quarta-feira, 18 de março de 2020

UM APLAUSO MERECIDO, de Fernando Teixeira















Um aplauso de alguém, de um grupo de pessoas ou de uma multidão, é sempre uma manifestação de regozijo por um acontecimento, uma reacção a um sucesso ou o reconhecimento do mérito de alguém. Observamos, frequentemente, ovações efusivas pela ocasião de aniversários e casamentos, em celebrações comemorativas, em concertos musicais, em eventos desportivos… Um bruaá de palmas que explode subitamente em sinal de alegria ou de que a alma se nos encheu de contentamento, por algo que nos agradou ou aconteceu, correspondendo às nossas expectativas.
Nos últimos dias, em várias cidades de Portugal, de Espanha e de Itália, provavelmente noutras por esse mundo fora, numa acção concertada e em resultado do confinamento requerido pela situação de pandemia, milhares de pessoas têm assomado às janelas de suas casas, aplaudindo conjuntamente, durante largos minutos, em sinal de reconhecimento pelo trabalho que as equipas médicas e pessoal hospitalar têm desenvolvido na luta contra o surto de COVID-19.
Não aplaudem uma jogada brilhante da sua equipa ou jogador preferido, um golo que aconteceu, uma peça musical tocada com mestria, nem tão-pouco alguém que conhecem. Batem palmas a pessoas anónimas, palmas de agradecimento, apoio e solidariedade, convictos de que esses profissionais da saúde estão a exercer a sua actividade em condições dificílimas, sujeitos a uma enorme exigência, e expostos na linha da frente à ameaça que combatem, obrigando-os a cuidados extremos de protecção individual, correndo o risco de serem eles também vítimas.
Esses profissionais, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, não cedem, não desanimam, não pensam em si, antes continuam firmes numa luta contra o tempo e contra um inimigo silencioso e invisível, letal nos casos mais graves em que esperam conseguir operar milagres.
A população, em geral, já se consciencializou da ameaça que paira sobre si, nos dias que correm, nas próximas semanas e ainda durante alguns meses, provavelmente. As pessoas sentem-se inseguras e impotentes contra esta nova ameaça, tentando contrariá-la seguindo as recomendações das autoridades de saúde, no sentido de se protegerem e não serem alvo de contágio. Contudo, sabem que, se tiverem o infortúnio de serem contagiadas por este vírus, com gravidade, serão aqueles profissionais hospitalares a sua tábua de salvação, a sua única esperança. Por isso, aplaudem a sua competência, mas sobretudo a sua tenacidade, a persistência perante o esforço e a exaustão.
Poderão estes médicos e enfermeiros dizer que não precisam de palmas, que precisam é de que a população se mantenha fechada em casa, a única forma de contrariar a propagação deste vírus insidioso e maldito. Talvez! Porém, tenho a certeza de que não foram, e não são, indiferentes a estas manifestações de solidariedade e de reconhecimento por parte da população, e que isso os motiva e fortalece ainda mais.
Este aplauso da população é extensível aos profissionais de outros ramos de actividade, como sejam a produção de alimentos, o transporte de mercadorias, a indústria farmacêutica, os bombeiros e forças de segurança, e tantos outros cujo trabalho é imprescindível para que a nossa vida continue e para que esta travessia por águas tumultuosas chegue a bom porto. Todos merecem o nosso aplauso!   
Cabe-nos fazer também a nossa parte, no nosso próprio interesse, para lhes facilitar a missão: mantermo-nos confinados às nossas casas, abstendo-nos de contacto social, saindo apenas para as actividades estritamente indispensáveis e no menor número possível, como a aquisição de bens essenciais, observando os procedimentos e as normas de higiene recomendadas, a fim de que o número de vítimas seja igualmente o menor possível, no termo desta crise pandémica.
Que o aplauso à janela das nossas casas seja também um aplauso aos que vivem em edifícios vizinhos, como expressão do reconhecimento de cada um pelo esforço de todos, em espírito de comunidade, pois só sairemos disto se nos mantivermos firmes e unidos nesse objectivo.

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

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