quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

PRÓLOGO, de Anita Dos Santos















O calor era abrasador.

Normalmente as horas da tarde eram sempre muito quentes.  O calor subia do chão em ondas que se viam, e a deixavam por vezes perplexa.

Ela era a mais nova de todos os onze irmãos. Ao mais velho nem tinha chegado a conhecer. Morreu antes dela ter nascido devido ao rebentamento de um foguete numa mão. O tétano levou-o com apenas dezanove anos, mas já um homem feito.

Do irmão seguinte, também não tem muita ideia. Lembra-se de um dos outros irmãos lho ter apontado de longe, um dia na cidade, para lhe dizer que também era deles, tinha ideia de ter ouvido histórias sobre como casou com a namorada do irmão mais velho, quando este morreu, por ela estar à espera de uma criança.

Alguém tinha de fazer o que era correcto, só que ele não perdoou ter de ser ele a tomar o lugar que pertencia ao irmão mais velho.

Eram quase todos homens. Só havia mais uma outra irmã, mais velha do que ela uns sete anos.

Depois havia a mãe.

Uma mulher minúscula, com uma fibra de antes quebrar que torcer, e tinha de ser assim mesmo, para dar conta dos filhos, da casa, de fazer com que a comida aparecesse, fosse de onde fosse… e do marido…

O pai. 

Ele era o eixo em torno de que se tudo movia, dentro e fora de casa. A sua vontade era soberana, e quem assim não concordasse tinha de haver com a sua mão pesada da qual não fazia economia.

Assim como a mãe era pequenina, o pai tinha a altura de um gigante, ou assim lhe parecia para a sua pequena estatura de três anos de idade. Os irmãos também eram altos, mas nenhum se lhe comparava. Tinha uma figura imponente, de largos ombros e cintura estreita, sempre cingida por uma cinta apertada, que era enrolada, bem esticada.

Ia ao mar, no tempo permitido da pesca. Era arrais de uma embarcação e, todos os rapazes começaram cedo a ir à pesca, logo que tiveram idade.

A mãe, quando podia, trabalhava na fábrica de conservas.

Quando chegava o dia em que o soldo era pago, todos estavam de prontidão para debandar ao primeiro sinal. Ele chegava sempre tarde, bem bebido e, se ainda houvesse algum dinheiro no bolso, era uma sorte.

O barómetro, era a sua deixa preferida, “Quem dentro, dentro. Quem fora, fora!”. E a porta era trancada nas suas costas.

Quem tinha a agilidade suficiente para saltar uma janela e escapar, conseguia fugir. Quem ficasse, já sabia que iria provar daquelas mãos que não perdoavam a ninguém.

Os rapazes eram ágeis, ou espertos para nem sequer entrar em casa. A irmã, fugia para a vizinha, e dela ninguém se lembrava… A mãe, essa, ficava sempre em casa, à espera do pai, ou para se colocar em frente de quem não conseguia fugir.

A ela, ele sabia que iria encontrar sempre para descarregar a sua raiva, a sua frustração, o seu feitio…

Como a mãe dizia, era o feitio dele.

Ela, escondia-se debaixo da cama dos pais, fazendo-se mais pequenina, talvez assim não dessem com ela.

Chorava em silencio, em simultâneo com as pancadas que a mãe apanhava enquanto tentava chamar o pai à razão.

Houve uma época em que ninguém soube dele. O barco fez-se ao mar, e não houve mais noticias.

Um dia, ao fim da tarde, ela estava sozinha em casa, no quintal atrás do poço, e viu chegar. A figura inconfundível. Alto, magro, vertido de negro, camisola de gola alta.

Os passos foram-se tornando mais lentos até chegar à porta das traseiras onde parou por fim.

Espreitou de trás do poço, com as pernas a tremer, e viu-o quieto, de cabeça baixa. Depois ajoelhou-se e beijou a pedra do degrau da entrada.

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