfrentar os seus conterrâneos e suportar a comiseração de uns e o escárnio de outros. Apenas tinham vontade de sair daquele lugar e começar uma nova vida onde ninguém os conhecesse.
Talvez por isso foi tão fácil aceitar a sugestão de um conterrâneo, um daqueles que tinham esquecido a aldeia e a família, aventurando-se a ir para o país mais profundo, onde o rio Orinoco se cruza com o Caroní, junto à selva, onde se escondem os tesouros da terra.
Ele falou-lhe da grande siderurgia em construção e da cidade que se desenvolvia ao seu redor, da abundância de trabalho e dos bons ordenados.
Então, o meu pai soube que tinha que começar a trabalhar na construção civil e pôr em prática tudo o que tinha aprendido com o pai.
Com uma magra quantia de dinheiro, talvez menos do que aquela que trazia quando chegou àquele país, decidiu partir, uma vez mais, deixando atrás a mulher e quatro filhos pequenos. Mas agora o que o levava não era o sonho e a esperança, agora era o desalento e a incerteza que o levavam.




