sexta-feira, 20 de março de 2020

PERDIDA, de Anita Dos Santos















Há uma característica, que muitas pessoas terão, ou pelo menos eu assim penso.

É o facto de se aperceberem de que há algo errado perto de si, ou com alguém perto de si, antes de que outras pessoas, aparentemente vejam algo errado ou até o percebam de todo.

Hoje, numa loja de pronto a vestir, um grande espaço comercial, dei com os olhos numa criança, uma menina com uns cinco anos, de chupa-chupa na mão, que deambulava sozinha pelos corredores.

Fiquei parada por momentos, e depois comecei a segui-la.  Ela olhava para todos os lados, calmamente, e de vez em quando chamava pela mãe…

As pessoas passavam por ela e simplesmente ignoravam a criança. Estive uns momentos parada de parte, de olhos postos em cima dela, para ver se aparecia alguém em resposta aos chamamentos regulares, embora calmos. Mas não, não apareceu ninguém. Ela não estava assustada, dava mais uns passos, olhava para todos os lados, e chamava. Seria aquilo uma situação usual?

Aproximei-me dela com um sorriso, e perguntei-lhe:

- Não sabes da mãe? – Abanou a cabeça.

- Não, não sei.

- Sabes o que vamos fazer? Vens comigo, e vamos à procura de uma das meninas da loja para ela chamar a tua mãe ao microfone. – E ela foi comigo.

Lá encontrámos uma funcionária, muito simpática e atenta, a quem disse o que se estava a passar, e a garota foi com ela.

Nesta situação, fiquei a pensar em duas coisas: primeiro, o facto de a criança se ter perdido e não estar ninguém, aos gritos, a chamar por ela (era o que eu faria!)

Segundo, a facilidade com que ela me acompanhou e a calma que manteve sempre.

Bem sei que eu estava a ajudar, mas podia não ser o caso.

Lembrei-me de os meus filhos serem pequenos e ter um perfeito terror quando tínhamos de ir ao supermercado, mesmo sem que eles saíssem do carro das compras.

Uma das coisas que lhes ensinei, foi que quando estávamos no supermercado se houvesse alguém que não eu e o pai, quisesse que eles os acompanhassem, deviam fazer o maior berreiro, gritar o mais alto que conseguissem para chamar a atenção de toda a gente, e dizer o que se estava a passar. Felizmente, tal nunca foi necessário.

Quando saí a porta da loja, lá estava a funcionária a acompanhar a menina, bem como o segurança, e a mãe ainda não tinha aparecido. “Minha senhora, infelizmente isto sucede todos os dias”. Esta foi a resposta do segurança.

Definitivamente algo está errado com a maneira como a sociedade está a evoluir.


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.


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