sexta-feira, 3 de novembro de 2017

OPINIÃO | A Arte das Musas | MARGARIDA VERÍSSIMO

Não me canso de ouvir esta música, é linda, poderosa, profunda, eleva-me a outra dimensão. Quando a oiço sinto que ela se apodera de mim. Chega suave, de mansinho, aos ouvidos e depois, sofregamente, entra pela boca, pelo nariz, com a respiração, e desce, infiltra-se até ao mais profundo de mim. Revolve-me numa procura de algo que ainda não encontrei, de algo que se solte cá de dentro, cá bem do fundo. Revolve-me e preenche-me. Inspiro e expiro com mais dificuldade – todo o espaço concebido para ser destinado às trocas gasosas está preenchido pela música. Esta música é maravilhosa, mas deixa-me exausta pelo esforço em respirar normalmente. Gosto de ouvir esta música e voltar a ouvir, uma e outra vez, com a repetição o esforço em respirar suaviza-se transformando-se em relaxamento, em descontração, em paz.

Há músicas que têm a capacidade de me alterar os sentidos, os sistemas corporais, o metabolismo, o estado de espírito. Há musicas que me emocionam, outras que me dão energia, ou nostalgia, há as que me alegram e as que me entristecem, as que me envolvem em sedução e as que me libertam em ritmos orgânicos, mais ou menos elegantes, mas sempre impulsionados pelas notas musicais. E há músicas que me causam repulsa.

Quando era adolescente passava horas sozinha, deitada no quarto a ouvir música, às escuras. Nada mais havia que me perturbasse, nenhuma luz, movimento ou imagem, era só eu e a música. Entrava num estado de quase hibernação, de relaxe total. Um dia de tão relaxada, tão descontraída, tão fora do meu corpo, quase a levitar, o coração pára, falha 1 ou 2 batimentos, 1 ou 2 segundos sem bater, o suficiente para me aperceber e me assustar. O susto fez-me sair do estado de graça em que me encontrava e fez o coração voltar a bater. Impressionou-me essa propriedade da música de me elevar a um estado de relaxamento tal que provoca a pausa cardíaca… é claro que o bloqueio cardíaco também terá tido alguma responsabilidade, mas as questões fisiológicas da anatomia humana são irrelevantes quando se trata de algo tão etéreo como a música.

O meu professor de fitness escolhe de forma sublime as músicas que acompanham os exercícios. Por vezes, quase no fim da aula, já de rastos e completamente exausta dou por mim como que ressuscitada, com uma energia vibrante, a pular, rodopiar e a movimentar-me ao ritmo da música, daquelas músicas com tanta pedalada que a sua potência se apodera do nosso corpo e nos faz mexer, dançar, pular. Por muito exausta que esteja há músicas a que é impossível não responder com movimento, com ritmo. Músicas que nos renovam e revigoram, como se a energia do nosso corpo se alimentasse de som! Se pudesse ser assim tão simples, se nos pudéssemos alimentar apenas de música…

A música é das artes que mais me surpreende, que mais me fascina e que mais admiro, talvez pelo facto de ser uma arte relativamente à qual sou completamente ignorante. Sou dura de ouvido, não tenho voz para cantar e não toco nenhum instrumento musical, para além de não me conseguir recordar de nada do que aprendi nas aulas de educação musical. Instruí os meus filhos que até ao 9º ano os poderia ajudar a qualquer das disciplinas escolares, das línguas às ciências, passando pela educação visual...a qualquer disciplina com exceção de educação musical! Admiro a pintura, o desenho e a escultura, dá-me um enorme prazer contemplar, mas a cima de tudo viver a arquitetura (…se a pudéssemos viver sempre no nosso dia a dia!), adoro a dança, o teatro, o cinema. Mas estas são artes que eu compreendo, conheço a sua essência, que de algum modo me estão ao alcance de executar. A música não, eu seria incapaz de agrupar sons, notas, ritmos ao longo de um tempo e formar uma música, uma música que fosse minimamente digna de ser considerada arte, uma música que conseguisse despertar algum sentimento e sensação que não fosse o de repulsa e sofrimento, que não fosse apenas ruído. Admiro como se conseguem agregar todos os ingredientes que compõem uma música e ser original, criar sons e ritmos tão diferentes, que nos consigam elevar a estados que sem o transporte musical dificilmente conseguiríamos atingir.

Mudou a música e oiço agora uma que me transporta para o passado, para momentos vividos, para boas recordações…vou-me deixar levar e com esta banda sonoro reviver um dos melhores filmes da minha vida.

















Margarida Veríssimo

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