segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

CATIVA, de Ana Ribeiro
















É mais um dia que amanhece. Um dia igual a tantos outros que tenho vivido nos últimos meses ou será que já se passaram anos? É sempre uma incógnita; infelizmente, o tempo há muito que parou de contar para mim: quase nunca sei as horas e engano-me sempre nos dias da semana. Acordo, vejo a luz do dia, lá longe, do outro lado da pequena e redonda janela: velha, ferrugenta e gasta e de vidros baços, tristes e em desalinho. E convivo, de imediato, com a incerteza e o medo de mais umas longas horas de luta pela sobrevivência, pela dignidade e acima de tudo pela liberdade. Quero muito e desejo com todas as minhas forças alcançar o que está para lá desta remota janela, poder transformar o desconhecido de hoje, em tudo aquilo que desde sempre conheci. Sinto-me como se tivesse deixado de saber de que é que é feito o mundo, como é a natureza, com que intensidade brilha o sol, qual é o peso da chuva, a sua cor, o seu sabor. Quero fugir daqui; parar de sofrer; recomeçar de novo, mudar de vida, sentir que existo.

Não sei o meu verdadeiro nome; apenas sei que aqui me dão o nome de Gabriela. Será esse o meu nome? Também não sei se tenho família, a quem possa perguntar como me chamo, onde nasci, de onde venho e para onde vou; para mim, o significado de família são este grupo de pessoas que convivem comigo desde que me lembro de ser gente.

Por vezes tenho frio, outras vezes tenho calor; no entanto, não tenho direito a reclamar nem por um simples agasalho, dizem-me logo que pessoas como eu não merecem nem um farrapo para vestir; é a única coisa que cobre o meu corpo fraco, frágil, flácido e magro. Tenho que aguentar desnuda e descalça. Já não reconheço a imagem de mim que o espelho, raras vezes, me devolve: estou suja, desnutrida, desmotivada, desprovida de alegria, de sentimentos, de força, de sonhos e de vontade de viver, de acreditar e de ter esperança. Não sei, realmente, quem sou… Isto não é viver. Não quero viver assim. A vida não é isto.

Para além da liberdade, também me foi roubado o direito a receber tratamentos em caso de doença, o singelo direito à saúde. Recentemente, adoeci, contorcia-me com dores e tremores provocados pela febre alta; implorei que me levassem a um hospital porque já não aguentava mais. Coube-me o direito de não ripostar, de ser surda e muda e de suportar tudo mais uma vez; se não queria ser castigada e punida com um dia inteiro sem comer, e ficar acorrentada no quarto escuro destinado aos desobedientes e desagradecidos…. Curei sozinha e com o tempo, se quis.

Entretanto ouço chamar-me, está na hora de me confrontar com a realidade nua e crua da vida, de ir oferecer o corpo ao manifesto se quero ter direito a umas gotas de água e a uma mísera comida: podre e putrefacta que nem o mais vadio dos animais aceitaria comer. Não tenho direito a hesitar, a recusar, a ter medos ou a queixar-me, sou mesmo obrigada a ir: a bem ou a mal; caso contrário, sou arrastada à força por um braço, quando não é pelos cabelos, numa brutalidade extrema. Dizem que é o meu dever, resta-me aceitar o meu destino; afinal de contas, sou apenas uma simples moeda de troca. É pegar ou largar. Recebo o que me dão, pondo o meu instrumento de trabalho à disposição. Neste submundo não somos merecedores de o mínimo de respeito.

Todos os dias choro, sem ninguém saber e sem ninguém ver; porque neste mundo, pessoas como eu não têm direito a chorar, a sentirem-se tristes e cansadas. Não temos direito a confessar que hoje não nos apetece. Temos que ter vontade. Sempre. Também não há direito a protecção, quantas vezes tenho desejado poder ter, por vezes, um daqueles abraços apertados que confortam e aconchegam nos dias mais críticos e difíceis da vida e que nos fazem sentir que num dia qualquer, tudo vai acabar bem; mas, infelizmente, ainda não vejo esse dia a aproximar-se. Vivo uma vida cheia de incertezas.

Praticamente, não sei ler e muito menos escrever, andei muito pouco tempo na escola; aliás, quando alguém ousa abordar o forte desejo que sente de querer ir para a escola, somos alvo de chacota. Pessoas como nós, não têm direito à educação, dizem que aquilo que nos ensinam (será a escravatura um novo método de ensino?) é suficiente para fazermos o nosso trabalho. Não concordo; porém, já aprendi a não fazer comentários, a não ripostar, nem me manifestar. É aceitar, calar e mais nada. Não temos direito a partilhar o que pensamos…. 
Entrei neste submundo cedo demais para a minha idade; por vezes, eu sinto que o meu destino há muito que estava traçado.

Felizmente ou infelizmente, ainda não me foi roubado o direito a sonhar; pelo menos enquanto sonho vivo uma vida diferente: uma vida onde nenhum direito me é roubado, onde sou feliz e livre para fazer aquilo que eu quiser e para tomar toda e qualquer decisão acerca do meu corpo. Quando é que tudo isto acaba?

Gostava de ter coragem para fugir daqui sem ter medo das consequências; apesar de nos ter sido dito que se tentarmos fugir eles só descansarão quando nos matarem, vivo num beco sem saída e em sobressalto permanente, pois, no dia em que der um passo em falso não sei o que me pode acontecer. Mas a vontade de fugir é muita, mesmo que me sinta como se fosse um ser sem identidade, pois, para além do farrapo que cobre o meu corpo massacrado não tenho mais nada. Tiraram-nos os nossos documentos pessoais; por isso, é como se não existíssemos. Um contrassenso de haver quem tenha tudo e quem não possa ter nada.

Batem à porta e pousam no chão um tabuleiro velho. O dia foi bom, tenho direito a uma pequena carcaça tártara, sem nada, e a meio copo de água. Hoje o meu corpo vai ter uma força extra para o novo dia que está prestes a chegar amanhã. Como, lentamente, contrariando a fome que me consome, para que a comida perdure; não interessa o sabor, importa matar a fome.

De repente, tudo muda. A algazarra é grande, trazendo novamente o medo ao meu redor. Alguém entra na divisão onde me encontro com palavras meigas e doces, que já não me recordava que pudessem existir, dizendo-me que vai ficar tudo bem (finalmente, vai ficar tudo bem), que não me querem fazer mal e que pretendem ajudar-me. Vejo solidariedade naqueles olhos, acredito e confio. Cobrem o meu corpo com uma manta: quente e macia e levam-me em braços rumo à liberdade e ao lusco-fusco daquele pesado dia.

Entro num carro que desconheço, mas onde sou recebida por mais algumas pessoas de preocupação visível no rosto; friccionam o meu corpo para me ajudarem a aquecer e o meu olhar cruza-se com o de outras raparigas, iguais a mim. Encosto-me no assento, desfrutando daquele conforto inexistente na minha vida até àquele momento, deixo que o meu olhar se perca desde a janela, despedindo-me em silêncio daquilo que foi a minha vida nos últimos anos, consigo esboçar um leve sorriso, mesmo cansada da vida e de ser mulher e as lágrimas de emoção limpam o meu rosto negro da sujidade e marcado pelo desrespeito e pelas consecutivas torturas. Renasço, pronta para recomeçar tudo do zero e rescrever a minha história. Quero ser capaz de o fazer e de consegui-lo.

Adormeço perdida no tempo e quando acordo sou embalada naquele tão desejado abraço de conforto, aconchego e perdão. Agora sei quem sou e onde é o meu verdadeiro lugar.

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