quarta-feira, 6 de novembro de 2019

CURVA ESTRADA, de MBarreto Condado















- Espera! Não saias. Temos que conversar.

A sua mão já apertava o manípulo da porta, mas parou.

- Não me amas?

Porque lhe perguntava tal coisa? Será que não sabia que aquilo a que chamava amor era sobreavaliado?

- Olha para mim por favor. Diz-me o que queres que mude.

Não queria que mudasse. Só queria sair.

- Todo este tempo juntos e não consegues pensar em mim? No que sinto?

Já tinha passado realmente muito tempo.

- Existe outra é isso?

Existiria sempre outra, outras, não importava.

- Vais ter com ela?

Ainda não sabia o que faria.

- Investi tanto em ti e agora abandonas-me como a um animal.

Não era certo, quando saísse levava o cão.

- E o nosso projecto de vida, vais deitar tudo a perder?

Aquele projecto não era seu.

- As viagens que planeámos fazer.

Tinha no bolso das calças as chaves do carro.

- A casa que sonhámos comprar.

Queria ir para perto do mar, talvez a Marginal.

- Os filhos que contámos ter.

Para ele o tempo nunca seria uma preocupação.

- Vais deixar tudo para trás?

Tentava há uns bons dez minutos, mas ainda não conseguira.

- O que vou dizer aos meus pais?

O que quisesse.

- Á minha família?

Podia fazer um jantar e comunicava ao mesmo tempo, quem sabe com um bom vinho.

- O que vão os nossos amigos pensar?

Que demorei muito tempo.

- Vamos dividir tudo aquilo que comprámos com tantas dificuldades?

Podia ficar com tudo. Odiava particularmente o sofá.

- Não achas que nos devemos mais uma oportunidade?

Não estava a ficar mais novo.

- Vai então, sai como o cobarde que és.

Abriu a porta, assobiou para o cão que veio a correr a abanar a cauda também ele queria sair dali depressa, tinham que aproveitar aquela oportunidade antes que mudasse de ideias.

O silêncio que reinava atrás de si era ensurdecedor. Voltou-se lentamente para olhá-la pela primeira vez desde que aquela ladainha começara.

- Queres vir passear connosco? Já não faz tanto calor e vamos só um pouco para além da curva da estrada.

Pegou no casaco.

Saíram juntos, de mãos dadas, com o coração aquecido pelas diferenças que os uniam. Mais tarde cairiam na cama onde se amariam, dois corpos suados, saciados sem promessas e o dia seguinte seria um novo recomeço com mais algumas diferenças.



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