segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A ESCOLA, de Cristina Das Neves Aleixo
















Em comemoração do Dia da Criança, é importante que façamos alguma reflexão sobre a forma como vivemos esse período tão precioso da nossa existência.

Quando somos jovens desejamos crescer e tornarmo-nos adultos. É um dos desejos mais fortes e mais comum à maioria. Acreditamos que esse estatuto nos abrirá definitivamente a porta para decidirmos e fazermos tudo o que quisermos, da forma que quisermos, sem “dar cavaco” a ninguém. Cremos que seremos donos e senhores dos nossos destinos, da razão e transpiramos idealismo por todos os poros.
Depois crescemos, alcançamos o almejado lugar na sociedade e vivemos o resto das nossas vidas a desejar ser crianças. Passamos de idealistas a saudosistas e lamentamos o pouco tempo vivido em brincadeiras e interacções despreocupadas e isentas de julgamentos.

Algo está muito errado, creio. E não acho que seja porque o período da meninice é curto, mas sim pela forma como o vivemos e, mais importante, somos preparados para a etapa seguinte.

Senão vejamos: nessa fase ocupamos noventa por cento do tempo a ser programados para o futuro, para uma promessa de vida maravilhosa e plena, e dez por cento a brincar e a dar asas à criatividade com que todos naturalmente nascemos. Somos constantemente bombardeados com a definição instituída das boas maneiras – leia-se o politicamente correcto -, para seguir todos os “bons” exemplos e normas, ao invés de aceitarmos e nos complementarmos com as diferenças, pensarmos pelas nossas cabeças e fazermos algo para mudar o que está errado. Desde tenra idade é-nos imposto um modelo educacional semelhante ao cinzentão modelo empresarial vivido diariamente pelos adultos, com uma carga horária muito superior à que devia ser praticada, onde o tempo que se dedica ao estudo ocupa a grande parte dos nossos dias, impedindo-nos de sentir o outro, a chuva e o sol na cara, de descobrir o mundo que nos rodeia com todos os sentidos, de pulsar em uníssono com o planeta e somos muito mais repreendidos do que elogiados.

Não admira que em miúdos desejemos ser adultos, com a esperança de finalmente sermos livres para podermos respirar e sonhar.

O problema é que aí chegados percebemos que o futuro prometido era um embuste, que as cores se desvaneceram com a educação automatizada e, extenuados que estamos pela lavagem cerebral constante, baixamos os braços e passamos a viver a preto e branco, resignados, iguais a todos os outros, apontando o dedo quando todos apontam e aplaudindo, sem convicção, quando todos aplaudem.

De vez em quando, num ou noutro segundo, as cores, a nossa essência adormecida, espreitam e recordamos com saudade o tempo em que nos sentíamos capazes de tudo, para imediatamente pensarmos que já é demasiado tarde.

O mais curioso é que ao termos filhos nada fazemos para quebrar este ciclo de destruição da essência humana e da felicidade.

Ao invés, tornamo-nos parte da máquina na aniquilação dos sonhos e da verdadeira realização.
Somos a maldita máquina.

Somos crianças presas e perdidas em corpos crescidos.

“Miúdos e graúdos: se nos deixarmos revisitar, de vez em quando, pelo mundo encantado tornamo-nos pessoas melhores e mais felizes.”
in Joaninha e o Jardim encantado     

domingo, 24 de novembro de 2019

GATOS E SELFIES, de Vanessa Lourenço















Pegou bruscamente no gato amarelo sem olhar para ele a direito sequer, com uma mão apenas. Na outra, brilhava o ecrã vidrado do telemóvel. Atirou-se para cima da cama, com o gato ainda encaixado no braço, e com as costas da mão que segurava o telemóvel posicionou desajeitadamente as almofadas e alisou a colcha da cama. O gato, incomodado, tentou libertar-se do braço que o prendia, mas ela não permitiu que fugisse. Colocou a câmara do telemóvel em modo selfie, e enquadrou-se a sí e ao animal na imagem reflectida no pequeno ecrã. Sorriu e fez olhinhos de mel, mas depressa franziu o sobrolho, uma das almofadas estava desenquadrada. “Não pode ser”, pensou, “a foto tem que ficar perfeita”. Ajeitou a almofada, mas quando olhou de novo para o pequeno ecrã percebeu que quando se tinha esticado para ajeitar a almofada, tinha enrolado a colcha debaixo de si mesma. Levantou-se com enfado da cama, a bufar e de gato nos braços. Esticou a colcha e deitou-se de novo. Desta feita, o gato já não estava preocupado em mostrar-lhe com gentileza que estava farto de ser tratado como um peluche, e começou a debater-se vigorosamente. Na tentativa de não o deixar fugir, ela deixou cair o telemóvel, que bateu no chão com estrondo. Deu um grito e levou as mãos à cabeça, o que deu ao gato a oportunidade perfeita para desaparecer pela porta do quarto. Saltou da cama num segundo e apanhou o telemóvel do chão, com o coração nas mãos e a respiração acelerada. Se estivesse partido tão cedo não teria direito a outro, e ficaria isolada do mundo. Se não estivesse presente nas redes sociais, o que pensariam os seus amigos? O mundo esquecer-se-ia dela!

Apanhou o aparelho do chão, e confirmou que não estava partido. Suspirou profundamente e apertou-o contra o peito, os olhos fechados de quem não tinha ganho para o susto. Aliviada, depressa se recompôs: caminhou na direcção da cama, ajeitou de novo a colcha e as almofadas, e olhou em volta à procura do gato. Afinal de contas as pessoas adoram gatos, e todas as fotos tiradas com eles tinham muito mais interesse e geravam muito mais interacção na rede do que fotos simples da cara. E com ele podia mais facilmente justificar a vontade de publicar fotos de si própria, sem necessidade de perder a modéstia.

Saiu do quarto à procura dele, mas por muitas voltas que desse não o encontrou: chamou, procurou nos locais mais improváveis e até abriu uma lata de atum, coisa que o fazia sempre aparecer se estivesse por perto. Nada. Só havia uma coisa a fazer:

- MÃE! Viste o gato?

A mãe estava a trabalhar no próximo artigo para o jornal, sentada em frente ao computador. Ergueu ligeiramente os olhos para ela, ajeitando os óculos na ponta do nariz, e respondeu antes de voltar a fitar o monitor:

- Parece-me que saiu para o jardim.

Ela encolheu os ombros, exasperada, e rolou os olhos. Como não tinha pensado nisso? Aquela peste peluda adorava esgueirar-se para fora de casa sempre que lhe era possivel. Dirigiu-se para a porta, pegou nos óculos escuros e saiu, de telemóvel ainda na mão.

Lá fora, mesmo de óculos escuros, não pôde evitar sentir os olhos feridos pela luz do sol durante uns segundos, e só depois reparou no esguio gato amarelo sentado na relva no centro do jardim, a olhar para ela. Esfregou os olhos debaixo dos óculos de sol, e avançou para ele:

- Espero que tenhas perdido a vontade de fugir, isto é importante!

O gato pareceu sorrir, e fechou os olhos enquanto lambia a pata, para depois começar a esfregá-la no focinho vigorosamente. Aproximou-se com ligeireza do pequeno animal e sentou-se ao lado dele, procurando enquadrar no pequeno ecrã do telemóvel a si própria e ao gato ainda sentado ao seu lado. Depois de várias tentativas frustradas, porém, resmungou:

- Bolas! Não consigo tirar uma fotografia de jeito com este sol!

Frustrada, começou desajeitadamente a tentar levantar-se com o telemóvel na mão, e quando percebeu que sentada não conseguia girou o corpo para ficar de joelhos. E nesse momento reparou novamente no gato: já não estava sentado, quieto. Estava a brincar com um pequeno ramo que possuia ainda algumas folhas que se agitavam no ar. Sem pensar, sentou-se de pernas cruzadas e pegou no ramo. Pousou o telemóvel na relva ao seu lado e começou a brincar com ele. Uns segundos depois, rebolavam ambos pela relva e ela ria como nunca, já sem óculos de sol. Longe de o pensar, sentiu que há muito que não se divertia tanto. E se tivesse pensado mais um pouco, teria percebido que não estava ninguém a ver. Ninguém a filmar. Ninguém a fotografar. Ninguém a deixar “gostos” ou “adoros” no que estava a fazer. Ninguém saberia. E, contudo, estava feliz. Era feliz. E podia ser feliz, sem que o mundo precisasse de o saber. Ou de o validar.


sábado, 23 de novembro de 2019

AO CHEGAR..., de Fernando Teixeira
















A viagem é realizada durante a tarde, não por acaso. É pela tarde que as cores são mais acentuadas e isso aumenta o prazer da chegada, principalmente quando se sai da A23 e se começam a percorrer as estradas municipais. Então, é um perfeito deleite conduzir pelo asfalto que serpenteia por entre campos de cultivo, ou de pastoreio, e afloramentos de granito.

É quando o Sol desce e se aproxima do ponto do ocaso, por detrás de serras distantes, que a paisagem se revela acolhedora, numa paleta de cores vibrantes e numa mescla de cheiros que nos anuncia que estamos quase no nosso destino.

Percorrem-se os últimos quilómetros, curvas da estrada que a nossa memória já conhece e prevê, sem pressa, que o momento é para se desfrutar, numa antevisão daquilo que nos espera. Cruzamo-nos com poucas viaturas, que a cidade há muito ficou para trás, e a necessidade de ultrapassar quem vai à nossa frente é quase inexistente, porque é raro ir alguma outra viatura à nossa frente. A zona raiana beirã abre-nos os braços, singela e pura, tranquila.

Entra-se na última recta e todos os pormenores são ainda mais familiares, até que, depois de uma curva larga, a placa com a designação Idanha-a-Nova nos dá as boas-vindas e sentimo-nos a entrar no paraíso.

Primeira paragem, o hipermercado da vila onde se encontra carne e vegetais dos produtores locais, porque é necessário comprar alguns produtos da região para o jantar, como se esse ritual fosse imprescindível para que nos sintamos mesmo lá e não julguemos que apenas sonhamos: um pedaço de queijo, uma bica de azeite – um tipo de pão muito achatado, de massa fofa ou crocante –, talvez uns borrachões que são bolos típicos da região e ainda ingredientes para o almoço do dia seguinte.

Saindo do carro, somos logo brindados pela atmosfera de que já tínhamos saudades, mesmo que tenhamos regressado pouco tempo depois da última vez. Enchemos os pulmões com aquele ar de cheiro campestre, ouvimos o chilrear alvoraçado da passarada nas árvores próximas e percebemos que as pessoas vivem com outra calma e saudável convivência. Nota-se que se conhecem, que conversam em grupos.

Depois das compras feitas, ruma-se finalmente a casa. Ao rodar da chave na porta, entramos naquele casulo que é o nosso mundo e o de uma ou outra aranha que aproveitou a nossa ausência para fazer a sua teia. Abrem-se portas e janelas e deixa-se que o ar de fim de tarde invada os aposentos. Chegámos!

Chegámos a uma vila onde o tempo corre mais devagar, onde não há pressa de viver, onde não há stress e parece não haver preocupações. As pessoas mais idosas sentam-se à soleira da porta, a conversar sobre a sua povoação e sobre a sua vida, sobre histórias de fulano, beltrano e sicrano. É o lento pulsar daquelas gentes, pessoas humildes. E, com a mesma humildade, cumprimentamos e somos cumprimentados quando com elas nos cruzamos, ainda que estranhos.

Por isso, nos sentimos acolhidos numa terra que adoptámos, primeiro porque de lá eram naturais alguns dos nossos progenitores, depois porque nos cativou o coração. E a terra prende-nos cada vez mais, com os seus costumes, festas e tradições, gastronomia, linguajar, paisagem, fauna e flora, pontos de interesse e aquela atmosfera que só se sente ali.

Cresce, então, a vontade de nos aventurarmos por trilhos que serpenteiam pelo campo, subindo e descendo ravinas, num contacto próximo da Natureza, sentir a paz na imensidão dos espaços, na imponência dos penedos, avidez de quem vive a maior parte do tempo numa grande cidade. E viver essa tranquilidade com uma enorme sensação de felicidade, até ao momento em que se tenha de partir de novo, desejando ficar.

Até breve, terras de Idanha!



sexta-feira, 22 de novembro de 2019

LAR DOCE LAR, de MBarreto Condado















Lembro-me da casa dos meus avós em Lisboa, numa rua com frondosas árvores que nos protegiam da chuva no inverno e do calor no verão. Acordar com o chilrear dos pássaros a receberem cada novo dia. Mas lembro-me principalmente dos vizinhos, eram uma extensão da nossa própria família. Pedir um balde de gelo, meia dúzia de ovos ou uma xícara de açúcar era mais do que um esquecimento nas mercearias, era uma oportunidade para conversarmos sobre tudo e sobre nada.

Depois mudei para um prédio impessoal também em Lisboa, onde cedo me habituei que os simples gestos de boa cidadania eram quase como jogar “roleta russa”.  

E quando julgamos que já nos habituámos a esta indiferença os vizinhos que se tinham inicialmente resignado à nossa presença acabando por nos aceitar. Envelhecem, partem. A verdade é que os tempos mudam e nem sempre essas mudanças são para melhor.

Por isso quando leio que a sonda Schiaparell embateu no solo de Marte lembro-me das vezes em que a meio da noite ouço estranhos ruídos o que me deixa a pensar se alguns dos meus vizinhos serão abduzidos e substituídos por marcianos. Da maneira como agem no dia seguinte posso garantir que não são humanos.

Quando vejo imagens da frota russa a passar na nossa costa fico satisfeita por já não ter a garagem inundada pois ainda me arriscava a ir para o meu carro e acabar por entrar no Dmitry Donskoy.

As contas desta administração parecem um apêndice do Orçamento de Estado do próximo ano, pelo que ficarei à espera que o senhor Moscovici se manifeste.

Temo ainda que alguns vizinhos não tenham aceite o protocolo de Quioto pela maneira como deixam após a sua passagem os elevadores transformados em verdadeiras câmaras de gases tóxicos e corrosivos. Outros tantos continuam a transportar os seus sacos de lixo desde a sua casa até ao contentor geral deixando atrás de si líquidos dignos de tratamento numa ETAR.

Uma pequena informação reciclar não significa baralhar e deitar fora.

Por tudo isto sinto que talvez tenha chegado a altura de mudar de casa.

Mas principalmente por saber que a minha casa é algo do outro mundo gostava de informar que a coloquei à venda nas seguintes agências: NASA, ESA, SETI e Steven Spielberg. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ERA UMA VEZ UM ROUXINOL, de Vanessa Lourenço
















Era uma vez um rouxinol que defeitos teria, mas cuja alegria animava as suas asas de tal forma que apenas os olhos brilhantes traíam os seus medos e as suas inquietações.

Era uma vez um rouxinol que estendia as suas asas ao sabor do vento e da terra que tão bem conhecia e estimava, e que com elas cobria de sorrisos quem com ele se cruzava e parava para reparar na vida que lhe cobria os passos e os sonhos.

Era uma vez um rouxinol que fazia parar e sorrir todos aqueles que o ouviam cantar.

Dizem mesmo que contava histórias, histórias das suas aventuras e das peripécias que a vida lhe entregava. Mas o que ele gostava mesmo era de cantar, cantar para aqueles que lhe queriam bem, o que lhe dava realmente prazer era partilhar os dons que a vida lhe entregara com a família que escolheu. E como a verdadeira família o apreciava, mesmo aqueles que apenas de vez em quando conseguiam vê-lo. Afinal de contas, não existe distância dentro do coração. E não existem passos que suprimam os laços.

Como é que eu sei tudo isto?

Porque não eram penas que lhe cobriam o corpo, e as suas canções mais bonitas agraciavam o mundo não pelo bico de passarinho, mas pela gaita de beiços que não era mais, afinal, do que uma extensão de si mesmo. E como gostávamos de nos deixar levar pelas suas canções. Como nos faziam genuinamente sorrir.

Um dia, o rouxinol da nossa história decidiu que estava na hora de se despedir de nós. Passara os últimos tempos dentro de uma gaiola pequena demais, e perdeu as suas canções. A juntar a isso, do outro lado do véu que separa os mundos havia alguém que o esperava. E também do outro lado do véu aguardava a sua liberdade.

A jaula abriu-se, e o nosso rouxinol respirou fundo. Respirou fundo e piscou os olhos porque de repente, uma luz intensa surgiu à frente do pequeno bico ansioso, ofuscando-o durante uns momentos. Mas depois, a luz mostrou-lhe o que o esperava do outro lado do medo, e ele deixou-se finalmente ir. Bateu as asas pela primeira vez em muito tempo e lançou-se no ar. Livre e renascido.

Dá um beijinho à tia, por favor. Até que nos encontremos de novo.
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*Ao meu tio avô Manuel Osório. As canções do espírito nunca se esgotam, nem aquelas que são tocadas com mestria na gaita de beiços.


Vanessa Lourenço

DE ONDE NUNCA SAÍ - GANAS DE TI, de Helder Menor















Quando te vi pela primeira vez, estava com frio e febre. A desejar chão firme para pisar, um banho quente, roupa confortável e uma manta. Foi no inverno e chovia. Olhei-te de relance através do vidro embaciado da janela fechada do táxi onde seguia. Confesso que mal reparei em ti. Vi-te escura e mal iluminada debaixo dos candeeiros escassos e gostei. Mas só isso. Nessa noite estava demasiado focado no meu mal-estar para te olhar. Tinha vintes e tais e achava que estava definitivamente imunizado às crises de paixões súbitas e ainda mais ao amor crónico. Estava enganado, claro.

No dia seguinte fiquei de cama. Febre alta em clima tropical que me fez delirar. De ti senti apenas o perfume que entrava pela porta do quarto e vislumbrei-te na luz coada pela janela. Comi o que tinha na mochila e bebi chá. Voltou a chover à noite.

Não esperei pelo terceiro dia para me levantar e caminhar. Na manhã seguinte, tomei o duche possível com uma caneca e água aquecida num fogão cheio de fugas. Mudei de roupa, saí e encontrámo-nos definitivamente. Nunca mais nos separámos.

Nunca mais saíste de mim. E eu ficarei em ti enquanto viver.

Naquela manhã, combalido, fui aos meus compromissos, ainda febril. Alguém me disse que tinha de me tratar e ser visto por um médico. Fui ao teu hospital e fizeram-me uma bateria de exames. Diagnosticaram-me escarlatina. Tinha trazido a doença do meu filho que entre abraços e beijos de despedida me contagiou, o rapaz teria uns dois anos.

O médico, espantado perguntou:
– Mas a escarlatina não está erradicada na Europa?
– Pelos vistos não! Respondi insolente.

Para se vingar deu-me ele mesmo uma injeção que doeu horrores, mas que me curou. Fui à farmácia e, com a receita manuscrita, deram-me precisamente seis comprimidos, contados com uma pinça para dentro de um frasco de vidro. Aqueles que precisava para me tratar, nem mais um. Estamos em período especial, desperdício zero, disse-me o farmacêutico. Depois pediu-me para voltar a devolver o frasco, coisa que não fiz e por isso ainda hoje o devo ter para aí metido nalguma caixa com recordações avulsas, entre recordações de ti.

Viste-me a coxear agarrado ao rabo dorido e riste-te de mim, para mim. Disfarcei a dor e mantive a dignidade num caminhar mais lento. Depois seguimos juntos pelas tuas ruas. Lentamente e gingando, ao meu ritmo convalescente, que é o teu ritmo de sempre, sem pressa.

O amor aconteceu-me inevitável. Claro que me apaixonei por ti. A cor morena, o riso fácil e todas essas tuas curvas. O efeito luminoso que fazes deitada recostada no mar. O teu riso de portas escancaradas, a música com que falas e todas as cores que usas. A tua descontraída disponibilidade e esse eterno convite nos olhares. A sensualidade intensa que noutras seria decadente e vulgar, mas que em ti são absolutamente perfeitas. Apaixonei-me pela tua cultura sem pedantismos e pela tua dimensão imensa e concentrada. Pelo o teu canto, pelo teu encanto e, naturalmente, por todos os teus secretos recantos.

Ficámos desde esse remoto inverno do século passado, irremediavelmente juntos.

Eu estava alojado numa casa afastada do centro, já depois da Mariana De Hemingway, porque amigos de amigos conheciam a dona e facilitaram o aluguer. Em frente à porta de entrada, uma estrada de terra batida. Do outro lado da estrada uma casa mortuária onde os familiares e amigos se despediam e velavam os falecidos. Como os mortos em Cuba não são velados nas igrejas, chegavam os corpos dos hospitais ou das casas onde foram vivos diretamente para a casa mortuária. Nos fios elétricos por cima, às vezes multidões de pássaros pretos com a cabeça e o pescoço vermelho, outras vezes os fios vazios de pássaros. Eram abutres. Auras, esclareceste na tua voz cantada e rindo para mim. Percebi que vinham em bando sempre que havia corpos para velar.

Demasiado tétrico para mim. E para ti também, tu sempre tão alegre, a morte e os abutres não condiziam com o teu sorriso de luz e com as cores com que te vestes e despes.

Mudei-me para mais perto. Um apartamento no centro, perto da Plaza de La Revolución. Debruçado da varanda via-se o icónico mural do Ché. Era um apartamento pequeno: um quarto, uma sala, uma varanda imensa, uma cozinha minúscula e uma casa de banho igualmente pequena. Dava e sobrava para nós. Também era de um amigo de um amigo. Médico e celibatário prestes a partir naqueles dias em missão para o Congo. Subalugou-me a casa na condição de não usar o quarto nem a cama que eram dele e só dele. Devia dormir no sofá da sala, não estragar nada, dar de comida ao papagaio que se chamava Lukumi, cumprimentar as vizinhas, não fazer festas ruidosas, nem tocar na coleção de máscaras africanas nem nas garrafas de rum.

Cumpri quase na totalidade o acordado.

Ao fim da tarde voltava, tomava banho e ia para a minha casa que era aquela sala forrada de livros e máscaras africanas. Em vez de me sentar na cadeira de baloiço a desfrutar da biblioteca aberta só para mim, era para ti que eu corria. Tomava banho no chuveiro elétrico, ouvia a tua voz pela varanda aberta, dava de comer ao Lukumi e voava ao teu encontro.

Não cumpri o que me propus quando entrei no apartamento do médico: não desfrutei dos livros nem consegui ensinar o papagaio a dizer "Barreirense". Li transversalmente uma coletânea de poesia latino-americana. O Lukumi, quando me vim embora, de vez em quando dizia "foda-se", expressão que não me lembro de lhe ter ensinado.

Tu ficavas à minha espera na porta da rua, depois vinhas e mostravas-me a natureza de todas as tuas coisas. Prosseguimos nas tuas noites mornas e longas, contigo a contares-me segredos e a plantares em mim todos os afetos. O teu cheiro, a tua música, o teu hálito doce perfumado de rum ficarão sempre comigo. A tua temperatura e toda essa disponibilidade para ser feliz nas coisas simples que me habituaram mal. Aprendi a nomear o universo, no teu sotaque nasalado e melado.

Comi e dormi em ti por semanas consecutivas sem me fartar nem um bocadinho.

Quando tinha de me afastar, apanhava os transportes possíveis naquele período especial e regressava depressa. Voltava sempre todas as noites para o doce de ti nas tuas ruas.

Nesse período de intensa paixão, pela primeira vez, senti vontade de largar tudo e de me juntar a ti. De vir a Portugal buscar meia dúzia de coisas e ficar contigo. Ou nem sequer vir. Por magia teletransportar os meus e ficarmos todos juntos.

Os grandes amores são assim, insensatos e loucos.

O tempo voou enquanto estivemos juntos, depois tive de voltar e estranhei-te.

Passaram muitas luas sobre o Atlântico que nos separa até eu poder regressar a ti.

E quando voltei, lá estavas à minha espera à porta do avião, a sorrir disponível no teu doce perfume de fruta, rum e tabaco.

Depois foi sempre assim de todas as vezes que voltei.

E cada vez que tenho de sair de ti, sempre que tenho de vir embora, dói-me. Dói sempre sair de ti.

Não posso nunca dizer que sou teu, porque não sou. Nasci e cresci noutras latitudes Não posso por isso dizer que sou teu. Mas a verdade é que não minto se disser sobre ti ao mundo que tu és minha. 
Que continuarás a ser minha sempre.

Porque um caso destes de amor, não acontece duas vezes numa mesma vida.

Se pudesse voltava agora mesmo, porque de ti nunca saí.

Parabéns meu amor. Parabéns Havana, estás a fazer quinhentos anos e nas fotografias que me vão chegando, a cada maré que te sobe pelo Malecon, estás cada vez mais e mais bonita. Mais linda que nunca. Ganas de ti mi amol!

TQMLH.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE, de MBarreto Condado















Eram oito horas da manhã quando cheguei a Alcobaça a convite da Câmara Municipal para participar no festival Books & Movies. Dirigi-me à Biblioteca Municipal atravessando a pequena ponte sobre o rio Alcoa.

Almocei no restaurante Frei Bernardo em excelente companhia onde entre diversas iguarias pude degustar alguns dos tentadores doces conventuais. E onde fui simpaticamente convidada para um final de noite que se veio a comprovar deveras reconfortante à lareira a ouvir falar bom português.
Mas foi naquele final de tarde sentada na esplanada da pastelaria Alcoa defronte para o Mosteiro enquanto bebericava um sumo de laranja natural e comia uma torrada que dividi com uma pomba, duas…três não paravam de chegar. Passado pouco tempo perdi-lhes a conta, mas a minha mesa parecia a escadaria da catedral de S. Paul, só lá faltava a Mary Poppins a cantar “feed the birds” e da minha torrada tão estoicamente dividida não sobraram migalhas para me reconfortar o queixoso estômago.

Pude reparar que os últimos turistas abandonavam o Mosteiro quando pouco passava das dezoito horas, descendo a escadaria principal caminhando na direcção de um falso rei que se passeia por ali tentando cativar a atenção e possivelmente algumas moedas em troca da sua imagem.
Levantara-se uma leve brisa outonal que me parecia querer beijar como se de um velho amigo se tratasse e nesse momento como que enxotadas por uma mão invisível as pombas levantaram voo na direcção do campanário desaparecendo. O falso rei prostrou-se de frente para a velha escadaria do Mosteiro, levantou a sua espada e fez uma vénia em sinal de reverência também ele se despedindo com o respeito que aquele local inspira. Mas foi quando o véu da noite começou a descer lentamente sobre as suas frias paredes de pedra que reparei que lá de dentro alguém observava. Abri e fechei os olhos só podia ser aquela parca luz a pregar-me partidas. Quando voltei a olhar lá estavam pequenos vultos por detrás das janelas do andar superior olhavam sem ser vistos ou assim julgavam. Pareciam querer garantir a calma daquela noite.

Olhei em volta todos pareciam ignorar o que ali se passava, aparentemente só eu os via.

Levantei-me da minha cadeira e caminhei na direcção do solar da cerca do Mosteiro, nesse momento vi-os colocarem os fortes capuzes e desaparecerem tão misteriosamente como tinham aparecido. Sei que não imaginei, que não era a minha fervilhante imaginação a inspirar-me para outra história com seres imortais, tenho a certeza que os vira e apesar de saber que quem me observava estava vivo sem viver sabia que podiam já não se ouvir o bater dos seus corações, mas continuava-se a sentir o calor das suas almas.

No final da noite voltei a fazer o caminho de volta atravessando aquele longo terreno de terra batida àquela hora quase deserta. Parei perto da escadaria olhando para as janelas onde antes vira os misteriosos vultos e nada. Voltei-me para partir quando pelo canto do olho me pareceu ver algo mover. Desta vez e bem nítido pude vislumbrar uma linda mulher loira que me saudava sorridente, aproximou-se por detrás dela um homem que a abraçou protector enquanto também ele me olhava. Soube quem eram mesmo sem se terem apresentado. Baixei a cabeça discreta, mas respeitosamente e recomecei a andar.

Senti passos seguirem-me a uma distância segura, mas nunca me voltei, sabia que quem o fazia não estava realmente ali e que vinha a mando do seu Senhor para garantir que chegava em segurança ao meu destino.

Só quando me sentei dentro do carro e liguei a ignição soube que me encontrava só. E ao sair de Alcobaça voltei a atravessar um espesso nevoeiro sabendo que deixava para trás algo que era só meu, aquele momento.

Lembrei-me de uma frase do escritor alemão Heinz Konsalik: “O Amor é mais forte do que a Morte” e Pedro e Inês eram prova disso afinal continuavam a viver e na sua morte tinham encontrado o seu “viveram felizes para sempre”.