quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

PRÓLOGO, de Anita Dos Santos















O calor era abrasador.

Normalmente as horas da tarde eram sempre muito quentes.  O calor subia do chão em ondas que se viam, e a deixavam por vezes perplexa.

Ela era a mais nova de todos os onze irmãos. Ao mais velho nem tinha chegado a conhecer. Morreu antes dela ter nascido devido ao rebentamento de um foguete numa mão. O tétano levou-o com apenas dezanove anos, mas já um homem feito.

Do irmão seguinte, também não tem muita ideia. Lembra-se de um dos outros irmãos lho ter apontado de longe, um dia na cidade, para lhe dizer que também era deles, tinha ideia de ter ouvido histórias sobre como casou com a namorada do irmão mais velho, quando este morreu, por ela estar à espera de uma criança.

Alguém tinha de fazer o que era correcto, só que ele não perdoou ter de ser ele a tomar o lugar que pertencia ao irmão mais velho.

Eram quase todos homens. Só havia mais uma outra irmã, mais velha do que ela uns sete anos.

Depois havia a mãe.

Uma mulher minúscula, com uma fibra de antes quebrar que torcer, e tinha de ser assim mesmo, para dar conta dos filhos, da casa, de fazer com que a comida aparecesse, fosse de onde fosse… e do marido…

O pai. 

Ele era o eixo em torno de que se tudo movia, dentro e fora de casa. A sua vontade era soberana, e quem assim não concordasse tinha de haver com a sua mão pesada da qual não fazia economia.

Assim como a mãe era pequenina, o pai tinha a altura de um gigante, ou assim lhe parecia para a sua pequena estatura de três anos de idade. Os irmãos também eram altos, mas nenhum se lhe comparava. Tinha uma figura imponente, de largos ombros e cintura estreita, sempre cingida por uma cinta apertada, que era enrolada, bem esticada.

Ia ao mar, no tempo permitido da pesca. Era arrais de uma embarcação e, todos os rapazes começaram cedo a ir à pesca, logo que tiveram idade.

A mãe, quando podia, trabalhava na fábrica de conservas.

Quando chegava o dia em que o soldo era pago, todos estavam de prontidão para debandar ao primeiro sinal. Ele chegava sempre tarde, bem bebido e, se ainda houvesse algum dinheiro no bolso, era uma sorte.

O barómetro, era a sua deixa preferida, “Quem dentro, dentro. Quem fora, fora!”. E a porta era trancada nas suas costas.

Quem tinha a agilidade suficiente para saltar uma janela e escapar, conseguia fugir. Quem ficasse, já sabia que iria provar daquelas mãos que não perdoavam a ninguém.

Os rapazes eram ágeis, ou espertos para nem sequer entrar em casa. A irmã, fugia para a vizinha, e dela ninguém se lembrava… A mãe, essa, ficava sempre em casa, à espera do pai, ou para se colocar em frente de quem não conseguia fugir.

A ela, ele sabia que iria encontrar sempre para descarregar a sua raiva, a sua frustração, o seu feitio…

Como a mãe dizia, era o feitio dele.

Ela, escondia-se debaixo da cama dos pais, fazendo-se mais pequenina, talvez assim não dessem com ela.

Chorava em silencio, em simultâneo com as pancadas que a mãe apanhava enquanto tentava chamar o pai à razão.

Houve uma época em que ninguém soube dele. O barco fez-se ao mar, e não houve mais noticias.

Um dia, ao fim da tarde, ela estava sozinha em casa, no quintal atrás do poço, e viu chegar. A figura inconfundível. Alto, magro, vertido de negro, camisola de gola alta.

Os passos foram-se tornando mais lentos até chegar à porta das traseiras onde parou por fim.

Espreitou de trás do poço, com as pernas a tremer, e viu-o quieto, de cabeça baixa. Depois ajoelhou-se e beijou a pedra do degrau da entrada.

DE ONDE NUNCA SAÍ - MARZAGÃO, de Helder Menor















Estávamos em abril e a primavera tinha chegado quente. Navegava num Clio com cinco velocidades e três portas. Saí depois de jantar e fiz-me à estrada. Estava uma noite sem vento e a lua cheia iluminava a estrada que foi ficando para trás.

Como mantimentos, levava um termo de chá preto, ovos cozidos, um pão alentejano e cigarros. Foi ainda no século passado e navegava solitário. A banda sonora eram duas cassetes: o Dylan e a Brigada Vítor Jara.

Em Badajoz enchi o depósito porque naquele tempo o combustível era mais barato em Espanha. Coisas de outros séculos...

Atravessei o estreito ao nascer do dia no primeiro navio para África.

O sol nasceu do lado do Mediterrâneo e a noite fugiu para o Atlântico. O carro no porão e eu no bar do ferry a beber chá preto e a ver a paisagem.

Em Ceuta não me demorei, foi o tempo de comprar um pack de tabaco e chegar à fronteira com o Reino de Marrocos. Passaporte, documentos do carro e o papelinho preenchido com dados mais ou menos inventados sobre itinerários e locais onde pretendia alojar-me. Uma hora de burocracia aduaneira. Segui para sul. De Ceuta a Tanger é um pulinho. O Atlântico a bombordo a acompanhar.

A proa apontada para Arzila. Turistas alemães colonizavam a esplanada da fortaleza. Dealers de terceira categoria tentavam impingir haxixe manhoso. Desgostei dos ares e aproveitando o vento, levantei ferro.

O sol alto encadeava e a noite em branco ao volante fez-se sentir. Numa bomba de gasolina, abasteci, pus o banco para trás e devo ter dormido duas ou três horas. Acordei ao anoitecer com um gajo a bater no vidro a querer vender-me queijo fresco. Comprei o queijo ao homem. Ainda tinha pão, mas já se tinham acabado os ovos cozidos. O queijo era bom, de cabra temperado com orégãos.

Segui viagem para sul. Rumando a Kenitra, ponto de paragem das naus para abastecerem de água e frescos e lugar onde queria ancorar porque tinha um amigo de um amigo que me ia mostrar as vistas.

Cheguei a Kenitra já noite cerrada. Deviam ser uma onze ou meia-noite. Definitivamente já não era hora para telefonar para casa de ninguém. Naquele tempo ainda não haviam telemóveis ou se haviam não eram para o mim. O meu contacto em Kenitra era um amigo de um amigo que tinha estudado medicina veterinária na União Soviética. O muro havia caído há meia dúzia de anos, mas alguns laços ainda se mantinham. Eu estava cansado, por isso decidi procurar alojar-me e na manhã seguinte faria o telefonema.

Kenitra fica encostada ao mar numa planície agrícola com pomares e hortas à volta de ribeiros. De carro deambulei pelo centro da cidade adormecida. Pouca gente nas ruas, pouquíssimos carros a circular. Perto da praia vi um letreiro iluminado que dizia Hotel Atlantic com duas estrelinhas azuis a classificarem as instalações. Agradou-me o parque de estacionamento. Parei e entrei. Na receção, que funcionava no vão das escadas, um balcão anormalmente largo onde estava deitado um homem a dormir. O recepcionista ressonava aconchegado com um cobertor e um livro de registos ao lado.

Não deu pela minha entrada.

Bati devagar no balcão-cama.

Acordou e falou-me em árabe. Disse-lhe boa noite em português e ele perguntou-me o que é que eu queria em francês. Expliquei-lhe que queria um duche e quarto para dormir. Deu-me o livro de registos para preencher e uma chave atada a um bocado de madeira onde estava escrito o número doze. Primeiro andar, segunda porta do corredor. Subi com a mochila ao ombro. O quarto tinha o teto alto, chão de mosaicos, uma varanda a toda a largura, uma cama, um cabide e um chuveiro no canto diretamente para o chão. Mais nada. Banhei-me e dormi como um anjinho que era então e que às vezes ainda sou.

No dia seguinte liguei ao amigo do amigo. Disse-lhe onde estava alojado: Hotel Atlantic. Ele riu-se e explicou-me que era um bordel, mas que estava bem entregue porque é um sítio seguro, limpo e barato. Passado meia hora buscar-me e levou-me a ver os seus pacientes: cavalos e camelos. Depois fomos almoçar, cabrito assado e vinho tinto feito em Marrocos servido em garrafas de coca-cola. O vinho era bom e acompanhava bem com o cabrito. A tarde passámos na mesa a comer, beber e contarmos histórias... até nos virem interromper para que o meu anfitrião fosse atender uma doente. Seguimos para uma quinta nos arrabaldes onde ao anoitecer, assisti ao milagre de vida ajudando na cesariana de uma camela. Ali mesmo, no chão de terra, com uma lona no chão a servir de mesa de cirurgia. Primeiro a camela foi anestesiada, depois com jeitinho foi deitada na lona. Eu segurei a lanterna, o dono da camela trouxe água quente e o meu amigo veterinário rapou o ventre inchado do animal e com o bisturi fez o corte de onde tirou o camelozinho. Depois cozeu o golpe, limpou, desinfectou e deu uma injeção para a mãe camela acordar. O camelo bebé ficou de pé a mamar na mãe quando nós viemos embora. Já tinha passado da hora de jantar e não tínhamos fome. Por isso fomos beber vodkas a um bar clandestino. Para ensopar o vodka comemos harira que é uma sopa de grão com borrego, uma sopa grossa que sabe a cominhos, picante e limão. Voltámos ao vinho tinto a acompanhar o queijo de cabra que sobrava com o pão alentejano sobrevivente.  O vinho temperado pela proibição ainda sabia melhor.

Voltei nem eu sei bem como para o hotel eu dormi enquanto se vendia o amor. Na manhã seguinte, quando quis pagar as duas noites, não deixaram, explicaram que estava paga a estadia pelo senhor proprietário da camela.

Voltei à estrada. Virei à esquerda para leste. Direção Alkzar er Kirb, Alcácer Quibir do Sebastião desaparecido.

Quis desviar-me de Rabat onde o rei governava com mão de ferro. Evitei a Casablanca caótica com o seu trânsito de cidade grande. Meti-me por estradas estreitas e poeirentas entre planícies cultivadas e aldeias de beira de estrada

Em Alcácer Quibir comi e não achei, nem vestígios lusos, nem restos da armadura do rei desaparecido. Agro-negócio e armazéns tipo mercearias. Burros, camelos e homens. Calor, pó e demasiado longe do mar. Depois de almoçar carne grelhada, dormi a sesta dentro do carro à sombra de uma arvore centenária. Acordei cheio de energia e decidi continuar.

Segui para sudoeste, direção ao mar, direção a El Jadida. Queria ficar em Marzagão onde sabia que parava outro amigo de um amigo. Um holandês que se tinha apaixonado por Marrocos e que tinha um barco onde morava e que vivia de alugar o barco para viagens. Cheguei ao final do dia. Procurei o amigo do amigo. Não estava. Tinha zarpado há dois dias com americanos ricos com destino às Canárias. Fui ver onde ficar. Aluguei um quarto numa pensão baratinha perto de porto de pesca e fui jantar. Uma tasca com mesas compridas onde serviam peixe frito diretamente em cima da toalha de oleado. O peixe acompanhava com pão. Encontrei uns espanhóis ganzados com quem bebi jerez e partilhei uma garrafa de porto. Apareceram outros com wiskie marado. Bebemos todos demais.

No outro dia de manhã acordei com uma ressaca deste tamanho. Tomei um pequeno almoço de sumo de laranja e fui para a lota ver o peixe chegar.

Traineiras terceiro-mundistas descarregavam pescado de grande qualidade. Cabazes de verga com tecas misturadas. Robalos, cavalas, garoupas, corvinas, pescadas, carapaus e sardinhas tudo ao molho. Entre as caixas uma dourada chamou por mim. Mais de um quilo de dourada. Comprei-a barata pelo valor de uns três litros de gasolina. Fui procurar carvão e pelo caminho comprei dois tomates maduros, pão e azeitonas. Acendi o lume na areia da praia. Estava calor, mas não excessivo. Assei a dourada devagar e, sentado na areia, comi o melhor peixe assado da minha vida. Lavei as mãos e a boca na água do mar e reconfortado decidi ir ver a cidade.

Já quase não tinha ressaca. Tinha lido sobre a conquista e reconquista de Marzagão. Os livros marroquinos editados em francês, falavam na fortaleza portuguesa e na cisterna portuguesa. Fui ver onde eram.

Um homem com um cartão ao peito a dizer guia-oficial queria impingir-me uma visita guiada onde eu pagava para ir a ver as mesmas coisas que podia olhar à borla. Recusei. Acompanhou-me durante uns passos na sua insistência. Quando percebeu que eu era português e que não lhe ia comprar nada, apontou para uma muralha antiga e disse:

-- Foi ali que penduramos os 18 portugueses!

A frase soou-me como uma vingançazinha histórica por eu não alinhar no negócio que me propunha.

Para o calar respondi:

-- Se quiseres temos lá mais para enforcar, e olha, faço-te barato por ser para ti, e todas as semanas te posso mandar outros dezoito que não esgotamos o nosso stock de filhos da puta!
Entretanto mudámos de século e de milénio. Muitas luas passaram depois desta conversa com o guia-oficial de El Jadida. Muita coisa se alterou, outras coisas permanecem. Se há produto que continuamos a ter de sobra para exportação nesta terra molhada de sal atlântico são filhos da puta para pendurar. E não me parece que estejam em vias de extinção.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

À MODA DO PORTO, de MBarreto Condado
















Tanto já foi escrito sobre o Porto, mas nunca o suficiente para descrever a magia que esta cidade carrega na sua história. Não serei eu que a completarei, mas deixarei o meu testemunho sobre os sentimentos dispares que sinto sempre que chego.

Tudo nos transporta para tempos mágicos, carregados de mistérios e desafios, o simples facto de atravessar o rio faz-me sentir que é debaixo da protecção dos Deuses, saudada pelo quente esvoaçar das asas dos Dragões que a protegem.

A quente neblina que me abraça e transporta através de tempos perdidos.

Se fechar os olhos e respirar fundo consigo ouvir o barulho dos barcos Rabelo aportando na ribeira carregados de pipas de vinho do Porto, as vozes das varinas que me chamam gritando “meu amor, minha querida”, consigo ouvir o resfolegar dos cavalos transportando os seus nobres cavaleiros, vozes de crianças brincando despreocupadas correndo descalças por qualquer beco ou ruela.

Foi aqui que Portugal foi buscar o seu nome, mas foi também aqui que nasceu o Infante, aquele que nos conduziria à descoberta de novos mundos.

Não quero abrir os olhos com medo que a magia desapareça. Porém, quando o faço percebo que toda a alegria, a vida, a simpatia, a esperança e o caloroso recebimento das gentes do Norte estão sempre presentes.

Sinto-me bafejada pela sorte, e independentemente desta vez a minha visita ser muito curta, não deixo de apreciar o rebuliço de pessoas que sobem e descem a Avenida dos Aliados, nem tão pouco dos inúmeros turistas que se sentam nas esplanadas bebericando o seu copo de vinho do Douro.

Alguns pedem Francesinhas, Bacalhau à Gomes de Sá, os mais ousados a medo pedem Tripas, um pouco relutantes quando percebem do que são feitas, contudo o sabor acaba por levar a melhor, muitos utilizam o pão para limpar os pratos.

Antes de partir, ainda tenho tempo de beber um cimbalino, trocar alguns bitaites, e como não há espiga, e eu sou fina como um alho prometi voltar.

Mas desta feita ficarei instalada no Palácio das Cardosas e comerei uma francesinha vegetariana (que a meu ver se deveria chamar uma Portosinha).

E na hora da minha despedida, olhei para a Lua e percebi o que com o seu quarto crescente me tentava dizer.

A neblina voltava a cobrir a cidade e enquanto atravessava a ponte sob a protecção dos Deuses e o suave esvoaçar dos seus dragões, pude sentir o cheiro do Douro e o grito das gaivotas que de mim se despediam.


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O PLÁSTICO EM NÓS, de Vanessa Lourenço















Pensei que nada seria mais relaxante do que um passeio de barco, naquele dia. O sol reinava, forte, num imenso céu azul, e nem uma nuvem mais atrevida se fazia notar no horizonte. Munida de protector solar e de um imenso chapéu de palha - que dificilmente teria usado noutras circunstâncias – apreciava o brilho da superfície calma das águas, e as pequenas ondulações causadas pela embarcação que embalava o meu passeio.

De repente, algo chamou a minha atenção e me fez endireitar na proa: umas poucas dezenas de metros adiante, na superfície da água, algo parecia mover-se ao sabor da corrente. O que seria? Curiosa, esperei que o barco se aproximasse. O que quer que fosse que estivesse ali, parecia tão depressa deslocado naquele cenário, como dissolver-se nele. Como se de repente, um intruso tivesse decidido munir-se de todas as suas capacidades de camuflagem, para se infiltrar num ambiente ao qual não pertencia.

Assim que fiquei próxima o suficiente, porém, mal tive tempo para inspeccionar o estranho corpo. Assim que me inclinei na borda do barco, ele submergiu. Como se algo vindo de baixo o tivesse subitamente agarrado e puxado para as profundezas.

Não tive tempo para pensar sequer no que estava a fazer: subitamente, estendi o braço para dentro de água, no último segundo em que me teria sido possível agarrar o que quer que fosse que aquilo era, e precisei de todos os meus reflexos para que a superfície lisa e escorregadia não se me escapasse por entre os dedos. Havia realmente algo a puxar do outro lado, mas eu sentia que não podia deixar isso acontecer. Por fim, com o auxílio da outra mão, consegui erguer no ar o que agora conseguia ver que era um saco de plástico. E na outra extremidade do saco, pendurada pelo bico, uma pequena tartaruga marinha debatia-se vigorosamente, com as patas traseiras quase tocando a água. Sem largar o seu prémio, gritou por entre as mandíbulas cerradas:

- “Arga ixo!”

Quase larguei o saco quando a ouvi gritar comigo, mas consegui evitá-lo. Ela ainda não entendia o que tinha acabado de acontecer? Irritada, puxei-a para dentro do pequeno convés, onde se ficou a debater sem largar o saco. Respirei fundo, e disse-lhe:

- O que achas que é isso?

Ela olhou-me de lado, visivelmente zangada e desconfortável. Por fim, largou o saco e colocou sobre ele a carapaça, para ter a certeza que não lhe roubava o almoço. Respondeu:

- Eu vi esta água-viva primeiro, é minha!

Surpreendida, percebi finalmente o que se estava a passar. Disse-lhe:

- É isso que pensas que isto é? Uma água-viva?

A tartaruga pareceu ficar confusa, mas não se deu logo por vencida:

- Claro que é uma água-viva, que outra coisa poderia ser?

Subitamente, senti pena dela. Na ânsia de se alimentar, poderia perfeitamente ter assinado a sua sentença de morte, se não nos tivéssemos cruzado. Respirei fundo e aproximei-me dela, o que fez com que se arrastasse ainda mais para cima do saco. Disse-lhe:

- Isso não é uma água-viva. Não vês que em vez de gelatinosa, é dura e escorregadia? Que é da mesma cor dentro de água, mas não possui tentáculos?

Ainda desconfiada, a pequena tartaruga olhou o saco que guardava debaixo de si. Uns momentos mais tarde, procurou os meus olhos e vi nos dela o terror de quem acaba de se aperceber que podia ter perdido a vida. Afastou-se desajeitadamente do saco pousado no convés, e disse:

- O-o que é isto?

Sorri com ternura, infelizmente sabia demasiado bem que por todo o mundo, todos os dias, milhões de animais perdiam a vida por ingerirem plástico, darem-no a comer às suas crias ou por ficarem irremediavelmente presos ao terrível desperdício humano, que estava já um pouco por toda a parte. Respondi:

- Plástico. Um desperdício humano que a minha espécie tarda em perceber que não deve simplesmente largar por aí.

Ela olhou de mim para o saco, e do saco para mim de novo:

- Se não fosses tu... eu poderia ter morrido sufocada com isso!

Eu olhei-a, e senti a tristeza transbordar dos meus olhos directamente para o convés entre nós, sob a forma de gotas salgadas. Suspirei, e disse:

- Não. Se não fosse a negligência consentida da minha espécie para com a tua, nunca terias encontrado este saco.

Subitamente, ela pareceu crescer. Já não era uma jovem tartaruga assustada, mas um ser marinho majestoso, munido de um olhar profundo e solene. Apoiada nas barbatanas dianteiras, endireitou a cabeça e disse:

- Enquanto um de vós se importar, um de nós será salvo; enquanto um de vós não entregar o seu lixo ao mar, haverá esperança; enquanto um de vós partilhar com o mundo a importância de respeitar o ambiente, nós teremos voz.

Abri a boca para falar, mas ela não tinha terminado:

- Diz-lhes. A todos aqueles que lutam por nós, e por este planeta que é a nossa casa:
“A ti, que recolhes o plástico do chão mesmo quando não te pertence, evitando que alcance os esgotos, estamos gratos; a ti, que caminhas pela praia com um saco na mão, e evitas que as garrafas de plástico entrem no mar mesmo que para isso tenhas que as carregar durante quilómetros, estamos gratos; a ti, que procuras educar os outros a respeitar-nos, mesmo quando escolhem não te ouvir, estamos gratos; a ti, que procuras resumir o uso do plástico ao essencial, estamos gratos; em ti, que respeitas as outras espécies como a ti mesmo, sentimos orgulho. A ti, que te desviaste do teu caminho para ajudar um animal em apuros, damos vivas.”

Interrompeu-se, apenas para suspirar e acrescentar:

- “A ti, que te importas... para ti, que nenhum gesto de boa vontade é pequeno demais... nós estamos a ver. Caminhamos contigo. Nós sabemos quem tu és. E contamos contigo.”


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

CATIVA, de Ana Ribeiro
















É mais um dia que amanhece. Um dia igual a tantos outros que tenho vivido nos últimos meses ou será que já se passaram anos? É sempre uma incógnita; infelizmente, o tempo há muito que parou de contar para mim: quase nunca sei as horas e engano-me sempre nos dias da semana. Acordo, vejo a luz do dia, lá longe, do outro lado da pequena e redonda janela: velha, ferrugenta e gasta e de vidros baços, tristes e em desalinho. E convivo, de imediato, com a incerteza e o medo de mais umas longas horas de luta pela sobrevivência, pela dignidade e acima de tudo pela liberdade. Quero muito e desejo com todas as minhas forças alcançar o que está para lá desta remota janela, poder transformar o desconhecido de hoje, em tudo aquilo que desde sempre conheci. Sinto-me como se tivesse deixado de saber de que é que é feito o mundo, como é a natureza, com que intensidade brilha o sol, qual é o peso da chuva, a sua cor, o seu sabor. Quero fugir daqui; parar de sofrer; recomeçar de novo, mudar de vida, sentir que existo.

Não sei o meu verdadeiro nome; apenas sei que aqui me dão o nome de Gabriela. Será esse o meu nome? Também não sei se tenho família, a quem possa perguntar como me chamo, onde nasci, de onde venho e para onde vou; para mim, o significado de família são este grupo de pessoas que convivem comigo desde que me lembro de ser gente.

Por vezes tenho frio, outras vezes tenho calor; no entanto, não tenho direito a reclamar nem por um simples agasalho, dizem-me logo que pessoas como eu não merecem nem um farrapo para vestir; é a única coisa que cobre o meu corpo fraco, frágil, flácido e magro. Tenho que aguentar desnuda e descalça. Já não reconheço a imagem de mim que o espelho, raras vezes, me devolve: estou suja, desnutrida, desmotivada, desprovida de alegria, de sentimentos, de força, de sonhos e de vontade de viver, de acreditar e de ter esperança. Não sei, realmente, quem sou… Isto não é viver. Não quero viver assim. A vida não é isto.

Para além da liberdade, também me foi roubado o direito a receber tratamentos em caso de doença, o singelo direito à saúde. Recentemente, adoeci, contorcia-me com dores e tremores provocados pela febre alta; implorei que me levassem a um hospital porque já não aguentava mais. Coube-me o direito de não ripostar, de ser surda e muda e de suportar tudo mais uma vez; se não queria ser castigada e punida com um dia inteiro sem comer, e ficar acorrentada no quarto escuro destinado aos desobedientes e desagradecidos…. Curei sozinha e com o tempo, se quis.

Entretanto ouço chamar-me, está na hora de me confrontar com a realidade nua e crua da vida, de ir oferecer o corpo ao manifesto se quero ter direito a umas gotas de água e a uma mísera comida: podre e putrefacta que nem o mais vadio dos animais aceitaria comer. Não tenho direito a hesitar, a recusar, a ter medos ou a queixar-me, sou mesmo obrigada a ir: a bem ou a mal; caso contrário, sou arrastada à força por um braço, quando não é pelos cabelos, numa brutalidade extrema. Dizem que é o meu dever, resta-me aceitar o meu destino; afinal de contas, sou apenas uma simples moeda de troca. É pegar ou largar. Recebo o que me dão, pondo o meu instrumento de trabalho à disposição. Neste submundo não somos merecedores de o mínimo de respeito.

Todos os dias choro, sem ninguém saber e sem ninguém ver; porque neste mundo, pessoas como eu não têm direito a chorar, a sentirem-se tristes e cansadas. Não temos direito a confessar que hoje não nos apetece. Temos que ter vontade. Sempre. Também não há direito a protecção, quantas vezes tenho desejado poder ter, por vezes, um daqueles abraços apertados que confortam e aconchegam nos dias mais críticos e difíceis da vida e que nos fazem sentir que num dia qualquer, tudo vai acabar bem; mas, infelizmente, ainda não vejo esse dia a aproximar-se. Vivo uma vida cheia de incertezas.

Praticamente, não sei ler e muito menos escrever, andei muito pouco tempo na escola; aliás, quando alguém ousa abordar o forte desejo que sente de querer ir para a escola, somos alvo de chacota. Pessoas como nós, não têm direito à educação, dizem que aquilo que nos ensinam (será a escravatura um novo método de ensino?) é suficiente para fazermos o nosso trabalho. Não concordo; porém, já aprendi a não fazer comentários, a não ripostar, nem me manifestar. É aceitar, calar e mais nada. Não temos direito a partilhar o que pensamos…. 
Entrei neste submundo cedo demais para a minha idade; por vezes, eu sinto que o meu destino há muito que estava traçado.

Felizmente ou infelizmente, ainda não me foi roubado o direito a sonhar; pelo menos enquanto sonho vivo uma vida diferente: uma vida onde nenhum direito me é roubado, onde sou feliz e livre para fazer aquilo que eu quiser e para tomar toda e qualquer decisão acerca do meu corpo. Quando é que tudo isto acaba?

Gostava de ter coragem para fugir daqui sem ter medo das consequências; apesar de nos ter sido dito que se tentarmos fugir eles só descansarão quando nos matarem, vivo num beco sem saída e em sobressalto permanente, pois, no dia em que der um passo em falso não sei o que me pode acontecer. Mas a vontade de fugir é muita, mesmo que me sinta como se fosse um ser sem identidade, pois, para além do farrapo que cobre o meu corpo massacrado não tenho mais nada. Tiraram-nos os nossos documentos pessoais; por isso, é como se não existíssemos. Um contrassenso de haver quem tenha tudo e quem não possa ter nada.

Batem à porta e pousam no chão um tabuleiro velho. O dia foi bom, tenho direito a uma pequena carcaça tártara, sem nada, e a meio copo de água. Hoje o meu corpo vai ter uma força extra para o novo dia que está prestes a chegar amanhã. Como, lentamente, contrariando a fome que me consome, para que a comida perdure; não interessa o sabor, importa matar a fome.

De repente, tudo muda. A algazarra é grande, trazendo novamente o medo ao meu redor. Alguém entra na divisão onde me encontro com palavras meigas e doces, que já não me recordava que pudessem existir, dizendo-me que vai ficar tudo bem (finalmente, vai ficar tudo bem), que não me querem fazer mal e que pretendem ajudar-me. Vejo solidariedade naqueles olhos, acredito e confio. Cobrem o meu corpo com uma manta: quente e macia e levam-me em braços rumo à liberdade e ao lusco-fusco daquele pesado dia.

Entro num carro que desconheço, mas onde sou recebida por mais algumas pessoas de preocupação visível no rosto; friccionam o meu corpo para me ajudarem a aquecer e o meu olhar cruza-se com o de outras raparigas, iguais a mim. Encosto-me no assento, desfrutando daquele conforto inexistente na minha vida até àquele momento, deixo que o meu olhar se perca desde a janela, despedindo-me em silêncio daquilo que foi a minha vida nos últimos anos, consigo esboçar um leve sorriso, mesmo cansada da vida e de ser mulher e as lágrimas de emoção limpam o meu rosto negro da sujidade e marcado pelo desrespeito e pelas consecutivas torturas. Renasço, pronta para recomeçar tudo do zero e rescrever a minha história. Quero ser capaz de o fazer e de consegui-lo.

Adormeço perdida no tempo e quando acordo sou embalada naquele tão desejado abraço de conforto, aconchego e perdão. Agora sei quem sou e onde é o meu verdadeiro lugar.

domingo, 15 de dezembro de 2019

SER PORTUGUÊS, de Cristina Das Neves Aleixo















Viver em Portugal é conviver com a sua gente de sorriso simpático, pronta a ajudar e a aproximar-se sem reservas dos seus interlocutores, sejam eles de que nacionalidade forem – a hospitalidade portuguesa e a facilidade de falar qualquer língua são sobejamente conhecidas - e usufruir de um clima de sonho, sem catástrofes naturais de maior monta, em paisagens desde a neve ao mais fino areal da praia; é desfrutar de uma luz natural, com um brilho raro, muito superior a outros locais do mundo; é degustar uma das melhores cozinhas e néctares e ter a felicidade de caminhar calmamente nas ruas em liberdade e sossego.


Mas ser português tem outro lado, incompreensível para quem preza a justiça e a verdade. Portugal tem um dos salários mínimos mais baixos da Europa, uma carga horária laboral elevada, uma taxa de desemprego insustentável, um serviço de segurança social podre, importa muito mais do que exporta e assiste, impávido, a todo o tipo de corrupção ao mais alto nível. Temos políticos que “desviam” e promovem tudo o que lhes convier, banqueiros coniventes com operações ilícitas na alta finança, juízes que, conscientemente, se demitem das suas reais funções e assumem posturas parciais e tremendamente questionáveis, médicos que rasgam o juramento de Hipócrates e se associam à máquina moedeira das farmacêuticas, entidades que roubam crianças aos seus progenitores e outras que deveriam cuidar delas e dos nossos velhos e os mantêm em vivências completamente inaceitáveis aos padrões humanos, polícias que são condenados por fazerem o seu trabalho, grandes empresários que mais parece quererem destacar o que é feito lá fora do que cá dentro e… nada é feito para travar isto.

Tudo se vai desenrolando, impunemente, mês após mês, ano após ano, década após década, à frente dos nossos olhos, num país que é um dos mais ricos do mundo em recursos naturais. Temos tudo o que é necessário para viver – não é sobreviver – sem praticamente depender de mais ninguém. Temos gás natural, petróleo, minerais diversos, sol em abundância, grandes extensões de solo arável e cultivável, óptimos aquíferos, um oceano rico em peixe, um clima excelente para qualquer tipo de agricultura e grandes mentes. Isto em linhas muito gerais.

Porque razão preferimos usar-nos do que é dos outros em vez do que é nosso? Porque não aproveitamos os recursos e as boas capacidades que temos – porque as temos, sim! - para criar emprego sustentável, para fazer crescer o país, para repor a justiça social, ao invés de apostarmos naquilo que os outros produzem? A relação entre os recursos naturais e o poder mundial é bem conhecida e nós temo-los de sobra. Porque continuamos a encolher os ombros à miséria de sistema em que vivemos? A resposta, creio, está nos nossos “brandos costumes”, como é hábito ouvir-se dizer. Aceitamos tudo o que nos é feito, mesmo que nos faça muito mal. Somos um povo permissivo, de conversa de café. Ali despojamos a corrupção e a injustiça de tudo e mais alguma coisa, somos super-heróis que se batem estoicamente pelo justo e pela igualdade de peito feito, mas depois, de volta à realidade diária, baixamos a cabeça e os braços e pensamos que melhores dias virão. Têm que vir, pois claro.

A pensar morreu um burro – ditado popular.

sábado, 14 de dezembro de 2019

NATIVIDADE, de Fernando Teixeira
















Aproxima-se mais um Natal. Em tempo de advento, observa-se uma repetição de tudo aquilo a que já nos habituámos por esta altura do ano: um apelo desenfreado ao consumo, traduzido em doses exaustivas de publicidade na televisão a tudo o que possa constituir uma prenda natalícia, uma correria nas grandes superfícies ou no comércio local para a compra atrasada dos presentes ou de um ou outro que ficou para o fim, ruas cheias de gente apressada, lojas enfeitadas com os motivos da época, lojistas afogueados procurando satisfazer os clientes e embrulhando centenas de artigos para oferta… Enfim!...

Nas grandes cidades, mais trânsito, mais movimento, luzes enfeitando ruas e montras, pessoas carregando sacos com compras e roupa mais quente, que o Outono está no fim e o Inverno já se anuncia, entardeceres frescos temperados pelo cheiro inebriante a castanha assada dos carrinhos de rua de vendedores ambulantes.

Nas vilas e aldeias, a quadra é vivida segundo as tradições locais. Maior tranquilidade, parecendo que o tempo corre mais devagar, embora os dias que antecedem o Natal sejam os mesmos do que nas cidades. Mas o espírito e a forma como se vive esta época são um pouco diferentes. Talvez ainda se dê mais atenção ao presépio e à celebração do nascimento de Jesus Cristo do que à árvore de natal, não podendo faltar, em muitas localidades que têm essa tradição, o acender do madeiro, uma pilha de grossos troncos que arderá durante dias, e à volta do qual se juntam as gentes da terra, aquecendo-se e trocando dois dedos de conversa.

Imigrantes regressam ao país e à terra, em muitos casos também ela designada natal, por uns dias. É o reencontro de famílias, separadas pelas necessidades da vida. É o reencontro de filhos que tiveram de procurar um trabalho e salário dignos no estrangeiro com a mesma urgência que agora têm de voltar, brevemente, para abraçar e consolar os seus progenitores, muitas vezes idosos. É um tempo que se deseja de encontro, de reconciliação e paz. Encontram-se pais e filhos, tios e sobrinhos, primos, antigos vizinhos, amigos e conhecidos…

Por motivos religiosos ou meramente pagãos, a quadra natalícia presta-se a que as pessoas estejam mais sensíveis às causas sociais. Tirando partido dessa sensibilidade, repetem-se igualmente os apelos à solidariedade dos cidadãos para acorrer aos que são mais desfavorecidos. É por altura do Natal que se recebem pedidos de donativos para causas que, existindo ao longo de todo o ano, procuram então maior receptividade das pessoas para o acto de contribuir. Também as instituições de solidariedade social procuram dar algum conforto mais a quem menos tem, multiplicando-se na distribuição de roupas e alimentos quentes, talvez mesmo uma refeição especial à laia de consoada, que o tempo frio e o espírito natalício assim o exigem.

Aproxima-se o Natal. Que cada um de nós possa reservar algum tempo para se permitir embrenhar no verdadeiro e mais nobre espírito desta quadra, evitando deixar-se unicamente submergir pelo frenesim consumista. Que cada um de nós procure viver em harmonia, dando menos importância a quezílias do passado entre familiares, colegas de trabalho ou amigos, porque este é um tempo que deve ser um oásis na aridez das turbulências da vida. Deixemos os sinos tocar e que as músicas natalícias nos amoleçam o coração. Que as consoadas e almoços de natal nas nossas famílias sejam o ponto culminante deste espírito.

A todos, um Santo e Feliz Natal!