segunda-feira, 13 de julho de 2020

REGRESSO A UM CENÁRIO CAMPESTRE, de Nuno Júdice / DOM QUIXOTE (Poesia)

Nas livrarias a 14 de Julho






















Regresso a um Cenário Campestre é um livro que começou a ser escrito nos últimos meses de 2019 e terminou na transição da epidemia para a pandemia, já em 2020. É um trabalho sobre as transformações resultantes da época que vivemos, em que se inclui uma sátira ao politicamente correcto e ao apagamento ou revisão da História. Os temas do amor e da natureza estão igualmente presentes na linha de livros anteriores, seguindo o jogo entre memória e imagem que é dominante na fase mais recente da poética de Nuno Júdice.

Autor Fernando Teixeira


Autora Anita Dos Santos


sábado, 11 de julho de 2020

A HORTA, de Fernando Teixeira















Tinha as mãos calejadas como qualquer homem do campo, a pele endurecida por anos a manejar enxadas, sachos e forquilhas numa faixa de terra exígua que, por esse motivo, não pedia arado mecânico ou de tracção animal.
Aquela porção de terreno era, então, o seu sustento e a sua razão de viver. Havia-a comprado após se reformar do modesto mas honrado trabalho na cidade, a fim de cultivar o que a terra pudesse dar e, fértil como era, ela dava um pouco de tudo, o suficiente para quem pouco é o bastante para sobreviver. Ficava a cerca de um quilómetro de distância da humilde casa onde vivia com a esposa de sempre, numa aldeia da Beira Baixa.
De início, deslocava-se a pé, sozinho ou na companhia da mulher, carregando o produto do seu trabalho em sacas, às costas. Avançando na idade, tinha resolvido adquirir um triciclo motorizado da Famel, cuja cabina o protegia das intempéries e do cansaço do caminho, permitindo-lhe ao mesmo tempo transportar fruta e legumes para casa, na caixa aberta do veículo. O triciclo era lento, porém, com a idade que tinha, também não precisava de se deslocar depressa, tempo era aquilo de que ele mais dispunha.
Nos meses frios, os pesados cobertores apelavam a que se deixasse ficar mais algum tempo na cama, mas no Verão o dia começava sempre bem cedo. Dirigia-se à horta de manhãzinha, ainda o sol mal ameaçava despontar, para poder dar os trabalhos por concluídos antes da canícula raiana. Ainda era noite, quando se levantava e ia colocar a cafeteira de café ao lume ou preparar uma caneca de leite com um pedaço de pão migado, que os dentes já lhe iam faltando.
Estacionado o triciclo à sombra de uma oliveira, a primeira árvore que encontrava no estreito caminho de terra batida ao sair da estrada municipal, a primeira coisa que fazia era abrir a porta de um velho barracão isolado onde guardava os utensílios da lavoura. A primeira coisa, não. A segunda! Antes, não falhava no gesto de acender um cigarro que retirava do maço meio amachucado de Português Suave, que nunca dispensava ter no bolso das calças. Puxava duas fumaças e, depois de entalar o cigarro por cima da orelha e colocar a boina, lá ia então aos seus afazeres.
Depois da construção da barragem e da implementação do sistema de regadio na região, o trabalho de rega tinha ficado simplificado. Com a enxada, ia movendo pequenos montículos de terra, aqui e ali, desviando o curso de água por diversos canais cavados no terreno, possibilitando que o precioso líquido chegasse às diferentes parcelas da horta. Enquanto esperava, novas passas eram dadas no cigarro. De vez em quando, urgia tirar a boina e voltar a ajeitá-la depois de um breve coçar da nuca.
Verificava com olhar sereno o estado das árvores de fruto, certificava-se de que nenhuma moléstia as tinha atingido, e dava um jeito nas plantas hortícolas como só ele sabia. O ar perfumava-se de aromas a fruta madura, principalmente junto das duas figueiras, cujos figos “Pingo de Mel” faziam a delícia dos sobrinhos que ele adorava, quais filhos que nunca tivera.
Cavava aqui, arrancava ervas daninhas ali, semeava acolá, colhia algumas peças de fruta, escolhia uma alface, dois ou três tomates, ou umas folhas de couve e umas vagens de feijão que a mulher houvesse pedido para a sopa… Quem o visse, andava sempre numa azáfama tranquila, sem pressas, ao ritmo das vezes que levava o cigarro à boca, deixado depois em cima de um torrão de terra até à próxima passa, até aquele não ser mais do que uma beata com a qual acendia o cigarro seguinte.
Maldito tabaco que o haveria de consumir mais do que o trabalho do campo, vício do qual se veria obrigado a largar definitivamente, alguns anos mais tarde, numa manifestação da sua força de vontade e tenacidade, embora os danos já se reflectissem no catarro, cansaço e na falta de ar que o acometia.
Já não está entre nós. Dele, ficou a saudade de muitas tardes passadas a ouvi-lo contar histórias sobre a terra e os locais, seguindo com admiração o seu raciocínio esclarecido, escutando conselhos sábios forjados pela dureza da vida, enquanto bebíamos um café ou uma cerveja, ao entardecer e à volta de uma mesa da esplanada do café da aldeia, depois de ele ter dormido a merecida sesta. Ficar-me-á, para sempre, a imagem de serenidade daquele homem de pele tisnada e mãos calejadas, ajeitando a boina depois de um breve coçar de nuca, hábito que nunca perdeu.  

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

sexta-feira, 3 de julho de 2020

CRÓNICA | A SEREIA, de Anita Dos Santos


Texto: Anita dos Santos

Foto: D.R.

Os remos cortavam a água de um lado e do outro do bote, calmamente ao ritmo que lhes ía imprimindo.
Não tinha pressa.
Olhou para o céu claro e sem nuvens onde brilhava uma bela lua cheia, e depois para a margem longínqua. Continuou a afastar-se. Não queria deitar a rede perto pois nos últimos dias tinha voltado vazia de peixe todas as vezes que a tinha puxado.
Não entendia o que se estava a passar. Naquela altura do ano devia haver peixe com fartura, mas este ano algo estava a afugentar o pescado.
Afastou-se mais. A margem já mal se via.
A água em volta do bote, translúcida ao cimo, tornava-se negra devido à fundura.
Deitou a rede e ficou à espera.
Acabou por passar pelo sono, as noites anteriores não tinham sido bem dormidas. Acordou com o sacudir do bote.
Endireitou-se de supetão para ir direito à rede.
Mas não lhe chegou a tocar.
Da amurada do barco, uma criatura bela, de imensos olhos verdes, fitava-o intensamente com metade do corpo submerso e os longos cabelos escorridos pela água do mar.
Ficou sem saber o que fazer.
- Olá. Naufragou? – Logo que fez a pergunta viu que era um enorme disparate.
Ela continuava com uma mão agarrada ao bote, sem tirar os olhos dele.
- Precisa de auxílio? – Outro disparate, pensou.
Sabia bem o que ela era de ouvir falar. Nunca pensou foi encontrar uma…
- Vens apanhar os pequenos com a tua rede. – A sua voz era baixa e rouca.
- Foi o que aprendi a fazer para ganhar a vida.
- É mau para nós quando vocês, os de duas penas, apanham os pequenos nas vossas redes.
- Porquê, porque é que é mau?
- Porque as redes não apanham só os pequenos. Destroem também tudo em volta quando as puxam. Matam o que levam e o que fica para trás. Porque já mataram alguns de nós.
Ele ficou sem saber que resposta lhe dar. Baixou os olhos envergonhado.
- Tens razão. Muitos homens usam redes grandes e pesadas, redes que apanham tudo e levam tudo dentro delas. Não deveria ser assim e não é isso que faço.
- A tua rede é pequena, já vi que sim. E tem malhas largas. Os muito pequenos podem fugir. De qualquer maneira não a deves deitar aqui.
- Está bem então. Podes dizer-me onde posso deitar a minha rede para apanhar peixe?
- Do outro lado do Pico Rochoso e só depois da Lua Escura.
- Do lado de lá da baía e depois da lua nova. São essas as tuas condições?
- Sim, são essas as condições.
- E se eu quiser voltar a encontrar-te? – Acabou por perguntar após um momento de silêncio.
- Virei ter contigo na próxima Lua Grande se, entretanto, ensinares aos outros que não devem vir para aqui.
- Farei isso.
A voz dele soou baixa e claramente.
Longos anos se passaram, e os pescadores tomaram outros hábitos de pesca devido aos ensinamentos do pescador.
Mas durante todas as luas cheias, se algum intrépido se aventurasse a ir para os lados do Abismo, podia ver a sombra de um pequeno bote com um pescador debruçado na amurada abraçado a uma bela sereia, que o abraçava também.