domingo, 28 de junho de 2020

DIVULGAÇÂO LITERÁRIA | LIVRO DE VOZES E SOMBRAS, de João de Melo - DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 30 de Junho


Cláudia Lourenço, jornalista, é enviada de Lisboa à ilha de São Miguel ao serviço do Quotidiano. Tem por missão entrevistar um conhecido ex-‑operacional da Frente de Libertação dos Açores e reaver a crónica do independentismo insular durante a Revolução. Depara-se-lhe um homem-‑mistério, voz e sombra do jogador, das suas verdades que mentem, das suas mentiras que dizem a verdade. Ela, que pertence à «geração seguinte», não parece ter memória histórica do país de então: vive no de agora, e o passado é um território longínquo, cuja narração flui no interior de um imaginário algo obscuro. A história da FLA (e a da FLAMA, na Madeira) comporta em si o «país de todos os regressos»: a Ditadura, o fim das guerras em África, a descolonização e o «retorno» à casa europeia pelos caminhos de volta, os mesmos que levaram as naus a perder-se nos mares da partida. O país que a si mesmo se descoloniza vibra na exaltação revolucionária. E é dos avanços e recuos dessa Revolução que nasce a tentação separatista do arquipélago.
Uma narrativa triangular cujos vértices e sequências assentam sobre Lisboa, África e Açores.


sábado, 27 de junho de 2020

O SÓTÃO, de Fernando Teixeira















Entrou, accionou o interruptor de uma lâmpada mortiça e, inexplicavelmente, porque vivia sozinho, fechou a porta à chave pelo interior. Talvez esse gesto, mecânico ou pensado, só ele o poderia dizer, fosse indicativo daquilo que se propunha fazer naquele espaço da casa que fora o seu local de trabalho, mas também de lazer, durante décadas. Como se o rodar da chave, na fechadura da porta, criasse uma barreira de que necessitava para se sentir protegido de olhares invisíveis, isolando-o de censuras ocultas.
À medida que os anos lhe atravessavam a velhice e lhe pesavam nas pernas, cada vez mais evitava subir as escadas de acesso ao sótão, tanto assim que, providencialmente, mudara alguns livros para a salinha térrea, literatura que o ajudava a consumir o tempo quando a meteorologia não lhe permitia dar pequenos passeios pelas ruas empedradas da aldeia, sempre com o propósito de encontrar alguns conterrâneos para dois dedos de conversa.
Abriu as portadas de uma janela, depois as de outra oposta, permitindo que o espaço se inundasse de luz diurna e revelasse melhor duas paredes revestidas de estantes corridas, com tudo o que permanecia ali: obras literárias, revistas antigas, livros técnicos, sebentas, dossiers cheios de legislação e regulamentos, esboços, apontamentos, projectos e trabalhos realizados ao longo de uma vida profissional. Memórias…
Apagou a lâmpada incandescente e, por alguns momentos, deixou-se ficar estático no meio do sótão, olhando uma e outra estante, submergido pela visão de dezenas e dezenas de volumes, uma enorme quantidade de papel, parte dele amarelecido pelo tempo e pelo pó, sem saber muito bem por onde começar. Como se o seu corpo franzino ganhasse outro peso sobre o chão de tábuas corridas, dificultando-lhe o primeiro passo.
Desviou o olhar para uma secretária de madeira escura, num canto junto a uma das janelas, ainda com algumas canetas e utensílios de escritório, ali esquecidos. Com um leve sorriso, apenas um esgar de recordação, lembrou-se de uma vez em que uma das suas namoradas, por sinal uma das mais bonitas e meigas, também algo atrevidota, e como ele gostava disso, se sentara de saia plissada no bordo do tampo e o puxara para si. O que se seguira, não o esquecera nunca, emergia quando ali ia, embora o tempo se tivesse encarregado de tornar esse momento de êxtase numa aguarela esbatida.
A recordação teve o condão de o incentivar. Tinha dedicado essa manhã para iniciar a tarefa a que se propunha, continuá-la-ia durante a tarde e, sabia-o bem, iria necessitar de outras manhãs e tardes para a concluir. Mas a idade ensinara-o a fazer as coisas sem pressa.
Decidiu deixar o que lhe parecia mais fácil para o fim. Reservaria alguns livros de literatura para oferecer à Biblioteca da Junta de Freguesia, inaugurada dois anos antes. Conservaria consigo aqueles que mais estimava, alguns romances “clássicos” e outros que lera mais do que uma vez, ou que tinham algum significado especial para si.
A parte complicada da arrumação era seleccionar o que descartar nesta fase da sua vida. O que já não interessava, aquilo em que nunca mais iria mexer, tudo o que só estava ali para ganhar pó e poder ser atacado pelo bicho do papel, o chamado “peixinho prata”, como é que alguém poderia apelidar simpaticamente aquilo de peixinho?
Hesitante, foi tirando um ou outro livro técnico, um ou outro dossier, abrindo e folheando, pondo de lado, separando em montes na secretária, aqui e ali pelo chão, rasgando folhas então inúteis para o lixo. Em cada gesto, porém, a sensação de que era um pedaço de si que se separava, uma parcela do seu passado, uma parte da sua história a ser rasgada ao ritmo das folhas, a ser posta de lado, apagada da sua vida.
Contudo, alguns dossiers e vários livros irão voltar do chão e da secretária para as estantes, pois desfazer-se disso, mesmo sabendo que deles nunca mais irá precisar, e por muita coragem que possa ter, cortar esse cordão umbilical com a vida passada seria morrer antes do tempo.

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA | O ÚLTIMO VERÃO DE KLINGSOR, de Hermann Hess - DOM QUIXOTE / Tradução de Patrícia Lara


Nas livrarias a 30 de Junho

Escrito pouco depois do fim da Grande Guerra, O Último Verão de Klingsor relata a história de um famoso pintor, Klingsor, que vive uma explosão final de criatividade no último verão da sua vida.

Pintor expressionista orientado pela emoção, a entrega de Klingsor à arte é total pois considera que esta corporiza a essência da vida.

Amante dos extremos, opõe-se violentamente à moderação e à mediocridade. Não gosta de planear nada com antecedência pois não acredita no amanhã e vive cada dia como se fosse o último. Na vida tem apenas dois pontos centrais de interesse em que é bem-sucedido: criar arte e amar.

Como Demian, Siddhartha, Goldmund e Joseph Knecht, Klingsor não é uma personagem vulgar. Atingiu um patamar de sucesso fora do comum na arte que escolheu e trabalha intensamente para manter esse nível. E, tal como outros heróis dos livros de Hesse, luta por trilhar o seu percurso individual e único para atingir o fim que se propõe na vida.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA | "Onde o Desejo de Esconde", de Nora Roberts | Chá das Cinco - Grupo Saída de Emergência


Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista | Editora

Foto: D.R.


Onde o Desejo se esconde é um trepidante thriller romântico escrito com a mestria a que Nora Roberts já habituou os seus fãs, sendo o segundo romance da série D.C. detectives, cuja acção decorre em Washington.

Nesta obra com um enredo bem tecido, pautado por acção, perigo, violência, crime, mas também muita paixão e romantismo, numa combinação perfeita entre todos estes ingredientes, encontramos como protagonista feminina Grace MacCabe, uma famosa escritora de policiais, que se desloca à capital dos Estados Unidos, em visita à irmã - Kathleen, Professora que atravessa uma fase menos boa na vida, na sequência de um divórcio complicado que pôs fim ao casamento, algo de fachada, com o pretensioso e arrogante advogado Jonathan Breezewood III.

O caminho de Grace irá cruzar-se com o do detective Ed Johnson, que reside no bairro simples onde habita Kathleen, e ainda que com muitas reticências de Ed e do seu colega Ben Paris (protagonista do primeiro livro da série), a escritora decide envolver-se activamente numa investigação que pretende descobrir a identidade de um perigoso assassino em série que escolhe as suas vítimas entre as operadoras de uma empresa de telefonemas eróticos.

É curioso ir assistindo ao desenrolar da trama, com inúmeros momentos de tensão, e assistirmos ao nascimento da cumplicidade crescente entre Grace e Ed, duas personalidades fortes mas muito díspares, à medida que vamos também penetrando na mente perturbada do assassino e das suas vítimas.

Um livro que é puro entretenimento, que se lê num ápice, mas que nos leva a pensar em diversos temas próprios das sociedades modernas, como o impacto das novas tecnologias no dia a dia e na vivência da intimidade. Podemos indagar sobre que factores podem levar uma mulher a tornar-se operadora de linhas eróticas? - rendimento extra, viver fantasias adoptando uma espécie de alter ego e fugir, assim, à rotina do quotidiano, e também, no reverso da medalha, o que levará os homens  a usufruir deste tipo de serviço? viver uma realidade paralela e proibida sem consequências de maior na vida familiar, dado não haver ligação emocional nem contacto físico? Procurar uma alternativa de conforto para a solidão e para a rotina? Viver uma identidade alternativa onde poderá idealizar-se a si mesmo e ao outro de modo mais gratificante?

Muito interessante foi também a forma como Nora Roberts construiu a personagem do assassino em série, pois a pouco e pouco, vamos penetrando no seu contexto familiar, e ficamos com a noção de que, por vezes, nem sempre o que parece um modelo de família perfeito acaba por se revelar enquanto tal. Em termos psicológicos, encontramos no assassino um homem que tendo tido problemas em construir uma identidade própria, e tendo dificuldade em seguir e acompanhar um modelo parental bastante poderoso e marcante, encontra no crime, e na relação de fantasia sexual que estabelece com as suas vítimas, uma forma de afirmar o seu poder e de provar a sua grandiosidade e inteligência, desafiando também as autoridades.

Temos, pois, aqui um romance que pode ter várias leituras, mas que satisfaz plenamente quem procura uma história marcante, mas com muito romantismo à mistura, e cuja leitura se recomenda.



Ficha Técnica do Livro:



Autora: Nora Roberts

Edição: Julho de 2015

Editora: Chá das Cinco [Saída de Emergência]

Nº de Páginas: 288

Género: Thriller Romântico


Classificação: 4/5 estrelas



ESPAÇO PSY |Tudo ficará bem... Liberte-se do medo, saia do caos, diga não ao desespero!, | Reliane de Carvalho



Texto: Reliane de Carvalho
Hipnose Clínica e Regressiva

Foto: D.R.

O mundo pede o silêncio da esperança... E o nosso coração pede o refúgio da paz. Feliz daquele que acredita mais na luz da vitória do que no desespero da derrota...

"Sejamos a voz da certeza de que tudo ficará bem, porquê a dúvida dilacera o nosso coração e leva-nos ao pior abismo que podemos ir, o do medo, o do terror, o da prisão dentro da ansiedade na nossa mente"...

Sim, foi um vírus que veio e teve o poder de estremecer o mundo, foi um vírus que veio e teve o poder de nos fazer temer, foi um vírus que veio o nos tirou do conforto de nossas vidas, adiou muitos de nossos projetos, adiou a realização de sonhos, e levou-nos ao arremesso da dor, da tristeza, da lamentação.

Agora a maior conclusão de que podemos chegar é o que vamos fazer com tudo isso: Ficar presos ao destroço desta tempestade que assola a nossa realidade ou seguirmos confiantes, em esperança, crentes de que logo tudo isso vai passar e que temos dentro de cada um de nós capacidade para tudo transpor? Para pegar cada tijolo de dificuldade gerado e reconstruir? Por que estamos a acreditar na perda antes mesmo de acreditar que unidos vamos ser capazes de reconstruir? Porquê estamos já presos a energia de morte enquanto a vida ainda habita dentro de nós e gratos deveríamos estar porquê não fomos um destes viajantes que este vírus levou, para talvez algo forte nos ensinar? Porquê somos muitas vezes inaptos a realizar a crença positiva e ficamos presos a dor, as lamentações, aos murmúrios, ao terror?

Sejamos força de construção, sejamos a certeza de que vamos conseguir vencer, sejamos a energia do amor, sejamos a luz da esperança, porquê se cada um de nós acreditar que tudo ficará um caos, já estamos a construir no hoje o caos que tememos no amanhã. Deixemos nós para viver a dor quando ela chegar. O que importa é o agora, o que importa é cada um de nós fazermos a nossa parte para que tudo fique bem, para nos protegermos e protegermos quem a nossa volta está. Sejamos cada um de nós a força motriz da crença positiva, porquê quem fica preso ao medo, as dores, as lamentações, está a viver a pior morte que pode existir que é a morte em vida...

E quando tudo isso passar, talvez possamos acreditar, que aquilo que não nos mata, fortalece-nos, ensina-nos, reconstrói, e feliz de cada um de nós que poderá ficar para depois testemunhar que no passado vivemos sim momentos difíceis, mas ricos o suficiente para nos ensinar a sermos seres humanos mais fortes, mais conscientes, mais solidários, e acima de tudo, mais otimistas...

Porquê aquele que não acredita na vida, que não vive a vida e o que é positivo, está com medo de que morte? Qual é a pior morte? Para mim é a morte em vida, aquela que não vê luz no caminho que só se atém a escuridão da crítica, da culpa do outro, da responsabilização. Aquela que vive a escuridão da incerteza, aquela que vive o peso das lamentações, aquela que vive a tristeza de constantes desilusões, aquela que chora, lamenta, reclama e não é capaz de agradecer. Aquela que vive a sombra do medo ao invés de viver a força da verdade. Aquela que vive no amanhã sem pensar no hoje, sem sentir o hoje, sem fazer a sua parte para si, para o outro, para a vida... O que é a morte, se não o jogar fora a nossa grande oportunidade de crescimento para a partir do gerenciamento de cada uma de nossas emoções, que nos permite ter a transformação de que necessitamos para a nossa alma evoluir? Pensemos nisso, talvez o pior vírus que possa existir é a prisão que impomos a nós mesmos, quando estamos com medo de lutarmos pelas nossas transformações pessoais. E assim vamos seguindo, a viver a morte sem sentir a vida que é viver em consciência, em plena sintonia com a nossa alma, com a nossa verdadeira essência de amor, em plena sintonia com o nosso "Eu superior"...


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