quinta-feira, 7 de novembro de 2019

DE ONDE NUNCA SAÍ - CAFECITO NA MONTANHA, de Helder Menor















Quem está acima dos três mil e quinhentos metros de altitude está inevitavelmente bêbado e maldisposto. Acima dos quatro mil, deixamos de estar bêbados para estarmos apenas e muito maldispostos. Pelo menos comigo é assim. Logo eu, criado na borda d’água, nascido com o mar nas veias, a morar no rés-do-chão, eu, que se tenho de subir ao telhado para substituir alguma telha enjoo logo! Ver-me assim nas alturas agonia-me.

Vem isto a propósito das voltas e revoltas que o destino decide dar. O destino, todos já sabemos que é um fado corrido e sem decoro que quanto mais repenicado for, mais voltas dá.

Pois foi este fado andarilho que me levou um dia a pisar o chão antigo das montanhas dos Andes. A coluna vertebral da América do Sul. Os gajos engravatados que vivem nas capitais sul-americanas dizem que os Andes têm dono e dizem que são eles os donos das parcelas dos Andes. Dizem: os Andes do Equador, os Andes do Chile, dizem eles que são os Andes Equatorianos, os Andes Peruanos, os Andes Bolivianos, os Andes Argentinos... Tudo tanga. Conversa para inglês ver e comprar minério arrancado à montanha. Os Andes têm donos sim, mas são aqueles que lá moram em cima, nas alturas onde o ar escapa dos pulmões e onde o vento seco e gelado corta as orelhas.

Um gajo mais distraído, olhando para o mapa, até acredita nessa história dos países serem proprietários dos Andes. Mas subindo à montanha, percebemos que entre o papel impresso no mapa e a montanha vai uma distância tão grande como a imensidão abarcada pelas asas abertas do condor. No rarefeito ar, na estreita berma da estrada estão os verdadeiros donos da montanha. Na curva que se retorce na vertigem das alturas e na agonia do enjoo, é aí em cima que os donos dos Andes moram. Entre alpacas e pedras velhas gretadas pelo gelo, pelo sol e pelo vento. Os donos da montanha estão lá em cima, ao lado de uma cancela ferrugenta que chia quando tem de abrir. Abrigados nuns barracões, vestem-se de lã grossa, de fardas incompletas e variadas de polícias, guardas, militares, pastores, bombeiros ou trabalhadores das estradas. São índios, cholos mestiços e eventuais descendentes de emigrantes europeus. Ficam lá em cima durante meses em intermináveis comissões de serviço à sombra de uma bandeira e dos brasões que representam os estados que lhes pagam mal, tarde e a más horas...

Nos barracões à beira da estrada funcionam as alfândegas e onde as fronteiras vendem vistos, chá, casacos, empanadas, café, água, serviço de banho e posto médico. Lá em cima, onde se alugam prostitutas, carros velhos e mulas. São mecânicos, xamãs, cambistas de moeda e outras coisas que tiverem que ser. Vivem do salário e daquilo que a montanha pode dar a quem tiver os olhinhos abertos e os dedos prontos. Só para quem se consegue adaptar à falta de ar e às tonturas permanentes. São guardas, fiscais alfandegários, militares e outros burocratas e todos os outros. Também de ser obrigatoriamente enfermeiros e médicos. E há taberneiros, bruxos, prostitutas, lenhadores, canalizadores, mecânicos e, às vezes, agentes funerários. A natureza dos Andes ensina a autossuficiência.

A quem por estrada cruza a montanha, impressionado pela majestosidade dos picos nevados, agoniado da vertigem e a asfixiar da altitude, a quem nestas condições, pergunto eu, ocorre queixar-se das mãos untadas do soldado que fecha os olhos e deixa passar contrabando em troca de uma garrafa de bagaço? Quem é que se vai dar ao trabalho de moralizar a fronteira? O soldado que ali está há meses, sem o conforto de uma inspiração profunda e sem uma cama só para ele. O soldado que se aquece agarrado ao púcaro de alumínio do seu chá de coca. Alguém o vai criticar o soldado por virar as costas enquanto uma carga passa? A estrada pertence-lhe, não só ao soldado, mas a todos os que ali vivem isolados nos postos de fronteira. A montanha é terra de ninguém, mas a fronteira é dos que lá estão.

Nós viajámos dois dias e uma noite sempre a subir. De autocarro que até era confortável, diga-se. Sempre a subir cerros e escarpas, cada vez mais altas e despidas. Para trás, o gelado Pacífico, à frente, a montanha. A estrada propícia a enjoos, sonos, conversas, tédio e mais enjoos. E mais sono, cada vez menos conversas e cada vez mais tédio. Do lado de lá do vidro a paisagem majestosa. Durante as paragens obrigatórias para o xixi, para o chá ou café, o ar frio e escasso da alta montanha. Pedras e quase nenhuma vegetação. Às vezes nos vales profundos, ribeiros barrentos a correrem violentos entre as pedras. Poucas pessoas, algumas alpacas misturadas com cabras. Nas paragens, as putas e os militares, os policias, possíveis traficantes, comerciantes, pastores de gados vários e nós. Todos a avaliar-nos uns aos outros e identificando riscos, perigos e oportunidades.

A última paragem em território chileno, foi a mais demorada e mais tensa. Saímos todos do autocarro e o motorista abriu o compartimento das bagagens. Policias e militares vieram dar palpites de arrumação enquanto não chegou um outro autocarro em sentido contrário vindo da Argentina para entrar no Chile. Chegado o autocarro, deixaram de se mostrar interessados na mercadoria, nas mochilas e nos cigarros que eventualmente trazíamos e passaram diretamente ao seu ofício de fiscalizar a entrada da fronteira chilena contra os perigos que podem vir da Argentina.

As pessoas que viajavam connosco no mesmo autocarro atarefaram-se nas suas bagagens. O ar tinha pouco oxigénio e muita tensão nervosa.

Dois camionistas brasileiros, do interior do Mato Grosso, viajavam de regresso depois de levaram uma carga de madeia e sabe-se lá mais o quê de Cuiabá no Brasil para Santiago no Chile. A fumarmos e a bebermos chimarrão cá fora, avisaram. Não se afastem nem baixem as vistas dos vossos troços.... tem muito bandido aqui capaiz de botar um quilo de cocaína no seu malão para passar na fronteira limpinho com seus dez quilos no saco! E cuidado com os cara da polícia, aqui polícia é pior que bandido!!!

Voltámos a entrar advertidos para dentro do autocarro e uma hora depois estávamos na fronteira argentina. Todos saímos de passaporte na mão. Nós os dois, com as nossas mochilas blindadas nas costas, mãos nos bolsos e fechos e as caras fechadas. Estava frio debaixo do telheiro onde parou o autocarro. À nossa frente, uma mesa comprida com o dobro do comprimento do autocarro. A um metro da mesa, uma linha amarela desenhada no chão. A linha devia ser branca cor da neve e da coca que o vento espalha lá fora..., mas como vos estou a contar a verdade, não vos pinto a linha e digo-vos tal e qual como aconteceu.

Três polícias e dois militares. Os polícias de pistola à cintura, os militares de metrelhadora a tiracolo. Os polícias na casa dos ciquenta-sessenta, os militares entre os vinte e os trinta. O motorista depois de falar baixinho com o chefe dos polícias, recolheu os passaportes de toda a gente e informou-nos que era preciso pôr toda a bagagem em cima da mesa e esperar do lado de lá da linha amarela. Para nós foi simples, bastou tirar as mochilas das costas e pôr em cima da mesa. Para o resto dos passageiros, demorou mais um bocado…

O grupo de desconhecidos que éramos há dois dias atrás no Chile, era agora uma família em apuros. Estávamos todos tensos. Muitos de nós com frio. Alguns a sofrerem de tonturas e nauseados. Queríamos todos sair dali e descer depressa a montanha. Eu entre os mais agoniados, a precisar de baixar dos três mil e quinhentos metros para acalmar aquela bebedeira parva que dá tonturas e cansa sem dar satisfação. Meia hora depois, o motorista voltou com os passaportes e veio falar com todos os passageiros:

– Vamos dar qualquer coisa para os senhores guardas que aqui estão ao frio desde a noite passada, vamos dar-lhes algo para irem tomar um cafecito quentinho!

Assim, à cara podre. Com um saco de pano preto, iniciou a coleta. As pessoas iam pondo notas e moedas como no peditório das igrejas.

A minha companheira de viagem, desconfortável no telheiro gelado e preocupada com os pacotes a mais de cigarros e duas ou três garrafas que levávamos nas mochilas, disse-me para não me armar em parvo. Para de uma por uma vez na vida ser tolerante com o currupto. Para lhes dar qualquer coisa que nos pusesse a andar depressa dali para fora. E não sejas agarrado, vê se és generoso, que quero sair daqui.

Fica descansada, vou resolver.

Quando chegou a nossa vez, perguntei com cumplicidade ao motorista:

-        Os guardas aceitam euros?

-        Como não!!! claro que sim!!!!

Até os olhinhos brilharam ao motorista, que devia ter parte no acordo com o guarda.

Fiz as contas, remexi na carteira e nos bolsos e decidi-me por cinquenta.

Acabada a recolha, o motorista entregou o saco ao políca mais velho que entrou no contentor a dizer boa viagem. O motorista satisfeito, esfregava as mãos:

-        Podem arrumar tudo de novo no compartimento de bagagens, vamos seguir viagem enquanto os senhores guardas vão tomar o seu cafecito!

Meia hora depois, no conforto do ar condicionado do autocarro, a descer a montanha na direção das imensas pampas argentinas, perguntou-me ela:

-        Pagaste em euros para passarmos a fronteira?

-        Sim, claro.

-        Quanto deste?

-        Ciquenta.

-        Euros? Estavas generoso!!!

-        Não! Cinquenta cêntimos, para um cafecito dá perfeitamente!!!



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