quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

DE ONDE NUNCA SAÍ - MARZAGÃO, de Helder Menor















Estávamos em abril e a primavera tinha chegado quente. Navegava num Clio com cinco velocidades e três portas. Saí depois de jantar e fiz-me à estrada. Estava uma noite sem vento e a lua cheia iluminava a estrada que foi ficando para trás.

Como mantimentos, levava um termo de chá preto, ovos cozidos, um pão alentejano e cigarros. Foi ainda no século passado e navegava solitário. A banda sonora eram duas cassetes: o Dylan e a Brigada Vítor Jara.

Em Badajoz enchi o depósito porque naquele tempo o combustível era mais barato em Espanha. Coisas de outros séculos...

Atravessei o estreito ao nascer do dia no primeiro navio para África.

O sol nasceu do lado do Mediterrâneo e a noite fugiu para o Atlântico. O carro no porão e eu no bar do ferry a beber chá preto e a ver a paisagem.

Em Ceuta não me demorei, foi o tempo de comprar um pack de tabaco e chegar à fronteira com o Reino de Marrocos. Passaporte, documentos do carro e o papelinho preenchido com dados mais ou menos inventados sobre itinerários e locais onde pretendia alojar-me. Uma hora de burocracia aduaneira. Segui para sul. De Ceuta a Tanger é um pulinho. O Atlântico a bombordo a acompanhar.

A proa apontada para Arzila. Turistas alemães colonizavam a esplanada da fortaleza. Dealers de terceira categoria tentavam impingir haxixe manhoso. Desgostei dos ares e aproveitando o vento, levantei ferro.

O sol alto encadeava e a noite em branco ao volante fez-se sentir. Numa bomba de gasolina, abasteci, pus o banco para trás e devo ter dormido duas ou três horas. Acordei ao anoitecer com um gajo a bater no vidro a querer vender-me queijo fresco. Comprei o queijo ao homem. Ainda tinha pão, mas já se tinham acabado os ovos cozidos. O queijo era bom, de cabra temperado com orégãos.

Segui viagem para sul. Rumando a Kenitra, ponto de paragem das naus para abastecerem de água e frescos e lugar onde queria ancorar porque tinha um amigo de um amigo que me ia mostrar as vistas.

Cheguei a Kenitra já noite cerrada. Deviam ser uma onze ou meia-noite. Definitivamente já não era hora para telefonar para casa de ninguém. Naquele tempo ainda não haviam telemóveis ou se haviam não eram para o mim. O meu contacto em Kenitra era um amigo de um amigo que tinha estudado medicina veterinária na União Soviética. O muro havia caído há meia dúzia de anos, mas alguns laços ainda se mantinham. Eu estava cansado, por isso decidi procurar alojar-me e na manhã seguinte faria o telefonema.

Kenitra fica encostada ao mar numa planície agrícola com pomares e hortas à volta de ribeiros. De carro deambulei pelo centro da cidade adormecida. Pouca gente nas ruas, pouquíssimos carros a circular. Perto da praia vi um letreiro iluminado que dizia Hotel Atlantic com duas estrelinhas azuis a classificarem as instalações. Agradou-me o parque de estacionamento. Parei e entrei. Na receção, que funcionava no vão das escadas, um balcão anormalmente largo onde estava deitado um homem a dormir. O recepcionista ressonava aconchegado com um cobertor e um livro de registos ao lado.

Não deu pela minha entrada.

Bati devagar no balcão-cama.

Acordou e falou-me em árabe. Disse-lhe boa noite em português e ele perguntou-me o que é que eu queria em francês. Expliquei-lhe que queria um duche e quarto para dormir. Deu-me o livro de registos para preencher e uma chave atada a um bocado de madeira onde estava escrito o número doze. Primeiro andar, segunda porta do corredor. Subi com a mochila ao ombro. O quarto tinha o teto alto, chão de mosaicos, uma varanda a toda a largura, uma cama, um cabide e um chuveiro no canto diretamente para o chão. Mais nada. Banhei-me e dormi como um anjinho que era então e que às vezes ainda sou.

No dia seguinte liguei ao amigo do amigo. Disse-lhe onde estava alojado: Hotel Atlantic. Ele riu-se e explicou-me que era um bordel, mas que estava bem entregue porque é um sítio seguro, limpo e barato. Passado meia hora buscar-me e levou-me a ver os seus pacientes: cavalos e camelos. Depois fomos almoçar, cabrito assado e vinho tinto feito em Marrocos servido em garrafas de coca-cola. O vinho era bom e acompanhava bem com o cabrito. A tarde passámos na mesa a comer, beber e contarmos histórias... até nos virem interromper para que o meu anfitrião fosse atender uma doente. Seguimos para uma quinta nos arrabaldes onde ao anoitecer, assisti ao milagre de vida ajudando na cesariana de uma camela. Ali mesmo, no chão de terra, com uma lona no chão a servir de mesa de cirurgia. Primeiro a camela foi anestesiada, depois com jeitinho foi deitada na lona. Eu segurei a lanterna, o dono da camela trouxe água quente e o meu amigo veterinário rapou o ventre inchado do animal e com o bisturi fez o corte de onde tirou o camelozinho. Depois cozeu o golpe, limpou, desinfectou e deu uma injeção para a mãe camela acordar. O camelo bebé ficou de pé a mamar na mãe quando nós viemos embora. Já tinha passado da hora de jantar e não tínhamos fome. Por isso fomos beber vodkas a um bar clandestino. Para ensopar o vodka comemos harira que é uma sopa de grão com borrego, uma sopa grossa que sabe a cominhos, picante e limão. Voltámos ao vinho tinto a acompanhar o queijo de cabra que sobrava com o pão alentejano sobrevivente.  O vinho temperado pela proibição ainda sabia melhor.

Voltei nem eu sei bem como para o hotel eu dormi enquanto se vendia o amor. Na manhã seguinte, quando quis pagar as duas noites, não deixaram, explicaram que estava paga a estadia pelo senhor proprietário da camela.

Voltei à estrada. Virei à esquerda para leste. Direção Alkzar er Kirb, Alcácer Quibir do Sebastião desaparecido.

Quis desviar-me de Rabat onde o rei governava com mão de ferro. Evitei a Casablanca caótica com o seu trânsito de cidade grande. Meti-me por estradas estreitas e poeirentas entre planícies cultivadas e aldeias de beira de estrada

Em Alcácer Quibir comi e não achei, nem vestígios lusos, nem restos da armadura do rei desaparecido. Agro-negócio e armazéns tipo mercearias. Burros, camelos e homens. Calor, pó e demasiado longe do mar. Depois de almoçar carne grelhada, dormi a sesta dentro do carro à sombra de uma arvore centenária. Acordei cheio de energia e decidi continuar.

Segui para sudoeste, direção ao mar, direção a El Jadida. Queria ficar em Marzagão onde sabia que parava outro amigo de um amigo. Um holandês que se tinha apaixonado por Marrocos e que tinha um barco onde morava e que vivia de alugar o barco para viagens. Cheguei ao final do dia. Procurei o amigo do amigo. Não estava. Tinha zarpado há dois dias com americanos ricos com destino às Canárias. Fui ver onde ficar. Aluguei um quarto numa pensão baratinha perto de porto de pesca e fui jantar. Uma tasca com mesas compridas onde serviam peixe frito diretamente em cima da toalha de oleado. O peixe acompanhava com pão. Encontrei uns espanhóis ganzados com quem bebi jerez e partilhei uma garrafa de porto. Apareceram outros com wiskie marado. Bebemos todos demais.

No outro dia de manhã acordei com uma ressaca deste tamanho. Tomei um pequeno almoço de sumo de laranja e fui para a lota ver o peixe chegar.

Traineiras terceiro-mundistas descarregavam pescado de grande qualidade. Cabazes de verga com tecas misturadas. Robalos, cavalas, garoupas, corvinas, pescadas, carapaus e sardinhas tudo ao molho. Entre as caixas uma dourada chamou por mim. Mais de um quilo de dourada. Comprei-a barata pelo valor de uns três litros de gasolina. Fui procurar carvão e pelo caminho comprei dois tomates maduros, pão e azeitonas. Acendi o lume na areia da praia. Estava calor, mas não excessivo. Assei a dourada devagar e, sentado na areia, comi o melhor peixe assado da minha vida. Lavei as mãos e a boca na água do mar e reconfortado decidi ir ver a cidade.

Já quase não tinha ressaca. Tinha lido sobre a conquista e reconquista de Marzagão. Os livros marroquinos editados em francês, falavam na fortaleza portuguesa e na cisterna portuguesa. Fui ver onde eram.

Um homem com um cartão ao peito a dizer guia-oficial queria impingir-me uma visita guiada onde eu pagava para ir a ver as mesmas coisas que podia olhar à borla. Recusei. Acompanhou-me durante uns passos na sua insistência. Quando percebeu que eu era português e que não lhe ia comprar nada, apontou para uma muralha antiga e disse:

-- Foi ali que penduramos os 18 portugueses!

A frase soou-me como uma vingançazinha histórica por eu não alinhar no negócio que me propunha.

Para o calar respondi:

-- Se quiseres temos lá mais para enforcar, e olha, faço-te barato por ser para ti, e todas as semanas te posso mandar outros dezoito que não esgotamos o nosso stock de filhos da puta!
Entretanto mudámos de século e de milénio. Muitas luas passaram depois desta conversa com o guia-oficial de El Jadida. Muita coisa se alterou, outras coisas permanecem. Se há produto que continuamos a ter de sobra para exportação nesta terra molhada de sal atlântico são filhos da puta para pendurar. E não me parece que estejam em vias de extinção.


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