segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A ESCOLA, de Cristina Das Neves Aleixo
















Em comemoração do Dia da Criança, é importante que façamos alguma reflexão sobre a forma como vivemos esse período tão precioso da nossa existência.

Quando somos jovens desejamos crescer e tornarmo-nos adultos. É um dos desejos mais fortes e mais comum à maioria. Acreditamos que esse estatuto nos abrirá definitivamente a porta para decidirmos e fazermos tudo o que quisermos, da forma que quisermos, sem “dar cavaco” a ninguém. Cremos que seremos donos e senhores dos nossos destinos, da razão e transpiramos idealismo por todos os poros.
Depois crescemos, alcançamos o almejado lugar na sociedade e vivemos o resto das nossas vidas a desejar ser crianças. Passamos de idealistas a saudosistas e lamentamos o pouco tempo vivido em brincadeiras e interacções despreocupadas e isentas de julgamentos.

Algo está muito errado, creio. E não acho que seja porque o período da meninice é curto, mas sim pela forma como o vivemos e, mais importante, somos preparados para a etapa seguinte.

Senão vejamos: nessa fase ocupamos noventa por cento do tempo a ser programados para o futuro, para uma promessa de vida maravilhosa e plena, e dez por cento a brincar e a dar asas à criatividade com que todos naturalmente nascemos. Somos constantemente bombardeados com a definição instituída das boas maneiras – leia-se o politicamente correcto -, para seguir todos os “bons” exemplos e normas, ao invés de aceitarmos e nos complementarmos com as diferenças, pensarmos pelas nossas cabeças e fazermos algo para mudar o que está errado. Desde tenra idade é-nos imposto um modelo educacional semelhante ao cinzentão modelo empresarial vivido diariamente pelos adultos, com uma carga horária muito superior à que devia ser praticada, onde o tempo que se dedica ao estudo ocupa a grande parte dos nossos dias, impedindo-nos de sentir o outro, a chuva e o sol na cara, de descobrir o mundo que nos rodeia com todos os sentidos, de pulsar em uníssono com o planeta e somos muito mais repreendidos do que elogiados.

Não admira que em miúdos desejemos ser adultos, com a esperança de finalmente sermos livres para podermos respirar e sonhar.

O problema é que aí chegados percebemos que o futuro prometido era um embuste, que as cores se desvaneceram com a educação automatizada e, extenuados que estamos pela lavagem cerebral constante, baixamos os braços e passamos a viver a preto e branco, resignados, iguais a todos os outros, apontando o dedo quando todos apontam e aplaudindo, sem convicção, quando todos aplaudem.

De vez em quando, num ou noutro segundo, as cores, a nossa essência adormecida, espreitam e recordamos com saudade o tempo em que nos sentíamos capazes de tudo, para imediatamente pensarmos que já é demasiado tarde.

O mais curioso é que ao termos filhos nada fazemos para quebrar este ciclo de destruição da essência humana e da felicidade.

Ao invés, tornamo-nos parte da máquina na aniquilação dos sonhos e da verdadeira realização.
Somos a maldita máquina.

Somos crianças presas e perdidas em corpos crescidos.

“Miúdos e graúdos: se nos deixarmos revisitar, de vez em quando, pelo mundo encantado tornamo-nos pessoas melhores e mais felizes.”
in Joaninha e o Jardim encantado     

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