sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

NOTURNO ARCO-ÍRIS – NAS ÁGUAS NOTURNAS E ESCURAS DO ATLÂNTICO ALGARVIO















Passaram muitos anos, mas a Teresa tem a certeza que não foi um sonho, tem a certeza que estava acordada. E mesmo que não estivesse, que importância tem um encontro noturno cinquenta anos depois, se foi sonhado ou vivido? Para ela as memórias são claras.
A Teresa tem a certeza que estava acordada e que não sonhou.

Era uma miúda, tinha dezoito anos feitos há meses. Mas lembra-se como se tivesse sido hoje, como se tivesse sido há bocadinho. Passaram quase cinquenta anos desde aquela noite, mas ela lembra-se bem. Lembra-se de tudo até aos mais ínfimos detalhes. Veio tudo à memória como um filme. Reviu e reviveu tudo na sua cabeça esta manhã bem cedo, quando a enfermeira Sandra lhe veio mudar o soro.
Lembra-se até da roupa que tinha vestida naquela noite de agosto de 1973. Tinha umas calças de ganga que toda a gente lhe dizia que lhe ficavam bem, tinha uma túnica vermelha e amarela que o pai lhe tinha trazido de uma viagem a Luanda e tinha umas socas brancas com taxas douradas. Foi durante aquelas férias de verão, no hotel na Praia da Rocha. As férias de verão que mais a marcaram para a vida. Essas férias estiveram sempre presentes na sua memória, mas aquele episódio em concreto, naquela noite, foi-lhe apagado e só voltou nesta manhã. Mas agora lembra-se bem. Lembra-se de tudo.

Estava uma noite quente e sem lua. Foi na Praia da Rocha, ainda a Praia da Rocha era a Praia da Rocha, um lugar especial e reservado para as classes altas. A praia quase isolada com meia dúzia de hotéis e sem ser o que depois fizeram dela.

Ela estava com a melhor amiga, a Paula. Estavam com um grupo de amigos ingleses. Eram ambas lindas, rebeldes e ricas a descobrirem a liberdade que os papás financiavam nas areias do Algarve. Nessa noite beberam Mateus Rosé, fumaram em roda um proibidíssimo charro de uma erva e havia alguém a tocar uma guitarra. Ela tinha acabado de entrar na faculdade de direito de Lisboa, considerava-se uma livre-pensadora, mas não era mais do que uma burguesinha bem-intencionada. O pai, advogado rico e bem relacionado, tinha vindo a aproximar-se da oposição democrática como ditavam as modas burguesas daquele ano. Por coerência e civilização fazia por dar liberdade à filha.  
A mãe criticava a soltura dos tempos ié-ié, mas estava solidária com as amigas da canastra e nas noites do Algarve abria mão da moral conservadora dando liberdade à menina. Agora mais descansada porque o namorico da filha com o furriel comuna tinha terminado com a ida do barbudo para a Guiné.

A Tété aproveitava a liberdade. Não sofria de amores ao contrário do que os pais pensavam. No furriel, pouco pensava. O tal furriel que não era comunista, mas sim maoísta, tinha sido um caso superficial. Ambos tinham decidido não ter um namoro burguês. A Teresa, na realidade tinha saído com ele mais para chatear os pais e para marcar uma posição de rebelde do que por afeto. Também precisava de uma razão para começar a tomar a pílula e o rapaz servia perfeitamente para isso. Nessas férias de verão embebedou-se pela primeira vez e pela primeira vez experimentou o sabor quente e orgânico da liamba. Também nessas férias, pela primeira vez amou na praia só porque lhe apetecia. A liberdade era boa… sobretudo sem contas para pagar e a Tété desfrutava.

Foi hoje de manhã que lhe vieram à memória todos os detalhes daquela noite. Lembrou-se que não lhe apeteceu ficar com o inglês com quem tinha passado a tarde. Ele a falar-lhe dos Pink Floyd e ela com vontade de amar na água fria entre as rochas. Depois, à noite era ele que queria amar e ela que não queria. Aproveitou o pretexto de ter de fazer xixi e afastou-se do grupo para junto de umas rochas grandes que ainda lá estão. Lembra-se que ficou a olhar as estrelas e a pensar nos encontros e desencontros do amor. 

Deitou-se na areia húmida a ver o céu escuro com pontinhos luminosos ao longe e ficou a sentir a água das ondas mansas que quase lhe molhavam os pés.

Foi então que aconteceu.

Ouviu aquele som, um canto. Um suave quanto. Suave, mas forte e profundo. Parecia vindo do fundo do mar. A Teresa não teve medo. Lembra-se bem que se sentou e ficou a olhar para as águas escuras. Viu que era uma mulher a cantar dentro de água. Uma mulher madura, grande, negra e linda. A mulher estava nua e a água dava-lhe pelo umbigo. A pele era tão escura como a noite, via-se o perfil dos peitos grandes e perfeitos, o branco dos dentes pequenos de peixe e o branco dos olhos escuros e brilhantes. Não lhe via a cara, mas percebia que a mulher sorria.

Lembra-se que se levantou e que deu dois passos para dentro de água. A senhora que cantava, com a mão aberta mandou-a parar e continuou a cantar. E ela ficou ali, de pé, com as ondas a virem lamber-lhe os tornozelos e as canelas. Deixou-se ficar a ouvir.

A canção era numa língua desconhecida, mas a Teresa percebeu o sentido de todas as palavras.

Vais ser mãe de dois filhos e avó de três netas. Vais ser mãe da tua mãe. Aproveita o convívio com o teu pai que será breve. Terás uma vida confortável e encontrarás o amor nos teus pais, filhos e netos. Vais viver três casamentos, dois divórcios e uma viuvez. Amarás por períodos curtos e intensos. A tua vida vai ser cheia, mas partirás demasiado cedo para os que te querem. Vais perceber que vais morrer quando te disserem que estás doente, mas que vão fazer tudo para te curar. Esquecerás tudo o que te disse agora durante muitos anos. Quando te lembrares deste momento, saberás que o momento está próximo. Vais ver-me no corpo de outra pessoa que cuidará de ti, e nesse momento perceberás que chegou a tua hora. Não tenhas medo. A morte é como um mergulho num mar tépido numa noite de verão. Agora volta a deitar-te na areia, dorme e esquece que falámos.

A Senhora disse tudo isto à Teresa no seu canto noturno.

Depois, deixou de cantar e por um segundo ficaram a olhar-se as duas com um sorriso cúmplice e afetuoso entre ambas. Acabado esse breve tempo, a Senhora virou as costas nuas e mergulhou nadando para o fundo. No fim das costas, em vez de um rabo proporcional à beleza, estava o corpo de uma corvina grande, com escamas de cor preta que refletiam as estrelas. Foi a cauda de um peixe grande a última coisa que a Teresa viu a desaparecer no mar.

Depois deitou-se na praia e adormeceu. E não voltou a lembrar-se desse encontro esta manhã.

Foi a Paula que a acordou. Tété, são quase cinco horas e está a ficar de dia... temos de ir.

Foram.

O verão passou a correr. No outono e inverno seguinte o primeiro ano de direito. A Teresa a marcar presença com o seu brilhantismo e a sua beleza rebelde. Depois, na primavera veio a revolução. A Teresa entrou de cabeça na vida política militando no MRPP que era o que lhe parecia mais radical. Acabado o curso, deixou-se de políticas, casou e ficou a trabalhar com o pai. Foram breves aqueles meses de felicidade de recém-casada, enquanto fazia o estágio. Depois o patrono, patrão e papá decidiu morrer com um filho da puta de um cancro que não deu tempo de avisar ninguém e lhe deixou o escritório e a clientela. Ela ficou sozinha a mandar no escritório onde também trabalhava o jovem marido. A competição quebrou a paixão e seguindo a moda do final dos anos setenta, a Teresa separou-se, não sem antes parir um rapaz. O seu filho mais velho, de um menino calado, cresceu para um biólogo-marinho calado, que lhe deu três netas lindas que fazem a sua felicidade. Dois anos depois, casou-se novamente com um amigo de adolescência que era gestor de fortunas. Estava-se nos anos oitenta, o gestor já tinha uma filha e quis um filho. A Teresa deu-lhe o filho e deu-lhe o divórcio quando percebeu que o gestor gastava mais do que o que ganhava e queria gastar o património da família. Criou os dois rapazes sozinha. O segundo filho, frágil e sensível, fez um curso de cozinha e vive em Barcelona com um namorado catalão. Têm um restaurante de luxo onde a Teresa vai com frequência. Já ultrapassada a barreira dos cinquenta, a ainda bela Tété voltou a casar-se com um colega e amigo com quem viveu doze anos de cumplicidade e doméstica felicidade, uma harmonia discreta que terminou na manhã em que a Teresa acordou viúva e o marido acordou morto.

Depois foram mais meia-dúzia de anos em viagens aos Açores para estar com o filho e com as netas e escapadas a Barcelona para ver o seu filho mais novo e sair da rotina. De resto, tem sido trabalhar e tratar da mãe que já velhota, resiste vivendo na sua própria casa e que é preciso ir acompanhando estando presente. Foi assim até há coisa de dois meses.

Andava já há uns tempos a sentir-se esquisita. Há dois meses fez exames e chumbou. Descobriram-lhe qualquer coisa. Qualquer coisa má. Entretanto fizeram-lhe mais exames para confirmar. Confirmou-se o pior. Avisou os filhos e disse à mãe que precisava de se tratar.

Na semana passada começou a ter dores. Internou-se numa clínica privada caríssima. Os filhos vieram ter com ela. Estão a dar-lhe medicação.

O médico, um velho amigo, íntimo com quem em tempos teve um caso, foi claro quando chegaram os resultados que reconfirmavam a prova dos exames.

-        Tété, tu és minha amiga, não te vou mentir. Não te vou tratar porque não há tratamento. Ambos sabemos quem somos e o que queremos. Vou aliviar-te as dores. Não quero que sofras.

Ambos ficaram calados depois da conversa que terminou ali.

Ambos sabiam quem eram.

O médico falou com as enfermeiras: aquela senhora que está no quarto número 9 é minha amiga, não quero que sofra... assumo toda a responsabilidade, mas quero que lhe sejam administradas as dosagens que forem precisas para que a Dra. Teresa não sofra.

E assim tem acontecido. Não tem tido dores. Tem dormido, sonhado, dormido e sonhado mais. O cérebro entre o sono e a vigília, a ir buscar coisas antigas de infância e de adolescência... coisas arrumadas há muito nos cantos poeirentos da memória... Hoje de manhã, aquela memória da noite na Praia da Rocha. Como se o cérebro fizesse as despedidas que a Teresa não pôde fazer.

Hoje o turno mudou às dezasseis. A enfermeira Mara, veio pela primeira vez ao quarto nove. É uma mulher madura, uma excelente enfermeira, muito competente. Tem o corpo grande é negra e linda e trata os doentes com um misto de autoridade e carinho que lhes dá a segurança que precisam. Quando a enfermeira Mara entrou, perguntou à doente como se sentia.

A Teresa, abriu muito os olhos e disse que não tinha medo.

-        Não tenho medo Senhora, não tenho medo, lembrei-me de tudo... vou sem medo dar o meu mergulho...

A enfermeira, com experiência dos seus quase vinte anos de trabalho, percebeu que a paciente estava a delirar. Segurou a mão da Teresa, fez-lhe um carinho na face, disse que sim e saiu.

Neste momento, o médico está a escrever no atestado de óbito que o local da morte é na morada da clínica onde é diretor. Sabemos que é mentira. Sabemos não foi ali naquela cama que a Teté morreu. Sabemos que a Teresa, depois de falar com a enfermeira Mara, levantou-se da cama, arrancou o soro do braço picado e mergulhou na noite nas águas do Atlântico algarvio.


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