terça-feira, 30 de outubro de 2018

À conversa com a escritora ROBIN HOBB


Margaret Astrid Lindholm Ogden nasceu na Califórnia em 1952, utiliza o pseudónimo Robin Hobb o mesmo que lhe viria a abrir as portas do mundo editorial com estonteantes vendas e projecção internacional.
Era muito nova quando se mudou com a família da Califórnia para o Alasca mas como o mundo da ficção se mistura com a realidade na sua nova casa ganhou um novo companheiro de aventuras, Bruno, um hibrido de cão e lobo com o qual se sentia segura o suficiente para se embrenhar pela densa floresta que rodeava a casa deixando a imaginação guiá-la.
No início da sua carreira escrevia para jornais locais, revistas juvenis, e em 1981 foi premiada pelo Conselho Estadual do Alasca pelo seu conto “A Caça Furtiva”, em 1983 escreveu o seu primeiro romance. foi nomeada para os prémios Hugo e Nébula e foi vencedora do prémio Asimov.
Mais tarde casou-se com um pescador e mudou-se para a ilha de Kodiak, foi através do marido que aprendeu a amar tudo o que dizia respeito ao mar.
Tem quatro filhos e netos e vive actualmente no estado de Washinghton.
Somente em 1995, após conversa com o seu agente decidiu criar um nome que se adequasse ao seu novo estilo de escrita com a publicação de “O aprendiz de assassino” Robin Hobb era finalmente catapultada para a fama e sucesso.
De ressalvar ainda como surge a série de fantasia mais popular de Robin Hobb, de acordo com a própria tudo começou com a descoberta de um pedaço de papel que conservava guardado no fundo de uma gaveta e que dizia simplesmente: “E se a magia fosse viciante? E se esse vicio fosse completamente destrutivo?”.
Os seus livros estão traduzidos em mais de vinte línguas, ganhou diversos prémios através da Europa como o Prémio da Fantasia do Elfo na Holanda, o Prémio Imaginales pelo trabalho traduzido em França e mais perto de casa ganhou o Prémio Endeavor por trabalhos publicados no Noroeste do Pacífico, venceu ainda este ano o prémio Gemmel em Inglaterra para melhor romance com o livro Assassin’s Fate, o último livro da série do Assassino e o Bobo. O livro será publicado brevemente em Portugal em dois volumes, “A Viagem do Assassino” e “O Destino do Assassino”.
E mais recente ganhou o Prémio Israeli Geffen para o melhor romance de fantasia com o livro “O Assassino do Bobo”, o seu trabalho continua a ser nomeado para os prémios Hugo, Locus e Nebula.
Robin continua a escrever pequenas estórias de ficção como Megan Lindholm.
A verdade é que sempre soube que queria escrever.


MBC – Como prefere ser conhecida por Margaret, Megan ou Robbin?
RH - Sou definitivamente Robin.

MBC – É a primeira vez que visita Portugal?
RH – Sim é a minha primeira vez.

MBC – Foi difícil conciliar a sua paixão pela escrita com o seu dia a dia de profissional, mulher, mãe, dona de casa?
RH - É um acto de equilíbrio. Acho que é importante que as pessoas percebam que as crianças vêm sempre em primeiro lugar, primeiro sou mãe e só depois tenho um trabalho e algo de que gosto muito. Quando comecei a escrever tinha filhos pequenos e rapidamente percebi que não podia ter um sistema para escrever peguei sempre em todos os pequenos momentos livres que conseguia durante o dia quando dormiam, brincavam, viam televisão, sentava-me na mesa enquanto os observava e escrevia. Devo confessar que a minha casa nunca estava limpa como gostaria, que a minha relva ficava muitas vezes por cortar porque a verdade é que quando a oportunidade para escrever aparecia eu aproveitava-a.

MBC – Confesso que fiquei apaixonada quando tomei conhecimento da sua relação com o cão Lobo Bruno, pode fala-nos um pouco sobre esse tempo?
RH - Quando nos mudámos para o Alasca existia um cão no nosso bairro, e quando digo bairro refiro-me às casas estarem afastadas por hectares umas das outras, uma das coisas que dizemos no Alasca é que se à noite conseguires ver as luzes do vizinho está na hora de mudares. Víamos o Bruno como um rafeiro e a história que se contava sobre ele é que tinha sido criado como animal de estimação de alguém, mas que, entretanto, tinha sido amarrado e fugira. Quando o vimos pela primeira vez coxeava, mas vinha até à nossa casa e começámos a alimentá-lo. O meu pai conseguiu fazer com que confiasse nele o suficiente para se aproximar e tirar-lhe o espinho que o feria depois de o tratarmos gradualmente começou a ficar na nossa casa e tornou-se parte da nossa família. Os vizinhos contaram-nos que devia ser uma mistura de cão pastor branco e de Lobo, era um cão enorme e esteve connosco durante muitos anos. Eu estava muito habituada a viver perto de florestas, mas com este cão percorria a floresta encostada à minha casa durante horas sabendo que ele garantia o meu regresso em segurança.

MBC – As paisagens do Alasca têm alguma influência em tudo o que escreve?
RH – Nem por isso. Desde que me lembro que sempre quis ser escritora. Na minha adolescência escrevia vários inícios de estórias, mas nunca me conseguia comprometer com um final, porém estava sempre a escrever. Desse tempo guardei somente alguns rascunhos e alguns diários que já nem existem.

MBC – O seu marido é o seu maior crítico?
RH - O meu marido não lê nada do que escrevo e o motivo para isso é que no inicio da minha carreira estava a escrever sobre uma personagem que ia morrer de uma maneira suja, ele leu as primeiras páginas e disse-me que a personagem que estava a descrever era muito parecida com uma pessoa nossa conhecida, o Bruce, depois de pensar confirmei que tinha razão era realmente parecida foi quando o meu marido me disse que não ia continuar a ler a estória porque não achava bem que eu matasse os amigos. O que percebi foi que o meu marido conhece-me tão bem que não estava a ler o que escrevia, mas que me lia a mim. É por esse motivo que penso que se queres ser um escritor deves ter alguém que leia e critique a tua estória, alguém que não te conheça porque se estás a escrever e descreves locais como o cinema ou a casa de waffles do outro lado da rua e por aí em diante os teus conhecidos reconhecem de imediato os locais aos quais te referes. Por esse motivo é melhor distanciarmo-nos e termos alguém de fora a criticar-nos e aconselhar-nos.

MBC – E os seus filhos e netos serão eles os seus maiores fans e críticos?
RH – A verdade é que alguns deles leram, outros não, uns vieram a tornar-se fervorosos leitores enquanto que os outros preferem documentários.

MBC - Baseia os seus personagens na sua família, em conhecidos?
RH - Nunca o faço deliberadamente, não tenho por hábito colocar pessoas que conheço nos meus livros possivelmente somente algumas das suas características que me prendam a atenção, como certa pessoa anda, pega na caneca do café, como fuma um cigarro, como se veste. Por exemplo não podemos tirar uma mulher moderna e colocá-la num mundo de fantasia, ela tem ideias, consciência de que é dona do seu próprio espaço, teria que existir uma razão para o fazermos.  

MBC - O que sentiu quando percebeu que a aceitação dos seus livros era maior quando
se apresentava como Robin Hobb, quando na realidade continuava a ser a Megan?
RH - Comecei a escrever com o diminutivo do meu nome de solteira, Megan Lindholm quando escrevia histórias para crianças, fantasia e ficção científica. Escrevia em todos os géneros da fantasia mas os leitores gostam de saber o que leem, se for conhecida por escrever westerns e depois escrevo um romance que se passa em Nova Iorque com o mesmo nome de autor o leitor que me siga não irá ficar satisfeito se comprar um dos meus livros a pensar que é um western e sai-lhe algo completamente diferente ou vice-versa. Por isso quando tanto eu como o meu agente nos apercebemos que queria escrever fantasia épica e sempre mais do que um livro dentro do mesmo género disse-me que precisávamos de separar a escrita e aconselhou-me a pensar num nome diferente, divertimo-nos imenso a ler o nome escolhido. Além de que é uma forma de escrita totalmente diferente da de Megan que é muito mais cínica e não explica detalhadamente as situações nem é tão emocional por isso é um estilo de escrita diferente e ainda hoje quando tenho uma nova ideia sobre o que quero escrever sei automaticamente se é para ser escrito pela Megan ou pela Robin. Quando adoptei este nome não dei muitas entrevistas, nem anunciei a mudança, não foi tanto para tentar parecer que era um homem que escrevia foi mais para baixar a pressão de descrença que pudesse surgir. Quando escrevi a trilogia Farseer escrevi como a personagem principal que era um homem porque quis facilitar a entrada na estória tornando-a mais fácil para o leitor.

MBC – Consta que descobriu um pedaço de papel que conservava guardado no fundo de uma gaveta e que esse foi o incentivo necessário para começar a escrever a Trilogia Farseer.
RH - É verdade, era um envelope rasgado ao meio que guardava na gaveta porque nunca fui suficientemente organizada para ter pequenos livros de anotações isto aconteceu no inicio da minha carreira quando ainda escrevia como Megan, aconteceu quando atingi um ponto difícil no livro que estava a escrever e de repente tens outra ideia que é mais bonita, mais brilhante e muito mais fácil de escrever, ou uma ideia que não se adequa ao que está a escrever presentemente a frase era: “E se a magia fosse viciante? E se esse vicio fosse completamente destrutivo?”. Nesse momento soube que tinha que tirar a frase da minha mente e acabar a estória na qual estava a trabalhar na altura. Por isso voltei a guardar o envelope rasgado dentro da gaveta onde mantinha uma série de outros papeis, e ali ficou durante mais um tempo.

MBC - Ainda tem essa secretária?
RH – Não, essa secretária há muito que desapareceu bem como a casa. Mas só Deus sabe o que guardo no meu escritório.

MBC – O desenho detalhado das casas, dos mapas partiram de si ou foram sugeridos?
RH - Não faço mapas porque infelizmente tenho uma noção muito má das distâncias, neste momento não conseguiria dizer a distância que nos separa por esse motivo sou terrível a desenhar mapas. Cada tradução tem as suas próprias opções artísticas para as capas, os mapas do terreno, o detalhe das casas.  O que acontece é que normalmente envio para o meu editor rabiscos de um mapa no qual se baseiam. Se virem os primeiros livros do aprendiz de assassino podem repara que o mapa na edição inglesa é totalmente diferente do mapa na edição americana.

MBC - O festival Bang é anual e consegue colmatar a curiosidade que os leitores de literatura fantástica têm sobre quem escreve os livros que os transportam para lá da imaginação por esse motivo qual espera ser a sua recepção de boas-vindas amanhã no Festival Bang?
RH - Todos os festivais são diferentes costumo ir aos Comic Con nos Estados Unidos e é sempre diferente por isso terei que esperar para ver.

MBC - Quer deixar uma mensagem aos leitores portugueses?
RH - Muito obrigada pelo vosso apoio.


Texto: MBarreto Condado
Fotos: Mário Ramires

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