sexta-feira, 21 de julho de 2017

OPINIÃO | Bem-haja! | MARGARIDA VERÍSSIMO

Não vou fazer um relato do que é combater um incêndio, porque é disso que se trata, um combate, um combate desigual, cruel, entre homem e natureza. Não sou bombeira, ninguém da minha família o é.

Já estive próxima de fogo, mas nunca de um incêndio, nunca estive cara a cara com as labaredas que devoram tudo por onde passam, nunca olhei nos olhos a chama que engole florestas, casas e vidas. Não posso fazer um relato do sentimento que move tantos heróis anónimos deste país, e é incontestável que são heróis, como não posso descrever o que sentem nas horas infindáveis de sacrifício. Não consigo imaginar o esforço, físico e psicológico, o cansaço, o calor infernal, o ar irrespirável, o fumo, o cheiro, o que é não conseguir ver, o sentirem-se encurralados, a frustração de não conseguir fazer mais, dar mais…e eles já dão tanto, já se dão tanto!

Há situações que não são imagináveis, só estando lá, só quem as vive as conhece realmente. Acredito até que talvez nem haja vocabulário que o consiga descrever.

Eu não sei, não sei o que é, nem o consigo imaginar. O que vejo nas imagens arrepiantes que nos chegam através da comunicação social não passa disso, de imagens, distantes.

Ouvimos e lemos relatos perturbadores de quem viveu o inferno na primeira pessoa.

Impressionamo-nos, comovemo-nos, solidarizamo-nos, fazemos-lhes honras de heróis, não há dúvida que o são. Somos tocados pela sua bravura, abnegação, pela sua exaustão. 
Agradecemos.

Mas eu não sei o que é, não sou bombeira…mas tenho amigos que o são, tenho amigas que são mulheres de bombeiros, os meus filhos têm amigos que são filhos de bombeiros e o que eu sei, aquilo que, longe dos cenários dantescos, a comunicação social não mostra, é que são pessoas, com as suas vidas, a sua família, os seus empregos, os seus passatempos, mas que se necessário, se necessárias, deixam a sua família, os seus empregos e a sua vida para irem em socorro de quem necessita… e muitas vezes deixam mesmo a sua vida por lá.

Mais forte que qualquer outro sentimento, quando necessário, quando necessários, sentem o desejo de ir, é imprescindível irem, dê por onde der. Sabem que todos os braços são necessários, que um par de braços mais pode fazer a diferença e que nunca são demais.

E deixam tudo, sem olhar para trás, deixam as suas famílias, os seus maridos e mulheres, filhos e pais, esperando que regressem. Famílias que orgulhosamente sabem e carinhosamente aceitam que eles têm de ir, não que sejam obrigados, são voluntários, mas porque não conseguem deixar de ir, de ajudar, de se dar! Também estas famílias nos dão tanto. Cada partida vivida, cada ausência sofrida do seu ente querido bombeiro, na incerteza do regresso, são dádivas que nos fazem.

“Como consegues?” pergunto a uma amiga mulher de um bombeiro. Como resposta obtenho um sorriso, um sorriso sereno de quem já viveu certamente tantas horas de angústia, de incerteza, mas que sabe e aceita que o lema “vida por vida” é algo maior que a nossa dimensão humana. É o que os torna únicos, especiais…heróis! Um dia também o seu filho será bombeiro.

Também sei o que é o olhar exausto de uma colega, comandante de uma corporação, que gozou os dias de férias em cursos, ações de formação e outros afazeres específicos e necessárias para melhor desempenhar a sua função…nos bombeiros, porque a sua profissão é outra. O olhar atento e ansioso de quem passa a curta hora de almoço ao telefone a tratar de assuntos relacionados com a corporação e com ocorrências. Sentei-me ao seu lado e afinal nem conseguimos conversar, engoliu o almoço entre palavras ao telemóvel que não pode deixar de atender.

Sei o que é o olhar de raiva, desilusão, de sentido de injustiça, de inconformismo, por terem sido acusados de não terem prestado o auxílio que, compreensivelmente, era o desejado pela população em horas de aflição. Eles que estiveram lá, lá ou noutro local, onde também eram necessários. Eles que vão, que combatem, que dão tudo o que têm…que se dão. Sei ainda o que é o olhar esgotado de quem esteve horas ou dias a combater um incêndio e teve de ir diretamente para o emprego, só são justificadas as ausências ao serviço durante o tempo efetivo de combate ao incêndio.

Mas sei também como brilha uma chama única de amor imenso no olhar de quem tanto se dá aos outros! Bem-haja!


Nota: Optei pela expressão bem-haja, que raramente uso, porque é aqui que a oiço, nesta terra onde tenho o privilégio de conviver com bombeiros.

Nota 2: Neste texto refiro-me à minha família direta, sei que tenho primos mais afastados que são ou foram bombeiros. Bem-haja também para eles.















Margarida Veríssimo

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