quarta-feira, 4 de março de 2020

MARIA (continuação), de Mafalda Pascoal

 


Maria (continuação)

Naquele momento, aqueles frutos eram a coisa mais importante na vida de Maria, no seu pensamento de criança, pensava que não podia afastar-se daquela árvore, pois ali tinha o alimento de que precisava... olhou à sua volta, continuava a ver só árvores, olhava para o céu e pouco conseguia ver, a vegetação era tão densa... mas notava que estava a escurecer novamente, começava a ter frio, tentou aninhar-se ao pé daquele tronco enorme e lá ficou mais uma noite sozinha sem ninguém por perto, só escuridão e muitos ruídos e barulho que lhe faziam sentir muito medo. O cansaço e o medo foram vencidos pelo sono e adormeceu.
De manhã, quando acordou, ficou quieta, só mexia os olhos, no seu campo de visão estava um animal que parecia um cão, e se fosse um cão era diferente dos que conhecia, como era grande ela não se mexia à espera que ele se fosse embora, o cão andou por ali a cheirar, cheirou-a nos pés, nas mãos, quando se encaminhou para a sua cara, ela fechou os olhos com tanta força, pedindo ao seu anjo da guarda que a protegesse. Entretanto o cão foi-se embora. Maria levantou-se devagarinho, sem fazer barulho, espreitou por cima dos arbustos a ver se havia alguma coisa suspeita... nada viu que a amedrontasse.
Espreguiçou-se e começou à procura de frutos que comeu com satisfação e também algumas bagas que encontrou nos arbustos.
De vez em quando lembrava-se do seu pai, que deveria estar muito aflito por não saber dela. A sua mãe tinha falecido pouco antes do seu pai ter partido em viagem.
Quando fez cinco anos, chovia muito e a sua mãe já estava muito doente, falecendo alguns dia depois. Quando seu pai partiu ainda fazia muito frio e chovia de vez em quando, ele tinha que partir porque era a forma de sobrevivência daquela mansão e de todas as pessoas que lá viviam. Maria tinha ficado à guarda da senhora Vladimira, uma senhora extremamente ambiciosa que sempre trabalhou lá e que nutria um sentimento misto de amor/ódio/inveja pelo casal e filha.
     Os dias iam passando. A senhora V nunca tinha um gesto de carinho para Maria, ignorava-a completamente, poucas vezes a via. Pouco tempo antes de ter ido ao encontro do seu pai, Maria tinha visto a senhora V muito feliz depois de o cocheiro ter trazido uma carta que ela abriu de imediato, por muito pouco tempo ficou quieta a observar o papel que lá vinha dentro, depois encostou a carta e as duas mãos ao peito e rodopiou nela própria dizendo «a hora está a chegar, a hora está a chegar...» e dava gargalhadas que espantaram os passarinhos que por ali andavam, tal era o barulho.
Nesse mesmo dia, quando Maria brincava, a senhora V chegou-se ao pé dela, e muito doce, disse-lhe:
- Maria, o teu pai está de regresso para nós. Diz que chega amanhã. Se quiseres, podes ir esperá-lo na floresta para ele ficar mais feliz e tu vais poder vê-lo primeiro que todos nós, o que é que tu achas?!
 Maria ficou tão feliz que disse logo que sim aos pulinhos e batendo as palmas, tinha tantas saudades do seu querido pai e finalmente ia vê-lo no dia seguinte.
No outro dia, saiu da cama bem cedo, quase nem dormiu com tanta ansiedade. Procurou a senhora V para lhe perguntar se já podia ir ao encontro do pai, mas não a encontrou assim como também não viu ninguém pela casa, devia ser muito cedo, então encostou-se na poltrona perto da lareira e acabou por adormecer.
Acordou com o barulho da loiça, estavam a pôr a mesa e logo de seguida entra a senhora V a falar de uma forma estranha e pergunta:
- Por acaso não viram a fedelha?

(continua)

O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

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