sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

ÁREA 51, de MBarreto Condado















Foi com surpresa que esta madrugada vi chegar ao Terreiro do Paço “A Liberdade”, mais conhecida internacionalmente por Estátua da Liberdade, trazia como bagagem somente a sua tocha e coroa que me garantiu nunca ter sido recebida num concurso de miss universo. Sendo ela filha de pai francês, amiga de um número incontável de imigrantes e nunca tendo requerido cidadania americana resolveu partir para o velho continente que a viu nascer com receio de represálias devido ao facto de ser imigrante, mulher, gorda e vestir-se de forma esquisita.

Contou-me como numa noite toda a sua existência bem como a de tantos tinha sido colocada em causa. Temia pela construção do prometido muro que seria pago por terceiros, pelo “drenar do pântano” podia dar-se o caso de ser construído um casino no seu lugar, a mudança de Obamacare para Trumpcare, o ensino nas universidades da cadeira de fuga aos impostos, a retirada das tropas americanas de locais de guerra para a possível colocação de mão de obra treinada na extração de gás e de xisto, a transformação da Casa Branca na casa da Barbie e do Ken, o ensinar o filho Barron a carregar no botão vermelho para iniciar os “jogos de guerra” mas principalmente temia pela desagregação dos Estados Unidos para Estados Desunidos.

E antes de se despedir e continuar a sua viagem ainda deixou no ar a confirmação à dúvida que nos persegue a todos desde 2016, o significado da fantástica cor laranja da pele.

É verdade que eles estão entre nós e agora até nos governam.

“Beam me up Scotty”



quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

UM DIA SENTEI-ME COM ELE, COM A CRIA NEGRA DOS MEUS LIVROS, de Vanessa Lourenço















Um dia sentei-me com ele, com a cria negra dos meus livros. Agora que já não possui um corpo neste mundo, tornou-se mais simples para mim ultrapassar o facto de pertencermos a espécies diferentes, tornou-se mais simples olhá-lo como igual e aceitá-lo como guia. Claro que ele sempre o foi, mas agora os laços entre nós já não se sujeitam às leis da matéria e aos 5 sentidos que nos animam enquanto seres vivos. Mas esse não foi o tema da nossa conversa. Eu precisava de ajuda para lidar com o medo.

Ele sentou-se ao meu lado, na periferia dos meus olhos ansiosos, e semicerrou os dele (chega a ser engraçado como os olhos bem abertos nos ajudam a ver melhor o mundo lá fora, e como os olhos semicerrados nos ajudam a ver melhor o mundo cá dentro). Por fim, disse:

- Sabes porque gostam os gatos tanto de saltar? E porque gostam tanto de estar em lugares elevados?

Eu tinha meia dúzia de respostas na ponta da língua, começando pela vontade de explorar e passando por aquela irritante mania de nos fazerem procurá-los durante horas. Mas sabia que não era essa a resposta que ele buscava. A resposta dele iria abrir-me o caminho para lidar com o medo. Por isso esperei, até que continuou:

- Quando caminhamos na Terra, a nossa perspectiva altera-se. E enquanto caminhamos nela, tudo o que tocamos com os 5 sentidos é filtrado pelo que nos rodeia. Só existe o que conseguimos ver, o que conseguimos cheirar, o que conseguimos ouvir, o que conseguimos tocar.

Interrompeu-se e abanou a cabeça ao de leve, sorrindo como se soubesse um segredo que tornaria todas as minhas preocupações obsoletas. De seguida encolheu os ombros, como se dissesse "mas é assim que deve ser", e continuou:

- Vou simplificar a metáfora para que não te canses de me ouvir: nós saltamos para sacudir o que nos limita, para agitar o pó que se cola ao nosso espírito enquanto caminhamos na Terra e o deixa baço e sem brilho. Esse pó ofusca o nosso potencial e se ficar colado a nós muito tempo, deixamos de acreditar que conseguimos brilhar. Por isso temos que saltar.

Ao ouvir as palavras dele, uma dose considerável de reconhecimento atingiu-me em cheio no peito. Mas não tive tempo de pensar no assunto, porque ele ainda não tinha terminado:

- E é aí que nasce o medo: "e se não existir nada para além do que posso ver?", "e se eu não conseguir brilhar?", "e se eu perder tudo aquilo aquilo que tenho, e nunca o puder recuperar?"... "E se eu não for bom o suficiente para ser feliz neste mundo?"

Esbugalhei os olhos ao ouvi-lo, e durante uns segundos perdi-o de vista. Mas apesar da angústia que me assaltou o peito, depressa me recompus e voltei a semicerrar os olhos, e lá estava ele de volta. Continuou:

-... E é por isso que gostamos de lugares altos. Quando o medo se instala, já não chega sacudir o pó do mundo do nosso corpo. Porque agora o pó apanhou o nosso ponto fraco, e vai agarrar-se com força.

Engoli em seco, e ele sorriu antes de continuar:

- Porque caminhas na Terra e porque o medo se alimenta dos teus 5 sentidos, é com os 5 sentidos que tens que trabalhar: lembras-te da perspectiva que mencionei há pouco? Para devolver o medo ao lugar que lhe pertence, ela tem que mudar.

Franzi o sobrolho, adivinhando que vinha pela frente o conselho que eu procurava. Ouvi-o dizer:

- E é por isso que procuramos lugares altos: porque aqui em baixo, qualquer degrau se pode transformar numa montanha. Mas lá de cima, qualquer montanha se pode transformar num degrau. E quando olhares a tua montanha de cima, tu vais recordar que os degraus existem para nos elevar acima do ruído do mundo. E acima do ruído do mundo, o teu medo perde o poder que tem sobre ti.

Dei por mim a respirar fundo instintivamente, o que o fez aproximar e esfregar a cabeça no meu braço. Acrescentou, piscando o olho em jeito de despedida:

- Claro que por muito que as minhas palavras façam sentido para ti, és tu que tens que decidir saltar. E é claro que por muito que o medo te limite, tu é que tens que decidir ir ver a vista lá de cima. Não basta conhecer o caminho que nos pode libertar, é preciso percorrê-lo.


Vanessa Lourenço,
*conversas com o Félix

DE ONDE NUNCA SAÍ - LISBOA NA MODERNIDADE, de Helder Menor
















Lisboa fermenta de gente em todas as esquinas. Novos, velhos, ricos e pobres. Muitos pobres.  Muitos estrangeiros e muitos portugueses. Americanos, alemães, gregos, chineses e ingleses a fazer compras e turismo. Outros, portugueses, chineses, indianos, paquistaneses, equatorianos, brasileiros, e cabo-verdianos a trabalhar. A carregar malas, servir a comida, lavar a roupa, passar a ferro, limpar os quartos, conduzir tuque-tuques, carros, autocarros e bicicletas para os turistas passearem. À volta mais portugueses, angolanos, guineenses, ucranianos e romenos a destruir casas e a construir hotéis, hosteis e casas onde se alugam quartos. Portuguesas e brasileiras e meninas de outras e várias nacionalidades a prostituírem-se amando com dinheiro contado em todas as línguas. Outros a fazerem contas e alugarem espaços. A venderem casas e a comprarem armazéns vazios. Organizam-se eventos, monta-se e desmonta-se montras e expositores. Corre-se muito para coisa nenhuma quase sempre para se chegar a horas onde não se faz falta nenhuma.
Muitos tiram fotografias a sorrir, outros permanecem invisíveis deitados nos passeios. Compram a comida feita em esferovite numa máquina, pagam com cartão, e correm para casa onde vão jantar sentados numa sala em silencio respeitoso enquanto na televisão, um chefe conceituado cozinha principescas e requintadas refeições. Com os óculos da tecnologia já tudo sabe ao mesmo, só os preços mudam.
Chamam modernidade à coisa.

Lisboa é uma cidade absolutamente moderna. Dizem.

Aqui há umas duas semanas tive uma reunião de trabalho num daqueles edifícios antigos, cheios de janelas viradas para o rio, com tectos altos que em tempos foi um armazém e que agora é qualquer coisa work.  Por trás e em cima a Graça. Em baixo o que resta dos comboios, um porto com um hotel a flutuar e depois o rio. Fantástica vista sobre a margem sul. Mesmo por cima da estação de Stª. Apolónia.

Porque cada vez é mais difícil andar de carro em Lisboa, atravessei o rio cedinho. Andei até Santa Apolónia, estação de eternos encontros e precisamente onde tinha marcado este. O sol de tímido de um novembro ainda seco, por volta das oito da manhã já não queima nem aquece, mas Lisboa a despertar convida sempre ao passeio.

Saindo do barco, cruzei o Jardim do Campo das cebolas na direcção à casa dos bicos. Entre duas palmeiras crescidas e protegida pelos contentores do lixo a instalação montada. Se não fosse miséria seria– arte pós-moderna: Um carro de supermercado cheio de garrafas vazias. A estrutura que resta do que foi um aparador de sala. Uma mesa de esplanada da em plástico branco com uma perna partida. Caixotes de papelão dobrados a fazer de enxerga e um saco cama sujo por cima a compor. Sentado sobre uma lata de tinta vazia estava um homem eslavo, estrábico, enorme e alcoolizado. Indiferente a quem passava, escrevia em cirílico num caderno nauseabundo o que pareciam ser versos. 

Descontente com a organização do mobiliário urbano, entediava-se um polícia novinho. Sem se preocupar com a duração da espera, uma equipe de limpeza de trabalhadores da câmara de Lisboa. Pressionado pelos taxistas presentes, na insegurança dos seus vinte anos e na estatura média mediterrânea o policia tentava impor autoridade ao gigante russo:

- Já te disse que tens de desocupar a via, que as senhoras querem fazer o trabalho delas e estas coisas têm de sair daqui....

As três trabalhadoras de fardadas amarelas com listas florescentes e escrito CML na costas, duas delas falavam entre si em crioulo, a oura, mais nova, mantinha os fones nos ouvidos. As três juntas assistiam à cena como se fosse uma telenovela.

À volta, alem de mim estavam quatro japoneses com jet-lag e um casal de dois rapazes espanhóis ainda meio ébrios. Estava também um americano gordo com uma namorada asiática de xaile fadista pelo ombro, minissaia e umas pernas absolutamente e completamente perfeitas.

O russo fingia que não ouvia o polícia e ria-se.... Olhava as pernas da namorada do americano sem pudores. A rapariga, alem de bonita era afoita, pôs a mão da anca na boa tradição das varinas e devolveu o olhar ao russo.

Por nós passou uma senhora muito bonita, apressada e risonha na casa dos cinquenta que em português do brasil falou:

– Sascha, você tem de sair daí cara, as moças quer limprar... vá que eu logo, logo trago pão e o que sobrou dos jantares de ontem para você.

Depois sorriu para o polícia, para os taxistas e para mim.

– Ele tadinho não faz mal não... ajuda até a arrumar a esplanada do restaurante e se lhe peço vai pôr o lixo... diz que ficou assim de desgosto de amor...tadinho!

O Sascha abandonou o seu posto permitindo às empregadas da limpeza que armadas de ancinhos se dedicaram a arrancar a merda de pombo à relva do jardim!!!

Calado gigantesco e insolente, o russo foi-se sentar num dos bancos do jardim a despejar um resto de uma garrafa de tinto

O polícia, ficou na conversa com os taxistas. Um dos fogareiros mais velhos, desabituado de ter a autoridade tão próxima sem ser para passar multas, comentava para a assistência que entendia português e que era apenas eu e o polícia.

- Olhem para isto, até tem limpeza ao domicílio de borla!!! Casa com jardim, vista para o Tejo, um polícia a fazer segurança e empregadas para lhe limparem o jardim e uma gaja toda boa que lhe vem trazer a comida! Parece um ministro!!!

Solidário com a gargalhada geral dos taxistas e do polícia, também o russo riu.
- Eta maia datcha bled, eta maia datacha!!!*1

Aqui o rapaz poliglota de doca e balcão de taberna, apanhou o sentido. Em tempos remotos aprendi umas palavritas do chamado russo de praia e por isso saquei o sentido

- “ É a minha casa de campo, pá, é a minha casa de campo!!!!”

Porque também eu estava a ficar acossado pelo bicho voraz da pressa, segui para a minha vida deixando os taxistas, o policia, mais o sem-abrigo e as jardineiras a rirem ao sol...
A minha cidade é assim memo.

A modernidade pode chegar quando quiser. Pode vir a galdéria da modernidade com a bolsa de marca a pingar euros a comprar para depois despejar. Pode vir a modernidade com dedos sabujos pagar aos empreiteiros para mandarem a baixo paredes antigas e construírem condomínios onde os pássaros fazem ninhos. Pode a modernidade construir, mandar pintar e depois vender, ou alugar, ou subalugar ou pôr a render. O que a modernidade quiser é lei porque a modernidade compra a lei.

Que se lixe a modernidade. A modernidade não tem hipóteses em terra de poetas alcoólicos e zarolhos! Enquanto houver quem se recuse a pagar para pisar o chão, se sirva do sol para se aquecer e do Tejo para inspirar versos, a modernidade não encontra cama para se deitar. Enquanto houver quem vá bebendo vinho sem se preocupar com o preço da garrafa porque não a pagou a modernidade não factura. Enquanto houver quem fique a apreciar as pernas das varinas, tenham elas os olhos em bico ou a pele da cor que tiverem, Lisboa continuará a ser Lisboa e a modernidade não aterra na Portela. 





quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A FEIRA, de Anita Dos Santos















A feira era um animal vivo, pulsante, nas suas cores garridas e odores fortes a fumo, a maçãs doces e a assado, proveniente de uma tenda mais distante e mais rica, cujos ganhos nessa noite iriam ser, seguramente, avultados.

A hora, não era ainda a de maior movimento.

Todos quantos tinham as suas tendas montadas nessa noite esperavam que a população da vila próxima acorresse aos espectáculos e diversões com os cobres e pratas nas suas bolsas de cintura, dispostos a esbanjar no que os havidos olhos pousassem.

As crianças eram as mais fascinadas por tudo o que encontravam pela frente e que raramente tinham oportunidade de ver.

Os mais crescidinhos escapuliram-se por entre as tendas, tentando ver o que se passava lá dentro sem ter que despender os preciosos tostões que possuíam.

Eram um grupinho de sete crianças, que contava com três meninas, tendo todos eles idades aproximadas.

- Ouvi dizer que havia robertos, e teatro, e…

- Já sei de tudo isso. Já repetiste um ror de vezes…

- Pois sim, agora se vamos ou não conseguir ver alguma coisa, isso é outra história!

Mais pragmático, o mais velho seguia em frente implacavelmente.

Por fim, lá deram com o recinto onde estava montada a apresentação dos robertos.

Em frente da barraca dos robertos, estavam armados uns quantos bancos corridos e, por trás daquela, havia um pano escuro que assegurava a privacidade aos artistas.

- Não podemos ir para os bancos. Tínhamos que pagar. Ficamos cá atrás, vemos bem na mesma.

Assim fizeram. O mais velho indicou aos outros um local com boa visibilidade. Ficaram em pé, junto do restante público, que havia muito quem não tivesse dinheiro para gastar.

As vozes finas das marionetas movidas dentro da barraca pelos seus animadores, só por si, faziam o público rir. A história era disparatada e ainda fazia rir mais.

No meio das gargalhadas, o mais novo apercebeu-se de diversos personagens com as caras pintadas, que circulavam por entre as crianças mais novas sem que estas se apercebessem disso. Deu uma cotovelada na amiga que tinha ao lado e apontou-lhe com o queixo o individuo que se tinha acercado de uma menina pequena, acabando por a levar com ele.

A companheira arregalou os olhos e, por sua vez, fez sinal a quem estava mais próximo de si. Num instante, ficaram todos em alerta.

- E agora, fazemos o quê? – Perguntou um, com um sussurro.

- Vamos seguir um deles para ver para onde vão.

Assim fizeram.

A noite tinha caído, entretanto.

Escondendo-se pelos cantos das barracas, aproveitando as sombras mais escuras, conseguiram não perder de vista a personagem de rosto pintado.

Acabaram numa ponta da feira, num local sem feirantes, apenas com uma grande e escura tenda montada.

Fazendo sinais uns aos outros de silêncio, mantiveram-se imóveis durante longo tempo, tentando ouvir o que se passava no interior.

Conseguiam ouvir vozes abafadas e acabaram por se aproximar mais na tentativa de saber o que diziam.

- Por hoje já chegam. Não podemos dar nas vistas.

- Sim, temos de levantar a feira de manhã, e seguir viagem. Vão vir por eles na certa.

- Este lote vai render bom dinheiro no mercado de escravos.

- Sim, querem sempre quem limpe chaminés. São muito morrediços…

Como tendo dito uma piada, soltaram uma gargalhada em simultâneo.

Só tiveram tempo de se esconder melhor, ao vê-los sair.

- Vamos tirá-los dali!

- É para já!

- Estás à espera de convite?

Sempre de corpo dobrado, esgueiraram-se sob a aba da tenda, ficando imóveis por momentos.

Passado um instante, os olhos habituados à pouca luz, já conseguiam distinguir os pequenos vultos, amarrados e amordaçados. Rapidamente trataram de começar a soltá-los, instando-os ao silêncio e a que ajudassem a soltar os restantes.

- Agora temos de voltar…

- Pois, agora temos de ter muito cuidado para não dar de cara com nenhum deles.

- O melhor é separarmo-nos, cada qual fica com um grupo mais pequeno e vai por um lado diferente.

- Encontramo-nos em frente da igreja. É suficientemente distante da feira.

Lá foram saindo, uns quantos de cada vez, os nervos a tomar conta de todos quantos ficavam para trás.

Por fim, o último grupo saiu também, rápidos que nem ratos.

Ofegantes, reunira-se com os amigos.

- O melhor, é irmos de casa em casa e entregarmos as crianças. Os pais têm de saber o que se passou.


O dia não tinha ainda raiado, quando um grupo de homens e mulheres armados de varapaus e forquilhas desmantelaram, à paulada, aquilo que na noite anterior fora a feira que visitou a vila naquele ano.


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A HUMANIDADE RESTAURADA, de Cristina Das Neves Aleixo















Há dias vi um programa de televisão extremamente interessante: falava-se do futuro do mundo em geral, de várias iniciativas que têm vindo a surgir em prol de uma vivência mais pura e sustentável, em que a pegada humana é reduzida para valores bem menores que os actuais, e na crescente mudança de mentalidades em relação aos comportamentos nefastos das últimas décadas.

A aposta nas energias renováveis está em alta e são já vários os dias em que o fornecimento de electricidade é assegurado a 100% pelo vento e pela água. Nós nem nos apercebemos que algo mudou, sentados nos nossos sofás em frente à televisão ou computador, ou noutra actividade qualquer que requeira a tão preciosa electricidade, mas mudou e para melhor: com a produção desta alternativa evita-se a emissão de milhões de toneladas de dióxido de carbono. E para aqueles não ligam – ainda - muito ao ambiente, isto faz com que se poupe milhões de euros na aquisição de licenças de emissão de poluentes – que todos sabemos quem é que no fim paga.

Estima-se que até 2040 a electricidade seja fornecida totalmente através das energias renováveis para todo o território nacional, o que aplaudo de pé.

Noutros aspectos igualmente importantes, vi que alguns povos desenvolveram técnicas artesanais para limpar os detritos dos rios. Limitaram-se a criar barreiras para impedir que o lixo vá parar aos oceanos quando os rios ali desaguam. Simples e eficaz.

Há, também, cada vez mais pessoas a captar água da chuva para regar as plantas e os jardins. Outra medida simples e que permite baixar a factura. Assim como o uso de painéis solares em prédios de habitação; são já vários os condomínios a optar pela instalação desta solução.

No Japão criaram um sistema de poupança de água nas casas de banho públicas, que consiste em reutilizar a água usada na lavagem das mãos para a descarga nas sanitas. Uma medida inteligente.
Gostaria de ver mais programas deste género informativo passarem nos canais nacionais com grande audiência e não só nos generalistas da televisão por cabo, que uns podem subscrever e outros não, pois é de extrema importância a consciencialização do maior número possível de pessoas para as reais problemáticas nestes sectores. Além disso, quando se apresentam as investigações e as soluções, quando os factos são demonstrados, uma vez e outra, há sempre algo que fica, por pouco que seja, e isso é preponderante para a tão necessária mudança.

Verifico que há dois grupos distintos que se estão a formar; um já está em formação há algum tempo e tem vindo a ganhar terreno: é o grupo dos desestabilizadores, dos egocêntricos, dos manipuladores, corruptos e com sede de poder, que vai estendendo os seus tentáculos como um polvo – podemos verificar a sua presença em praticamente todas as áreas, actualmente; o outro é precisamente o oposto, demonstra preocupação e empatia com o planeta e todas as formas de vida, encara os problemas de frente e tenta solucioná-los de formas não invasivas, com respeito e ponderação - talvez porque as pessoas estão saturadas de tanta vivência podre e decidiram que já era tempo de tomar as rédeas do próprio destino.


Só um poderá sair vitorioso. Os dois tipos não poderão coexistir pacificamente. É extremamente importante que o segundo cresça e crie raízes, de modo a podermos fazer, e viver, um mundo melhor.



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

AMOR ERÓTICO, de Ana Ribeiro
















Há já alguns dias que tudo se repetia. Todas as noites J. tinha o mesmo sonho, um sonho persistente que o fazia acordar sistematicamente sobressaltado, ofegante e a transpirar. Já não conseguia regressar à cama e voltar a dormir, de boxers e roupão vestido, ia até à cozinha, enchia uma chávena de café bem quente e ficava horas na escuridão da sala, sentado no sofá sobre o vazio da noite. Nunca mais conseguia sossegar, aquele sonho, parecia persegui-lo.

Via e revia tudo tempos a fio. Tudo começava com um cenário todo branco, paredes brancas, sem nada, uma cama ao centro, um nevoeiro esfumado no ar que fazia com que não conseguisse vislumbrar mais pormenores. Do nada aparecia um vulto feminino, belo e esbelto, longos cabelos loiros, sorriso fácil e de lingerie branca. Lentamente ia-se aproximando dele, e num único movimento, puxava-o para si a partir do decote da camisa axadrezada que trazia vestida, para depois o empurrar bruscamente de encontro à cama e assim possuí-lo sofregamente noite dentro. E era assim que tudo começava.

Por entre beijos intensos e carícias, roupa que voava em direcção ao chão, a mão que acariciava cada fio de cabelo dela, que explorava o corpo dela. Os lábios carnudos dela, que lhe humedeciam a pele, as mãos suaves, doces e ternas que percorriam o seu corpo, lhe apertavam a pele e a carne e que o faziam gemer e contorcer-se de prazer, atingindo o clímax, num orgasmo fervilhante. Como adorava as curvas dela, percorrê-las, senti-las, os seios perfeitos, simétricos e quentes que faziam faísca na humidade e frescura dos seus lábios, no suor libertado pelo corpo dela, o ventre duro e macio, desalinhado como as dunas no deserto. A excitação no seu auge. Aquele amor despido, carnal, intenso, vivido no limite, a necessidade e saciedade de um corpo, de contacto físico.

De repente, ela levanta-se, deixando praticamente tudo a meio, ainda havia sensações, cheiros e aromas para explorar e descobrir, nua, sem mais nada que a protegesse, veste a camisa dele. Acena, atira-lhe um beijo e difunde-se na névoa.

J. acorda, e é assim que tudo termina todas as noites, sem mais nenhum detalhe a acrescentar, mas desta vez, tudo foi diferente. Encontra nas costas da cadeira a sua camisa, a camisa do sonho, e de repente sem nada que o fizesse prever… sente o cheiro dela.

Sorri, veste a camisa. E sai…

domingo, 1 de dezembro de 2019

ESCOLHAS, de Cristina Das Neves Aleixo















A chuva forte fustigava os vidros das janelas, anunciando a chegada do visitante indesejável que tentaria forçar a caixilharia para entrar rebelde. Detestava vento forte. Fazia-a sempre lembrar-se de tornados, nem sabia bem porquê.

A fraca luminosidade reflectida pelo céu cor de chumbo fê-la acender o candeeiro do toucador. Emocionalmente estava tão cinzenta quanto a pintura da natureza e transpirava impaciência e incompreensão. Sentia-se miserável, zangada com o mundo, toldada pelo turbilhão de emoções que barravam a entrada à razão.

O que é que iria fazer agora? Perder o emprego e o namorado no mesmo dia não estava nos seus planos nem era fácil de digerir. A sensação de perda, de solidão e de pena de si própria eram avassaladoras. Era uma contradição viver tão rodeada de pessoas e tão só. Os prédios eram cada vez mais imponentes na paisagem, mas os seus ocupantes conheciam-se cada vez menos. Falavam e interagiam cada vez menos. Preocupavam-se cada vez menos.

Lembrou-se das muitas vezes em que tinha reparado naqueles que atravessavam as passadeiras arrastando os pés, de pescoço curvado para o ecrã do telemóvel, indiferentes a quem os olhava por detrás do pára-brisas, completamente alheados do que os rodeava. Também havia os que calcorreavam as ruas sempre em passo apressado, no mesmo trajecto diário de ida e de volta, sem se deterem um segundo que fosse para olharem para o lado para apreciarem um qualquer pormenor dos muitos que a envolvência oferecia. Recordou-se do espanto que tinha experimentado quando uma colega de trabalho lhe dissera que, apesar de não morar na cidade, trabalhava ali há cerca de vinte anos, mas não conhecia mais que o café em frente e o pequeno restaurante da esquina.

Era triste. Muito triste. A cidade era igual e diferente todos os dias. Estava viva, pulsava em constante transformação, mas as pessoas apenas a usavam. Não a viviam.

Não queria ser assim. Alguém que se arrastava pela vida, vazia de sensações.

Talvez esta fosse a oportunidade para tentar a área profissional com que sempre sonhara. Talvez esta fosse a oportunidade para ser ela própria.

Encarou-se no espelho à sua frente e sorriu pela primeira vez naquele dia. Alcançou o batom que tinha comprado na semana anterior e tingiu os generosos lábios de vermelho.

Agarrou na mala e no guarda-chuva e saiu de casa, com o espírito apaziguado e a certeza de que a forma como decidisse olhar para as coisas faria uma enorme diferença em si e no mundo.
Era tudo uma questão de escolha.