quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

DE ONDE NUNCA SAÍ - LISBOA NA MODERNIDADE, de Helder Menor
















Lisboa fermenta de gente em todas as esquinas. Novos, velhos, ricos e pobres. Muitos pobres.  Muitos estrangeiros e muitos portugueses. Americanos, alemães, gregos, chineses e ingleses a fazer compras e turismo. Outros, portugueses, chineses, indianos, paquistaneses, equatorianos, brasileiros, e cabo-verdianos a trabalhar. A carregar malas, servir a comida, lavar a roupa, passar a ferro, limpar os quartos, conduzir tuque-tuques, carros, autocarros e bicicletas para os turistas passearem. À volta mais portugueses, angolanos, guineenses, ucranianos e romenos a destruir casas e a construir hotéis, hosteis e casas onde se alugam quartos. Portuguesas e brasileiras e meninas de outras e várias nacionalidades a prostituírem-se amando com dinheiro contado em todas as línguas. Outros a fazerem contas e alugarem espaços. A venderem casas e a comprarem armazéns vazios. Organizam-se eventos, monta-se e desmonta-se montras e expositores. Corre-se muito para coisa nenhuma quase sempre para se chegar a horas onde não se faz falta nenhuma.
Muitos tiram fotografias a sorrir, outros permanecem invisíveis deitados nos passeios. Compram a comida feita em esferovite numa máquina, pagam com cartão, e correm para casa onde vão jantar sentados numa sala em silencio respeitoso enquanto na televisão, um chefe conceituado cozinha principescas e requintadas refeições. Com os óculos da tecnologia já tudo sabe ao mesmo, só os preços mudam.
Chamam modernidade à coisa.

Lisboa é uma cidade absolutamente moderna. Dizem.

Aqui há umas duas semanas tive uma reunião de trabalho num daqueles edifícios antigos, cheios de janelas viradas para o rio, com tectos altos que em tempos foi um armazém e que agora é qualquer coisa work.  Por trás e em cima a Graça. Em baixo o que resta dos comboios, um porto com um hotel a flutuar e depois o rio. Fantástica vista sobre a margem sul. Mesmo por cima da estação de Stª. Apolónia.

Porque cada vez é mais difícil andar de carro em Lisboa, atravessei o rio cedinho. Andei até Santa Apolónia, estação de eternos encontros e precisamente onde tinha marcado este. O sol de tímido de um novembro ainda seco, por volta das oito da manhã já não queima nem aquece, mas Lisboa a despertar convida sempre ao passeio.

Saindo do barco, cruzei o Jardim do Campo das cebolas na direcção à casa dos bicos. Entre duas palmeiras crescidas e protegida pelos contentores do lixo a instalação montada. Se não fosse miséria seria– arte pós-moderna: Um carro de supermercado cheio de garrafas vazias. A estrutura que resta do que foi um aparador de sala. Uma mesa de esplanada da em plástico branco com uma perna partida. Caixotes de papelão dobrados a fazer de enxerga e um saco cama sujo por cima a compor. Sentado sobre uma lata de tinta vazia estava um homem eslavo, estrábico, enorme e alcoolizado. Indiferente a quem passava, escrevia em cirílico num caderno nauseabundo o que pareciam ser versos. 

Descontente com a organização do mobiliário urbano, entediava-se um polícia novinho. Sem se preocupar com a duração da espera, uma equipe de limpeza de trabalhadores da câmara de Lisboa. Pressionado pelos taxistas presentes, na insegurança dos seus vinte anos e na estatura média mediterrânea o policia tentava impor autoridade ao gigante russo:

- Já te disse que tens de desocupar a via, que as senhoras querem fazer o trabalho delas e estas coisas têm de sair daqui....

As três trabalhadoras de fardadas amarelas com listas florescentes e escrito CML na costas, duas delas falavam entre si em crioulo, a oura, mais nova, mantinha os fones nos ouvidos. As três juntas assistiam à cena como se fosse uma telenovela.

À volta, alem de mim estavam quatro japoneses com jet-lag e um casal de dois rapazes espanhóis ainda meio ébrios. Estava também um americano gordo com uma namorada asiática de xaile fadista pelo ombro, minissaia e umas pernas absolutamente e completamente perfeitas.

O russo fingia que não ouvia o polícia e ria-se.... Olhava as pernas da namorada do americano sem pudores. A rapariga, alem de bonita era afoita, pôs a mão da anca na boa tradição das varinas e devolveu o olhar ao russo.

Por nós passou uma senhora muito bonita, apressada e risonha na casa dos cinquenta que em português do brasil falou:

– Sascha, você tem de sair daí cara, as moças quer limprar... vá que eu logo, logo trago pão e o que sobrou dos jantares de ontem para você.

Depois sorriu para o polícia, para os taxistas e para mim.

– Ele tadinho não faz mal não... ajuda até a arrumar a esplanada do restaurante e se lhe peço vai pôr o lixo... diz que ficou assim de desgosto de amor...tadinho!

O Sascha abandonou o seu posto permitindo às empregadas da limpeza que armadas de ancinhos se dedicaram a arrancar a merda de pombo à relva do jardim!!!

Calado gigantesco e insolente, o russo foi-se sentar num dos bancos do jardim a despejar um resto de uma garrafa de tinto

O polícia, ficou na conversa com os taxistas. Um dos fogareiros mais velhos, desabituado de ter a autoridade tão próxima sem ser para passar multas, comentava para a assistência que entendia português e que era apenas eu e o polícia.

- Olhem para isto, até tem limpeza ao domicílio de borla!!! Casa com jardim, vista para o Tejo, um polícia a fazer segurança e empregadas para lhe limparem o jardim e uma gaja toda boa que lhe vem trazer a comida! Parece um ministro!!!

Solidário com a gargalhada geral dos taxistas e do polícia, também o russo riu.
- Eta maia datcha bled, eta maia datacha!!!*1

Aqui o rapaz poliglota de doca e balcão de taberna, apanhou o sentido. Em tempos remotos aprendi umas palavritas do chamado russo de praia e por isso saquei o sentido

- “ É a minha casa de campo, pá, é a minha casa de campo!!!!”

Porque também eu estava a ficar acossado pelo bicho voraz da pressa, segui para a minha vida deixando os taxistas, o policia, mais o sem-abrigo e as jardineiras a rirem ao sol...
A minha cidade é assim memo.

A modernidade pode chegar quando quiser. Pode vir a galdéria da modernidade com a bolsa de marca a pingar euros a comprar para depois despejar. Pode vir a modernidade com dedos sabujos pagar aos empreiteiros para mandarem a baixo paredes antigas e construírem condomínios onde os pássaros fazem ninhos. Pode a modernidade construir, mandar pintar e depois vender, ou alugar, ou subalugar ou pôr a render. O que a modernidade quiser é lei porque a modernidade compra a lei.

Que se lixe a modernidade. A modernidade não tem hipóteses em terra de poetas alcoólicos e zarolhos! Enquanto houver quem se recuse a pagar para pisar o chão, se sirva do sol para se aquecer e do Tejo para inspirar versos, a modernidade não encontra cama para se deitar. Enquanto houver quem vá bebendo vinho sem se preocupar com o preço da garrafa porque não a pagou a modernidade não factura. Enquanto houver quem fique a apreciar as pernas das varinas, tenham elas os olhos em bico ou a pele da cor que tiverem, Lisboa continuará a ser Lisboa e a modernidade não aterra na Portela. 





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