terça-feira, 10 de dezembro de 2019

RÉDEA CURTA, de Maria Cecília Garcia
















Os Ventos de Abril não trouxeram apenas a liberdade para o país, acompanhando essas mudanças, eu própria mudava também.

“Ainda escutava a voz da minha mãe na minha cabeça, mas era uma voz cada vez mais longínqua. Quanto mais perto de mim ela estava, mais remota era a sua voz.

Sentia a rédea curta do cordão umbilical, mas era cada dia mais tenso, esticado, tinha medo de puxar com força com receio de provocar um sangramento doloroso. Esticava-o devagarinho, agitava o corpo na esperança de que ele se soltasse. Mas nada pode mudar sem provocar alguma dor e sentimentos de dúvida e desamparo. Porém, se não forem amputados, esses laços apodrecem e gangrenam. Separados cada alma cresce livre e procura o seu caminho. É assim que a natureza determina e o espírito precisa.

Por vezes apetecia-me correr sem pensar nesse fio castrador e provocar uma hemorragia mortal. Outras vezes sentia-me pequenina e só queria voltar ao ventre protector, onde não tinha que pensar ou fazer escolhas.

Incoerências de uma alma à procura de si própria.

Para ela também devia ser doloroso abrir as mãos e aceitar o descerrar das asas dos filhotes. E por vezes essa dor se manifesta dando mostras de decepção causando sentimentos de culpa nos filhos por pretenderem sair à procura da sua liberdade. Não é falta de amor o que os leva, é amor pela vida. Ninguém pode viver a vida dos outros.

Ela era o ser que eu mais amava, mas era a pessoa mais difícil de agradar. Estava decidida a levar-nos a todos para o Céu, e para isso, tentava apoderar-se do nosso espírito e negava-nos o livre arbítrio.
Para ela só havia um caminho, uma linha recta, uma estrada segura sem paisagens nem desvios. Eu escolhi uma estrada de altos e baixos, com paisagens e precipícios onde pudesse apreciar o desconhecido. Como um peregrino, dei os primeiros passos, insegura, o medo fez-me deixar marcas com reticências, caso quisesse voltar. E voltei, algumas vezes retrocedi, mas as marcas tinham perdido as reticências, tinham sido arrancadas pelo vento, ou levadas pelos pássaros, e eu já não era a mesma pessoa.

Ao longo da minha jornada algumas vezes quis voltar, mas não quis. Ao longo da marcha fortaleciam-se os músculos e o espírito. Cresciam sonhos como asas.

O que importava não era chegar, mas aprender na caminhada, olhar para trás e admirar as montanhas, vales e precipícios ultrapassados. Sorrir, e continuar a andar.”

In: A Filha da Mãe- Os pedacinhos que faltavam
Chiado Books-2018

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