sexta-feira, 2 de outubro de 2020

UM PASSEIO AO MERCADO, de Anita Dos Santos

 







Nanda saiu de casa e dirigiu-se para o mercado de trocas, onde sabia ir encontrar Nela.

Ao chegar à porta do curtidor parou e espreitou para dentro. Como já esperava, era ali que a Nela estava.

Entrou, como que por acaso, e cumprimentou:

- Bom dia para ti, mestre curtidor!

O curtidor, homem de grande estatura, mas com delicadeza de mãos, deu um salto para o lado, apanhado de surpresa.

- Bom dia também para ti, Escolhida. Auspicioso seja o dia em que tenho as duas Escolhidas na minha casa.

- Ah! Estavas aí. Não tinha reparado. Como é que estás, Nela? – Nanda virou as costas ao curtidor para esconder o sorriso.

- Vou muito bem, obrigada por perguntares. – Respondeu-lhe Nela educadamente, estando de frente para o curtidor, não pôde retribuir a careta.

- Vou olhar até lá ao fundo enquanto acabas o negócio aí. – E Nanda esgueirou-se para o fundo da venda, fazendo sinal a Nela.

Esta continuou a fazer negócio com o curtidor, a quem tencionava comprar umas botas para oferecer ao André.

- Mas então mestre, tem realmente a certeza de que estas ficarão bem ao meu rapaz?

- Certezinha absoluta, Escolhida. Palavra de mestre curtidor. E repare que pele macia que têm, isto nem se vai sentir nos pés, digo-lhe eu que sei do ofício!

- Bem, se me assegura realmente que assim é…, mas nada de andar a dar com a língua nos dentes, que isto é para ser surpresa, e sei lá eu quando é que ele vem por cá!

O mestre, com a sua enorme estatura, encolheu-se perante a pequena mulher, com um certo ar de ofensa no rosto.

- Escolhida Nela, em todos estes anos que me conheces, nunca a minha boca se abriu indevidamente em alturas impróprias, para dizer aquilo que sabia, e que não devia dizer. Sei quando devo estar calado.

- Não te quis ofender meu amigo, mas os tempos não estão fáceis, muito pelo contrário. Todos nos devemos acautelar.

- Compreendi-te. Podes ficar tranquila.

Virou as costas e dirigiu-se ostensivamente para o lado contrário àquele onde se encontrava Nanda.

Nela de imediato foi ter com ela.

- E então, sabes de alguma coisa? Já há novidades deles? – Perguntou, assim que se acercou da amiga.

- Nada, não sei de nada, e esta falta de notícias está a dar cabo de mim.

Nenhuma delas primava pela paciência, no que dizia respeito ao bem-estar dos seus filhos, e o que se estava a passar na Assembleia do Círculo dos Sete era sinónimo evidente de que a presença dos dois jovens se tornava essencial na cidade.

E o Mensageiro sem dar sinal de vida!

- Viste alguma coisa nas taças? – Perguntou a Nanda.

- Não vi mais nada que já não tenha visto. – Respondeu Nela dando a volta às prateleiras, e mandando a trança para trás das costas com um piparote.

- Repete-me de novo o que viste, por favor. Pode ser que te lembres de algo novo.

- Vêm os três de caminho. E trazem mais com eles. E são esses mais que não consigo ver nas taças. Já olhei uma e outra vez… Também eu pensei o que estás a pensar. Olha, se calhar chegou o momento de aprender o ensinamento do Ulmeiro “A paciência é uma virtude “, e não há mais nada a fazer!

- Pois, sempre tive dificuldade com esse ensinamento…

 

In “Crónicas de André e Vicente – A Cidade das Brumas”


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