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sábado, 31 de agosto de 2024

A PAIXÃO DE ISAURA, de MARIA CECÍLIA GARCIA | OFICINA DA ESCRITA


Maria Cecília Garcia nasceu numa pequena aldeia junto ao mar, na Ilha da Madeira.

Aos seis anos mudou-se para outro continente, para um país à beira do mar das Caraíbas. Aos 24 anos voltou à ilha, onde ficou oito anos, mas mora há 40 anos no Continente.

 É viúva, mãe de dois filhos e tem quatro netos.

Quando a vida permitiu, dedicou-se à sua verdadeira paixão: a leitura, o que a levou à escrita, tendo já três livros publicados. Gosta de contar histórias, reais ou fictícias, embora em todas haja sempre uma verdade.

A Paixão de Isaura é o seu novo livro, que publica com a chancela da Oficina da Escrita




«Onde estiveres, lembra-te do que fomos.

Lembra-te do que fomos… onde quer que estejas, lembra-te… se me esqueceres, matas-me.»

 

«Há momentos na vida que nos fazem pensar em vidas passadas, como se tudo estivesse predestinado e, quando chega esse momento, todas as peças encaixam por si só num jogo estranho que não sabemos se vamos perder ou ganhar.»

Isaura vivia feliz numa pequena aldeia de Trás-os-Montes, com o filho e o marido, no entanto, levada pela cobiça, tenta obter tudo o que é da sua patroa e deixa-se levar pela paixão, entregando-se aos encantos do morgado.

 É assim que, atrás da porta do quarto, Frederico a toma nos braços, afunda o rosto nos seus cabelos e percorre o seu corpo com as mãos. Isaura sente-se líquida, entrega-se e obedece apenas aos ditames do corpo e do desejo que o morgado lhe desperta.

“ Nada mais existia, apenas aquela vertigem, aquele voo sem rumo, aquele desalinho dentro e fora dela. Se alguém a observasse ao deixar aquele espaço, podia perceber o seu andar ondulante, o rubor do seu rosto, o decote da blusa, a saia deslocada. Mas ninguém viu, naquela hora a casa descansava em paz. “

De forma impensada, Isaura abandona o filho e o marido e foge com este homem para Lisboa, iludida por uma vida de felicidade. Este é um romance onde o amor e a paixão se cruzam. Uma história em que o abandono, a desilusão, o remorso e o perdão são as personagens principais. Já Isaura é uma anti-heroína, que o leitor aprenderá a amar através da história.

 



 

sábado, 14 de janeiro de 2023

DIVULGAÇÃO | A FILHA DA MÃE, de MARIA CECÍLIA GARCIA

 

“Estavam domesticadas, amarguravam-se, e essa amargura traduzia-se num combate feroz contra tudo o que era diferente, eram as piores inimigas de si próprias e daquelas que ousassem sair do redil. A emancipação que as mulheres procuravam afigurava-se-lhes como algo demoníaco que não podiam aceitar, pois punha em causa toda a sua vida. Foi um tempo em que a aldeia se dividiu e onde cresceu a maledicência e o julgamento, e só serenou quando essa luta era contra as suas próprias filhas”.

“Era só um amigo e aquele beijo foi uma coisa tonta e sensaborona. Depois dessa proeza ele perguntou: “gostaste?” Eu respondi que tinha sido como nos filmes. E era verdade: não senti nada. Supõe-se que devia ter sentido uma grande emoção, tremores, pernas bambas, ter visto estrelas e passarinhos a pipilar…, mas não, deixou-me apenas com um sentimento de pecado e sabor a decepção. Fiquei preocupada, pensei que havia algo errado em mim”.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

BOAS FESTAS | MARIA CECÍLIA GARCIA

 










Livros que li.

Há livros que nos ficam na memória, por vezes até, no coração. Há livros dos quais podemos falar e explicar as razões pelas quais nos conquistaram, e outros que apenas sentimos e nos transmitem sensações difíceis de explicar. A leitura transporta-nos a outros mundos, outras vidas, algumas que desejaríamos ter vivido e outras que nos obrigam a olhar para dentro de nós mesmos. Há livros com os quais aprendemos a usar a língua e expor as nossas ideias, outros proporcionam aventuras, contam histórias que, mesmo sabendo que nunca será nossas, dão muita satisfação.

Dos livros que li passo a mencionar três. Um deles me acompanha há quarenta anos e do qual realizei várias leituras.

 Trata-se de “O Admirável mundo Novo”, de Aldous Huxley. Publicado em 1932, considero-o um romance premonitório. À época da sua publicação era ficção científica especulativa, uma distopia onde a reprodução artificial, a manipulação, o controlo da população, aconteciam. Onde a palavra mãe e amor eram palavras obscenas. Ter filhos pelo método natural era crime. Onde a felicidade era encontrada através de um comprimido rigorosamente administrado e a vontade dos seres anulada.

Como referi, li por primeira vez há uns quarenta anos, nesse então tudo era ficção mas, infelizmente, tenho vindo a comprovar que tudo o que ali está escrito tem sido realizado e ido muito mais além. Podia falar deste livro durante muito tempo, mas vou apenas aconselhar a sua leitura. Escrito como um romance, com linguagem simples e fácil de entender.

“Amor em Tempos de Cólera”, de Gabriel Garcia Márquez, é um livro que faz parte dos meus preferidos. Aliás, Garcia Márquez é um dos meus autores preferidos. Este romance em particular me transporta aos lugares da minha infância e, ao mesmo tempo, à minha própria passagem do tempo, aos amores perdidos.  

É a história de um amor ao longo da vida, da espera, um amor que apenas se concretiza já na velhice, quando estes amantes estão em decadência e ainda assim, amam. Com o estilo maravilhoso de Garcia Márquez, vale a pena ler!

Impossível não falar de José Saramago, e do maravilhoso “Memorial do Convento”. Saramago é, sem dúvida, o meu autor mais apreciado entre os portugueses e, o meu favorito entre todos. Memorial do Convento é obra mestra, uma maravilha da literatura. A história que nos conta, os amores de Baltazar-sete sois que, sem a mão esquerda, ajuda o padre Bartolomeu a construir a passarola, e Blimunda - sete Luas, a mulher que podia ler as pessoas por dentro. Estes três personagens " simbolizam o sonho, a liberdade de amar e de acreditar para lá de todas as evidências, apresentando-se como o reverso de uma época onde o rei e os clérigos subjugam o povo para o cumprimento de um projecto megalómano."

Lamento que Saramago não seja apreciado como devia no nosso país, enquanto é estudado e apreciado um pouco por todo o mundo. E que os seus livros sejam lidos por obrigação, no contexto de escola, apenas.

Há outros livros e outros autores, como Valter Hugo Mãe e O Filho de Mil Homens, uma enorme surpresa para mim, Mário Benedetti, maravilhoso e, recentemente, Juan Gabriel Vásquez, uma bela descoberta. Há muitos mais, novos autores portugueses a quem lhes deve ser dada a oportunidade de mostrar o seu talento. Mas, o que importa é a leitura, ler para aprender, ler para viver. Entre os meus desejos de Natal, está um para todos vós: leiam, desfrutem!

O Natal é uma época propícia à união, um tempo em que o coração transborda de bons sentimentos e desejo de paz. O nascimento de Jesus significa esperança e, no tempo em que vivemos nunca precisamos tanto dela. A Esperança.

Mantenhamos vivos esses sentimentos ao longo do ano, para que a vida seja essa paz que parece desejarmos apenas nestes dias assinalados.

Para os leitores da Nova Gazeta, para todos os leitores e amigos, desejo um santo e feliz Natal. Que o amor e a esperança se mantenham sempre!

Feliz Natal!

Maria Cecília Garcia

 

 

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

DIVULGAÇÃO | ESTRANHA FORMA DE VIDA, de MARIA CECÍLIA GARCIA | EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

 



Eu era teimosa e alegre, tinha uma grande capacidade de me abstrair e de apaziguar o sofrimento. Iria resistir, qual erva daninha que, depois de espezinhada, teima em renascer. A vida não era um oceano pacífico e, para sobreviver, decidi que havia de ser feliz. Sabias que havia dentro de mim um ser livre e que nem tu, nem ninguém, me roubaria essa liberdade. No entanto, vacilei muitas vezes, não imaginas quantas vezes quis desistir. Nos momentos de angústia, olhava-me ao espelho, esbofeteava os pensamentos tristes e procurava de novo o brilho dos meus olhos. Era isso o que te frustrava, saber que, depois de tudo, depois de pensares que me tinhas anulado, eu renascia livre como a Fénix. Mas ninguém é mais irremediavelmente escravizado, dizia Goethe, do que aqueles que acreditam que são livres. Eu precisava de ser feliz, e se a felicidade não existisse, inventava-a. Agora que penso bem, era uma espécie de loucura!


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

DIVULGAÇÃO | A FILHA DA MÃE, de MARIA CECÍLIA GARCIA

 



“Estavam domesticadas, amarguravam-se, e essa amargura traduzia-se num combate feroz contra tudo o que era diferente, eram as piores inimigas de si próprias e daquelas que ousassem sair do redil. A emancipação que as mulheres procuravam afigurava-selhes como algo demoníaco que não podiam aceitar, pois punha em causa toda a sua vida. Foi um tempo em que a aldeia se dividiu e onde cresceu a maledicência e o julgamento, e só serenou quando essa luta era contra as suas próprias filhas”. “Era só um amigo e aquele beijo foi uma coisa tonta e sensaborona. Depois dessa proeza ele perguntou: “gostaste?” Eu respondi que tinha sido como nos filmes. E era verdade: não senti nada. Supõe-se que devia ter sentido uma grande emoção, tremores, pernas bambas, ter visto estrelas e passarinhos a pipilar…, mas não, deixou-me apenas com um sentimento de pecado e sabor a decepção. Fiquei preocupada, pensei que havia algo errado em mim”.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

AUTORES NACIONAIS | MARIA CECÍLIA GARCIA


 













Maria Cecília Garcia nasceu na Madeira, numa pequena freguesia chamada Jardim do Mar, a 14 de Junho de 1949.

Aos seis anos de idade partiu, com a sua mãe, para a Venezuela ao encontro do pai.

Regressou a Portugal em 1973 para o que seria um período de férias, mas acabou ficando até os dias de hoje. Reside em Portugal Continental desde 1983, em Lisboa. Mora actualmente na zona Oeste.

DIVULGAÇÃO | HISTÓRIA EM PEDACINHOS, de MARIA CECÍLIA GARCIA | CHIADO EDITORA

 
















"A minha mãe trocava o sonho de voltar à sua aldeia pelo sonho de ter uma casa sua, um chão onde criar raízes. mesmo que esse sonho fosse quase tão difícil de alcançar como o de regressar à ilha. Um dia, encheu de terra uma lata de leite em pó vazia e nela mergulhou um caroço de abacate. Só a iria plantar no chão se o solo lhe pertencesse. Agora, além do cão turista e das galinhas poedeiras, levávamos também um caroço de abacate ambulante, que crescia a olhos vistos e se transformava num pequeno arbusto, entre cidade e cidade, entre casa e casa. Cresceu tanto que o meu pai foi obrigado a fazer uma caixa de madeira que pudesse acompanhar o crescimento do caroço. O arbusto passou a fazer parte da família e todos tínhamos o cuidado de o proteger durante as viagens".

domingo, 25 de abril de 2021

CRÓNICA | Quem tem medo do 25 de Abril?, de Maria Cecília Garcia

Eu celebro o 25 de Abril, felizmente tenho memória e não aceito que ninguém me impeça de dizer o que penso.

Prefiro viver num país democrático, onde todos podemos pensar e falar, do que num país onde só se podem manifestar os donos do poder, onde o povo só tem que obedecer.

Prefiro a Democracia, mesmo que imperfeita, onde os erros que se possam cometer sejam conhecidos por todos, do que viver num país onde tudo parece perfeito, ordenado, organizado, apenas porque o simples povo não sabe o que acontece. Onde o povo se conforma com o que lhe dão e sente-se feliz, uma felicidade de ignorância e enterrar a cabeça na areia.

Prefiro um país, qualquer país, onde se pode mudar de governantes se não estiver satisfeito, do que viver durante 48 anos sob o jugo do mesmo "patrão".

Eu celebro o 25 de Abril, o acontecimento mais marcante do século XX em Portugal, digam o que disserem.

Quem teme o 25 de Abril e tudo o que ele representou, e representa?

O que eu temo é esta tendência de apagar as memórias.

Portugal é tudo o que aconteceu desde o momento em que começou a chamar-se país, com todos os erros, as guerras, as lutas e conquistas. Quando não tivermos memória acabamos, inevitavelmente, por repetir os erros do passado, damos um passo atrás. E um país sem História, não existe.

O dia 25 de Abril de 1974, representa o despoletar da insatisfação de um povo cansado, foram os Capitães que deram a cara, mas a revolução só aconteceu porque o povo assim o quis.

Podia enumerar tudo que ganhámos em Democracia (imperfeita) e que hoje damos por seguro, mas seria uma lista muito longa e, no fundo, todos sabemos.

E sou livre para dizer: VIVA o 25 de Abril!

Afinal, quem tem medo do 25 de Abril?



sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Os desejos da escritora Maria Cecília Garcia para 2021


MK - O que ficou por fazer em 2020?

MCG - O ano 2020 foi um ano muito especial, no qual só fiz aquilo que foi possível. Mas podia ter feito mais, podia ter acabado de escrever um livro que tenho entre mãos, a minha aventura no romance. Não foi a falta de tempo, foi o excesso de tempo confinado, que não permitiu disponibilidade psicológica para escrever. Creio que todos deixamos muitas coisas por fazer em 2020! 



MK - Projectos para o novo ano.
MCG - Não gosto de fazer projectos, mas de ter sonhos. Acabar o livro de que falei, isto a nível de escrita. A nível pessoal, poder fazer a recuperação da casa dos meus bisavós. Isto se o novo ano se apresentar mais suave e nos permita ter esperança.

MK - Três desejos para 2021.
MCG - O primeiro desejo, creio que é o desejo de todos nós, é o abrandamento, ou o fim, desta Pandemia, para que possamos retomar a vida normal.
Poder encontrar-me com os meus irmãos, a minha mãe, desfrutar dos meus netos e filhos. Desejo saúde a todos para que possam realizar os seus sonhos.
Manter-me viva e suficientemente louca para continuar a sonhar!


domingo, 7 de junho de 2020

CRÓNICA | O VALOR DA PALAVRA, de Maria Cecília Garcia


Texto: Maria Cecília Garcia
Foto da Autora: D.R.

Para quem como eu, que já viveu algumas décadas, e se dá ao trabalho de observar as mudanças que vão acontecendo, gostaria de dar a minha opinião, ou melhor, a minha percepção sobre alguns factos que passam despercebidos.
Hoje vou falar das palavras em desuso, ou melhor, palavras fora de moda, quase nunca pronunciadas ou escritas, que, a meu ver, são a causa de alguns dos grandes problemas que enfrentamos nos dias de hoje. Todos sabemos que a palavra é importante, mas raramente damos importância à palavra em si.
Parece-me que, se uma palavra desaparece, deixa de ser pronunciada, também existem gestos ou acções que deixam de acontecer. Uma palavra existe para definir ou classificar uma acção.
Tomemos como exemplo a palavra-Honestidade- Qual é o significado da palavra? Numa explicação sumária, honestidade é a qualidade daquele que é honesto, honrado. Honrado é ter sentimento de dignidade, amor-próprio, decoro, pudor, franqueza e boa fé. Há muitas definições para esta palavra, mas apenas com estas, podemos entender a importância da mesma.
Ora bem, como se comporta um indivíduo honesto? Um individuo honesto seria incapaz de roubar ou enganar propositadamente alguém para obter benefícios para si próprio.
Façamos o jogo ao contrário. O que significa ser desonesto? Ser desonesto é não ter sentimento de honradez, amor-próprio, é ser indecoroso e despudorado em relação a si mesmo e aos que o rodeiam. É não dar importância à sua própria dignidade, actuar de má fé.
Se estivéssemos preocupados em ser pessoas honestas e com amor-próprio suficiente para actuar de boa fé, seguramente muito melhor andaria o mundo. Haveria menos corrupção, menos mentira e muita mais confiança entre as pessoas.
Os mais antigos davam valor à sua palavra, uma promessa, um compromisso, nem precisavam de assinatura porque as pessoas prezavam a sua dignidade. Era vergonhoso ser classificado como alguém que não respeita a palavra dada, ou se tivesse valido de mentiras e falsidade para obter algo em seu proveito, ou até, prejudicar os outros
 A lealdade- Onde ouviu essa palavra pela última vez? Não me refiro ao que se lê nos livros, refiro-me ao dia a dia, nas conversas banais, poucas vezes é pronunciada. E a Lealdade é também fidelidade, sinceridade, dedicação, coleguismo. No fundo lealdade e honestidade são irmãs e se complementam.
Apenas duas palavras que bem usadas e entendidas fariam mudar o mundo. Assim de simples.
Em contrapartida há uma abundância de palavras, cada dia mais usadas que, mesmo sendo correctas e com valor gramatical, são banalizadas ao ponto em que já não sabemos o seu verdadeiro significado.
A palavra Amor, é usada até à exaustão, é pronunciada com ligeireza. O que é o amor? O amor contém em si tudo o que há de melhor no ser humano. O amor é generosidade, desprendimento, sacrifício, entrega, ternura...  mas também é lealdade e honestidade.   Será que quando pronunciamos a palavra amor, sentimos tudo isso?
 Palavras há muitas, mas apenas estas, fariam mudar o mundo.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

CRÓNICA | MONTALBAN, de Maria Cecília


Texto: Maria Cecília Garcia
Foto da Autora: D.R.

Montalban era uma pequena vila encaixada entre montanhas, onde às onze horas da noite o gerador da luz eléctrica era desligado e um nevoeiro fantasmagórico rodeava a população. Apesar de estar entre montanhas, não era fria, antes pelo contrário, o clima era húmido e abafado.
Era uma localidade antiga, as casas eram baixas, quase todas com pátio interior e paredes de cana e barro, o edifício que se destacava era a igreja e depois a alcaldía.
Curiosamente, nesta povoação isolada nas montanhas, existiam três igrejas, cada uma dedicada a um padroeiro diferente. A minha mãe achou bem, significava que as pessoas eram devotas.
Não sei como fomos parar a este lugar, assim como não sei qual era o critério para a escolha dos diferentes lugares onde fomos morar, mas penso que seria uma certa proximidade do sítio onde meu pai estava a trabalhar, de modo a permitir que ele viesse a casa durante alguns fins-de-semana. Quando lá chegámos ainda não tínhamos casa para morar, foi preciso procurar alguma que estivesse vaga. Não foi difícil, rapidamente nos deram a indicação de uma, a única que estava para alugar.
 Fomos conhecer a casa e ficámos surpreendidos, era uma habitação diferente, bastante nova e mais elegante do que as demais. E estava situada numa rua bastante sossegada, embora próxima do centro.
Era uma das poucas que tinha telhado de telhas e, apesar de ter só um piso, era grande e tinha um terreno nas traseiras.
 Mas o seu interior parecia estar inacabado e tinha muitas cicatrizes no chão e nalgumas paredes. Os seis quartos distribuíam-se lateralmente, formando dois corredores, no meio dos quais se encontrava a sala com uma grande janela e a cozinha.
 Os quartos eram contíguos e comunicavam entre si por uma abertura onde devia haver portas, mas estas não existiam, e cada um dos cubículos tinha também uma porta para o corredor.
Era uma distribuição algo bizarra. Dos quartos do lado esquerdo, apenas aquele que dava para a rua, tinha janela, o que tornava os demais algo escuros; nos quartos da direita apenas um deles tinha uma janela que dava para o terreno e em todas as janelas havia grades de ferro. A sala tinha uma janela maior, também protegida por grades de ferro e portadas de madeira.
A única divisão que parecia estar completamente acabada era a sala de banho, que era também muito estranha. As paredes estavam recobertas por azulejos grandes, pretos e brilhantes, os vizinhos asseguravam que eram de mármore de Carrara, mas não tinha janela, estava sempre muito escuro e, mesmo com a luz acesa, tinha um ar algo sinistro.
As louças eram pretas, incluindo a banheira, o que também era uma raridade, pois o usual naquele país era as casas de banho terem apenas um duche. Tinha um grande espelho que ocupava quase toda a parede junto ao lavatório, cujas torneiras eram douradas.
O terreno das traseiras estava descuidado, como votado ao abandono, há muito tempo, coberto de ervas altas e alguns arbustos.
Nas traseiras, encostado à casa havia um grande barracão, que a minha mãe pensou que podia ter alguma utilidade para a criação de galinhas, e ainda outro, mais pequeno, cheio de coisas inúteis, algumas ferramentas, sacos de cimento endurecido. Parecia que alguém tinha atirado para lá tudo isso e saído a toda pressa.
Habituados como estávamos a viver em todo o tipo de casas, achámos que aquela estava bem e, quando a minha mãe soube o preço do aluguer, não pensou duas vezes, até porque nem foi pedida uma caução, como era uso.
Mas tinha um senão, a pessoa que a alugou fez questão de informar que aquela casa tinha fama de estar assombrada e que os inquilinos não paravam lá.
A minha mãe, que não acreditava nessas coisas, riu-se, e nós rimos com ela, mas, pelo sim, pelo não, foi falar com o padre, que confirmou essa informação.
A minha mãe achou que ele era tonto, mas pediu-lhe que fosse benzer a casa e, embora ele a informasse de que já tinha feito esse trabalho várias vezes, para outros inquilinos, sem resultado, ela insistiu.
Com a casa aspergida com água benta e um grande crucifixo na parede, entramos com a maior das confianças na nossa casa, talvez assombrada.
Tenho que admitir que me custa um pouco falar sobre as coisas que aconteciam ali, não porque acredite em fantasmas, espíritos ou assombrações, mas porque pode parecer invenção minha. Mas juro que tudo o que vou contar aconteceu!
Apesar dos avisos e dos prognósticos das vizinhas que apostavam que não ficaríamos lá muito tempo, fomos viver para aquela moradia.
A minha mãe lamentava que as pessoas fossem tão supersticiosas e sugestionáveis, pois para ela não havia que ter medo se estávamos com Deus porque ninguém era mais forte do que Ele.
Além das histórias que nos tinham contado, em que não acreditámos, havia uma circunstância bastante aborrecida, que era o facto da luz eléctrica que, além de ser desligada às onze horas da noite, não tinha a potência necessária para fazer funcionar a televisão em boas condições.
Recordo que eu andava todo o tempo mudando a televisão de lugar para ver se encontrava um ponto onde a recepção fosse melhor, ou rodando a antena até conseguir que aparecesse uma imagem distorcida e chuvosa, algumas vezes sem som e outras apenas com som, sem imagem!
Pelo seu lado, a minha mãe aumentou a sua criação de galinhas brancas e boas poedeiras, no barracão das traseiras transformado agora em galinheiro, e até arriscou a criar uns coelhos.
Com naturalidade habituámo-nos ao facto de encontrar todas as manhãs o chão da sala molhado e coberto com uma camada de salitre, sem nunca conseguirmos perceber de onde vinha aquela água.
Era, com certeza, alguma infiltração, no entanto, segundo a vizinhança assegurava, a casa já tinha sido esburacada à procura de algum cano roto ou uma nascente, mas nunca se encontrara nada que justificasse aquela humidade. Essa era a razão das cicatrizes nas paredes e no chão. Nada disto nos preocupava, esse fenómeno tinha com certeza uma explicação lógica. Por enquanto, bastava secar o piso pela manhã e fazer o mesmo no dia seguinte.
A casa de banho, que ao princípio parecia tão interessante, com a banheira na qual imaginara tomar grandes banhos de imersão, apavorava-me. Quando precisava de lá ir, nem me atrevia a olhar para o espelho!
Mas era utilizada pelos meus irmãos, que ainda não estavam na idade do medo, para treinarem mergulho e apostarem para ver quem passava mais tempo debaixo da água sem respirar. Aliás, um deles ficou com esse vício desde então e, nas casas onde morámos depois, na falta de banheira, metia a cabeça dentro de um balde cheio de água para ver quanto tempo aguentava sem respirar…
A falta de luz durante a noite era algo muito aborrecido e a única forma de atenuar essa falta era ter sempre em casa, uma boa quantidade de velas, porém houve uma noite em que elas não foram suficientes.
Acordámos a meio da noite com um ruído estranho, um chocalhar persistente que a minha mãe identificou como o som característico das cobras cascavel, o que não era de estranhar naquele país, ainda mais numa localidade tão rural e com o terreno das traseiras cheio de ervas. Com muito cuidado inspeccionámos tudo à nossa volta, debaixo das camas e em cima delas, nos poucos móveis e em todos os recantos da casa sem encontrar nada, mas quando ficávamos em silêncio, voltávamos a ouvir o mesmo som abafado de chocalho.
Quando as velas se acabaram o medo aumentou, só nos ocorreu ir para um quarto interior sem janelas, que estava completamente vazio. A minha mãe rasgou um lençol e pegou-lhe fogo para iluminar o espaço e verificou que nada havia ali nem havia a possibilidade de que um qualquer bicho rastejante pudesse entrar; depois foi rapidamente procurar mais lençóis e cobertores, enquanto nós esperávamos com o coração na boca. Depois de os sacudir – os lençóis – e verificar que não tinham qualquer bicharoco, entrámos todos para aquele cubículo fechando a porta rapidamente.
Apenas os meus irmãos pequenos conseguiram dormir um pouco, a minha mãe e eu não pregámos olho até ao amanhecer. Eu estava paralisada pelo medo e o frio.
Quando surgiram os primeiros raios de sol abrimos cuidadosamente a porta e vasculhámos toda casa sem encontrar nada, só então respirámos de alívio embora continuássemos convencidas de que uma cascavel atrevida tinha passado por ali.
Também já nos tínhamos acostumado a ver as luzes se acenderem numa luz muito débil e apagar-se pouco depois, isto várias vezes durante a noite. Atribuíamos sempre o facto ao mau funcionamento do gerador, apesar das vizinhas assegurarem que isso não lhes acontecia. Também nos acostumámos ao barulho irritante de vidros que se partiam nas madrugadas de domingo. Era com se alguém se divertisse a partir garrafas durante horas; algumas vezes parecia que se ouviam vozes misturadas com o som de quebrar vidros, que parecia ser mesmo nas traseiras da casa, acontecimento que atribuíamos a alguma briga de um bar, embora o bar mais próximo ficasse a algumas ruas de distância e, mais uma vez, ninguém da vizinhança ouvisse estes barulhos.
Também passamos um sustou ma noite, quando as galinhas que deviam estar a dormir no barracão fizeram uma grade confusão, piando , batendo as asas, saltando de um lado para outro, de tal modo que , acendemos as velas que tínhamos e fomos espreitar, em fila indiana, cada um com a sua vela acesa, mas logo que nos aproximamos da porta, as galinhas sossegaram, e sentimos, todos, um sopro muito próximo, que apagou todas as velas! Atropelamo-nos na escuridão e corremos, outra vez, para o quarto mais seguro da casa, onde nos tínhamos refugiado quando pensamos que uma cascavel, que nunca vimos, andava por casa...
É verdade que eram tempos de muitas preocupações e a minha mãe andava naturalmente angustiada, tinha medo de estar sozinha com três crianças, um cão, algumas galinhas e até um coelho, sem contar com o arbusto de abacateiro numa lata de leite em pó.
Mesmo estando convencida de que não acreditava em almas do outro mundo vagueando pela casa nem nas histórias que a vizinhança contava sobre aquele lugar, era natural que no subconsciente existisse um espaço de dúvida, um “se” que a fazia sentir-se inquieta e lhe causava noites de insónia.
 Por isso mesmo, com o passar do tempo e a repetição de situações estranhas e de difícil explicação, era natural que estes fizessem estragos no sistema nervoso e é certo que nada é mais assustador do que o desconhecido.
Um dia, logo pela manhã, encontrei a minha mãe com uma expressão aterrorizada metendo rapidamente os nossos pertences em caixas e sacos e, quando eu quis saber o que acontecia, ela só me respondeu que nos íamos embora daquela casa.
 Nunca me explicou o que a levou a tomar essa decisão tão repentina e eu não voltei a perguntar, mas senti que era urgente sair dali.
Nesse mesmo dia saímos à procura de outro lugar onde ficar, a vizinhança toda nos ajudou nessa procura, mas só conseguimos descobrir outra casa disponível numa povoação próxima chamada Bejuma. A casa era de barro e canas com chão de terra batida, uma autêntica cabana, mas isso não tinha importância: o importante era ficar longe daquela casa, assombrada ou não…
Alguns dias depois o meu pai chegou e ficou combinado que nos mudaríamos para a cidade onde ele trabalhava, tão depressa quanto ele conseguisse encontrar uma casa para nós.