sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

PAI NATAL, de MBarreto Condado
















                                                                   Pai Natal
Casa do Pai Natal (fácil de identificar mesmo no meio do nevoeiro pelo nariz vermelho do Rudolfo, a Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago)
                                                             Rovaniemi
                                                             Lapónia

Yggdrasil, 13 de Dezembro de 2019
(a casa é fácil de encontrar, fica no meio do nada recomendo viagem nocturna)

Pai Natal,

Espero que a minha carta ainda chegue a tempo pois tem sido um ano complicado, mas posso garantir-te que não sou boazinha, tenho sangue quente e fervo em pouca água.

Se estiveres muito ocupado para leres esta mensagem por favor passa a um dos teus ajudantes (preferia os mais altos, com abdominais trabalhados e costas largas onde gostaria de descansar por umas horas, ando estafada).

Como nunca te pedi nada este ano resolvi abrir uma excepção, fica descansado que não te vou pedir por cada ano passado (em que tristemente falhaste, avisei-te que tenho sangue quente).

Gostaria de ter MUITA saúde, dinheiro e amor (e não penses enviar-me o CD do argentino Irusta);

Voltar à Irlanda em boa companhia (agradeço que não me envies os meus próprios livros da Profecia ou sangue correrá…e não será o meu);

Um potente Jipe (se me envias Playmobil eu envio-te uma das Caldas);

Que os meus dedos consigam escrever à velocidade com que as ideias surgem (não me envies um gravador ou vou devolver-to pessoalmente);

Quero publicar todos os livros das duas sagas e mais três que já iniciei. (não digas que é impossível, se respeitares o meu anterior pedido e fizeres com que as horas passem mais devagar “…a obra acontece…” “.

Deixo-te dois avisos: dia 25 é feriado e os caçadores andam por aí e como não andamos nas graças um do outro preferia que enviasses um dos ajudantes acima referenciado, ele que venha uns dias antes, que entre pela porta da sala (a lareira estará a aquecer o ambiente) onde encontrará bolachinhas, um copo de Borba e o sofá aberto para que me possa castigar (envio foto do ajudante e sugestão do castigo a aplicar).

Obrigada e até para o ano
Madalena  

NOTURNO ARCO-ÍRIS – NAS ÁGUAS NOTURNAS E ESCURAS DO ATLÂNTICO ALGARVIO















Passaram muitos anos, mas a Teresa tem a certeza que não foi um sonho, tem a certeza que estava acordada. E mesmo que não estivesse, que importância tem um encontro noturno cinquenta anos depois, se foi sonhado ou vivido? Para ela as memórias são claras.
A Teresa tem a certeza que estava acordada e que não sonhou.

Era uma miúda, tinha dezoito anos feitos há meses. Mas lembra-se como se tivesse sido hoje, como se tivesse sido há bocadinho. Passaram quase cinquenta anos desde aquela noite, mas ela lembra-se bem. Lembra-se de tudo até aos mais ínfimos detalhes. Veio tudo à memória como um filme. Reviu e reviveu tudo na sua cabeça esta manhã bem cedo, quando a enfermeira Sandra lhe veio mudar o soro.
Lembra-se até da roupa que tinha vestida naquela noite de agosto de 1973. Tinha umas calças de ganga que toda a gente lhe dizia que lhe ficavam bem, tinha uma túnica vermelha e amarela que o pai lhe tinha trazido de uma viagem a Luanda e tinha umas socas brancas com taxas douradas. Foi durante aquelas férias de verão, no hotel na Praia da Rocha. As férias de verão que mais a marcaram para a vida. Essas férias estiveram sempre presentes na sua memória, mas aquele episódio em concreto, naquela noite, foi-lhe apagado e só voltou nesta manhã. Mas agora lembra-se bem. Lembra-se de tudo.

Estava uma noite quente e sem lua. Foi na Praia da Rocha, ainda a Praia da Rocha era a Praia da Rocha, um lugar especial e reservado para as classes altas. A praia quase isolada com meia dúzia de hotéis e sem ser o que depois fizeram dela.

Ela estava com a melhor amiga, a Paula. Estavam com um grupo de amigos ingleses. Eram ambas lindas, rebeldes e ricas a descobrirem a liberdade que os papás financiavam nas areias do Algarve. Nessa noite beberam Mateus Rosé, fumaram em roda um proibidíssimo charro de uma erva e havia alguém a tocar uma guitarra. Ela tinha acabado de entrar na faculdade de direito de Lisboa, considerava-se uma livre-pensadora, mas não era mais do que uma burguesinha bem-intencionada. O pai, advogado rico e bem relacionado, tinha vindo a aproximar-se da oposição democrática como ditavam as modas burguesas daquele ano. Por coerência e civilização fazia por dar liberdade à filha.  
A mãe criticava a soltura dos tempos ié-ié, mas estava solidária com as amigas da canastra e nas noites do Algarve abria mão da moral conservadora dando liberdade à menina. Agora mais descansada porque o namorico da filha com o furriel comuna tinha terminado com a ida do barbudo para a Guiné.

A Tété aproveitava a liberdade. Não sofria de amores ao contrário do que os pais pensavam. No furriel, pouco pensava. O tal furriel que não era comunista, mas sim maoísta, tinha sido um caso superficial. Ambos tinham decidido não ter um namoro burguês. A Teresa, na realidade tinha saído com ele mais para chatear os pais e para marcar uma posição de rebelde do que por afeto. Também precisava de uma razão para começar a tomar a pílula e o rapaz servia perfeitamente para isso. Nessas férias de verão embebedou-se pela primeira vez e pela primeira vez experimentou o sabor quente e orgânico da liamba. Também nessas férias, pela primeira vez amou na praia só porque lhe apetecia. A liberdade era boa… sobretudo sem contas para pagar e a Tété desfrutava.

Foi hoje de manhã que lhe vieram à memória todos os detalhes daquela noite. Lembrou-se que não lhe apeteceu ficar com o inglês com quem tinha passado a tarde. Ele a falar-lhe dos Pink Floyd e ela com vontade de amar na água fria entre as rochas. Depois, à noite era ele que queria amar e ela que não queria. Aproveitou o pretexto de ter de fazer xixi e afastou-se do grupo para junto de umas rochas grandes que ainda lá estão. Lembra-se que ficou a olhar as estrelas e a pensar nos encontros e desencontros do amor. 

Deitou-se na areia húmida a ver o céu escuro com pontinhos luminosos ao longe e ficou a sentir a água das ondas mansas que quase lhe molhavam os pés.

Foi então que aconteceu.

Ouviu aquele som, um canto. Um suave quanto. Suave, mas forte e profundo. Parecia vindo do fundo do mar. A Teresa não teve medo. Lembra-se bem que se sentou e ficou a olhar para as águas escuras. Viu que era uma mulher a cantar dentro de água. Uma mulher madura, grande, negra e linda. A mulher estava nua e a água dava-lhe pelo umbigo. A pele era tão escura como a noite, via-se o perfil dos peitos grandes e perfeitos, o branco dos dentes pequenos de peixe e o branco dos olhos escuros e brilhantes. Não lhe via a cara, mas percebia que a mulher sorria.

Lembra-se que se levantou e que deu dois passos para dentro de água. A senhora que cantava, com a mão aberta mandou-a parar e continuou a cantar. E ela ficou ali, de pé, com as ondas a virem lamber-lhe os tornozelos e as canelas. Deixou-se ficar a ouvir.

A canção era numa língua desconhecida, mas a Teresa percebeu o sentido de todas as palavras.

Vais ser mãe de dois filhos e avó de três netas. Vais ser mãe da tua mãe. Aproveita o convívio com o teu pai que será breve. Terás uma vida confortável e encontrarás o amor nos teus pais, filhos e netos. Vais viver três casamentos, dois divórcios e uma viuvez. Amarás por períodos curtos e intensos. A tua vida vai ser cheia, mas partirás demasiado cedo para os que te querem. Vais perceber que vais morrer quando te disserem que estás doente, mas que vão fazer tudo para te curar. Esquecerás tudo o que te disse agora durante muitos anos. Quando te lembrares deste momento, saberás que o momento está próximo. Vais ver-me no corpo de outra pessoa que cuidará de ti, e nesse momento perceberás que chegou a tua hora. Não tenhas medo. A morte é como um mergulho num mar tépido numa noite de verão. Agora volta a deitar-te na areia, dorme e esquece que falámos.

A Senhora disse tudo isto à Teresa no seu canto noturno.

Depois, deixou de cantar e por um segundo ficaram a olhar-se as duas com um sorriso cúmplice e afetuoso entre ambas. Acabado esse breve tempo, a Senhora virou as costas nuas e mergulhou nadando para o fundo. No fim das costas, em vez de um rabo proporcional à beleza, estava o corpo de uma corvina grande, com escamas de cor preta que refletiam as estrelas. Foi a cauda de um peixe grande a última coisa que a Teresa viu a desaparecer no mar.

Depois deitou-se na praia e adormeceu. E não voltou a lembrar-se desse encontro esta manhã.

Foi a Paula que a acordou. Tété, são quase cinco horas e está a ficar de dia... temos de ir.

Foram.

O verão passou a correr. No outono e inverno seguinte o primeiro ano de direito. A Teresa a marcar presença com o seu brilhantismo e a sua beleza rebelde. Depois, na primavera veio a revolução. A Teresa entrou de cabeça na vida política militando no MRPP que era o que lhe parecia mais radical. Acabado o curso, deixou-se de políticas, casou e ficou a trabalhar com o pai. Foram breves aqueles meses de felicidade de recém-casada, enquanto fazia o estágio. Depois o patrono, patrão e papá decidiu morrer com um filho da puta de um cancro que não deu tempo de avisar ninguém e lhe deixou o escritório e a clientela. Ela ficou sozinha a mandar no escritório onde também trabalhava o jovem marido. A competição quebrou a paixão e seguindo a moda do final dos anos setenta, a Teresa separou-se, não sem antes parir um rapaz. O seu filho mais velho, de um menino calado, cresceu para um biólogo-marinho calado, que lhe deu três netas lindas que fazem a sua felicidade. Dois anos depois, casou-se novamente com um amigo de adolescência que era gestor de fortunas. Estava-se nos anos oitenta, o gestor já tinha uma filha e quis um filho. A Teresa deu-lhe o filho e deu-lhe o divórcio quando percebeu que o gestor gastava mais do que o que ganhava e queria gastar o património da família. Criou os dois rapazes sozinha. O segundo filho, frágil e sensível, fez um curso de cozinha e vive em Barcelona com um namorado catalão. Têm um restaurante de luxo onde a Teresa vai com frequência. Já ultrapassada a barreira dos cinquenta, a ainda bela Tété voltou a casar-se com um colega e amigo com quem viveu doze anos de cumplicidade e doméstica felicidade, uma harmonia discreta que terminou na manhã em que a Teresa acordou viúva e o marido acordou morto.

Depois foram mais meia-dúzia de anos em viagens aos Açores para estar com o filho e com as netas e escapadas a Barcelona para ver o seu filho mais novo e sair da rotina. De resto, tem sido trabalhar e tratar da mãe que já velhota, resiste vivendo na sua própria casa e que é preciso ir acompanhando estando presente. Foi assim até há coisa de dois meses.

Andava já há uns tempos a sentir-se esquisita. Há dois meses fez exames e chumbou. Descobriram-lhe qualquer coisa. Qualquer coisa má. Entretanto fizeram-lhe mais exames para confirmar. Confirmou-se o pior. Avisou os filhos e disse à mãe que precisava de se tratar.

Na semana passada começou a ter dores. Internou-se numa clínica privada caríssima. Os filhos vieram ter com ela. Estão a dar-lhe medicação.

O médico, um velho amigo, íntimo com quem em tempos teve um caso, foi claro quando chegaram os resultados que reconfirmavam a prova dos exames.

-        Tété, tu és minha amiga, não te vou mentir. Não te vou tratar porque não há tratamento. Ambos sabemos quem somos e o que queremos. Vou aliviar-te as dores. Não quero que sofras.

Ambos ficaram calados depois da conversa que terminou ali.

Ambos sabiam quem eram.

O médico falou com as enfermeiras: aquela senhora que está no quarto número 9 é minha amiga, não quero que sofra... assumo toda a responsabilidade, mas quero que lhe sejam administradas as dosagens que forem precisas para que a Dra. Teresa não sofra.

E assim tem acontecido. Não tem tido dores. Tem dormido, sonhado, dormido e sonhado mais. O cérebro entre o sono e a vigília, a ir buscar coisas antigas de infância e de adolescência... coisas arrumadas há muito nos cantos poeirentos da memória... Hoje de manhã, aquela memória da noite na Praia da Rocha. Como se o cérebro fizesse as despedidas que a Teresa não pôde fazer.

Hoje o turno mudou às dezasseis. A enfermeira Mara, veio pela primeira vez ao quarto nove. É uma mulher madura, uma excelente enfermeira, muito competente. Tem o corpo grande é negra e linda e trata os doentes com um misto de autoridade e carinho que lhes dá a segurança que precisam. Quando a enfermeira Mara entrou, perguntou à doente como se sentia.

A Teresa, abriu muito os olhos e disse que não tinha medo.

-        Não tenho medo Senhora, não tenho medo, lembrei-me de tudo... vou sem medo dar o meu mergulho...

A enfermeira, com experiência dos seus quase vinte anos de trabalho, percebeu que a paciente estava a delirar. Segurou a mão da Teresa, fez-lhe um carinho na face, disse que sim e saiu.

Neste momento, o médico está a escrever no atestado de óbito que o local da morte é na morada da clínica onde é diretor. Sabemos que é mentira. Sabemos não foi ali naquela cama que a Teté morreu. Sabemos que a Teresa, depois de falar com a enfermeira Mara, levantou-se da cama, arrancou o soro do braço picado e mergulhou na noite nas águas do Atlântico algarvio.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O AMOR É DA COR DE UM GATO, de Vanessa Lourenço
















(Comecemos por dizer que é também da cor de um cão, mas isso traz uma abordagem diferente que será partilhada noutra ocasião.)


O verdadeiro amor, aquele que nos atira na direcção do infinito e para lá de tudo aquilo que poderíamos desejar, não tem nada de cor-de - rosa. Nada nele é meio termo, nada nele é morno, nada nele se faz sentir apenas para nos fazer sentir melhor. Nada no verdadeiro amor finge que acredita, nada nele finge que dá, nada nele coloca sobre quem nós somos paninhos quentes ou empurra desentendimentos para debaixo do tapete (a menos que seja um tapete novo e ainda não se note). O verdadeiro amor dá turrinhas, mas também arranha violentamente; usa a caixa de areia, mas espalha a areia pelo chão; ronrona profundamente, mas rosna de indignação; dorme longas sestas no mesmo sofá onde afia as unhas, apenas porque está ali mesmo à mão.

O amor é da cor de um Gato.

Se eu tivesse que escolher a maior lição que os gatos da minha vida me permitiram recordar, seria esta.

O amor é da cor de um Gato.

Porque quando nos entregamos, não nos entregamos apenas aos colinhos bons e ronronares reconfortantes. Como eu disse acima, não existe nada de cor-de -rosa no amor verdadeiro. O amor verdadeiro é feito de turrinhas doces e garras afiadas, porque não sabe ser outra coisa que não fiel a si mesmo. O amor verdadeiro exige mas não impõe, arrisca mas não se perde, persiste mas não perde a dignidade que lhe assiste.

O amor verdadeiro é da cor de um Gato.

Quando arriscamos tudo em nome do amor verdadeiro, arriscamos tudo em nome das suas garras também. Das suas manias. Do seu pêlo solto. Dos dentes afiados e da mania de que percebem de feng-shui e libertam os nossos móveis de tudo o que não pertence lá. Observem um gato caminhando elegantemente sobre um corrimão impossívelmente estreito: quanto mais nos arriscamos em nome do nosso amor, mais nos entusiasmamos, mais nos enchemos de luz. Mas num equilíbrio perfeito (imaginem de novo o gato caminhando no corrimão), um extremo não sobrevive sem o seu oposto. Quanto mais arriscamos no amor, mais arriscamos ser feridos por ele. E sentir medo. Todo o acto de amor tem um preço, e às vezes esse preço é cair do corrimão e começar tudo de novo. Como se não fosse nada, porque na verdade é tudo.


Porque o amor verdadeiro não é cor-de-rosa. É da cor de um gato.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

ÀS VEZES, GOSTAVA DE SER UM POLVO, PARA PODER ESBOFETEAR OITO PESSOAS AO MESMO TEMPO, de MBarreto Condado















Não sei quem escreveu esta máxima, mas estava inconscientemente a pensar em mim.
A minha lambada tentacular fica-se mesmo pela rua onde vivi em Lisboa.

Vou tentar levar-vos numa breve visita guiada ao Parque do qual não irei pronunciar o nome, mas que ultimamente não nos faz nada “Bem à Saúde”. Da porta da minha antiga casa à entrada do dito Parque são uns meros vinte metros.

Este pequeno pedaço de paraíso nos últimos anos passou a ser uma viagem sem cinto de segurança na mais alta montanha russa do mundo.

Refiro-me aos donos dos canídeos frequentadores esporádicos do parque (sendo eu uma mãe humana de alguns deles e utilizadora do mesmo, sinto que posso falar com razão de causa). Gostava por isso de lhes repetir como uma mantra algumas regras básicas de viver em comunidade e limpeza, que parecem AINDA não ter apreendido.

Primeiro, e atenção, que isto pode soar como uma novidade para muitos (neste momento deviam ressoar trompetas) “Os dejectos dos vossos cães ainda não levitam na direcção dos caixotes, e por muito inteligentes que eles sejam ainda não conseguem fazê-lo por si”.
Aproveito para sugerir que estendam a mão envolta num plástico e apanhem a dita cáca (uso o termo carinhoso para não ferir susceptibilidades).

E que no final de mais um dia tentei evitar os campos minados por eles plantados. Com sorte acabam por levar a vossa própria merda (a sensibilidade foi-se assim que pisei uma destas minas) agarrada à sola dos vossos sapatos (os dois de preferência).

Mas alarguemos o raio de desagrados.

O grupo de jardineiros que mantinha o espaço impecável (podíamos comer directamente do chão, não é que alguém tenha tentado) foi substituído por uma nova trupe de modernos malabaristas. O lixo passou a ser recolhido somente uma vez por semana ou quando alguém consegue reclamar sem se tornar persona non grata.

O lago que já tinha o seu próprio ecossistema foi por insistência superior “limpo” e neste momento parece uma papa de blandiblub (quem teve a felicidade de viver nos anos oitenta sabe do que falo).

O varrer foi substituído pelo soprador de folhas. Escusado será dizer que com a nuvem de pó que se levanta, é aconselhado marcar o caminho com migalhas qual Hansel e Gretel, se quiser regressar a casa.

O sistema de rega passou a aplicar-se somente a um canteiro, já avisei os jardineiros que aquelas não são plantas aquáticas, mas penso que a mensagem não chegou ao receptor. Mas mais importante ainda não me podia esquecer das obras que tiveram início no primeiro dia da abertura do Parque e que se estendem até aos dias de hoje, já lá vão mais de dez anos.
Assisti com tristeza ao destruir de muros centenários da antiga quinta, da estufa fria, mas o que mais me custou foi presenciar o corte de árvores centenárias.

A minha única esperança para este espaço é que quando o senhor lá de cima acordar (aquele a quem chamam Pedro) nos envie o tão desejado pequeno dilúvio para nos limpar dos pecados, da porcaria, das novas paredes em betão. E se possível que as mesmas sejam levadas com a corrente.

Agora que já esbofeteei quem merecia com os meus modestos tentáculos acabo com as sábias palavras da Dory (que a estas horas ainda deve andar à procura do Nemo):
“To vendoo, to vendo uma luz! Ó consciência, eu morri?”

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

RÉDEA CURTA, de Maria Cecília Garcia
















Os Ventos de Abril não trouxeram apenas a liberdade para o país, acompanhando essas mudanças, eu própria mudava também.

“Ainda escutava a voz da minha mãe na minha cabeça, mas era uma voz cada vez mais longínqua. Quanto mais perto de mim ela estava, mais remota era a sua voz.

Sentia a rédea curta do cordão umbilical, mas era cada dia mais tenso, esticado, tinha medo de puxar com força com receio de provocar um sangramento doloroso. Esticava-o devagarinho, agitava o corpo na esperança de que ele se soltasse. Mas nada pode mudar sem provocar alguma dor e sentimentos de dúvida e desamparo. Porém, se não forem amputados, esses laços apodrecem e gangrenam. Separados cada alma cresce livre e procura o seu caminho. É assim que a natureza determina e o espírito precisa.

Por vezes apetecia-me correr sem pensar nesse fio castrador e provocar uma hemorragia mortal. Outras vezes sentia-me pequenina e só queria voltar ao ventre protector, onde não tinha que pensar ou fazer escolhas.

Incoerências de uma alma à procura de si própria.

Para ela também devia ser doloroso abrir as mãos e aceitar o descerrar das asas dos filhotes. E por vezes essa dor se manifesta dando mostras de decepção causando sentimentos de culpa nos filhos por pretenderem sair à procura da sua liberdade. Não é falta de amor o que os leva, é amor pela vida. Ninguém pode viver a vida dos outros.

Ela era o ser que eu mais amava, mas era a pessoa mais difícil de agradar. Estava decidida a levar-nos a todos para o Céu, e para isso, tentava apoderar-se do nosso espírito e negava-nos o livre arbítrio.
Para ela só havia um caminho, uma linha recta, uma estrada segura sem paisagens nem desvios. Eu escolhi uma estrada de altos e baixos, com paisagens e precipícios onde pudesse apreciar o desconhecido. Como um peregrino, dei os primeiros passos, insegura, o medo fez-me deixar marcas com reticências, caso quisesse voltar. E voltei, algumas vezes retrocedi, mas as marcas tinham perdido as reticências, tinham sido arrancadas pelo vento, ou levadas pelos pássaros, e eu já não era a mesma pessoa.

Ao longo da minha jornada algumas vezes quis voltar, mas não quis. Ao longo da marcha fortaleciam-se os músculos e o espírito. Cresciam sonhos como asas.

O que importava não era chegar, mas aprender na caminhada, olhar para trás e admirar as montanhas, vales e precipícios ultrapassados. Sorrir, e continuar a andar.”

In: A Filha da Mãe- Os pedacinhos que faltavam
Chiado Books-2018

domingo, 8 de dezembro de 2019

A FONTE DOS LIVROS, de Vanessa Lourenço















Deixou-se cair na cadeira com o entusiasmo de quem ouve o tiro de partida e arranca, munido do desejo de deixar cair limites e rótulos alheios. Respirou fundo, fitou o monitor com os olhos brilhantes e acariciou com ternura o teclado com as pontas dos dedos. No silêncio, demorou-se ainda a vaguear pelo potencial infinito do mundo que estava prestes a criar, o que sentiria quando tivesse nas mãos a obra nascida do seu trabalho? O que sentiria quando a visse finalmente nascer? Estaria o mundo lá fora, disposto a aceitá-la?

Sorriu, talvez sem sequer se aperceber. Franziu as sobrancelhas, respirou fundo e acendeu um cigarro. Fechou os olhos e disse, de si para si mesmo:

- Mostra-me.

Durante um bom par de minutos, nada aconteceu. O cigarro apagou, a folha de word em branco teimava em fitá-lo com desdém, e começou a sentir-se frustrado. Levantou-se da cadeira, esticou pernas e costas e foi beber um copo de água. Voltou. Sentou-se. Acariciou de novo o monitor com as pontas dos dedos:

- Mostra-me.

Silêncio.

Mexeu-se desconfortavelmente na cadeira, fitou as mãos sem realmente as ver e pousou-as de novo no teclado. Quando se preparava para se levantar de novo em busca de coisa nenhuma, ouviu a Fonte dizer:

- O que queres de mim? Porque me chamaste?

Não ficou surpreendido, nem sequer estremeceu. Conhecia bem a Fonte de outras aventuras, e sabia como podia ser caprichosa:

- Tu sabes o que eu quero. Tão bem como sabes, que não vou suplicar.

A Fonte vangloriou-se:

- Foste um bom aluno.

Esfregou demoradamente a cara com as mãos, fazendo os óculos saltar. Suspirou:

- Ajuda-me a deixá-los entrar. Posso mostrar-lhes o caminho, mas precisam da tua luz. Não te estou a dar novidade nenhuma.

A Fonte riu com prazer, e as suas gargalhadas ecoaram pela divisão fechada. Ele encolheu os ombros e suspirou, impotente. Porque tinha ela que ser sempre assim, arrogante? Finalmente, ela parou de rir:

- Onde está o teu sentido de humor? Sempre tão cheio de recursos, porque não usas uma vela? O que tem a minha luz de especial?

Semicerrou os olhos e murmurou, entredentes:

- Tu sabes perfeitamente porquê, foste tu que me desvendaste esse segredo. As velas podem iluminar o caminho neste mundo, mas só a tua luz ilumina aqueles que, de outros mundos, precisam de luz para cá chegar.

A Fonte ficou em silêncio durante alguns instantes. Tê-la-ia convencido?

Não tardou a descobrir. Uns momentos mais tarde, a Fonte replicou:

- Tu sabes como funciona: uma vez iluminado o caminho, eles vão chegar. E não poderás voltar atrás.

Ele sorriu melancolicamente:

- Sabes tão bem como eu, que a missão deles é inspirar o mundo. E só podem fazê-lo através de nós.

A Fonte suspirou longamente. Finalmente, disse:

- Nem todos estão preparados para os compreender.

Ele respondeu:

- Mas aqueles que estiverem, verão as suas vidas mudadas para sempre. Não foste tu que me ensinaste que eles não querem mudar o mundo, mas apenas abrir a porta a quem quiser entrar?

A Fonte assentiu, ele era sem dúvida um dos seus melhores alunos.

No momento seguinte, ele pousou de novo os dedos no teclado. Respirou fundo, e esperou pacientemente. Ao mesmo tempo, numa dimensão situada algures entre a nossa realidade e o nosso maior potencial, a Fonte Criativa tornou-se luz. E através dela caminharam heróis e vilões, anjos e mestres, obstáculos e verdades capazes de mudar o mundo. Misturadas com dragões e cavalos brancos, castelos distantes e grutas escuras e misteriosas. Um por um, rodearam o escritor. Alguns sentaram-se em redor da secretária, outros pousaram gentilmente as mãos etéreas nos seus ombros. E ele sorriu. Pousou os dedos no teclado, e começou a escrever.




sábado, 7 de dezembro de 2019

SOCIEDADE, de Mafalda Pascoal















“Não podemos”
“Não devemos”
Frases soltas que ao descodifica-las
Nada são
Perante tudo o que nos rodeia
A imensidão do céu
O infinito do Cosmo
Não podemos o quê?...
Não devemos porquê?...
Porque nos educam dessa forma?...
Quem foi o primeiro a limitar-nos a Liberdade?...
Quem foi o primeiro que não errou?...
Quem será o primeiro que não vai errar?...
Não nos sirvam de desculpa estas interrogativas
Simplesmente sejamos transparentes
Antes de acusar
Tentemos pormo-nos no lugar do outro
O tecto que se chama céu
É igual para todos
O planeta que se chama Terra
É de todos os humanos
Porquê tanto racismo entre as pessoas?
Sejamos complacentes, ninguém detém a verdade
Ou a perfeição
Cada ser humano pulsa de forma diferente
Cada ser humano sente diferente em cada momento da sua vida
Porquê tanta recriminação?
Porquê tanta perseguição?
Libertem-se
Só dessa forma, tudo flui, tudo é leve
Plantemos por todo o lado
O Amor, o Carinho, a Alegria
Cada ser humano é especial, é único
Dentro de cada um de nós
Há uma irradiação esplêndida
E cada um de nós deve deixar essa luz
Contagiar tudo o que nos rodeia
Saltemos, cantemos, brinquemos
Sejamos crianças eternamente.