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domingo, 9 de agosto de 2026

CAFFÉ UTRAVADINHAS, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS


Caffé Utravadinhas — Por detrás do Balcão é uma narrativa mordaz e profundamente humana sobre oito anos vividos num café de bairro em Lisboa. Entre clientes excêntricos, vizinhos hostis, burocracias absurdas e raros gestos de solidariedade, o balcão transforma-se num observatório privilegiado da condição humana. Com humor ácido e escrita afiada, o livro expõe absurdos normalizados, desigualdades silenciosas e o desgaste invisível de “aguentar”.

Mais do que um retrato do atendimento ao público, Caffé Utravadinhas é uma reflexão sobre dignidade, limites e o momento em que desistir deixa de ser fracasso para se tornar sobrevivência.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O MÊS MAIS LONGO DO ANO COMEÇA AGORA, de MBARRETO CONDADO


Caros leitores,

Bem-vindos ao glorioso primeiro dia do ano — aquele momento mágico em que ainda acreditamos que vamos cumprir todas as resoluções… pelo menos até ao almoço.

Depois dos excessos natalícios, das sobremesas “só para experimentar” e das festas que nos deixaram a carteira mais leve do que deveria, chega a hora de encarar a realidade: é tempo de fechar a boca, apertar o cinto e preparar o espírito… porque janeiro tem oficialmente 90 dias.

Sim, 90. Não é mito, não é lenda urbana — é uma sensação universal. Um mês infinito, que dura tanto que parece ter sido patrocinado pela paciência.

Mas há esperança! Janeiro também é o mês em que recuperamos rotinas, reencontramos alguma disciplina (ou fingimos muito bem) e descobrimos que ainda conseguimos dizer “não” ao segundo bolo. Ou pelo menos tentar.

A todos os leitores da Nova Gazeta, desejo um janeiro que passe depressa, um ano que passe devagar e força suficiente para enfrentar o mais longo mês do calendário. Que 2026 seja leve… e que o cinto aperte só o necessário!

Feliz Ano Novo

MBarreto Condado

 

sábado, 27 de dezembro de 2025

PORTO - CIDADE DE NÉVOA E PEDRA, de MBARRETO CONDADO | COLECTÂNEA PORTO UMA CIDADE COM ALMA | CHIADO BOOKS

 

Há cidades que se mostram de imediato, outras que se revelam devagar. O Porto, não — o Porto não é nenhuma delas — habita nas entranhas da pedra, dissolve-se na bruma, paira no silêncio húmido que desce do Douro e cobre os telhados rubros como um manto de memória ancestral. É uma cidade que se sente antes de se compreender, onde o granito tem voz e o vento murmura histórias que ninguém ousou escrever.

As gentes do Porto dispensam ornamentos: dizem o que pensam e cumprem o que prometem. São austeras como as fachadas da Ribeira, mas com um coração doce. Falam com voz rouca de quem viveu muito e sorriem com dignidade, sem pedir licença para existir. Nos olhos guardam ternura, nos gestos, uma franqueza que embriaga mais que o próprio vinho do Porto. Aqui, a hospitalidade não se mostra — pratica-se.

A cidade ergue-se em socalcos e vontades, resistindo a cercos, séculos e à pressa dos tempos. Por isso é Invicta — não por vaidade, mas por justiça. Em 1832, durante o Cerco do Porto, suportou bombardeamentos e privações para defender a liberdade constitucional. Foi aqui que D. Pedro IV foi aclamado, e quis repousar simbolicamente o seu coração — um raro gesto de amor político. Séculos antes, nas margens do Douro, nasceu o berço da nação. Daqui partiram navios que rasgaram mares e mapas, e chegou a modernidade com fábricas, comboios e indústria a transformar a cidade.

Nos muros e varandas cruzaram-se fidalgos, mercadores, espadas e ideias. O Palácio da Bolsa guarda essa nobreza ativa, unida ao labor tenaz dos homens livres. Nos seus salões ecoam passos de reis, palavras de diplomatas e juras de alianças. O Porto foi palco de revoltas operárias, bastião republicano e berço estudantil. Resistiu à censura e floresceu com o 25 de Abril. O passado não descansa: molda, arde e permanece.

Também nos muros se escreveram versos. Do Porto saiu Almeida Garrett, mestre do romantismo combativo. Aqui nasceu Sophia de Mello Breyner Andresen, que ouve o mar como quem escuta o destino. Camilo Castelo Branco viveu nestas ruas as suas paixões e tormentos — ora cúmplice, ora verdugo. Ainda hoje, o Porto é berço de autores: livrarias respiram entre pedras, cafés e ideias. Cada rua é um poema por escrever. O Porto transforma a dor em literatura eterna.

À mesa, outra epopeia — íntima e heroica. Há séculos, os portuenses cederam a melhor carne às naus, ficando com as tripas. Da escassez nasceu um prato símbolo: as tripas à moda do Porto. Nada descreve melhor a alma da cidade — que transforma pouco em muito, rude em belo. A gastronomia é resistência: a francesinha desafia, o caldo verde conforta, o bacalhau, eterno companheiro, renasce sempre. Em cada tasca pulsa uma alma, um aroma que fica na roupa e no coração.

E há o vinho do Porto, que desce do Douro em tonéis e repousa nas caves de Gaia, como quem adormece para sonhar. Não se bebe só — contempla-se. Doce, escuro, profundo. Como a cidade.

Os costumes nascem de festa e fé. No São João, sagrado e profano abraçam-se, e o Porto transforma-se em espanto. Balões sobem como preces, martelinhos e alhos-porros dançam entre gargalhadas, e o rio espelha as estrelas. É a noite em que a cidade se entrega, e por um instante, todos são filhos do mesmo chão.

O clima é um personagem à parte. Não se limita a estar — impõe-se. Os verões cheiram a sal e sol, os invernos colam-se à pele. Mas é no nevoeiro que o Porto encontra o seu rosto. Esse manto espesso que desce sem ruído envolve tudo, desfoca os contornos e devolve à cidade o seu mistério. No Porto, o nevoeiro não oculta — revela. Nas manhãs brancas, ouve-se melhor o tempo antigo, e cada beco parece um segredo em suspensão.

Na bruma, o Porto adormece,

com o Douro a sussurrar,

e um coração que nunca esquece

o que sempre há-de amar.


À beira-rio, os barcos rabelos contam outro tempo. Os degraus que descem à água falam de homens que lavraram o Douro com mãos calosas e coragem. Do alto da ponte D. Luís I vê-se a cidade em camadas: velha, eterna, resistente. Lá em cima, os telhados desenham uma colcha de ferrugem e sonho.

Se o passado é pedra, o futuro vibra nos corredores da Universidade, nas livrarias, nos cafés onde fermentam ideias. A vida académica é pulso, juventude, reinvenção. Chegam estudantes de todo o mundo, misturam línguas, sonhos, culturas. Enchem jardins, ocupam teatros, desafiam praças. Diz-se que é nos olhos deles que o Porto reaprende a ver o futuro — com ciência, arte e ousadia feroz.

O Porto escuta, mas também se transforma. Inova sem ruído, respeitando o que foi para erguer o que há-de vir. Cresce para o mundo, sem perder o cais da sua identidade.

E entre os heróis de outrora, também o presente se projeta. O futebol — paixão visceral — reflete a alma combativa da cidade. O azul e branco do F. C. Porto não é apenas cor — é nervo, é orgulho tatuado no peito de milhares.

Hoje, turistas chegam de todas as latitudes e perdem-se encantados entre a Ribeira e a Foz, entre travessas escondidas e o brilho dos azulejos ao entardecer. Espantam-se com a força do vinho, com a alma da comida, com a forma como o passado habita cada esquina. E os próprios portugueses, olham para o Porto com respeito e um fascínio silencioso — como se ali residisse uma verdade antiga, que todos reconhecem mas poucos conseguem nomear.

No fim, o que fica é um sentimento sem nome — um Fado quieto. O Porto não é só cidade: é forma de ser, de estar, de amar em silêncio. Quem aqui nasce, nunca parte por inteiro. E quem chega, se souber escutar, encontrará sempre um lugar onde pousar o coração.

O Porto é nevoeiro e luz, dureza e abraço. É pedra, rio, vinho e gente. Passado que pulsa, presente que arde, futuro que sonha — sempre com alma.

MBarreto Condado


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O DIA EM QUE O PAI NATAL SE DESLIGA DO MUNDO, de MBARRETO CONDADO


Dia 26 de dezembro.

As sobras do bacalhau ainda ocupam meia cozinha, os brinquedos estão espalhados pela casa como se tivesse passado um furacão infantil… e há uma pergunta que ecoa pelo mundo inteiro:

“E agora… onde está o Pai Natal?”

Depois de dois dias de autêntico caos logístico — milhões de presentes, renas stressadas, chaminés estreitas e GPS’s avariados na Lapónia — o Pai Natal está finalmente OFFLINE.

Completamente.
Indisponível.
Inalcançável.
Nem o WhatsApp mostra “última vez online”.

Neste momento, o Pai Natal está provavelmente:

• enfiado no sofá da Lapónia com uma manta,

• a beber um chocolate quente extra-forte,

• a ver séries em modo maratona,

• e a repetir para si próprio:

“Nunca mais como um bolo-rei deixado no parapeito. Nunca.”

As renas, coitadas, estão num spa especializado em animais exaustos, a fazer hidroterapia e massagens nas patas — principalmente Rudolph, que tem tendência para se queixar mais.

A Mãe Natal, essa sim, é a verdadeira heroína. Passou dois dias em gestão de crise, a atualizar listas, a coordenar elfos em burnout e agora olha para o marido e diz apenas:
“Amanhã começas a dieta.”

Os elfos, libertos finalmente, estão em modo festa total: karaoke, jogos, biscoitos… e zero trabalho até fevereiro. É praticamente o verão das férias deles.

E nós?

Nós recuperamos lentamente, digerimos o peru, arrumamos brinquedos, e olhamos para o calendário a pensar:

“Como é possível ainda faltar uma semana para o Ano Novo?”

Mas lá longe, na Lapónia, entre neve, mantas e ressonares épicos, o Pai Natal repousa.
Porque sabe que para o ano vai tudo recomeçar.

E porque, sinceramente… se o homem não descansasse hoje, ninguém aguentava o Natal de 2026.

MBarreto Condado

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

ENTRE VÍRGULAS E AFETOS, de MBARRETO CONDADO

Há amizades que nascem no acaso, outras na necessidade, e há aquelas que florescem na palavra. Vocês, meus amigos escritores — Fernando, Vanessa, Mafalda, Anita e Cecília — pertencem a esse último e raro tipo. Vieram primeiro como companheiros de letras, cúmplices de textos e conversas intermináveis, mas permaneceram — e permanecerão — como muito mais do que isso. Tornaram-se família: um irmão e irmãs.

Irmão e irmãs não apenas de caneta e papel, mas, sobretudo, de sentimentos. Vocês estão sempre presentes nos momentos melhores e piores da minha vida, encorajando-me com palavras sábias que tocam a alma, e que nunca me permitem desistir. Entendem o silêncio que precede uma ideia, a inquietação de um parágrafo inacabado, a alegria quase infantil de quando uma frase finalmente encontra o seu lugar. Sabem que escrever não é só técnica; é entrega, é fragilidade exposta, é coragem partilhada.

Estiveram sempre comigo — nos dias de inspiração, e nos de cansaço; nas páginas que brilhavam, e nas que tremiam. Souberam ouvir quando as palavras doíam, celebrar quando elas voavam, e, acima de tudo, acompanhar quando elas simplesmente não vinham.

A literatura aproximou-nos, mas foram a sensibilidade, o respeito, e o carinho que nos uniram de vez. Hoje, olho para cada um de vocês — Fernando, Vanessa, Mafalda, Anita e Cecília — e vejo não apenas escritores admiráveis, mas pessoas raras, cuja presença consola, inspira, e transforma.

Se a vida é feita de capítulos, vocês são aqueles que nunca deixaram de aparecer nas minhas páginas. Obrigada por serem porto, riso, reflexão, e abrigo. Obrigada por serem mais do que amigos: por serem verdadeiros irmão e irmãs de alma, e de sentimento.

Que continuemos a escrever juntos — histórias, dias, e afetos — por muito tempo, porque a nossa vida já é um parágrafo em comum, cheio de vírgulas, sem ponto final, sempre aberto a novas linhas, novas histórias, e novos momentos partilhados.

MBarreto Condado 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NESTE NATAL, O QUE IMPORTA MESMO?, de MBARRETO CONDADO


Caros leitores,

À medida que nos aproximamos de mais um Natal, somos convidados a abrandar o ritmo e a olhar em redor com maior atenção. Não apenas para as luzes que cintilam nas ruas, mas para as pessoas que dão sentido ao nosso quotidiano — as que nos acompanham de perto e as que encontramos apenas por instantes.

O Natal tem esta capacidade singular de nos recordar que pertencemos uns aos outros. Somos parte de comunidades, famílias e histórias que se cruzam e se transformam mutuamente. Porém, na pressa dos dias, é fácil deixar escapar o essencial: um gesto de cuidado, uma palavra de conforto, uma presença que pode iluminar o dia de alguém.

Esta quadra convida-nos a recuperar o valor da proximidade. A importância dos encontros, das conversas demoradas, de uma mesa partilhada. Convida-nos também a olhar com especial sensibilidade para aqueles que vivem esta época com maior dificuldade — quem está sozinho, quem enfrenta momentos de fragilidade, quem carrega ausências que pesam mais no silêncio do inverno. O espírito natalício torna-se verdadeiramente autêntico quando se revela em gestos concretos de solidariedade.

A todos os leitores da Nova Gazeta, desejo um Natal vivido com serenidade, significado e verdade. Que haja tempo para agradecer, para reatar laços e para oferecer o que não cabe em embrulhos: atenção, generosidade, presença. Que cada pequena luz que encontramos na cidade possa inspirar um brilho correspondente dentro de cada um de nós.

Festas felizes para todos.

MBarreto Condado

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O ÚLTIMO REFÚGIO, de MBARRETO CONDADO


Naquele edifício abandonado, onde a madeira apodrecida rangia ao vento e as paredes gastas guardavam silenciosamente memórias de outros tempos, uma pomba repousava sobre um amontoado de telhas partidas. Era ali que, em dias outrora mais leves, encontrara abrigo. Um ninho improvisado entre ruínas, um pequeno gesto de vida num lugar há muito entregue ao abandono.

Agora, porém, a ave permanecia imóvel, encolhida contra o frio e contra o destino. O que fora o seu refúgio começava a transformar-se no seu derradeiro leito. As telhas que antes protegiam tornavam-se, lentamente, o seu caixão de barro e silêncio. A luz que atravessava as frestas iluminava-lhe as penas baças, como um último afago, enquanto o mundo lá fora continuava indiferente.

Ali, no meio do que restava de uma casa e de uma vida, a pomba rendia-se. Não com revolta, mas com a serenidade triste de quem sabe que tudo tem um fim — até o mais persistente dos voadores. E assim, o ninho que a acolheu tornou-se o lugar onde a vida repousa pela última vez, numa despedida tão discreta quanto a própria existência da ave.

MBarreto Condado

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

A CIDADE ESQUECIDA DE SAGRES, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Quando um poderoso tremor de terra abala o litoral de Sagres, estruturas ancestrais começam a emergir das profundezas, revelando vestígios de uma cidade submersa que não consta em nenhum mapa — mas que, ao que tudo indica, os Descobridores já conheciam. Entre símbolos astronómicos, corredores inundados e artefactos impossíveis de datar, torna-se claro que Sagres sempre escondeu um segredo que ultrapassa fronteiras… e o próprio mundo: um contacto antigo entre navegadores portugueses e inteligências vindas das estrelas.

Quatro investigadores portugueses unem-se numa corrida contra o tempo para decifrar a verdade antes que a cidade desapareça novamente no oceano. À medida que exploram câmaras cada vez mais profundas, começam a receber sinais de seres superiores que parecem guiá-los… ou testá-los.

Mas o fenómeno desperta interesse global: potências estrangeiras tentam assumir controlo da descoberta, enquanto Portugal, pressionado por alianças, decide isolar totalmente a área. Presos entre forças políticas, mistérios cósmicos e o perigo iminente do colapso da cidade, os quatro investigadores perceberão que a revelação final poderá mudar para sempre a história da humanidade.

 

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O PESO DO PASSADO, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS


Após a morte da avó, Manuel herda a casa onde ela vivera por décadas, afastada de todos. Ao mudar-se para o lugar, Manuel descobre por acaso documentos e memórias esquecidas que revelam um segredo antigo envolvendo os seus vizinhos, a família Calhau — uma verdade que a avó conhecia e que, talvez por isso, mantivera tanta distância deles.

Decidido a esclarecer o passado, Manuel tenta confrontar os Calhau, mas o que encontra é uma família fragmentada por desconfianças internas e ressentimentos antigos. Surpreendentemente, a revelação do segredo oferece aos Calhau uma oportunidade inesperada: unir-se novamente contra aquilo que consideram ser uma ameaça comum — o próprio Manuel.

Entre tensões crescentes, alianças forçadas e verdades que não podem mais permanecer ocultas, Manuel vê-se a lutar não apenas pelo direito à casa que herdou, mas também pela própria segurança, enquanto a família Calhau se reorganiza para proteger o passado a todo o custo.

 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

ADEUS CLARA PINTO CORREIA, de MBARRETO CONDADO

 

Hoje despedimo-nos da Clara Pinto Correia, uma mulher que nunca passou pela vida de ninguém de forma discreta. Tive o privilégio de trabalhar com ela, lado a lado, durante sete anos — anos intensos, desafiantes, e inesquecíveis. A Clara era única. Era irreverente, brilhante, inquieta. Era daquelas pessoas raras que nunca deixavam ninguém indiferente: ou se adorava a sua força, ou se temia o seu ímpeto. Não havia meio termo com ela, porque também não havia meias medidas na forma como vivia.

Como todos nós, a Clara não era perfeita — e talvez fosse justamente essa imperfeição que a tornava tão profundamente humana. Mas a vida, por vezes, é cruel com quem mais precisa de cuidado. E quando a Clara mais precisava de amigos, de apoio, de uma mão estendida, encontrou-se só. Foi nessa solidão que partiu. Uma solidão que não merecia.

Agora, depois da sua partida, multiplicam-se as palavras, as homenagens, os elogios. Mas é impossível não sentir a dor amarga desta ironia: falam tanto dela agora… quando deveriam ter falado com ela. Tê-la escutado, acompanhado, abraçado. Tê-la lembrado de que, apesar do ruído e das sombras, havia quem estivesse do seu lado.

Hoje, neste adeus, fica a memória de uma mulher que marcou vidas, que provocou emoções verdadeiras, que se recusou sempre a ser apenas mais uma. Que a Clara encontre, finalmente, a paz que tantas vezes lhe faltou em vida. E que nós, os que ficámos, aprendamos a tempo a valorizar os vivos com a mesma intensidade com que choramos os mortos.

MBarreto Condado

 


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

NOITES DE SOMBRAS, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS


Outubro traz consigo mais do que noites frias e luas cheias: traz segredos, lendas e horrores escondidos. Neste livro, cada dia do mês abre as portas a uma nova história — uma ponte onde os sussurros nunca se calam, um espelho que devora memórias, um carvalho que sangra nomes esquecidos, um cemitério onde se perde o último sopro… e muitos outros lugares onde vivos e mortos se confundem. São 31 contos, um para cada noite de outubro, que exploram medos ancestrais, mitos rurais e assombrações que se entranham na pele. Lê-os à luz do dia… ou arrisca-te a enfrentá-los na escuridão.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

PORTO - CIDADE DE NÉVOA E PEDRA, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Porto – Cidade de Névoa e Pedra

Há cidades que se mostram de imediato, outras que se revelam devagar. O Porto, não — o Porto não é nenhuma delas — habita nas entranhas da pedra, dissolve-se na bruma, paira no silêncio húmido que desce do Douro e cobre os telhados rubros como um manto de memória ancestral. É uma cidade que se sente antes de se compreender, onde o granito tem voz e o vento murmura histórias que ninguém ousou escrever.

As gentes do Porto dispensam ornamentos: dizem o que pensam e cumprem o que prometem. São austeras como as fachadas da Ribeira, mas com um coração doce. Falam com voz rouca de quem viveu muito e sorriem com dignidade, sem pedir licença para existir. Nos olhos guardam ternura, nos gestos, uma franqueza que embriaga mais que o próprio vinho do Porto. Aqui, a hospitalidade não se mostra — pratica-se.

A cidade ergue-se em socalcos e vontades, resistindo a cercos, séculos e à pressa dos tempos. Por isso é Invicta — não por vaidade, mas por justiça. Em 1832, durante o Cerco do Porto, suportou bombardeamentos e privações para defender a liberdade constitucional. Foi aqui que D. Pedro IV foi aclamado, e quis repousar simbolicamente o seu coração — um raro gesto de amor político. Séculos antes, nas margens do Douro, nasceu o berço da nação. Daqui partiram navios que rasgaram mares e mapas, e chegou a modernidade com fábricas, comboios e indústria a transformar a cidade.

Nos muros e varandas cruzaram-se fidalgos, mercadores, espadas e ideias. O Palácio da Bolsa guarda essa nobreza ativa, unida ao labor tenaz dos homens livres. Nos seus salões ecoam passos de reis, palavras de diplomatas e juras de alianças. O Porto foi palco de revoltas operárias, bastião republicano e berço estudantil. Resistiu à censura e floresceu com o 25 de Abril. O passado não descansa: molda, arde e permanece.

Também nos muros se escreveram versos. Do Porto saiu Almeida Garrett, mestre do romantismo combativo. Aqui nasceu Sophia de Mello Breyner Andresen, que ouve o mar como quem escuta o destino. Camilo Castelo Branco viveu nestas ruas as suas paixões e tormentos — ora cúmplice, ora verdugo. Ainda hoje, o Porto é berço de autores: livrarias respiram entre pedras, cafés e ideias. Cada rua é um poema por escrever. O Porto transforma a dor em literatura eterna.

À mesa, outra epopeia — íntima e heroica. Há séculos, os portuenses cederam a melhor carne às naus, ficando com as tripas. Da escassez nasceu um prato símbolo: as tripas à moda do Porto. Nada descreve melhor a alma da cidade — que transforma pouco em muito, rude em belo. A gastronomia é resistência: a francesinha desafia, o caldo verde conforta, o bacalhau, eterno companheiro, renasce sempre. Em cada tasca pulsa uma alma, um aroma que fica na roupa e no coração.

E há o vinho do Porto, que desce do Douro em tonéis e repousa nas caves de Gaia, como quem adormece para sonhar. Não se bebe só — contempla-se. Doce, escuro, profundo. Como a cidade.

Os costumes nascem de festa e fé. No São João, sagrado e profano abraçam-se, e o Porto transforma-se em espanto. Balões sobem como preces, martelinhos e alhos-porros dançam entre gargalhadas, e o rio espelha as estrelas. É a noite em que a cidade se entrega, e por um instante, todos são filhos do mesmo chão.

O clima é um personagem à parte. Não se limita a estar — impõe-se. Os verões cheiram a sal e sol, os invernos colam-se à pele. Mas é no nevoeiro que o Porto encontra o seu rosto. Esse manto espesso que desce sem ruído envolve tudo, desfoca os contornos e devolve à cidade o seu mistério. No Porto, o nevoeiro não oculta — revela. Nas manhãs brancas, ouve-se melhor o tempo antigo, e cada beco parece um segredo em suspensão.

Na bruma, o Porto adormece,

com o Douro a sussurrar,

e um coração que nunca esquece

o que sempre há-de amar.

À beira-rio, os barcos rabelos contam outro tempo. Os degraus que descem à água falam de homens que lavraram o Douro com mãos calosas e coragem. Do alto da ponte D. Luís I vê-se a cidade em camadas: velha, eterna, resistente. Lá em cima, os telhados desenham uma colcha de ferrugem e sonho.

Se o passado é pedra, o futuro vibra nos corredores da Universidade, nas livrarias, nos cafés onde fermentam ideias. A vida académica é pulso, juventude, reinvenção. Chegam estudantes de todo o mundo, misturam línguas, sonhos, culturas. Enchem jardins, ocupam teatros, desafiam praças. Diz-se que é nos olhos deles que o Porto reaprende a ver o futuro — com ciência, arte e ousadia feroz.

O Porto escuta, mas também se transforma. Inova sem ruído, respeitando o que foi para erguer o que há-de vir. Cresce para o mundo, sem perder o cais da sua identidade.

E entre os heróis de outrora, também o presente se projeta. O futebol — paixão visceral — reflete a alma combativa da cidade. O azul e branco do F. C. Porto não é apenas cor — é nervo, é orgulho tatuado no peito de milhares.

Hoje, turistas chegam de todas as latitudes e perdem-se encantados entre a Ribeira e a Foz, entre travessas escondidas e o brilho dos azulejos ao entardecer. Espantam-se com a força do vinho, com a alma da comida, com a forma como o passado habita cada esquina. E os próprios portugueses, olham para o Porto com respeito e um fascínio silencioso — como se ali residisse uma verdade antiga, que todos reconhecem mas poucos conseguem nomear.

No fim, o que fica é um sentimento sem nome — um Fado quieto. O Porto não é só cidade: é forma de ser, de estar, de amar em silêncio. Quem aqui nasce, nunca parte por inteiro. E quem chega, se souber escutar, encontrará sempre um lugar onde pousar o coração.

O Porto é nevoeiro e luz, dureza e abraço. É pedra, rio, vinho e gente. Passado que pulsa, presente que arde, futuro que sonha — sempre com alma.

MBarreto Condado

 

 

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

CRÓNICAS DE NUNES UM ASNO, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Nos confins da alma humana existe um lugar curioso, onde o ridículo e a vaidade se encontram e ensaiam uma valsa desajeitada. É nesse pântano existencial que nasce o nosso protagonista — um homem cuja maior proeza é ser um asno presunçoso. Um verdadeiro mestre na arte de parecer sábio sem o ser, de falar alto e dizer pouco, de julgar o mundo do alto da sua imaginária torre de marfim.

Estas crónicas não são um exercício de crueldade, mas antes um espelho sarcástico onde, com alguma sorte (e talvez um pouco de coragem), o leitor poderá vislumbrar reflexos das suas próprias asneiras.

Entre feitos e desfeitos, discursos pomposos e decisões desastrosas, o protagonista revela não só o seu próprio ridículo, mas também o da humanidade que, mais vezes do que gostaríamos de admitir, partilha da sua vã presunção.

Prepare-se, caro leitor, para acompanhar as aventuras e desventuras de alguém que, na ânsia de parecer mais do que é, acaba por ser muito menos do que poderia ser.

Que estas páginas sirvam, acima de tudo, para boas gargalhadas.

E sendo esta uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações reais será, naturalmente, pura coincidência.
 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

ILHA AO CREPÚSCULO, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Depois de o mundo mergulhar na escuridão, os primos regressam à Ilha de Faro — não para fugir, mas para recuperar o que é seu. A casa da infância, outrora um refúgio seguro, é agora o último bastião de esperança. As criaturas transformaram o lugar onde foram felizes num cenário de medo e ruína.

Determinados a limpar a ilha, enfrentam o desconhecido com coragem. Mas depressa percebem que a verdadeira ameaça não se limita às sombras: são os humanos — aqueles que perderam a compaixão e se tornaram ainda mais cruéis do que os monstros — que representam o maior perigo.

Cada escolha pode ser fatal, e não estão apenas a lutar por si. O destino de outras vidas depende deles. E, no fim, terão de descobrir o que significa salvar uma casa… num mundo que já não reconhecem.
 

terça-feira, 26 de agosto de 2025

NOITE INTERMINÁVEL, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS


 

Nas tranquilas férias de verão na Ilha de Faro, o impossível irrompe sem aviso. À medida que a noite cai, a realidade começa a desvanecer-se, dando lugar a um pesadelo sombrio e inexplicável. Algo espreita na escuridão — algo que não devia existir.

Os primos, apanhados no coração do mistério, vêem-se de repente em perigo real. Quando a sobrevivência se torna a única hipótese, não há tempo para hesitações. É preciso correr, lutar e abandonar tudo sem olhar para trás. Porque quando o medo se torna mais do que uma sensação... cada decisão pode ser a última.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

COLAR DE BRISINGAMEN - PROFECIA DO SANGUE, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

 

Sei o que me espera, tenho noção da enorme responsabilidade, de todas as vidas que dependem unicamente do meu sucesso.

Nos meus momentos mais difíceis, quando as forças ameaçam abandonar-me sei que quem me ama virá em meu auxílio, atravessando o véu que separa os vivos dos mortos para me reconfortar e que o vazio deixado, com o tempo será atenuado pelo suave murmúrio do vento.

Se for chegada a minha hora, partirei a lutar com todas as forças que a Deusa me deu e com a certeza de que deixarei este mundo livre de Sombras.

Gráim thú, a Rhenan, agus níos mó ná riamh ba mhaith liom maireachtáil.

Maria MacCumhaill

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

OS REIS MAGOS DO SÉC. XXI, de MBARRETO CONDADO

Gaspar, Baltasar e Melchior combinaram pelo WhatsApp ir buscar o tal “rei dos reis”. O problema começou quando o GPS os enviou para o “Belém” errado e eles acabaram em Lisboa, a tirar selfies com o Mosteiro dos Jerónimos.

Após algum debate:

- Isto parece-te uma manjedoura?

Acertaram o destino, Gaspar trouxe ouro, mas era uma pulseira falsa comprada na Black Friday. Baltasar, sempre atento às tendências, trouxe mirra aromática, versão difusor elétrico. Melchior, minimalista, apareceu com um voucher do Starbucks: - É prático, e podem usar quando quiserem.

Ao chegarem, Maria e José sorriram agradecidos.

- Obrigado…mas preferíamos fraldas.

 

Uma mulher que ainda sonha

MBarreto Condado

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

FELIZ ANO NOVO, de MBARRETO CONDADO

Feliz Ano Novo

Mais uma página em branco se abre diante de nós, pronta para ser escrita com as palavras da vida. Que cada dia deste novo ano seja um parágrafo cheio de emoção, aprendizagem e descoberta. Que as vírgulas sejam pausas para respirar e apreciar, e que os pontos finais só cheguem quando for hora de virar a página.

Desejo que o enredo de 2024 seja rico em momentos de alegria, personagens inesquecíveis e tramas que nos desafiem a crescer. Que a tinta do coração escreva com coragem, e que o papel da alma seja preenchido com sonhos realizados.

Às histórias que começam, às que recomeçam, e às que nunca terminam, um brinde a este novo capítulo da vida.


Com inspiração e esperança,

Feliz Ano Novo

MBarreto Condado

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

QUERIDO ANO VELHO, de MBARRETO CONDADO

Querido Ano Velho,

Chegou a hora de me despedir de ti. Foste um ano cheio de altos e baixos, e levo comigo as lições que me ensinaste. Algumas vieram com risos, outras com lágrimas, mas todas deixaram a sua marca.

Quero agradecer-te pelos momentos de alegria, pelas pessoas que ficaram e pelas novas que chegaram. Cada sorriso e cada abraço foram presentes preciosos. Também agradeço pelos desafios, pois foi enfrentando-os que descobri ser mais forte do que imaginava.

Deixo contigo os medos que já não me servem e as mágoas que pesam no meu coração. Não quero carregar para o ano novo aquilo que me impede de seguir em frente. Quero entrar nesse novo capítulo mais leve, mais confiante e cheia de esperança.

Não te guardarei rancor, mesmo pelos dias difíceis, pois sei que faziam parte do caminho. Despeço-me de ti com gratidão e a promessa de continuar a procurar alegria, amor e paz em cada dia que ainda virá.

Adeus e obrigada.

 

Com carinho,

Uma mulher que ainda sonha

MBarreto Condado

domingo, 29 de dezembro de 2024

CRÓNICAS DE NUNES - UM ASNO, de MBARRETO CONDADO | AMAZON

Nos confins da alma humana há um espaço peculiar onde o ridículo e a vaidade se encontram e dançam uma valsa desajeitada. É nesse terreno pantanoso que nasce o nosso protagonista, um homem cuja principal façanha é ser um asno presunçoso. Um mestre em parecer sábio sem sê-lo, em falar alto e dizer pouco, em julgar o mundo do alto da sua imaginária torre de marfim.

Estas crónicas não pretendem ser um exercício de crueldade, mas antes um espelho sarcástico onde, com sorte, alguns de nós poderão reconhecer pequenos reflexos da nossa própria asnice.

Através dos seus feitos e desfeitos, dos seus discursos pomposos e decisões desastradas, revelam-se não só os ridículos do personagem, mas também os da humanidade que, mais vezes do que gostaríamos de admitir, partilha um pouco da sua presunção.

Prepare-se, caro leitor, para seguir as aventuras e desventuras de um homem que, na ânsia de parecer mais do que é, acaba por ser muito menos do que poderia ser.

Que estas páginas sejam sobretudo um convite a boas risadas.

E sendo esta uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.