quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

EM 2026, QUE NÃO NOS FALTE O ESSENCIAL, de MBARRETO CONDADO


À porta de um novo ano, há sempre um instante silencioso em que cada um de nós se questiona:
o que realmente desejo para o que vem aí? É nesse intervalo entre despedida e recomeço que ganhamos coragem para escutar o que nos falta, o que queremos manter e o que esperamos transformar.

Para 2026, desejo que cada um encontre tempo — tempo para respirar, para sentir, para estar verdadeiramente presente com quem importa. Que haja espaço para conversas que aproximam, abraços que sossegam e encontros que lembram que ninguém caminha sozinho.

Desejo-vos dias mais leves, mesmo quando o mundo insistir em ser pesado. Que não falte coragem para recomeçar quando necessário e serenidade para aceitar o que não conseguimos mudar. Que 2026 vos traga saúde, paz interior e a delicadeza de saborear as pequenas coisas: um café quente, um riso inesperado, um final de tarde que acalma.

Que este novo ano seja um convite à autenticidade — para vivermos como somos, para cuidarmos de nós e dos outros, e para não deixarmos passar despercebidos os momentos que nos constroem.

Aos leitores da Nova Gazeta, deixo um abraço sincero e o desejo profundo de que 2026 seja um ano gentil, luminoso e cheio de motivos para agradecer.

Feliz Ano Novo. Que seja verdadeiramente bom.

MBarreto Condado

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O NATAL DE POIROT, de AGATHA CHRISTIE | EDIÇÕES ASA


Um policial de Natal. Na noite de consoada, a família Lee está reunida. Subitamente ouve-se um enorme barulho de mobília que se parte. Segue-se um grito de agonia. No andar de cima, Simeon Lee, pai tirano, jaz morto, num lago de sangue, a garganta cortada. Chega o inspector Hercule Poirot para desvendar o caso e encontra uma família cheia de mútuas suspeitas.
Para ler nestes dias de frio e chuva, no aconchego da casa.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

UM CONTO DE NATAL, de CHARLES DICKENS | CLÁSSICA EDITORA

 

Um Conto de Natal ou O Natal do Sr. Scrooge é talvez um dos mais conhecidos contos da literatura universal e, sem dúvida, o mais conhecido conto de Natal.

Nele, todo o sortilégio do Natal é tratado na prosa de um dos melhores caricaturistas sociais de todos os tempos, que foi talvez aquele que melhor soube apreender e transmitir o espírito do Natal!

Inúmeras vezes adaptado ao teatro, cinema e televisão, poucos serão aqueles que ainda não ouviram falar do fantasma do Natal Passado, do fantasma do Natal Presente e do Fantasma do Natal Futuro e do velho avarento que é visitado por estes espíritos que lhe transmitirão o verdadeiro sentido do Natal.

Escrito por Charles Dickens em 1843, salienta-se que esta edição inclui as ilustrações originais, concebidas por John Leech, ilustrador preferido de Dickens.

domingo, 28 de dezembro de 2025

GLORIA IN EXCELSIS - AS MAIS BELAS HISTÓRIAS PORTUGUESAS DE NATAL, de VASCO GRAÇA MOURA | QUETZAL EDITORES

 


«[…] a festividade religiosa (do presépio à missa do Galo) e a sua paralela celebração secular e jubilante quase sempre no plano da família; o contraste mais ou menos chocante entre Graça e desgraça, ou entre grupos e condições sociais; o regresso de alguém que, regra geral, estava ausente havia muito; a evocação do tempo e das vivências do passado; a reconciliação entre os homens; por vezes o sofrimento, a tragédia ou a violência numa quadra que não deveria comportá-los; quase sempre a ruralidade do meio em que a acção decorre (nesta colectânea, todavia, com algumas excepções nítidas); como cenário de fundo, é frequente a contraposição do mau tempo (chuva, frio, neve, ventania) a um ambiente aconchegado e familiar.»

Mais de quarenta histórias natalícias da pena dos grandes clássicos portugueses dos séculos XIX e XX, escolhidas por Vasco Graça Moura.
Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Fialho de Almeida, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Régio, Vitorino Nemésio, Gaspar Simões, Miguel Torga, Alves Redol, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, José Saramago, Natália Nunes, Maria Ondina Braga, Isabel da Nóbrega e José Eduardo Agualusa, entre muitos outros.

sábado, 27 de dezembro de 2025

PORTO - CIDADE DE NÉVOA E PEDRA, de MBARRETO CONDADO | COLECTÂNEA PORTO UMA CIDADE COM ALMA | CHIADO BOOKS

 

Há cidades que se mostram de imediato, outras que se revelam devagar. O Porto, não — o Porto não é nenhuma delas — habita nas entranhas da pedra, dissolve-se na bruma, paira no silêncio húmido que desce do Douro e cobre os telhados rubros como um manto de memória ancestral. É uma cidade que se sente antes de se compreender, onde o granito tem voz e o vento murmura histórias que ninguém ousou escrever.

As gentes do Porto dispensam ornamentos: dizem o que pensam e cumprem o que prometem. São austeras como as fachadas da Ribeira, mas com um coração doce. Falam com voz rouca de quem viveu muito e sorriem com dignidade, sem pedir licença para existir. Nos olhos guardam ternura, nos gestos, uma franqueza que embriaga mais que o próprio vinho do Porto. Aqui, a hospitalidade não se mostra — pratica-se.

A cidade ergue-se em socalcos e vontades, resistindo a cercos, séculos e à pressa dos tempos. Por isso é Invicta — não por vaidade, mas por justiça. Em 1832, durante o Cerco do Porto, suportou bombardeamentos e privações para defender a liberdade constitucional. Foi aqui que D. Pedro IV foi aclamado, e quis repousar simbolicamente o seu coração — um raro gesto de amor político. Séculos antes, nas margens do Douro, nasceu o berço da nação. Daqui partiram navios que rasgaram mares e mapas, e chegou a modernidade com fábricas, comboios e indústria a transformar a cidade.

Nos muros e varandas cruzaram-se fidalgos, mercadores, espadas e ideias. O Palácio da Bolsa guarda essa nobreza ativa, unida ao labor tenaz dos homens livres. Nos seus salões ecoam passos de reis, palavras de diplomatas e juras de alianças. O Porto foi palco de revoltas operárias, bastião republicano e berço estudantil. Resistiu à censura e floresceu com o 25 de Abril. O passado não descansa: molda, arde e permanece.

Também nos muros se escreveram versos. Do Porto saiu Almeida Garrett, mestre do romantismo combativo. Aqui nasceu Sophia de Mello Breyner Andresen, que ouve o mar como quem escuta o destino. Camilo Castelo Branco viveu nestas ruas as suas paixões e tormentos — ora cúmplice, ora verdugo. Ainda hoje, o Porto é berço de autores: livrarias respiram entre pedras, cafés e ideias. Cada rua é um poema por escrever. O Porto transforma a dor em literatura eterna.

À mesa, outra epopeia — íntima e heroica. Há séculos, os portuenses cederam a melhor carne às naus, ficando com as tripas. Da escassez nasceu um prato símbolo: as tripas à moda do Porto. Nada descreve melhor a alma da cidade — que transforma pouco em muito, rude em belo. A gastronomia é resistência: a francesinha desafia, o caldo verde conforta, o bacalhau, eterno companheiro, renasce sempre. Em cada tasca pulsa uma alma, um aroma que fica na roupa e no coração.

E há o vinho do Porto, que desce do Douro em tonéis e repousa nas caves de Gaia, como quem adormece para sonhar. Não se bebe só — contempla-se. Doce, escuro, profundo. Como a cidade.

Os costumes nascem de festa e fé. No São João, sagrado e profano abraçam-se, e o Porto transforma-se em espanto. Balões sobem como preces, martelinhos e alhos-porros dançam entre gargalhadas, e o rio espelha as estrelas. É a noite em que a cidade se entrega, e por um instante, todos são filhos do mesmo chão.

O clima é um personagem à parte. Não se limita a estar — impõe-se. Os verões cheiram a sal e sol, os invernos colam-se à pele. Mas é no nevoeiro que o Porto encontra o seu rosto. Esse manto espesso que desce sem ruído envolve tudo, desfoca os contornos e devolve à cidade o seu mistério. No Porto, o nevoeiro não oculta — revela. Nas manhãs brancas, ouve-se melhor o tempo antigo, e cada beco parece um segredo em suspensão.

Na bruma, o Porto adormece,

com o Douro a sussurrar,

e um coração que nunca esquece

o que sempre há-de amar.


À beira-rio, os barcos rabelos contam outro tempo. Os degraus que descem à água falam de homens que lavraram o Douro com mãos calosas e coragem. Do alto da ponte D. Luís I vê-se a cidade em camadas: velha, eterna, resistente. Lá em cima, os telhados desenham uma colcha de ferrugem e sonho.

Se o passado é pedra, o futuro vibra nos corredores da Universidade, nas livrarias, nos cafés onde fermentam ideias. A vida académica é pulso, juventude, reinvenção. Chegam estudantes de todo o mundo, misturam línguas, sonhos, culturas. Enchem jardins, ocupam teatros, desafiam praças. Diz-se que é nos olhos deles que o Porto reaprende a ver o futuro — com ciência, arte e ousadia feroz.

O Porto escuta, mas também se transforma. Inova sem ruído, respeitando o que foi para erguer o que há-de vir. Cresce para o mundo, sem perder o cais da sua identidade.

E entre os heróis de outrora, também o presente se projeta. O futebol — paixão visceral — reflete a alma combativa da cidade. O azul e branco do F. C. Porto não é apenas cor — é nervo, é orgulho tatuado no peito de milhares.

Hoje, turistas chegam de todas as latitudes e perdem-se encantados entre a Ribeira e a Foz, entre travessas escondidas e o brilho dos azulejos ao entardecer. Espantam-se com a força do vinho, com a alma da comida, com a forma como o passado habita cada esquina. E os próprios portugueses, olham para o Porto com respeito e um fascínio silencioso — como se ali residisse uma verdade antiga, que todos reconhecem mas poucos conseguem nomear.

No fim, o que fica é um sentimento sem nome — um Fado quieto. O Porto não é só cidade: é forma de ser, de estar, de amar em silêncio. Quem aqui nasce, nunca parte por inteiro. E quem chega, se souber escutar, encontrará sempre um lugar onde pousar o coração.

O Porto é nevoeiro e luz, dureza e abraço. É pedra, rio, vinho e gente. Passado que pulsa, presente que arde, futuro que sonha — sempre com alma.

MBarreto Condado


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O DIA EM QUE O PAI NATAL SE DESLIGA DO MUNDO, de MBARRETO CONDADO


Dia 26 de dezembro.

As sobras do bacalhau ainda ocupam meia cozinha, os brinquedos estão espalhados pela casa como se tivesse passado um furacão infantil… e há uma pergunta que ecoa pelo mundo inteiro:

“E agora… onde está o Pai Natal?”

Depois de dois dias de autêntico caos logístico — milhões de presentes, renas stressadas, chaminés estreitas e GPS’s avariados na Lapónia — o Pai Natal está finalmente OFFLINE.

Completamente.
Indisponível.
Inalcançável.
Nem o WhatsApp mostra “última vez online”.

Neste momento, o Pai Natal está provavelmente:

• enfiado no sofá da Lapónia com uma manta,

• a beber um chocolate quente extra-forte,

• a ver séries em modo maratona,

• e a repetir para si próprio:

“Nunca mais como um bolo-rei deixado no parapeito. Nunca.”

As renas, coitadas, estão num spa especializado em animais exaustos, a fazer hidroterapia e massagens nas patas — principalmente Rudolph, que tem tendência para se queixar mais.

A Mãe Natal, essa sim, é a verdadeira heroína. Passou dois dias em gestão de crise, a atualizar listas, a coordenar elfos em burnout e agora olha para o marido e diz apenas:
“Amanhã começas a dieta.”

Os elfos, libertos finalmente, estão em modo festa total: karaoke, jogos, biscoitos… e zero trabalho até fevereiro. É praticamente o verão das férias deles.

E nós?

Nós recuperamos lentamente, digerimos o peru, arrumamos brinquedos, e olhamos para o calendário a pensar:

“Como é possível ainda faltar uma semana para o Ano Novo?”

Mas lá longe, na Lapónia, entre neve, mantas e ressonares épicos, o Pai Natal repousa.
Porque sabe que para o ano vai tudo recomeçar.

E porque, sinceramente… se o homem não descansasse hoje, ninguém aguentava o Natal de 2026.

MBarreto Condado

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

ENTRE VÍRGULAS E AFETOS, de MBARRETO CONDADO

Há amizades que nascem no acaso, outras na necessidade, e há aquelas que florescem na palavra. Vocês, meus amigos escritores — Fernando, Vanessa, Mafalda, Anita e Cecília — pertencem a esse último e raro tipo. Vieram primeiro como companheiros de letras, cúmplices de textos e conversas intermináveis, mas permaneceram — e permanecerão — como muito mais do que isso. Tornaram-se família: um irmão e irmãs.

Irmão e irmãs não apenas de caneta e papel, mas, sobretudo, de sentimentos. Vocês estão sempre presentes nos momentos melhores e piores da minha vida, encorajando-me com palavras sábias que tocam a alma, e que nunca me permitem desistir. Entendem o silêncio que precede uma ideia, a inquietação de um parágrafo inacabado, a alegria quase infantil de quando uma frase finalmente encontra o seu lugar. Sabem que escrever não é só técnica; é entrega, é fragilidade exposta, é coragem partilhada.

Estiveram sempre comigo — nos dias de inspiração, e nos de cansaço; nas páginas que brilhavam, e nas que tremiam. Souberam ouvir quando as palavras doíam, celebrar quando elas voavam, e, acima de tudo, acompanhar quando elas simplesmente não vinham.

A literatura aproximou-nos, mas foram a sensibilidade, o respeito, e o carinho que nos uniram de vez. Hoje, olho para cada um de vocês — Fernando, Vanessa, Mafalda, Anita e Cecília — e vejo não apenas escritores admiráveis, mas pessoas raras, cuja presença consola, inspira, e transforma.

Se a vida é feita de capítulos, vocês são aqueles que nunca deixaram de aparecer nas minhas páginas. Obrigada por serem porto, riso, reflexão, e abrigo. Obrigada por serem mais do que amigos: por serem verdadeiros irmão e irmãs de alma, e de sentimento.

Que continuemos a escrever juntos — histórias, dias, e afetos — por muito tempo, porque a nossa vida já é um parágrafo em comum, cheio de vírgulas, sem ponto final, sempre aberto a novas linhas, novas histórias, e novos momentos partilhados.

MBarreto Condado 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NESTE NATAL, O QUE IMPORTA MESMO?, de MBARRETO CONDADO


Caros leitores,

À medida que nos aproximamos de mais um Natal, somos convidados a abrandar o ritmo e a olhar em redor com maior atenção. Não apenas para as luzes que cintilam nas ruas, mas para as pessoas que dão sentido ao nosso quotidiano — as que nos acompanham de perto e as que encontramos apenas por instantes.

O Natal tem esta capacidade singular de nos recordar que pertencemos uns aos outros. Somos parte de comunidades, famílias e histórias que se cruzam e se transformam mutuamente. Porém, na pressa dos dias, é fácil deixar escapar o essencial: um gesto de cuidado, uma palavra de conforto, uma presença que pode iluminar o dia de alguém.

Esta quadra convida-nos a recuperar o valor da proximidade. A importância dos encontros, das conversas demoradas, de uma mesa partilhada. Convida-nos também a olhar com especial sensibilidade para aqueles que vivem esta época com maior dificuldade — quem está sozinho, quem enfrenta momentos de fragilidade, quem carrega ausências que pesam mais no silêncio do inverno. O espírito natalício torna-se verdadeiramente autêntico quando se revela em gestos concretos de solidariedade.

A todos os leitores da Nova Gazeta, desejo um Natal vivido com serenidade, significado e verdade. Que haja tempo para agradecer, para reatar laços e para oferecer o que não cabe em embrulhos: atenção, generosidade, presença. Que cada pequena luz que encontramos na cidade possa inspirar um brilho correspondente dentro de cada um de nós.

Festas felizes para todos.

MBarreto Condado

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

CONTO | MARIA, E O COMPANHEIRO IMAGINÁRIO, de ANITA DOS SANTOS

Já era noite escura há algum tempo. Tempo suficiente para serem horas de ir para a cama.

Mas estar à janela era muito mais apetecível.

Maria, era uma criança cheia de vida. Plena de imaginação, que muitas vezes os adultos, os de casa e os de fora, não entendiam, e ela por sua vez, não os percebia a eles. Eram complicados demais.

Por isso, ali estava ela, sozinha na janela a espreitar as nuvens que conseguia ver passar em frente da lua, e imaginar nas formas que via, animais que conhecia, ou então não conhecendo, achava que podia talvez terem aquela forma e serem daquela assim, como os estava a idealizar.

Numa outra ocasião, podiam ser objectos, aquele que mais se assemelhasse ao que os seus olhos viam passar. Por vezes mudava de ideias, e o que lhe tinha parecido um globo passou a ser um relógio gigante que ganhou um pêndulo, e dava horas a todas as horas. A sua imaginação era infindável.

Deu um longo suspiro, mudando de posição no banco. As pernas já estavam dormentes.

- O melhor que tens a fazer, é ir para acama. Se te virares ao contrário, vês a janela e o céu.

Por instantes ficou parada. Depois começou a olhar, devagar, em volta, para descobrir quem tinha falado.

Sobre um banco pequeno redondo que lhe servia de mesa de cabeceira, estava poisada uma luzinha que provinha, percebeu quando se aproximou, de um pequeno homem de olhos brilhantes, mãos cruzadas em frente da barriga. Estava sentado, muito confortavelmente num dos seus brinquedos de madeira. Tinha uma roupa estranha vestida, antiga, parecendo feita de retalhos de muitas coisas. Por chapéu, tinha o pé de uma bolota, sendo este pequeno para o seu cabelo ruivo, espetado para todo o lado.

Era uma figura e tanto, resolveu a Maria, gostando logo dele.

– Olá, eu sou a Maria. – disse a Maria, tomando coragem.

- Bem sei. Conheço-te muito bem, e de há muito tempo. Eu sou o gnomo Vaga Lume.

- Vaga Lume? Nunca tinha ouvido esse nome. – Maria sentia-se um pouco atarantada, algo que não era normal nela.

- É claro que não tinhas ouvido. Ele só me foi dado a mim. – respondeu o Vaga Lume, algo abespinhado – Isto é porque quando perco a calma, por vezes, não muitas, mas às vezes, pego fogo àquilo que me irritou, estás a entender? Não faço por ter mau temperamento, é uma questão de feitio!

- Entendo. Quando te irritam ou dizem coisas más.

- Ora até que enfim, alguém que me entende! Será que foi por isso que os anciãos me disseram para te vir fazer companhia? Humm! Também me disseram para olhar para o teu coração e aprender. Humm! Tenho feito tudo isso durante o tempo que te tenho estado a observar sem me mostrar… Humm! Tenho de pensar nisto…

Maria, ouvia o discurso do gnomo de olhos esbugalhados.

- Não seria, talvez, por eu ter desejado muito um companheiro, alguém com quem conversar ou até brincar?

A esperança brilhava nos olhos da pequena enquanto confessava aquilo que mais desejava.

Vaga Lume, levantou-se, deu uma volta com as mãos na cintura, e olhou de lado para a Maria.

- Ai foi? Desejaste muito um companheiro? Aqui em casa não tens quem brinque contigo, não é?

- Já são todos grandes. Não têm tempo para mim, e a mãe, quando pode e não está muito cansada, conta-me uma história…

- Eu posso ser teu amigo! Sou um amigo dos bons. E fica a ser um segredo só nosso. Que me dizes?

- Digo-te que também sou uma amiga das boas, e que o segredo está guardado.

Maria, fez o sorriso mais feliz da vida, que foi retribuído pelo Vaga Lume

Dois amigos, uma criança e um gnomo – real, ou não! – que se tornaram companheiros para a vida, ela tendo companhia quando a solidão apertava, e ele, aprendendo a domar o seu feitio.

Anita dos Santos

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O ÚLTIMO REFÚGIO, de MBARRETO CONDADO


Naquele edifício abandonado, onde a madeira apodrecida rangia ao vento e as paredes gastas guardavam silenciosamente memórias de outros tempos, uma pomba repousava sobre um amontoado de telhas partidas. Era ali que, em dias outrora mais leves, encontrara abrigo. Um ninho improvisado entre ruínas, um pequeno gesto de vida num lugar há muito entregue ao abandono.

Agora, porém, a ave permanecia imóvel, encolhida contra o frio e contra o destino. O que fora o seu refúgio começava a transformar-se no seu derradeiro leito. As telhas que antes protegiam tornavam-se, lentamente, o seu caixão de barro e silêncio. A luz que atravessava as frestas iluminava-lhe as penas baças, como um último afago, enquanto o mundo lá fora continuava indiferente.

Ali, no meio do que restava de uma casa e de uma vida, a pomba rendia-se. Não com revolta, mas com a serenidade triste de quem sabe que tudo tem um fim — até o mais persistente dos voadores. E assim, o ninho que a acolheu tornou-se o lugar onde a vida repousa pela última vez, numa despedida tão discreta quanto a própria existência da ave.

MBarreto Condado

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

AUTORES INTERNACIONAIS | GUADALUPE NETTEL

Guadalupe Nettel, nasceu na Cidade do México, em 1973, estudou Línguas e Literaturas Hispânicas e, em 2008, concluiu um doutoramento em Ciências da Linguagem na EHECS de Paris. É membro do Sistema Nacional de Creadores de Arte mexicano, autora de três livros de contos e do romance El huésped, finalista do Prémio Herralde, em 2005. Foi traduzida em francês, holandês, alemão, inglês, checo, esloveno e sueco. Os seus livros obtiveram vários prémios como o Antonin Artaud e o Anna Seghers.
 

sábado, 20 de dezembro de 2025

A CIDADE ESQUECIDA DE SAGRES, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Quando um poderoso tremor de terra abala o litoral de Sagres, estruturas ancestrais começam a emergir das profundezas, revelando vestígios de uma cidade submersa que não consta em nenhum mapa — mas que, ao que tudo indica, os Descobridores já conheciam. Entre símbolos astronómicos, corredores inundados e artefactos impossíveis de datar, torna-se claro que Sagres sempre escondeu um segredo que ultrapassa fronteiras… e o próprio mundo: um contacto antigo entre navegadores portugueses e inteligências vindas das estrelas.

Quatro investigadores portugueses unem-se numa corrida contra o tempo para decifrar a verdade antes que a cidade desapareça novamente no oceano. À medida que exploram câmaras cada vez mais profundas, começam a receber sinais de seres superiores que parecem guiá-los… ou testá-los.

Mas o fenómeno desperta interesse global: potências estrangeiras tentam assumir controlo da descoberta, enquanto Portugal, pressionado por alianças, decide isolar totalmente a área. Presos entre forças políticas, mistérios cósmicos e o perigo iminente do colapso da cidade, os quatro investigadores perceberão que a revelação final poderá mudar para sempre a história da humanidade.

 

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A FILHA ÚNICA, de GUADALUPE NETTEL | DOM QUIXOTE

 

Pouco depois de atingir os oito meses de gravidez, anunciam a Alina que a sua filha não irá sobreviver ao parto. Ela e o companheiro embarcam então num processo doloroso, e ao mesmo tempo surpreendente, de aceitação e luto. Esse último mês de gestação transforma-se para eles numa estranha oportunidade de conhecer aquela filha a quem tanto lhes custa renunciar.

Laura, a grande amiga de Alina, fala-nos do conflito deste casal enquanto reflete sobre o amor e a sua lógica por vezes incompreensível, mas também sobre as estratégias que os seres humanos inventam para superar a frustração. Simultaneamente, Laura vai-nos contando a história da sua vizinha Doris, mãe solteira de um menino encantador com problemas de comportamento.

Escrito com uma simplicidade apenas aparente, A Filha Única é um romance profundo e cheio de sabedoria que nos fala de maternidade, da sua negação ou aceitação, das dúvidas, incertezas e até dos sentimentos de culpa que a rodeiam, das alegrias e angústias que a acompanham. É também um romance sobre três mulheres - Laura, Alina, Doris - e os laços - de amizade e amor - que estabelecem entre elas.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

SCANDALOUS, de L.J. SHEN | CHÁ DAS CINCO

Amo-a tanto que por vezes a odeio.

Edie Van Der Zee:
Chamam-lhe o Mudo por uma razão. Duro, frio e determinado, ele raramente fala. Quando o faz, é com desdém. As suas palavras raramente me são destinadas. E quando o são, o meu estômago embrulha-se e o meu mundo sai do seu eixo. Ele vai partir-me o coração. E, ainda assim, não consigo manter-me afastada.

Trent Rexroth:

Eu tenho trinta e três anos. Ela tem dezoito. Sou um pai solteiro emocionalmente indisponível. Ela é a filha do meu sócio e principal inimigo. A nossa relação está condenada desde o início, e, ainda assim, somos atraídos um para o outro de formas impossíveis de ignorar.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O PESO DO PASSADO, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS


Após a morte da avó, Manuel herda a casa onde ela vivera por décadas, afastada de todos. Ao mudar-se para o lugar, Manuel descobre por acaso documentos e memórias esquecidas que revelam um segredo antigo envolvendo os seus vizinhos, a família Calhau — uma verdade que a avó conhecia e que, talvez por isso, mantivera tanta distância deles.

Decidido a esclarecer o passado, Manuel tenta confrontar os Calhau, mas o que encontra é uma família fragmentada por desconfianças internas e ressentimentos antigos. Surpreendentemente, a revelação do segredo oferece aos Calhau uma oportunidade inesperada: unir-se novamente contra aquilo que consideram ser uma ameaça comum — o próprio Manuel.

Entre tensões crescentes, alianças forçadas e verdades que não podem mais permanecer ocultas, Manuel vê-se a lutar não apenas pelo direito à casa que herdou, mas também pela própria segurança, enquanto a família Calhau se reorganiza para proteger o passado a todo o custo.

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

TORNE-SE UM DECIFRADOR DE PESSOAS, de ALEXANDRE MONTEIRO | PLANETA

Reconhecido como um dos maiores especialistas mundiais em comunicação não verbal, Alexandre Monteiro analisa políticos, atletas, celebridades, concorrentes de reality shows e figuras públicas. Com o seu trabalho tem ajudado milhares de leitores e profissionais a dominar a arte de interpretar comportamentos e potenciar influência.

Neste livro, Alexandre Monteiro apresenta — pela primeira vez de forma tão completa — as técnicas ensinadas em algumas das mais prestigiadas escolas de espionagem do mundo, como o FBI, CIA, MI6 ou Mossad. Com exemplos do quotidiano, exercícios práticos e fotografias, o autor mostra como:

  • identificar mentiras e microexpressões;
  • interpretar gestos, tiques, rugas e postura;
  • perceber o que revelam objetos pessoais, rabiscos, assinatura, escolhas de roupa ou até os sapatos;
  • influenciar comportamentos de forma ética;
  • proteger-se de pessoas manipuladoras e tóxicas;
  • aumentar carisma, liderança e capacidade de sedução.

Todo os gestos, todas as expressões comunicam — mesmo quando não dizemos nada. 

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

GUINNESS WORLD RECORDS 2026 - 70 ANOS | PLANETA

 

Setenta anos depois da publicação do primeiro Guinness World Records, em 1955, chega às livrarias portuguesas a nova edição Guinness World Records 2026, o livro anual mais vendido em todo o mundo e um verdadeiro fenómeno editorial que soma já mais de 150 milhões de exemplares vendidos em mais de 100 países.

Para assinalar esta data histórica, a edição de 2026 conta com 256 páginas totalmente ilustradas e milhares de fotografias, curiosidades e factos extraordinários de todas as áreas do conhecimento e da cultura popular.

Este ano, o Guinness World Records volta a incluir feitos notáveis alcançados por portugueses, reforçando a presença nacional no panorama global dos recordes:

  • Cristiano Ronaldo — Jogador com mais jogos disputados no Campeonato Europeu da UEFA
  • Joana Vasconcelos, com I’ll be Your Mirror — Maior escultura de uma máscara de teatro
  • Salvador Sobral — Artista com mais pontos ganhos no Festival Eurovisão da Canção

Desde 1955, o Guinness World Records tornou-se uma referência global na celebração do extraordinário. Ao longo de sete décadas, evoluiu para muito mais do que um livro: é hoje um fenómeno cultural, digital e social que acompanha tendências na ciência, tecnologia, entretenimento, gaming, sustentabilidade e criatividade.

domingo, 14 de dezembro de 2025

JANE AUSTEN DIANTE DO MAR, de NATALIE JENNER | CHÁ DAS CINCO

Em 1865, Charlotte e Henrietta Stevenson, filhas de um juiz do Supremo Tribunal de Massachusetts, alcançaram tudo o que lhes era permitido como mulheres. Exasperadas com essas limitações e inspiradas pelas obras de Jane Austen, iniciam uma troca de correspondência com Sir Francis Austen, o último irmão vivo da escritora. Ele envia-lhes uma carta escrita pela irmã e convida-as a visitá‑lo em Inglaterra.
Em Filadélfia, Nicholas e Haslett Nelson — irmãos solteiros, veteranos da Guerra Civil e alfarrabistas de obras raras — também se correspondem com Sir Francis Austen, que os atrai igualmente até Inglaterra com a promessa de um artefacto raro de Jane Austen.
As irmãs Stevenson conseguem escapar-se sem acompanhante para embarcar rumo a Inglaterra. No mesmo navio seguem os irmãos Nelson. Será que uma viagem pode mudar radicalmente a vida de todos? E que papel terá nesse destino o amor pela literatura e pela própria Jane Austen?
 

sábado, 13 de dezembro de 2025

NATUREZA OCULTA, de NORA ROBERTS | CHÁ DAS CINCO

Depois de ser ressuscitada na mesa de cirurgia, a agente Sloan Cooper enfrenta um longo processo de recuperação. Frustrada e impaciente, não se dá por vencida. Quando uma mulher desaparece sem deixar rasto num parque de estacionamento de um supermercado, Sloan pressente que há mais sobre este caso do que parece à primeira vista. A investigação que faz online rapidamente a leva a casos semelhantes espalhados por três estados. Homens e mulheres, jovens e idosos, aparentemente sem nada em comum…
Qual é a peça que falta para ligar estes desaparecimentos? Conseguirá Sloan resolver o mistério antes que mais uma vítima inocente seja levada? Sem pistas concretas e com a lista de desaparecidos a crescer quase diariamente, será precisa toda a resiliência que lhe resta para chegar ao cerne sombrio deste caso bizarro. Mesmo que seja necessário arriscar a sua vida novamente…
 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

UMA DE NÓS VAI MORRER, de JENEVA ROSE | CHÁ DAS CINCO


Buckhead é um bairro chique com carros de luxo, mansões imponentes e amizades competitivas. Mas o que é aparentemente um bairro tranquilo revela a sua verdadeira natureza quando Shannon, a outrora rainha de Buckhead, é abandonada sem cerimónias por Bryce, o seu marido.

Ao descobrir que foi substituída por uma mulher muito mais nova, jura vingança… Assim que Shannon cai em desgraça, três outras mulheres preparam-se para lutar pelo lugar que ficou vago na liderança do bairro: Crystal, a jovem e inocente substituta de Shannon; Olivia, que esperou durante anos para destronar Shannon; e Jenny, dona do salão mais exclusivo da cidade, onde são revelados todos os segredos e desejos obscuros.
Qual destas mulheres será suficientemente astuta para sobreviver em Buckhead? E quem acabará morta? Diz-se que as amizades podem ser complicadas, mas ninguém imaginou que podiam ser tão letais.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

AUTORES NACIONAIS | MARIA INÁCIA REZOLA

Maria Inácia Rezola é doutorada em História Institucional e Política Contemporânea pela FCSH-NOVA, investigadora do Instituto de História Contemporânea e do LIACOM e docente na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS-IPL). Comissária Executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, tem dedicado parte da sua investigação à história política e militar do Portugal contemporâneo. É autora de obras como 25 de Abril – Mitos de uma Revolução (2007), Melo Antunes, uma biografia política (2012), The Portuguese Revolution of 1974-75. An unexpected path to democracy (2023) e coordenou o Dicionário de História de Portugal – o 25 de Abril. 8 Vols. (2016-2018).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

REVOLUÇÃO, de MARIA INÁCIA REZOLA | DOM QUIXOTE

 

Muito se tem escrito sobre o 25 de Abril de 1974 e o nascimento da democracia portuguesa. No entanto, passados 50 anos, a memória da Revolução continua a suscitar debates intensos, entre celebrações entusiásticas, leituras críticas e até condenatórias, como o demonstra a recente controvérsia em torno do 25 de Novembro.

Neste contexto, torna-se imperioso regressar à história, compreender o papel dos militares, dos políticos e da sociedade civil e revisitar as escolhas, os dilemas e as esperanças de um tempo decisivo.

Este livro oferece ao leitor uma perspetiva rigorosa e acessível, revelando a complexidade do processo revolucionário e a riqueza de um legado que continua a marcar a vida democrática em Portugal.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

ADEUS CLARA PINTO CORREIA, de MBARRETO CONDADO

 

Hoje despedimo-nos da Clara Pinto Correia, uma mulher que nunca passou pela vida de ninguém de forma discreta. Tive o privilégio de trabalhar com ela, lado a lado, durante sete anos — anos intensos, desafiantes, e inesquecíveis. A Clara era única. Era irreverente, brilhante, inquieta. Era daquelas pessoas raras que nunca deixavam ninguém indiferente: ou se adorava a sua força, ou se temia o seu ímpeto. Não havia meio termo com ela, porque também não havia meias medidas na forma como vivia.

Como todos nós, a Clara não era perfeita — e talvez fosse justamente essa imperfeição que a tornava tão profundamente humana. Mas a vida, por vezes, é cruel com quem mais precisa de cuidado. E quando a Clara mais precisava de amigos, de apoio, de uma mão estendida, encontrou-se só. Foi nessa solidão que partiu. Uma solidão que não merecia.

Agora, depois da sua partida, multiplicam-se as palavras, as homenagens, os elogios. Mas é impossível não sentir a dor amarga desta ironia: falam tanto dela agora… quando deveriam ter falado com ela. Tê-la escutado, acompanhado, abraçado. Tê-la lembrado de que, apesar do ruído e das sombras, havia quem estivesse do seu lado.

Hoje, neste adeus, fica a memória de uma mulher que marcou vidas, que provocou emoções verdadeiras, que se recusou sempre a ser apenas mais uma. Que a Clara encontre, finalmente, a paz que tantas vezes lhe faltou em vida. E que nós, os que ficámos, aprendamos a tempo a valorizar os vivos com a mesma intensidade com que choramos os mortos.

MBarreto Condado

 


AUTORES INTERNACIONAIS | TIM CORWELL

Tim Corwell nasceu em 1962, sendo o terceiro filho de David Cornwell (John le Carré) e da sua primeira mulher, Ann Sharp.
Foi jornalista de vários periódicos britânicos em Washington e Los Angeles, na década de 1990.
Depois de doze anos nos Estados Unidos, mudou-se para Edimburgo e, de 2001 a 2002, foi editor estrangeiro adjunto e depois correspondente de arte do Scotsman. Depois de deixar o jornal, trabalhou como jornalista de arte independente, especialista em Coloristas Escoceses e em arte islâmica.
Morreu em maio de 2022.

 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

AUTORES INTERNACIONAIS | JOHN LE CARRÉ

John le Carré nasceu em 1931.
No decurso de seis décadas, escreveu romances que acabam por definir a nossa época. Filho de um vigarista, passou a infância entre um colégio interno e o submundo londrino.
Aos dezasseis anos encontrou refúgio na Universidade de Berna e mais tarde em Oxford.
Um breve período de docência em Eton levou-o a uma curta carreira no Serviço de Informações britânico (MI5 e MI6).
Publicou o seu romance de estreia, Chamada para o Morto, em 1961, ainda como funcionário dos serviços secretos.
O seu terceiro romance, O Espião Que Saiu do Frio, assegurou-lhe fama mundial, mais tarde consolidada pela boa aceitação obtida pela sua trilogia A ToupeiraO Ilustre Colegial e A Gente de Smiley.
No final da Guerra Fria, le Carré alargou o âmbito da sua temática explorando um panorama internacional que abrange o tráfico de armas e a Guerra contra o Terrorismo.
As suas memórias, O Túnel de Pombos, foram publicadas em 2016 e o último romance em que aparece George Smiley, Um Legado de Espiões, foi dado à estampa em 2017. Morreu a 12 de dezembro de 2020.
 

domingo, 7 de dezembro de 2025

AUTORES INTERNACIONAIS | EDGAR MORIN

Filósofo e sociólogo francês, nascido em 1921, foi membro, durante a Resistência e no pós-guerra, do Partido Comunista Francês, do qual foi expulso por discordar da orientação oficial. Morin acredita que é necessário efetuar uma "revolução", mas que esta deve ter presente a ideia de totalidade e complexidade do real. Propõe, como alternativa, o conceito de "totalidade aberta" e de "um pensamento planetário", assentes na permanente revisão e crítica dos princípios orientadores, evitando os dogmas e o pensamento único.
Também no domínio da pesquisa epistemológica, a perspetiva de Morin traduz uma inovação. A sua reflexão nesta área incide sobre o panorama da ciência contemporânea que se apresenta como um "mosaico" de disciplinas isoladas e separadas entre si. Esta fragmentação remete para a necessidade de encontrar um novo método, que repense a tradição científica ocidental. Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmite a ideia de "complexidade", que caracteriza todas as esferas da atividade humana, desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas. Estas realidades (física e social), têm de ser pensadas de uma forma dinâmica e intercomunicativa: o natural não ser entendido desligado do social e vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também perspetivados numa lógica de reciprocidade.
Em síntese, Morin tem como objetivo ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo, que domina o pensamento ocidental há trezentos anos.
 

sábado, 6 de dezembro de 2025

LIÇÕES DA HISTÓRIA, de EDGAR MORIN | CRÍTICA

A História nunca deixou de ser, para Edgar Morin, um dos maiores filósofos e sociólogos franceses, um tema de reflexão - incluindo a História na qual ele próprio participou. Testemunha das atrocidades da guerra, das transformações económicas e ecológicas do último século, o autor extrai lições fundamentais que iluminam o passado e nos ajudam a construir o futuro.

Neste breve ensaio, Edgar Morin ensina-nos que o improvável pode acontecer; que os mitos exercem uma enorme influência sobre o real; que os destruidores podem também ser grandes civilizadores; que um único indivíduo pode, por vezes, mudar o rumo da História. Com uma rara capacidade de síntese e uma experiência humana e intelectual incomparável, o autor conduz-nos pela grande jornada da Humanidade - da Antiguidade aos dias de hoje -, oferecendo uma reflexão profunda e pessoal sobre o destino das civilizações.
 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

UMA VIDA DE JESUS, de SHUSAKU ENDO | DOM QUIXOTE

«Cada um de nós imagina Jesus projetando n’Ele a sua própria vida. Mesmo assim, algo haverá sempre de misterioso, impenetrável e enigmático na maneira de refletir também a vida deste homem em nossas vidas.»

Recriação da história de Jesus Cristo, Uma Vida de Jesus não é uma biografia, já que uma biografia, no sentido moderno do termo, seria impossível de escrever. Mas também não é um relato ficcionado: embora se sinta livre para especular sobre as motivações de Jesus e dos seus discípulos, Shusaku Endo não afirma nada além daquilo que os Evangelhos contêm. É precisamente aí, nesse exíguo espaço que a ficção rouba à verdade dos Textos Sagrados, que reside a força e o fascínio deste livro.

Endo - um dos mais destacados romancistas japoneses - escreveu-o para os seus compatriotas não católicos, num esforço para explicar quem foi Jesus e dar a conhecer os ideais pelos quais se bateu. O resultado é uma obra que escapa aos limites das culturas e das línguas, uma história intemporal, tão estimulante para os leitores de hoje como o terá sido para aqueles que a ouviram nos tempos do Novo Testamento.

Críticas de imprensa
«De facto, não há ninguém como Endo… como a raridade que é enquanto católico japonês, encontrou um território limítrofe - de choque cultural e psicológico - que é todo seu.»
The Observer

«Endo conhece bem o seu espaço. As suas descrições da paisagem judaica e das pequenas cidades que a pontilham, e do incrível deserto desolado e vazio, estão entre as mais bonitas e poéticas que alguma vez li.»
The Catholic Review

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

AUTORES NACIONAIS | ALEXANDRE COIMBRA AMARAL

Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, escritor e podcaster. Mestre em Psicologia pela PUC do Chile e terapeuta familiar, de casais e grupos, é palestrante e consultor de saúde mental em empresas e escolas, e também colunista da revista Crescer e do Portal Lunetas do Instituto Alana.
Participou durante quase cinco anos como psicólogo no programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, e é hoje uma presença constante em diversos programas de TV, na Internet e em podcasts. Aborda temas de interesse coletivo e ajuda a compreender os dilemas do nosso tempo. O seu podcastCartas de um terapeuta, é um dos mais ouvidos no Brasil.