quinta-feira, 7 de novembro de 2019

DE ONDE NUNCA SAÍ - CAFECITO NA MONTANHA, de Helder Menor















Quem está acima dos três mil e quinhentos metros de altitude está inevitavelmente bêbado e maldisposto. Acima dos quatro mil, deixamos de estar bêbados para estarmos apenas e muito maldispostos. Pelo menos comigo é assim. Logo eu, criado na borda d’água, nascido com o mar nas veias, a morar no rés-do-chão, eu, que se tenho de subir ao telhado para substituir alguma telha enjoo logo! Ver-me assim nas alturas agonia-me.

Vem isto a propósito das voltas e revoltas que o destino decide dar. O destino, todos já sabemos que é um fado corrido e sem decoro que quanto mais repenicado for, mais voltas dá.

Pois foi este fado andarilho que me levou um dia a pisar o chão antigo das montanhas dos Andes. A coluna vertebral da América do Sul. Os gajos engravatados que vivem nas capitais sul-americanas dizem que os Andes têm dono e dizem que são eles os donos das parcelas dos Andes. Dizem: os Andes do Equador, os Andes do Chile, dizem eles que são os Andes Equatorianos, os Andes Peruanos, os Andes Bolivianos, os Andes Argentinos... Tudo tanga. Conversa para inglês ver e comprar minério arrancado à montanha. Os Andes têm donos sim, mas são aqueles que lá moram em cima, nas alturas onde o ar escapa dos pulmões e onde o vento seco e gelado corta as orelhas.

Um gajo mais distraído, olhando para o mapa, até acredita nessa história dos países serem proprietários dos Andes. Mas subindo à montanha, percebemos que entre o papel impresso no mapa e a montanha vai uma distância tão grande como a imensidão abarcada pelas asas abertas do condor. No rarefeito ar, na estreita berma da estrada estão os verdadeiros donos da montanha. Na curva que se retorce na vertigem das alturas e na agonia do enjoo, é aí em cima que os donos dos Andes moram. Entre alpacas e pedras velhas gretadas pelo gelo, pelo sol e pelo vento. Os donos da montanha estão lá em cima, ao lado de uma cancela ferrugenta que chia quando tem de abrir. Abrigados nuns barracões, vestem-se de lã grossa, de fardas incompletas e variadas de polícias, guardas, militares, pastores, bombeiros ou trabalhadores das estradas. São índios, cholos mestiços e eventuais descendentes de emigrantes europeus. Ficam lá em cima durante meses em intermináveis comissões de serviço à sombra de uma bandeira e dos brasões que representam os estados que lhes pagam mal, tarde e a más horas...

Nos barracões à beira da estrada funcionam as alfândegas e onde as fronteiras vendem vistos, chá, casacos, empanadas, café, água, serviço de banho e posto médico. Lá em cima, onde se alugam prostitutas, carros velhos e mulas. São mecânicos, xamãs, cambistas de moeda e outras coisas que tiverem que ser. Vivem do salário e daquilo que a montanha pode dar a quem tiver os olhinhos abertos e os dedos prontos. Só para quem se consegue adaptar à falta de ar e às tonturas permanentes. São guardas, fiscais alfandegários, militares e outros burocratas e todos os outros. Também de ser obrigatoriamente enfermeiros e médicos. E há taberneiros, bruxos, prostitutas, lenhadores, canalizadores, mecânicos e, às vezes, agentes funerários. A natureza dos Andes ensina a autossuficiência.

A quem por estrada cruza a montanha, impressionado pela majestosidade dos picos nevados, agoniado da vertigem e a asfixiar da altitude, a quem nestas condições, pergunto eu, ocorre queixar-se das mãos untadas do soldado que fecha os olhos e deixa passar contrabando em troca de uma garrafa de bagaço? Quem é que se vai dar ao trabalho de moralizar a fronteira? O soldado que ali está há meses, sem o conforto de uma inspiração profunda e sem uma cama só para ele. O soldado que se aquece agarrado ao púcaro de alumínio do seu chá de coca. Alguém o vai criticar o soldado por virar as costas enquanto uma carga passa? A estrada pertence-lhe, não só ao soldado, mas a todos os que ali vivem isolados nos postos de fronteira. A montanha é terra de ninguém, mas a fronteira é dos que lá estão.

Nós viajámos dois dias e uma noite sempre a subir. De autocarro que até era confortável, diga-se. Sempre a subir cerros e escarpas, cada vez mais altas e despidas. Para trás, o gelado Pacífico, à frente, a montanha. A estrada propícia a enjoos, sonos, conversas, tédio e mais enjoos. E mais sono, cada vez menos conversas e cada vez mais tédio. Do lado de lá do vidro a paisagem majestosa. Durante as paragens obrigatórias para o xixi, para o chá ou café, o ar frio e escasso da alta montanha. Pedras e quase nenhuma vegetação. Às vezes nos vales profundos, ribeiros barrentos a correrem violentos entre as pedras. Poucas pessoas, algumas alpacas misturadas com cabras. Nas paragens, as putas e os militares, os policias, possíveis traficantes, comerciantes, pastores de gados vários e nós. Todos a avaliar-nos uns aos outros e identificando riscos, perigos e oportunidades.

A última paragem em território chileno, foi a mais demorada e mais tensa. Saímos todos do autocarro e o motorista abriu o compartimento das bagagens. Policias e militares vieram dar palpites de arrumação enquanto não chegou um outro autocarro em sentido contrário vindo da Argentina para entrar no Chile. Chegado o autocarro, deixaram de se mostrar interessados na mercadoria, nas mochilas e nos cigarros que eventualmente trazíamos e passaram diretamente ao seu ofício de fiscalizar a entrada da fronteira chilena contra os perigos que podem vir da Argentina.

As pessoas que viajavam connosco no mesmo autocarro atarefaram-se nas suas bagagens. O ar tinha pouco oxigénio e muita tensão nervosa.

Dois camionistas brasileiros, do interior do Mato Grosso, viajavam de regresso depois de levaram uma carga de madeia e sabe-se lá mais o quê de Cuiabá no Brasil para Santiago no Chile. A fumarmos e a bebermos chimarrão cá fora, avisaram. Não se afastem nem baixem as vistas dos vossos troços.... tem muito bandido aqui capaiz de botar um quilo de cocaína no seu malão para passar na fronteira limpinho com seus dez quilos no saco! E cuidado com os cara da polícia, aqui polícia é pior que bandido!!!

Voltámos a entrar advertidos para dentro do autocarro e uma hora depois estávamos na fronteira argentina. Todos saímos de passaporte na mão. Nós os dois, com as nossas mochilas blindadas nas costas, mãos nos bolsos e fechos e as caras fechadas. Estava frio debaixo do telheiro onde parou o autocarro. À nossa frente, uma mesa comprida com o dobro do comprimento do autocarro. A um metro da mesa, uma linha amarela desenhada no chão. A linha devia ser branca cor da neve e da coca que o vento espalha lá fora..., mas como vos estou a contar a verdade, não vos pinto a linha e digo-vos tal e qual como aconteceu.

Três polícias e dois militares. Os polícias de pistola à cintura, os militares de metrelhadora a tiracolo. Os polícias na casa dos ciquenta-sessenta, os militares entre os vinte e os trinta. O motorista depois de falar baixinho com o chefe dos polícias, recolheu os passaportes de toda a gente e informou-nos que era preciso pôr toda a bagagem em cima da mesa e esperar do lado de lá da linha amarela. Para nós foi simples, bastou tirar as mochilas das costas e pôr em cima da mesa. Para o resto dos passageiros, demorou mais um bocado…

O grupo de desconhecidos que éramos há dois dias atrás no Chile, era agora uma família em apuros. Estávamos todos tensos. Muitos de nós com frio. Alguns a sofrerem de tonturas e nauseados. Queríamos todos sair dali e descer depressa a montanha. Eu entre os mais agoniados, a precisar de baixar dos três mil e quinhentos metros para acalmar aquela bebedeira parva que dá tonturas e cansa sem dar satisfação. Meia hora depois, o motorista voltou com os passaportes e veio falar com todos os passageiros:

– Vamos dar qualquer coisa para os senhores guardas que aqui estão ao frio desde a noite passada, vamos dar-lhes algo para irem tomar um cafecito quentinho!

Assim, à cara podre. Com um saco de pano preto, iniciou a coleta. As pessoas iam pondo notas e moedas como no peditório das igrejas.

A minha companheira de viagem, desconfortável no telheiro gelado e preocupada com os pacotes a mais de cigarros e duas ou três garrafas que levávamos nas mochilas, disse-me para não me armar em parvo. Para de uma por uma vez na vida ser tolerante com o currupto. Para lhes dar qualquer coisa que nos pusesse a andar depressa dali para fora. E não sejas agarrado, vê se és generoso, que quero sair daqui.

Fica descansada, vou resolver.

Quando chegou a nossa vez, perguntei com cumplicidade ao motorista:

-        Os guardas aceitam euros?

-        Como não!!! claro que sim!!!!

Até os olhinhos brilharam ao motorista, que devia ter parte no acordo com o guarda.

Fiz as contas, remexi na carteira e nos bolsos e decidi-me por cinquenta.

Acabada a recolha, o motorista entregou o saco ao políca mais velho que entrou no contentor a dizer boa viagem. O motorista satisfeito, esfregava as mãos:

-        Podem arrumar tudo de novo no compartimento de bagagens, vamos seguir viagem enquanto os senhores guardas vão tomar o seu cafecito!

Meia hora depois, no conforto do ar condicionado do autocarro, a descer a montanha na direção das imensas pampas argentinas, perguntou-me ela:

-        Pagaste em euros para passarmos a fronteira?

-        Sim, claro.

-        Quanto deste?

-        Ciquenta.

-        Euros? Estavas generoso!!!

-        Não! Cinquenta cêntimos, para um cafecito dá perfeitamente!!!



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

CURVA ESTRADA, de MBarreto Condado















- Espera! Não saias. Temos que conversar.

A sua mão já apertava o manípulo da porta, mas parou.

- Não me amas?

Porque lhe perguntava tal coisa? Será que não sabia que aquilo a que chamava amor era sobreavaliado?

- Olha para mim por favor. Diz-me o que queres que mude.

Não queria que mudasse. Só queria sair.

- Todo este tempo juntos e não consegues pensar em mim? No que sinto?

Já tinha passado realmente muito tempo.

- Existe outra é isso?

Existiria sempre outra, outras, não importava.

- Vais ter com ela?

Ainda não sabia o que faria.

- Investi tanto em ti e agora abandonas-me como a um animal.

Não era certo, quando saísse levava o cão.

- E o nosso projecto de vida, vais deitar tudo a perder?

Aquele projecto não era seu.

- As viagens que planeámos fazer.

Tinha no bolso das calças as chaves do carro.

- A casa que sonhámos comprar.

Queria ir para perto do mar, talvez a Marginal.

- Os filhos que contámos ter.

Para ele o tempo nunca seria uma preocupação.

- Vais deixar tudo para trás?

Tentava há uns bons dez minutos, mas ainda não conseguira.

- O que vou dizer aos meus pais?

O que quisesse.

- Á minha família?

Podia fazer um jantar e comunicava ao mesmo tempo, quem sabe com um bom vinho.

- O que vão os nossos amigos pensar?

Que demorei muito tempo.

- Vamos dividir tudo aquilo que comprámos com tantas dificuldades?

Podia ficar com tudo. Odiava particularmente o sofá.

- Não achas que nos devemos mais uma oportunidade?

Não estava a ficar mais novo.

- Vai então, sai como o cobarde que és.

Abriu a porta, assobiou para o cão que veio a correr a abanar a cauda também ele queria sair dali depressa, tinham que aproveitar aquela oportunidade antes que mudasse de ideias.

O silêncio que reinava atrás de si era ensurdecedor. Voltou-se lentamente para olhá-la pela primeira vez desde que aquela ladainha começara.

- Queres vir passear connosco? Já não faz tanto calor e vamos só um pouco para além da curva da estrada.

Pegou no casaco.

Saíram juntos, de mãos dadas, com o coração aquecido pelas diferenças que os uniam. Mais tarde cairiam na cama onde se amariam, dois corpos suados, saciados sem promessas e o dia seguinte seria um novo recomeço com mais algumas diferenças.



terça-feira, 5 de novembro de 2019

A FAMÍLIA DE ONTEM E A FAMÍLIA DE HOJE, de Cristina Das Neves Aleixo















Comemorou-se o Dia Internacional da Família e, logo que tomei conhecimento desse facto, dei por mim a reflectir no conceito familiar da actualidade – ou não fosse eu dona de uma “mente inquieta”. Os neurónios, frenéticos, alternavam entre o modelo do passado e o do presente e nas suas implicações nas famílias e na sociedade.

Antigamente vivia-se para a família, para a ordem, a harmonia e a paz no lar. Tudo o que se fazia era pensado em termos familiares. Todos os seus elementos tinham papéis bem definidos e a vida decorria de forma tranquila. Os homens saiam de casa e iam prover o sustento, o conforto e travavam todas as lutas necessárias para a protecção e bem-estar daqueles que amavam. As mulheres, na sua maioria, ficavam em casa a construir e a manter a união, a acompanhar e a educar os filhos, a prepará-los para serem gente decente – alguns iriam, mesmo, decidir os destinos de todos nós -, e a acarinhar e a amparar aqueles que, já gastos e sem forças, lhes tinham dado a possibilidade de pisar este mundo. Não havia cá lugar a abandonar os velhos pais num qualquer lugar inumano ou a deixar os filhos entregues à sua sorte, à mão de semear de todas as tentações e perigos.

O resultado era um respeito generalizado, velhos a acabarem os seus dias com conforto e dignidade e crianças a crescerem fortes, felizes, bem preparadas para o futuro e que respeitavam e idolatravam os pais, os seus modelos.

Durante muito tempo viveu-se neste equilíbrio de valores, como uma máquina com várias engrenagens que se encaixam e completam para um único objectivo: funcionar bem, com o mínimo de percalços e esforço. E depois tudo mudou. As mulheres começaram a sair de casa para ocuparem os lugares até então dos homens, mas estes não ocuparam os das mulheres. Elas viram-se sobrecarregadas, forçadas a desempenhar dois papéis distintos em simultâneo, consecutivamente, e as fundações familiares deixaram de ter sustentação e abanaram por todos os lados.

De repente já não havia tempo para um carinho aos velhos, que passaram a morrer no abandono e tristeza, nem para uma formação adequada dos novos, que se afastavam cada vez mais dos progenitores e se tornavam verdadeiros estranhos que apenas partilhavam o mesmo espaço; passaram a crescer “à rédea solta”, com os exemplos e “ensinamentos” dos amigos, vazios de respeito, empatia, honra e espírito de sacrifício, acreditando veementemente que tinham um estatuto igual ao dos seus pais sem nada fazerem para isso.

De repente as pessoas já não tinham paciência umas para as outras, nem respeito, nem vontade e, à mínima contrariedade, divorciavam-se e “mandavam às urtigas” o equilíbrio em prol do recém-descoberto “eu”. Os nossos descendentes passaram a considerar normal que cada um vivesse para seu lado, com as suas necessidades sempre em primeiro lugar, que o individualismo era a base de tudo, fomentando o egocentrismo e egoísmo.

De repente vivíamos numa sociedade que o era só de nome, onde éramos cada vez mais em número mas estávamos cada vez mais distantes, sós e infelizes, mais intolerantes e beligerantes, onde o negrume do caos aumentava dia a dia. Tudo isso estava bem patente nas incompreensíveis guerras, na corrupção instalada em todas as áreas, nos assassinatos pela mais pequena disputa e nas diversas injustiças sociais. Cada vez mais abríamos o mundo a gente sem conteúdo valoroso.

Cheguei à conclusão que é urgente repensarmos os nossos valores, as nossas escolhas. A família é a base de tudo, é o nosso norte. Não pode ser descurada. Se o fizermos corremos o risco de perdermos a nossa identidade e nos tornarmos verdadeiras bestas. Sim, o mundo muda e temos que nos adaptar, mas há coisas que não devem, nunca, perder a importância que na realidade têm. Esta é uma delas.

Ainda me lembro das estórias que a minha mãe me contava tranquilamente, com todo o tempo do mundo, antes de adormecer. Recordo, com carinho, de irmos passeando e conversando até à mercearia para fazer compras a meio do dia. E dos lanches que me dava quando chegava da escola, enquanto me perguntava o que tinha aprendido. Quantos dos nossos filhos poderão, daqui a cinquenta anos, como eu, dizer o mesmo?

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O QUE HÁ DENTRO DE MIM, de Ana Ribeiro
















… Dentro de ti há vida! – Disse-me o avô.

Foi naquele fim de tarde, no Alentejo, no meio dos campos de trigo que eu e o avô João tivemos uma conversa de homem para homem. Daquelas conversas sérias e francas, de adultos, ou melhor dizendo entre um adulto e uma criança a fazer de conta que era adulta. Um momento de grande reflexão. Mas afinal o que é a Vida? – Perguntei eu ao avô.

A vida é isto, Pedrinho. É estarmos aqui, ao pé um do outro a conversar. É sentir a terra debaixo dos pés, é ouvir o vento à nossa volta, é ver os campos de trigo a crescer, as flores a abrir, o amanhecer do que somos e do que nos rodeia. O avô João sempre foi um sábio, lembro-me perfeitamente das histórias que ele contava, da vida que levava quando era mais novo. Lá está ela outra vez… a Vida. Raios parta à vida que não se explica, não fala, não se mexe, não diz nada, limita-se a passar à nossa frente

E o avô João disse-me de seguida uma coisa que nunca mais me esqueci… A vida é como o Sol, floresce e brilha e de repente… esmorece.

E de facto, o avô João tinha razão, a vida que vivemos é como uma bobine de um filme, num piscar de olhos tudo acaba.

Mas voltando à nossa conversa. Fiquei nitidamente a pensar naquilo, na minha inocência de menino, fiquei sério a olhar para o avô.

Porque é que a vida não tem nome? Chama-se só assim? Vida…

A vida, somos cada um de nós… Por isso pode ter todos os nomes que imaginares.

Mesmo de rapariga? – Perguntei eu.

O avô riu-se – Mesmo de rapariga.

Que coisa tão esquisita, a vida é mesmo estranha. Mas tu já viveste mais do que eu… Tu já tens cabelos brancos e barba rija e eu não.

Não se admirem, eu era mesmo um puto curioso e sem papas na língua, o meu avô via-se à rasca quando se punha a conversar comigo, porque eu fazia sempre com que ele ficasse sem resposta.

Isso não quer dizer nada. Cabelos brancos e barba rija significam mais problemas que vida. Ainda bem que tu ainda não os tens.

E também vou tê-los avô? Assim como os problemas de matemática?

Oh, meu querido. Os problemas da vida não se resolvem só com contas, às vezes é preciso pedir ajuda ao tempo e ao pensamento.

Tu pensas muito avô? Pensas na vida?

Todos os dias… Olha talvez seja por isso que tenho cabelos brancos.

O avô João também tinha bom humor.

O que há dentro de mim?

Dentro de ti, há um coração pequenino e dentro desse coração cabe o mundo inteiro.

E isso tudo é a vida!

Como o tempo passa, agora sou eu que conto esta história à Camila, sentados no jardim, de barba rija e cabelos brancos.

Agora sim… Já fiquei a saber o que é a vida…

domingo, 3 de novembro de 2019

PERFEITA NATUREZA, de Cristina Das Neves Aleixo
















Se há coisa que gosto de comer é fruta. Não sou o chamado “bom garfo”, no sentido em que como para viver e não o contrário, mas a fruta é uma das minhas perdições. Numa das minhas incursões a uma superfície comercial para me abastecer da dita, deparei-me com as bancadas repletas de frutos brilhantes e convidativos. “Vamos lá ver se é desta”, pensei, e acerquei-me das ameixas. Assim que lhes toquei… estavam verdes, mais uma vez. Suspirei. Passei ao melão, às uvas, às maçãs, aos kiwis… tudo completamente impróprio para consumo. Abanei a cabeça em desaprovação, enquanto o meu pensamento tomava as rédeas e cavalgava a toda a brida pelas razões mesquinhas que, actualmente, levam os produtores a criar tudo à pressão. Desabafei verbalmente qualquer coisa a propósito, enquanto passeava o olhar desolado pelas cores à minha frente. 

- É para amadurecer, minha senhora – ouvi ao meu lado.

Mas o que… dei conta do zumbido nos ouvidos, virei meio corpo e tive uma visão turva de uma mulher jovem, vestida com a farda do estabelecimento, que dispunha mais maçãs encortiçadas no expositor.

- Eu compro fruta para comer, não para decorar a fruteira e depois deitar fora – respondi-lhe enfadada.

Encarou-me com um olhar perdido, como se não percebesse minimamente o que lhe tinha acabado de dizer. Encolhi os ombros, enquanto constatava que era uma perda de tempo tentar explicar-lhe que a fruta naquelas condições, colhida muito antes de tempo, não amadurece; que uma coisa é inspirar o aroma natural à medida que nos aproximamos dos frutos, sentir a sua maciez na ponta dos dedos, deleitarmo-nos com a suavidade da polpa e a abundância de sumo ao serem trincados e outra, bem diferente, é fruta rija, sem cheiro, encortiçada e que não sabe a absolutamente nada. Ultimamente só encontro o segundo cenário. Que saudades da fruta criada naturalmente.

Virei-me e vim-me embora, sem nada nas mãos, enquanto pensava que o dinheiro move realmente tudo. Por ele até nos matamos lentamente ao produzirmos verdadeira porcaria para consumirmos, carregada de hormonas de crescimento, antibióticos, pesticidas, conservantes e outras substâncias nocivas, apenas para criar e vender mais rápido e em maior quantidade. Nós acordamos os cancros que nos assolam e matam. Tentamos, por todos os meios, controlar e manipular o tempo e a vida, esquecendo-nos que o melhor plano já foi traçado há muito tempo. Chama-se natureza.

sábado, 2 de novembro de 2019

NOVA CIVILIZAÇÃO, de Mafalda Pascoal
















Forçosamente, novos seres chegam, chegaram e vão continuar a chegar...novas consciências terão que habitar este planeta. O nosso planeta contorce-se e isso vê-se nos cataclismos que têm ocorrido, nós cada vez mais embrutecidos pela sede do poder, do dinheiro, querendo controlar tudo e todos. As consequências da nossa aprendizagem não aprendida e não apreendida, é a destruição do nosso belo planeta em tons turquesa (quem me lê, sabe que adoro estas últimas seis palavras), portanto é urgentíssimo a Nova Civilização actuar para salvar o que ainda resta dele.

Mas esta Nova Civilização também nós podemos começar a construir, pois nada mais somos do que a essência proposta para a preservação deste planeta. É certo que uma percentagem mínima despertou e desperta para esta realidade. É é para essas “luzinhas” que eu apelo:

Despertem quem vos rodeia, ensinem que os bens materiais ficam cá todos, mostrem que o ensinamento espiritual, o conhecimento do Eu é que prevalece sempre, façam uma introspecção da vossa vida até aqui, “espremam” tudo bem “espremido” e vejam com o que é que fica? Perguntem o que são, quem são, de onde vêm, o que fazem aqui, para onde vão? Valeu a pena? Sentem-se realizados? Ajudaram alguém na senda do caminho? Ajudaram a tirar ou a pôr “espinhos” da vida ou na vida de cada um? Têm medo da solidão? Quem tem algo para dar e dá, jamais tem medo da solidão, porque nunca estará sozinho!

A Nova Civilização está chegando, mas nós como Almas Antigas, temos que lhes dar o exemplo, porque “não existem maus filhos, existem sim maus pais”, é através dos exemplos que melhor se aprende, então a nossa tarefa também é árdua, pois temos que rever como actuamos, emendar (todos os dias se necessário) os erros que cometemos, quer por negligência, distracção, egoísmo, hábito, etc. etc., e desta forma eu vos garanto que começaremos a ajudar a construir esta Nova Civilização tão necessária, tão esperada, para que se tenha acesso a ensinamentos palpáveis, visíveis, audíveis e sensitivos existentes em “câmaras ou “Cápsulas do Tempo” ocultas sob as areias do Egipto, sob uma pirâmide na América do Sul, numa das centenas cavernas do Tibete e num certo lugar na Sibéria. Cada lugar foi marcado pelo símbolo da época: a Esfínge.” Contendo máquinas demasiado avançadas para a nossa compreensão, deixadas por uma Civilização que existia antes do Dilúvio, também ela de uma inteligência superior à nossa, mas claro, não perfeita também, caso contrário não teriam quase destruído o planeta dando origem ao Dilúvio. Aliás o nosso planeta é designado por planeta-escola, logo todos os seres aqui existentes não são perfeitos (perfeito só o Universo), somos sim seres em aprendizagem constante, e quanto mais aprendemos menos frustrados nos sentimos, e mais vemos que nada somos perante a imensidão do caminho a percorrer.

Esta Nova Civilização tem que ser capaz de agir altruistamente, a todos os níveis sem excepção, tem que saber viver sem o sentido de posse, têm que todos trabalhar para o mesmo fito, têm que conhecer-se profundamente, e de cada poro, exalar Amor fraternal, compaixão, harmonia, solidariedade...

Só neste estado de evolução, se terá acesso a toda a inteligência superior existente nessas “Cápsulas do Tempo” vindas de um tempo tão remoto, tão evoluído, e onde se pode receber mensagens como esta: “ao povo do Futuro, se houver algum! Esta humanidade está a ponto de se destruir e dentro destes cofres estão guardados os registos das nossas realizações e loucuras, para servirem de benefício àqueles de uma raça futura, que tenham inteligência de descobri-los e tendo-os descoberto, consigam compreendê-los.”

Seres bastante evoluídos e na recta final da sua evolução, aqui neste planeta, estiveram numa destas “Cápsulas do Tempo”, e como seres evoluídos que eram e são, entenderam, que não era a altura certa para expor à nossa civilização o que existe nessas cápsulas e deixando tudo como encontraram e seguindo as instruções necessárias, fecharam novamente a entrada como lhes fora indicado. “A caverna voltou a dormir em paz, até que os homens da boa vontade e alta inteligência regressem.”                

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

TODOS (OS) SANTOS, de MBarreto Condado















- Um, dó, li, tá, tu és bruxa, tu és santa, tu és finada.

- Finada? Eu não quero ser finada!

- Ora isso não é algo que possas escolher. És finada e ponto final.

- Já te disse que não quero ser finada.

- Escuta lá os mortos não reclamam, aliás nem se ouvem por isso vê lá se fazes o mesmo.

- Os mortos também recebem mais flores do que os vivos e eu não te vejo com nenhum bouquet de flores.

- Isso é porque o remorso é mais forte do que a gratidão, por isso agradece e cala-te.

- Agradecer? O quê? Não sou nenhuma santa.

- Pois não és finada. (suspiro)

- Mas hoje não é o dia de todos os Santos?

- Santa paciência. Hoje é o dia das Bruxas.

- Então quero ser uma.

- Já te disse que não podes.

- E um sapo, posso ser?

- Não!

- Então já não quero brincar.

- Olha porque não fazes o que Victor Hugo disse.

- E ele era um bruxo.

- Não!

- E era um santo?

- Também não. Mas é um finado.

- Ahhhh. Então e o que foi que ele disse?

- Disse que podes brincar porque segundo ele: “os mortos são uns invisíveis e não uns ausentes”.

- Está bem, mas amanhã quero ser outra coisa.

- Amanhã logo se vê. Agora como tua primeira tarefa vais aquele cemitério bater nos túmulos e perguntar se querem ressuscitar.

- Maldita tarefa.

- Se forem como o meu primo Schopenhauer: “…sacudirão a cabeça num movimento de recusa”.

- Começo a pensar que devia ter sido Santa.