quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O AMOR É DA COR DE UM GATO, de Vanessa Lourenço
















(Comecemos por dizer que é também da cor de um cão, mas isso traz uma abordagem diferente que será partilhada noutra ocasião.)


O verdadeiro amor, aquele que nos atira na direcção do infinito e para lá de tudo aquilo que poderíamos desejar, não tem nada de cor-de - rosa. Nada nele é meio termo, nada nele é morno, nada nele se faz sentir apenas para nos fazer sentir melhor. Nada no verdadeiro amor finge que acredita, nada nele finge que dá, nada nele coloca sobre quem nós somos paninhos quentes ou empurra desentendimentos para debaixo do tapete (a menos que seja um tapete novo e ainda não se note). O verdadeiro amor dá turrinhas, mas também arranha violentamente; usa a caixa de areia, mas espalha a areia pelo chão; ronrona profundamente, mas rosna de indignação; dorme longas sestas no mesmo sofá onde afia as unhas, apenas porque está ali mesmo à mão.

O amor é da cor de um Gato.

Se eu tivesse que escolher a maior lição que os gatos da minha vida me permitiram recordar, seria esta.

O amor é da cor de um Gato.

Porque quando nos entregamos, não nos entregamos apenas aos colinhos bons e ronronares reconfortantes. Como eu disse acima, não existe nada de cor-de -rosa no amor verdadeiro. O amor verdadeiro é feito de turrinhas doces e garras afiadas, porque não sabe ser outra coisa que não fiel a si mesmo. O amor verdadeiro exige mas não impõe, arrisca mas não se perde, persiste mas não perde a dignidade que lhe assiste.

O amor verdadeiro é da cor de um Gato.

Quando arriscamos tudo em nome do amor verdadeiro, arriscamos tudo em nome das suas garras também. Das suas manias. Do seu pêlo solto. Dos dentes afiados e da mania de que percebem de feng-shui e libertam os nossos móveis de tudo o que não pertence lá. Observem um gato caminhando elegantemente sobre um corrimão impossívelmente estreito: quanto mais nos arriscamos em nome do nosso amor, mais nos entusiasmamos, mais nos enchemos de luz. Mas num equilíbrio perfeito (imaginem de novo o gato caminhando no corrimão), um extremo não sobrevive sem o seu oposto. Quanto mais arriscamos no amor, mais arriscamos ser feridos por ele. E sentir medo. Todo o acto de amor tem um preço, e às vezes esse preço é cair do corrimão e começar tudo de novo. Como se não fosse nada, porque na verdade é tudo.


Porque o amor verdadeiro não é cor-de-rosa. É da cor de um gato.

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