quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A FEIRA, de Anita Dos Santos















A feira era um animal vivo, pulsante, nas suas cores garridas e odores fortes a fumo, a maçãs doces e a assado, proveniente de uma tenda mais distante e mais rica, cujos ganhos nessa noite iriam ser, seguramente, avultados.

A hora, não era ainda a de maior movimento.

Todos quantos tinham as suas tendas montadas nessa noite esperavam que a população da vila próxima acorresse aos espectáculos e diversões com os cobres e pratas nas suas bolsas de cintura, dispostos a esbanjar no que os havidos olhos pousassem.

As crianças eram as mais fascinadas por tudo o que encontravam pela frente e que raramente tinham oportunidade de ver.

Os mais crescidinhos escapuliram-se por entre as tendas, tentando ver o que se passava lá dentro sem ter que despender os preciosos tostões que possuíam.

Eram um grupinho de sete crianças, que contava com três meninas, tendo todos eles idades aproximadas.

- Ouvi dizer que havia robertos, e teatro, e…

- Já sei de tudo isso. Já repetiste um ror de vezes…

- Pois sim, agora se vamos ou não conseguir ver alguma coisa, isso é outra história!

Mais pragmático, o mais velho seguia em frente implacavelmente.

Por fim, lá deram com o recinto onde estava montada a apresentação dos robertos.

Em frente da barraca dos robertos, estavam armados uns quantos bancos corridos e, por trás daquela, havia um pano escuro que assegurava a privacidade aos artistas.

- Não podemos ir para os bancos. Tínhamos que pagar. Ficamos cá atrás, vemos bem na mesma.

Assim fizeram. O mais velho indicou aos outros um local com boa visibilidade. Ficaram em pé, junto do restante público, que havia muito quem não tivesse dinheiro para gastar.

As vozes finas das marionetas movidas dentro da barraca pelos seus animadores, só por si, faziam o público rir. A história era disparatada e ainda fazia rir mais.

No meio das gargalhadas, o mais novo apercebeu-se de diversos personagens com as caras pintadas, que circulavam por entre as crianças mais novas sem que estas se apercebessem disso. Deu uma cotovelada na amiga que tinha ao lado e apontou-lhe com o queixo o individuo que se tinha acercado de uma menina pequena, acabando por a levar com ele.

A companheira arregalou os olhos e, por sua vez, fez sinal a quem estava mais próximo de si. Num instante, ficaram todos em alerta.

- E agora, fazemos o quê? – Perguntou um, com um sussurro.

- Vamos seguir um deles para ver para onde vão.

Assim fizeram.

A noite tinha caído, entretanto.

Escondendo-se pelos cantos das barracas, aproveitando as sombras mais escuras, conseguiram não perder de vista a personagem de rosto pintado.

Acabaram numa ponta da feira, num local sem feirantes, apenas com uma grande e escura tenda montada.

Fazendo sinais uns aos outros de silêncio, mantiveram-se imóveis durante longo tempo, tentando ouvir o que se passava no interior.

Conseguiam ouvir vozes abafadas e acabaram por se aproximar mais na tentativa de saber o que diziam.

- Por hoje já chegam. Não podemos dar nas vistas.

- Sim, temos de levantar a feira de manhã, e seguir viagem. Vão vir por eles na certa.

- Este lote vai render bom dinheiro no mercado de escravos.

- Sim, querem sempre quem limpe chaminés. São muito morrediços…

Como tendo dito uma piada, soltaram uma gargalhada em simultâneo.

Só tiveram tempo de se esconder melhor, ao vê-los sair.

- Vamos tirá-los dali!

- É para já!

- Estás à espera de convite?

Sempre de corpo dobrado, esgueiraram-se sob a aba da tenda, ficando imóveis por momentos.

Passado um instante, os olhos habituados à pouca luz, já conseguiam distinguir os pequenos vultos, amarrados e amordaçados. Rapidamente trataram de começar a soltá-los, instando-os ao silêncio e a que ajudassem a soltar os restantes.

- Agora temos de voltar…

- Pois, agora temos de ter muito cuidado para não dar de cara com nenhum deles.

- O melhor é separarmo-nos, cada qual fica com um grupo mais pequeno e vai por um lado diferente.

- Encontramo-nos em frente da igreja. É suficientemente distante da feira.

Lá foram saindo, uns quantos de cada vez, os nervos a tomar conta de todos quantos ficavam para trás.

Por fim, o último grupo saiu também, rápidos que nem ratos.

Ofegantes, reunira-se com os amigos.

- O melhor, é irmos de casa em casa e entregarmos as crianças. Os pais têm de saber o que se passou.


O dia não tinha ainda raiado, quando um grupo de homens e mulheres armados de varapaus e forquilhas desmantelaram, à paulada, aquilo que na noite anterior fora a feira que visitou a vila naquele ano.


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