quarta-feira, 14 de junho de 2017

À conversa com o escritor Robert Service

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O que nos leva a ler um livro com o título: “O último dos Czares, Nicolau II e a Revolução Russa” cem anos após o seu acontecimento? Será o mistério que ainda hoje existe à volta da família Romanov? O aparecimento de Putin como um novo imperador que tenta reunificar esta nova Rússia?
Para sabermos as respostas a todas estas questões fomos falar com o autor.


Robert John Service é um historiador e autor britânico que tem escrito extensivamente sobre a história da União Soviética, particularmente desde o período da Revolução de Outubro à morte de Stalin. Actualmente é professor de história da Rússia na Universidade de Oxford. Como autor, é conhecido por ter escrito as biografias de Vladimir Lenin, Josef Stalin e Leon Trotsky.

Sendo eu uma curiosa pela história mundial, os mistérios escondidos em documentos antigos e tendo uma forte ligação familiar à Rússia tive o privilégio de falar com o autor para tentar perceber um pouco melhor o que o leva a sentir esta mesma atração. Porquê Nicolau II, os Romanov, a Revolução Russa, sem nos esquecermos da carismática figura de Rasputin, odiado, temido e incompreendido por tantos, e da sua influência sobre a família do czar. Robert Service conseguiu fazer com que deixasse de lado as minhas ideias pré-concebidas sobre este homem e o visse à luz dos acontecimentos sociais da época.

Durante o tempo que amavelmente me disponibilizou tivemos ainda a oportunidade de trocar algumas ideias sobre os momentos curiosos que todas as suas investigações acabam por revelar. Um documento esquecido nos arquivos de uma biblioteca que por sorte ou por estar assim destinado lhe vem parar às mãos e que prova vir a ser de grande utilidade, uma bibliotecária que é a única pessoa capaz de ler a caligrafia de um documento esquecido no meio de tantos outros e que acaba por trazer à luz do conhecimento aspectos perdidos no tempo e no pensamento. A descoberta, por acaso, de um arquivo nunca antes estudado proporcionar-lhe-ia respostas a muitas das suas questões, mas também à descoberta de novos temas que ficarão para já a aguardar uma resposta mais estudada.

Informou-me que presentemente está a escrever sobre Putin, o entusiasmo deste com os Romanov e em particular com os factos políticos, históricos e sociais que conduziram ao trágico fim do último dos czares.

Sentados na livraria Buchholz na manhã do passado dia 09 de junho, começámos por falar sobre algumas curiosidades que envolveram Nicolau II e das quais vos deixo aqui dois desses exemplos: primeiro, o facto do primeiro czar da dinastia Romanov, Mikhail I, ter sido eleito czar pelos boiardos em assembleia nacional no Mosteiro Ipatiev enquanto que o último czar da dinastia Romanov, Nicolau II, era assassinado com a sua família na adega da casa Ipatiev. E, ainda, o facto de Nicolau II ter estado 23 anos no poder e para se descer até à adega onde foi assassinado com a sua família na casa Ipatiev ter que se descer 23 degraus.

MBC - Sabendo das questões que levanta em todos os seus trabalhos sejam elas de foro político ou histórico, combinando todas estas vertentes tornando-as intrigantes para os seus leitores gostava que me desse a sua visão sobre Nicolau II, o homem, o pai, o czar.  
RS – Nicolau II era acima de tudo um obstinado, dificilmente mudava de ideias. Ninguém sabia realmente o que pensava ou o que esperar dele. Principalmente aqueles com quem deveria trabalhar directamente para governar aquele imenso país que era a Rússia. A política não lhe interessada por esse motivo era muito pouco informado sobre o que se passava no mundo, era militar de coração, mas era acima de tudo um homem simples. O seu lado mais negro era possivelmente o ódio que sentia pelos judeus. Ao mesmo tempo que era um pai e marido extremoso. Penso que teria sido mais feliz se tivesse vivido uma vida mais simples, adorava trabalhos manuais, o contacto com a terra. Testemunhas afirmavam que nunca o tinham visto mais feliz do que desde que abdicara, teria vivido feliz como um homem do campo ao invés de imperador. É verdade que era um ser humano complexo, mas afinal todos nós somos complexos, por esse motivo achei que era minha obrigação mostrá-lo como um ser humano.

MBC – A forma como se relacionava com os seus captores desde o primeiro dia dizia muito a respeito dessa personalidade?
RS – Durante o seu cativeiro em Tsarskoye Selo, Nicolau II encontrou vários livros que lia fervorosamente sobre assuntos que até então ignorava. Falava amiúde com os seus carcereiros sobre temas de interesse geral, sobre a Rússia, o Mundo, mas principalmente sobre as dificuldades com que a classe mais baixa da sua sociedade tinha que se confrontar diariamente. Foi deste modo que se apercebeu de que vivera numa bolha até aquele momento.  

MBC –Qual era o seu maior receio?
RS – Que os comunistas os levassem para Moscovo e que o obrigassem a assinar um qualquer tipo de acordo.

MBC - Sempre me deixou curiosa o facto do czar ter tantas ligações familiares na Europa e ninguém ter vindo em seu auxílio. Principalmente o seu primo o Rei Jorge V de Inglaterra?
RS – Aqueles que defendiam o czar internamente estavam fracturados e levaram algum tempo até se conseguirem reagrupar. O governo britânico chegou a oferecer asilo a Nicolau e à sua família, mas o rei Jorge V, seu primo, revogaria a mesma por querer ficar de bem com a esquerda. Nesta altura falava-se de uma conspiração entre Inglaterra, França e Moscovo para destituírem Lenine. 

MBC - Já tendo abdicado, porquê matá-los? Não os poderiam ter mantido sobre apertada vigilância ou quem sabe até exílio forçado?
RS - Existiam vários indivíduos, e estamos a falar de bolcheviques, dispostos a matar Nicolau, com ou sem aprovação da liderança, e aqui falo de Lenine, até à presente data não foi encontrado nenhum documento que o envolvesse directamente neste bárbaro assassinato. Manter o czar e a família vivos tornara-se um risco pois as forças que o apoiavam já vinham em seu auxílio para os libertar. Estavam mesmo muito perto da casa dai o precipitar dos acontecimentos.

MBC – Pensa que se o czar e a sua família tivessem sobrevivido a Rússia seria a que temos hoje ou ainda teríamos uma Rússia com czares?
RS – Infelizmente nunca saberemos porque a história assim não o quis.


O meu agradecimento a Robert Service, fico ansiosamente a aguardar o seu próximo livro e quem sabe uma nova conversa. E à editora Desassossego do Grupo Saída de Emergência por me terem proporcionado este momento único.

Texto: MBarreto Condado
Fotos: Mário Ramires

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